Vende-se a Amazônia Por Um Punhado de Dólares – II- E o Governo Silencia

Dias depois da divulgação dos feitos e mal feitos relacionados aos contratos de cessão de direitos dos grupos indígenas para empresas estrangeiras, o presidente da FUNAI admitiu para a imprensa que o órgão já tinha recebido o primeiro contrato há 18 meses.  Como é improvável que a FUNAI só tenha sido informada quando um contrato escrito e assinado chegou às suas dependências, ainda mais porque ocorreram reuniões entre os representantes da empresa estrangeira e os indígenas, a FUNAI tinha, sim, conhecimento dos fatos há bastante tempo.  Até porque a cessão de direitos sobre créditos de carbono e estilos de vida já vinha sendo denunciada há muito no Peru.

Se a excelente repórter Marta Salomon não tivesse “aprontado” mais essa com o seu já renomado jornalismo investigativo, ninguém teria ficado sabendo de nada.  Com a notícia, a explicação foi que há muito tempo os contratos foram encaminhados para a Advocacia-Geral da União – AGU, que não deu um parecer final, talvez à espera de que os índios ou seus representantes recebessem a primeira parcela dos pagamentos pactuados, fazendo com que os contratos se transformassem numa realidade de fato.

Há escassas referências à assinatura de Lula a um documento proposto pela ONU – leia-se, por governos e grupos que manipulam a ONU – dando autonomia aos indígenas brasileiros.  Nada foi dito sobre a ratificação desse documento pelo Congresso Nacional e o grau de autonomia.  Até os antropólogos da FUNAI evitaram o assunto.  Afinal, quem representa os indígenas nessas negociações internacionais?  Qual o sistema interno de representação deles?

As negociações existiram, e a reunião pública teve lugar na Câmara Municipal de Jacareacanga, no Pará – certamente não foi “clandestina” – e as imagens estão na página da internet dos piratas do carbono que atendem pelo nome de Celestial Green.  O que ocorreu nessas reuniões, a FUNAI parece ou finge não saber.

Uma reportagem do jornal eletrônico Ambiente Já relata que:

“No dia 22 de setembro do ano passado, o mesmo João Borges, da Celestial Green, foi a uma reunião a respeito de um contrato de crédito de carbono com os índios Munduruku, na Câmara Municipal de Jacareacanga, no Pará.  Assim que ficou sabendo, a missionária Izeldeti Almeida da Silva, que trabalha há dois anos com os Munduruku, correu para lá: “Fui pega de surpresa. Depois falei com um dos líderes e ele disse que fazia tempo que estavam negociando com um grupo pequeno de lideranças”. (o grifo é nosso)

O Ministério do Meio Ambiente, apesar de se gabar da existência de uma Secretaria Nacional de Mudanças Climáticas afirma que não tem nada com isso.

As grandes ONGs estrangeiras com franchises no Brasil ou as ONGs locais financiadas com recursos de fora continuam em silêncio, porque sempre defenderam o mecanismo chamado REDD, também massivamente apoiado pelo agro-negócio norte-americano – incluindo os produtores de madeiras, como já mostrado na peça produzida para suas atividades lobistas junto ao Congresso dos EUA.

Então, como ninguém tem nada com isso e a AGU acha que o contrato é ilegal mas depois de tanto tempo não tem um parecer conclusivo e ninguém sabe quem assumirá responsabilidades e tomará iniciativas, talvez reste a esperança de que a Polícia Federal entre em campo prendendo representantes da Celestial Green no Brasil, ao menos para averiguações sobre cúmplices locais e destinações da grana.

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Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

One thought on “Vende-se a Amazônia Por Um Punhado de Dólares – II- E o Governo Silencia”

  1. Esse tipo de “boa intenção” foi claramente descrito no livro “Uma Demão de Verde” (Elaine Dewar). Incrível como ainda temos idiotas que acreditam nessas intenções e como temos “maus-caráteres” que vendem um pedaço do céu pra se dar bem. E lá vem o Brasil descendo a ladeira…

O que você pensa a respeito?