Compre-se a África! – A Europa Quer Biocombustíveis…

“Empresas inglesas compraram mais terras na África para fazer as tão controvertidas plantations para a produção de biodiesel do que empresas provenientes de qualquer outro país” – demonstrou uma investigação do jornal The Guardian (onde ainda existe jornalismo investigativo).  Cerca de 1,6 milhão de hectares ou a metade das plantações para a produção de biodiesel identificadas em países africanos como Moçambique e Senegal pertencem a empresas inglesas.  Rápido! – precisamos de um jornalista ou político cretino do Brasil para converter a área para calcular o número de campos de futebol que caberiam nessa área.  Mas isso seria inútil, porque o que se tentou não foi dimensionar as áreas totais em todos os países africanos, mas usar alguns para ver em que proporção a velha Inglaterra voltou a saquear a África.

De fato, mesmo as ONGs ambientalistas mais sérias reconhecem que o uso de terras agrícolas para a produção de biocombustíveis está entre as principais causas dos aumentos nos preços dos alimentos e do crescimento do número de famintos.  Em especial na África, onde em muitos países a propriedade da terra não existe e governos corruptos podem simplesmente alocar, alugar, arrendar terras para grandes corporações, expulsando as populações tradicionais para áreas marginais.  Quem se importa?  É preciso que a Europa anuncie que atingiu metas de uso de energias renováveis!  Depois as ONGs inglesas vão lá estimular a repressão para que essas populações não cortem árvores.

Não existe um sistema de cálculo da área total já ocupada por empresas inglesas e de outras nacionalidades na África sub-saariana – constata o The Guardian -, mas a investigação indicou a existência de 100 projetos de 50 empresas em 20 países.  Uma única empresa inglesa – que se diz produtora de “energia verde”, a Crest Global Green Energy – detem o total de 900.000 hectares em tres países.  O governo brasileiro que não cosnegue fazer uma reforma agrária minimamente decente precisa mandar representantes do MST para lá, para lutar contra os grandes latifundiários!  Enquanto isso, a Crest Global continuará se dizendo uma empresa com responsabildiades socio-ambientais!  Eles não são umas gracinhas?

Uma outra empresa inglesa – a Sun Biofuels (os nomes de fantasia são ótimos) – abocanhou 8.000 ha na Tanzânia onde plantou pinhão manso (Jatropha curcas) para a produção de biodiesel destinado ao mercado europeu.  A empresa alega que a produção de pinhão manso não compete com a produção de alimentos porque… a noz dessa planta não é comestível.  A cara de pau consegue se superar!  Ah – o outro argumento é relacionado ao fato do pinhão manso poder ser produzido em “terras marginais”, “inadequadas para outros tipos de agricultura”.   Mentira!  Exatamente como a mamona, o pinhão manso até cresce em terras marginais, mas par para que isso ocorra de maneira economicametne viável é preciso água, fertilizantese e pesticidas!

E, por falar nisso, onde é mesmo que foi parar o Programa Nacional de Biodiesel que iria utilizar mamona?  Afinal, a Brasil Ecodiesel pegou caminhões de dinheiro com o Banco do Nordeste do Brasil para fazer isso e sumiu, deixando produtores e os cofres do banco de mãos abanando.

Os “investidores externos” convenceram o governo da Tanzania a aprovar, em 2010, diretrizes para o plantio destinado à produção de biocombustíveis:   eles não têm que fazer o refino no país e nem reservar uma parte da produção para consumo local.  Depois a Transparência Internacional inglesa vai dizer que esses governos são corruptos!

Além disso, há o mito dos benefícios dos biocombustíveis para o combate às mudanças climáticas!  O Instituto Europeu de Políticas Ambientais estima que o deslocamento de pessoas para a produção de biocombustíveis resulta em desflorestamento em níveis que farão com que as emissões de carbono superem os benefícios do uso desse tipo de combustível em 35%, já em 2011 e em 60% em 2018.  Atualmente, esse impacto direto não é nem considerado nas diretrizes européias sobre as reduções de emissões de gases causadores de mudanças climáticas.

O Greenpeace e o WWF ainda não se pronunciaram!

O capital para investir na expulsão dos africanos de suas terras é frequentemente levantado no Mercado de Investimentos Alternativos da Bolsa de Londres.   É isso que chamam de “perversão de valores”?

Há outros países europeus investindo em projetos de biocombustíveis na África, como Itália, Alemanha e EUA.  Empresas brasileiras também estão investindo na África para a produção de alimentos e de biocombustíveis!  Lá não existe Código Florestal e se a população afastada das terras mais férteis for derrubar florestas os números não serão nem percebidos.  No momento, o que os “ruralistas americanos” temem para valer é a competitividade dos produtos agro-pecuários brasileiros!

Em alguns dos projetos analisados os arrendamentos são feitos por 100 anos por valores irrisórios e com prioridade no uso dos recursos hídricos!

Mas o presidente da Sun Biofuels, Richard Morgan, insiste: “Nossa empresa produz biocombustíveis de maneira sustentável e ética.  Nós aceitaríamos de bom grado padrões mais elevados de sustentabilidade, mas há que se considerar o desenvolvimento econômico.  Se voce é “um local” (da Tanzânia ou de Moçambique) e precisa de um emprego, voce provavelmente não se interessa por saber onde os orangutangos dormem à noite.  Além disso, é insultuoso afirmar que os governos africanos não sabem gerenciar os seus próprios países”.

Divirtam-se com a “sustentabilidade” dos europeus e dos ingleses em particular!  E façam bom uso de suas doações para ONGs que defendem a Amazônia.  Aliás, onde é mesmo que foi parar o tão decantado “Fundo Amazônico”?

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A empresa estatal chinesa de agro-negócios Beidahuang também participa da busca global por terras produtivas e recursos hídricos.  Assim, discretamente assinou um contrato com o governo da Patagônia, na Argentina, que permitiu a aquisição de 320.000 hectares de terras privadas, juntamente com os direitos para captação de água para irrigação e a concessão de um porto para a exportação dos alimentos a serem produzidos nessas terras.

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?