Código Florestal – Sobre a Tolice das APPs do Oiapoque ao Chuí

A total incompetência – além da inapetência – dos órgãos de meio ambiente para sair em campo para trabalhar no mundo real foi o que permitiu a mistificação de dispositivos puramente conceitual da lei que se pretende um código florestal.

O que deveria ser uma diretriz, uma recomendação – como é o caso da necessária atenção com as margens dos rios e seu curso – passou a ser um fetiche, um grupo de números mágicos ao qual um grupo de fanáticos – e ignorantes – se apega como se deles fosse sair a salvação da natureza.  E assim conseguem atrair a população urbana leiga, que não se pergunta por que esses conceitos nunca assumiram esse caráter numérico genérico nos países sérios e que servem de modelos de gestão ambiental por terem os seus rios e lagoas limpos, as suas nascentes e águas subterrâneas preservadas: Alemanha, Canadá, Estados Unidos, os países nórdicos.

O pensamento mágico nas sociedades primitivas – ou anteriores ao pensamento científico – já foi exaustivamente analisado por antropólogos: pessoas achando que algo é verdadeiro apenas pela força do pensamento, ou por se encontrar escrito em algum lugar.  Nesses casos, o simbólico e o imaginário não apenas não precisam como também não devem ser cotejados com a realidade para que não se corra o risco de desabamento de todo o sistema de crenças.

A abstração emburrecedora não existe, por exemplo, na Alemanha, que já fazia grandes obras hidráulicas no século XIX!  Ao longo do tempo, quando os fatos indicaram que seria recomendável ter uma área de alagamento para conter cheias, essa área foi identificada no mundo real, a partir de disponibilidades reais, e dimensionada com base no histórico real de chuvas, vazões, enchentes.  Da mesma forma, devido ao fato do abastecimento público de água se apoiar amplamente no lençol freático, quando identificadas carências ou redução das águas subterrâneas, áreas específicas para assegurar o aumento das taxas de infiltração e recarga foram selecionadas, dimensionadas, e criadas.

No Brasil, o que se tenta em impor em detrimento da incômoda realidade é a abstração numerológica idiotizada e idiotizante que até hoje permitiu a degradação contínua dos recursos hídricos, não pela insuficiente aplicação da lei, mas pela sua inutilidade somada à omissão continuada das autoridades ambientais que nunca demarcaram ou desapropriaram as unidades de conservação, nunca fizeram o geo-referenciamento de nada que se encontra sob sua tutela direta, mas querem que os proprietários privados o façam.

A elas, juntam-se os que acreditam que existe a natureza obedece a leis tão simplórias quando o tal “código”: a “Mãe-Natureza” deixa de ser uma expressão simbólica e assume ares de uma psicose freudiana.

Nesse ponto, vale assistir com calma – e, depois, voltar a assistir – ao documento de poucos minutos postado por Ciro Siqueira em seu excelente blog, com excelente depoimento de um pequeno produtor rural e de um engenheiro agrônomo da Cooperativa Regional de Cafeicultores de Guaxupé que nos mostra a absurda truculência das APPs genéricas.

***

“Espera-se que amemos a natureza por si mesma e que, portanto, nos ocupemos da tarefa de descrevê-la e interpretá-la (como ela é) para que as pessoas interessadas que contam com um menor grau de conhecimento específico possam obter novas informações e delas extrair mensagens mais apropriada, tanto factuais como éticas.  Ora, eu realmente amo a natureza – com tanto ardor quanto todos aqueles que um dia tomaram da pena a serviço dela.  Mas me sinto ainda mais fascinado por aquele nível complexo de análise que se situa um pouco acima ou além da natureza (…), isto é, a história de como os humanos aprenderam a estudá-la e a compreendê-la.  É nesse sentido crucial que me considero, em essência, um naturalista humanista.

“É claro que anseio por respostas para todos os enigmas, grandes e pequenos, que compõem a ordem (e a assombrosa desordem) da natureza lá fora – uma ordem que nossos antepassados, de modo compreensível, só podia interpretar como prova da existência de Deus.”

A Montanha de Moluscos de Leonardo da Vinci – Ensaios Sobre História Natural – Stephen Jay Gould

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?