EUA X China – Uma Nova Guerra Climática, na Líbia, por Água e Alimentos

Há fatos curiosos sobre a Líbia (além do súbito desaparecimento das fabulosas quantias investidas por Kadaffi nos EUA): imensas reservas de água!  No subsolo de quatro países africanos – Chade, Egito, Líbia e Sudão – encontra-se o maior reservatório de água fóssil do planeta: o Sistema Aquífero de Arenito da Núbia (NSAS na sigla em inglês).  Essas reservas de água se espalham por 2 milhões de quilômetros quadrados e estima-se que totalizem 150.000 quilômetros cúbicos de água.

“As razões pelas quais os Estados Unidos lançaram as forças da OTAN pare forçar uma mudança do regime político da Líbia começam a ficar claras.  Enquanto especialistas da mídia e da política ainda discutem se as gangs rebeldes estão sendo apoiadas por serviços de inteligência dos EUA, da Inglaterra e de Israel, os objetivos de longo prazo do Ocidente em relação à Líbica ainda continuam sendo ignorados.” – escreveu Patrick Henningsen, do excelente jornal eletrônico  21st Century Wire, que tem como lema “Notícias para uma geração que desperta”.

O título da análise vai direto ao ponto: “Oeste X China: Uma Nova Guerra Fria Começa em Solo Líbio.”

“Basta ler os resumos dos documentos estratégicos do Comando EUA-África (conhecido com o AFRICOM para se dar conta do verdadeiro objetivo ocidental na Líbia: o controle de recursos valiosos e a expulsão da China do norte da África.  Quando os Estados Unidos formaram o AFRICOM em 2007, 49 países subscreveram à estratégia militar norte-americana para a África, à exceção da Líbia.  Essa decisão foi considerada uma traição e abriu caminho para o conflito militar que se iniciou em 2011. “

Ou alguém acha que de repente o governo dos EUA passou realmente a se interessar por democracia e direitos humanos na África?

Segundo a aprofundada análise de Henningsen, “a Líbia poderia começar um agro-negócio similar ao do Vale de São Joaquim, na Califórnia.  Como a Líbia, a Califórnia é essencialmente um deserto, mas com massivos investimentos em estruturas hidráulicas e irrigações o vale desértico se transformou no maior produtor mundial de alimentos e de algodão, a na nona maior economia do mundo”.

Em 1983, Kadadi deu início a um mega projeto de irrigação que foi objeto de ampla divulgação com a designação de “Grande Rio Feito pelo Homem”, GMMR – na sigla em inglês.  Inicialmente, o projeto destinava-se a levar mais de 5 milhões de metros cúbicos de água para as cidades na costa da Líbia.

Ivan Ivecovic, professor de ciência política na Universidade Americana do Cairo explica que o projeto completo foi concebido para ser desenvolvido em 4 fases, com um custo estimado de US$ 30 bilhões, uma rede de tubulações de 5.000 quilômetros transportando água de mais de 1.300 poços de 500 metros de profundidade, destinando-se ao abastecimento de população de ao rápido aumento da disponibilidade de terras agriculturáveis.

De acordo com o Ministério do Comércio da China, o país tinha 50 grandes projetos em negociação ou já em desenvolvimento com a Líbia, num montante superior a US$ 18 bilhões.  Com a instabilidade desencadeada pelos EUA na região, esses contratos despencaram ladeira abaixo: apenas nos dois primeiros meses do ano, uma redução de 97% dos investimentos chineses previstos na Argélia.

A ditadura de Kadafi começou em 1969.  Durante esse tempo todo, ele circulou livremente pelo mundo.  De repente, com os novos projetos de desenvolvimento em escala massiva de terras agriculturáveis com base nas disponibilidades de água e os avanços dos investimentos chineses, EUA e Inglaterra acordaram para a necessidade de “restabelecer a democracia” no país.

Essas já são guerras climáticas, para o controle de recursos naturais.  Ou das “riquezas”, como sempre ocorreram.  A Europa sabe que aquela região pode se transformar numa importante de alimentos e de água.

 O texto integral do editor do editor do jornal online “para as gerações que estão despertando” pode ser lido no original em inglês clicaando em 21CenturyWire e os documentos da aliança espúria de países africanos liderada pelos EUA podem ser acessados em Comando Africano.

***

O Brasil continua sem uma política de segurança alimentar, sem estratégias para os recursos hídricos por região, e se espojando nos debates estéreis sobre uma lei que resolveram chamar de “código” e só define conceitos abstratos genéricos que permitem ao poder público a mais total omissão em relação ao que se deveria fazer, onde e como.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

4 comentários em “EUA X China – Uma Nova Guerra Climática, na Líbia, por Água e Alimentos”

  1. A China vem crescendo rapidamente.
    Eu só não entendi direito o que ela tem com a Lívia.
    Muito bom o texto. Eu já imaginava que essa guerra era para roubar riquezas,
    mas pensei que fosse petroleo nem pensei na água. ;]

  2. Água, aí, no sentido da disponibilidade hídrica para a produção de alimentos.
    A relação com a China está na rápida disputa pelo controle do norte da África.
    Os chineses chegaram a mirar nas terras raras do Afeganistão e até conseguiram algumas
    concessões de minas de lítio ou cadmio (não me lembro ao certo) antes da chegada dos americanos.
    Porque a entrada da China na África subsahariana vem sendo muito acelerada.

  3. Olá!!! Luiz Prado, gostaria de sabe se existe alguma desavença entre os Estados (o Chade, Egito, Líbia e Sudão) que que compõem o Sistema Aquífero de Arenito da Núbia (NSAS)?

  4. Desculpe-me, Mariana, mas não sei não! Você está fazendo algum estudo de geo-políticas estratégicas?

O que você pensa a respeito?