Vende-se a Amazônia Por Um Punhado de Dólares

Para aqueles que temiam a internacionalização da Amazônia, a hora é essa.  Só uma empresa de fachada irlandesa comprou os direitos sobre terras indígenas equivalentes a mais de duas vezes a área de Portugal!  Foram ao todo 16 contratos assinados por “lideranças indígenas”, contratos que retiram dessas etnias os direitos de cortar uma árvore ou de plantar.  A FUNAI informa que mais de 30 contratos desse tipo já foram “registrados”.

A notícia foi dada sem destaque pelo Estado de São Paulo.  As grandes ONGs “ambientalistas” cujas fontes de financiamento são sempre obscuras e que tanto discursaram sobre a necessidade de aprovação do REDD – sigla para o mega-trambique da redução das emissões pela manutenção das florestas em pé – mantiveram-se em silêncio.  Devem estar brindando com champagne.  Tim-tim!

A notícia pode ser assim resumida.  Numa operação de US$ 120 milhões, uma única empresa estrangeira de fachada comprou os direitos sobre as terras dos índios Mundukuru.  A empresa, que atende por um nome que seria melhor traduzido por Aventuras Verdes Celestiais já assinou outros 16 contratos do mesmo tipo que lhe asseguram direitos idênticos sobre uma área total de 200 mil quilômetros quadrados. (Venture capital em inglês refere-se a capital de risco, mas como nesse caso o risco é próximo de zero vale a “tradução” irônica).

Pelos contratos, foram cedidos também os direitos sobre a biodiversidade existente nas áreas.  A biopirataria torna-se, assim, oficial.

Os Mundukuru são cerca de 10.000. Então, por US$ 12.000 per capita a serem pagos em 30 parcelas de US$ 400 ao longo de um período de tempo que não está claro, os Mundukuru – ou algumas “lideranças” que assinaram o documento em nome de todos – venderam os direitos de viverem de acordo com as suas tradições.

E tudo com o aval da FUNAI que finge que apenas “registrou” os contratos.

O mecanismo conhecido como REDD vem sendo defendido há anos por ambientalistas brasileiros que repetem o que se diz lá fora como papagaios.

Agora, resta saber quem ficou com a parte do leão nessas operações financeiras, dinheiro que já deve estar depositado em alguma conta numerada na Suíça.  Afinal, para isso serve a Suíça!  Sim, porque essa é uma operação financeira na qual os investidores no fundo Verde Celestial esperam ganhar muito dinheiro às custas dos índios, não uma doação caritativa.  E para atingir seus objetivos o fundo Verde tem a expectativa de valorização rápida do carbono adquirido por valor fixo.  Eventualmente, essa expectativa tem origem em algum tipo de informação privilegiada sobre as restrições que serão impostas às emissões na Europa.

Finalmente, vale considerar que os contratos foram feitos diante dos olhos indiferentes da Secretaria Nacional de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Que importa se foram negociados ativos que poderiam ter ficado retido pelo Tesouro Nacional, pelo BNDES ou de alguma forma em mãos brasileiras.

No mesmo estilo apático, a FUNAI agiu como um cartório de registro de títulos e documentos e não como um órgão de defesa dos interesses dos indígenas?  Que setor da tal da “base aliada” do governo terá indicado os dirigentes dessa FUNAI conivente com a ação desses “piratas do carbono e da biodiversidade”?

 ***

A ação desses “piratas do carbono” já havia sido comentada neste blog.  Também o financiamento nefando do agribusiness norte-americano ao REDD foi aqui analisado.

Dos irmãos Villas Boas ao general Augusto Heleno, não foram poucos os alertas sobre os riscos de internacionalização da Amazônia, que agora acontece sob o manto das medidas contra as mudanças climáticas.

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

3 comentários sobre “Vende-se a Amazônia Por Um Punhado de Dólares”

  1. Prezado Luiz
    Infelizmente, os estrangeiros com o aval das ONGs Brasileiras, estao canibalizando a Amazonia, Madeiras, Oleoginosas, Prata, Ouro, Aluminio, e tantos mais .. A Ordem de guerra deles é a seguinte comprar tudo o que puder, e usar o minimo possivel de suas fontes naturais de seus paizes, ou seja exportar tudo o que conseguirem, antes de que nos mesmos acabemos com tudo..pela nossa Ignorancia cultural.

  2. Caro Luiz,
    Sérios somos nós.
    Quando digo “nós” falo de nós mesmos,
    os amigos da leitoa desossada, da carne e o peixe na cachaça,
    do camarão na moranga, etc, acompanhados do que estiver na mesa.
    O nosso defeito mais grave é sermos apaixonados por este Brasil, como se ele fosse nosso, sentisse e apreciasse o nosso imenso prazer e tivesse, da parte dos outros, políticos ou não, o mesmo respeito que nós Lhe damos.

  3. Concordo, mestre Galdino, mas apenas em parte.
    Não chego a considerar um erro sermos apaixonados pelo Brasil dos nossos sonhos, ou por uma parte do Brasil. Afinal, nele vivemos, e não podemos ser outros que não nos mesmos.
    Andei lá por áreas indígenas. Eles vão se “aculturando” rapidamente. Rondon queria que eles fossem brasileiros, a FUNAI deixa uma ONG colocar um painel solar aqui, um gerador ali; e logo aparece uma outra ONG que doa umas câmeras de filmagem em troca das imagens. Já as mães, querem mesmo é que os filhos possam estudar na “cidade grande”.
    O presidente da FUNAI agora diz que os contratos são ilegais porque as terras não podem ser vendidas. É muita escassez de neurônios! Ninguém falou em “venda de terras”, o sistema já é bem mais sofisticado do que isso.
    A mesma FUNAI reconhece que há 36 contros em análise no jurídico há um ano e meio.
    Você deu um sorriso? Pois, era tudo o que eu queria!

O que você pensa a respeito?