Extinções de Espécias, Colapsos Civilizatórios e o Mito do Índio em Harmonia com a Natureza

A ideia de que povos indígenas viviam em harmonia com a natureza e com outros povos é útil para embalar sonhos ou arrebatar corações, mas não tem qualquer base no conhecimento científico, histórico, paleontológico, nada.   Eles tinham disputas internas de poder, eram frequentemente muito cruéis com os seus semelhantes, e muitas vezes foram tão excessivamente predadores da natureza que a levaram à exaustão.

Jared Diamond, professor de Geografia da Universidade da Califórnia, descreve esses fatos em detalhes em sua obra intitulada “Colapso – Como as Sociedades Escolhem o Fracasso ou o Sucesso” (um título algo divertido, já que não há indícios que os povos estudados ou outros tenham “escolhido” nada; as coisas simplesmente aconteceram).

Dos grupos que viveram na Ilha da Páscoa pode-se dizer que não tinham opções devido à distância em relação a outros locais.  Mas não foi o contato com os “brancos” que levou à extinção de pelo menos 21 espécies de árvores, além de muitas espécies de aves.  Isso tudo – da mesma forma que a erosão dos solos – aconteceu bem antes dos primeiros contatos com os europeus!

“Os nativos havaianos e maoris não gostam que os paleontólogos digam que seus ancestrais exterminaram metade das espécies de aves nativas do Havaí e da Nova Zelândia, e nem os povos nativos norte-americanos gostam que os arqueólogos digam que os anasazis desmataram parte do sudeste dos EUA” até o limite do colapso de sua civilização que floresceu desde 600 d.C e desapareceu entre 1.150 e 1.200 d.C.  As provas do canibalismo violento e não-ritual no declínio de algumas dessas civilizações também são abundantes.

Também na Amazônia hoje brasileira há comprovações da existência anterior de civilizações desaparecidas antes mesmo do contato com os brancos.  Algumas terras pretas arqueológicas – TPA que hoje comprovam a ocupação humana datam de 4.000 anos, a maioria tem cerca de 2.000 anos.

Evaristo Eduardo de Miranda resume os resultados da pesquisa científica intensificada a partir de 1980 em seu “Quando o Amazonas Corria para o Pacífico”, tão notável na densidade de informações quanto agradável para a leitura.

“Para muitos idealistas da floresta virgem e intocada é difícil imaginar uma Amazônia marcada por aldeamentos de até 3.000 indivíduos de fossos defensivos (…).  De fato, nas palavras de Ricardo Bonalume Neto em seu artigo Guerra no Paraíso (Jornal da Ciência, SBPC, 2005) as fortificações – paliçadas e fossos – revelam revelam “o uso de violência sistemática em sociedades pré-cabralinas”.

Evaristo Eduardo de Miranda faz a referência ao arqueólogo Eduardo Neves, da USP, ao final do seguinte trecho:

“Um exemplo é a chamada tradição guarita.   (…) Os guaritas chegaram à várzea do Baixo Rio Negro por volta do ano 1.000 d.C.  A sequência arqueológica mostra uma ocupação de baixa intensidade, que vinha se desenvolvendo nos últimos milênios.  A terra preta surge de repente nesses sítios, como se tivesse havido uma invasão.”

“Nas camadas mais profundas das terras pretas foram encontradas urnas funerárias com sepultamentos coletivos – mulheres e jovens enterrados junto com adultos (…). Elas podem ter o significado simbólico de marcar a presença dos novos ocupantes e talvez sejam evidência da prática de sacrifícios humanos, comum em outra regiões da América do Sul.”

O lero-lero da harmonia dos índios com a natureza não se sustenta.   E, nos casos analisados por Jared Diamond, a extinção de espécies vegetais e animais somou-se, frequentemente, à erosão dos solos muito antes do contato com os brancos.  Não há necessidade de apelar para contos de fadas quando se trata de tratar os remanescentes dos povos indígenas com respeito.

Como afirma Diamond Jared, “os antigos povos indígenas não eram criaturas fundamentalmente diferentes (sejam inferiores ou superiores) dos povos do Primeiro Mundo contemporâneo”.  E os povos indígenas atuais tampouco!

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 Os anasazis, no sudoeste dos EUA, chegaram a ter prédios de 5 ou 6 andares com até 600 cômodos, sustentados por vigas de madeira com 5 metros de comprimento e pesando até 320 kg.  Essas espécies de árvores foram simplesmente extintas na região hoje conhecida como Chaco e há comprovações de que depois disso passaram a ser trazidas de áreas distantes.  Os anasazi fizeram, também, obras hidráulicas bastante sofisticadas, com canais e barragens de contenção de águas de chuvas.  Desapareceram devido a secas prologadas mas, também, em função do esgotamento dos recursos naturais.  Nada de harmonia entre nativos pré-europeus e a natureza!

 

 

 

 

 

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?