Empresas Estaduais de Saneamento como Responsáveis pela Poluição das Águas

As empresas públicas concessionárias dos serviços de saneamento estão entre os maiores poluidores do país?  A resposta afirmativa a essa pergunta, que parece evidente há muitos, agora também conta com um elemento inovador para padrões brasileiros: investigações da Polícia Federal, feitas ao longo de quase 3 anos, sobre a responsabilidade da Companhia de Saneamento do Paraná – SANEPAR na poluição do Rio Iguaçu.   Ao longo desse período, foram analisadas, pelo laboratório da Universidade de Campinas, 430 análises de amostras ao longo de toda a extensão do rio.

Na fase final das investigações, com autorização da Vara Ambiental Federal de Curitiba, iniciou-se o que se denominou da fase ostensiva da Operação Iguaçu – Água Grande, com mandados de busca e apreensão de documentos e novas evidências em instalações da SANEPAR em 17 cidades do Paraná, entre as quais Ponta Grossa, Londrina, Maringá, Foz do Iguaçu e a própria capital, Curitiba.  Um total de 43 equipes fora constituídas para cumprir esses mandados judiciais, contando com a participação da Polícia Rodoviária Federal e de técnicos do IBAMA para atividades de fiscalização – com vistoria e coleta de amostras em 17 estações de tratamento.

De acordo com a Agência de Notícias Gazeta do Povo, o delegado da Polícia Federal que coordenou as investigações teria afirmado que “a SANEPAR é uma empresa de fachada” por cobrar dos usuários por um tratamento de esgotos não realizado.  O delegado afirmou que indiciaria 30 gestores da SANEPAR por estelionato.   As investigações indicariam que todas as 225 estações de tratamento da SANEPAR estariam operando de forma irregular, sendo que 50 de forma  “clandestina”, por operarem sem licença ambiental.

De acordo com a mesma Agência de Notícias, o delegado Rubens Lopes da Silva teria afirmado que a própria SANEPAR elaborava relatórios internos sobre o lançamento de esgotos no rio, mas tais relatórios eram considerados sigilosos.  Por não fornecer ao IBAMA informações sobre seus lançamentos de esgotos no rio, a empresa teria sido multada em R$ 20.000 por dia ao longo de 5 anos.

Os argumentos da Polícia Federal foram inicialmente aceitos pela procuradora Mônica Bora, do Ministério Público Federal, e pela juíza Pepita Durski Tramontini, que entenderam que havia indícios suficientes da prática dos crimes apontados pela investigação.

Essa é, então, uma nova abordagem ao problema da poluição tanto por parte da Polícia Federal quanto do próprio IBAMA.  Uma atuação exemplar, mas o noticiário se resumiu quase totalmente à imprensa local.  Se esses órgãos resolverem agir de maneira tão séria em outros estados, algo poderá mudar.

De fato, poucos dias depois da fase ostensiva dessa investigação da PF a Promotoria de Justiça da capital de São Paulo ajuizou ação civil pública contra a SABESP, o Município de São Paulo e o Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID, com pedido de indenização de de valor mínimo de R$ 11,5 bilhões pelo lançamento de esgotos sem tratamento com danos aos rios e às represas da região metropolitana da capital.

O pedido principal do Promotor de Justiça José Eduardo Ismael Lutti, no entanto, não é apenas a indenização, mas o fim do lançamento de esgotos sem tratamento até 2018.  Essa data limite já teria sido proposta à SABESP diversas vezes, tendo a empresa se recusado a assinar um Termo de Ajuste de Conduta – TAC.  A ação tramita na 3ª Vara da Fazenda Pública e, entre as inovações na abordagem do MP está a inclusão do Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID no polo passivo, isto é, como réu.  Se a Justiça acolher esse pedido, será por ter entendido que ao banco caberia assegurar a qualidade dos projetos e da correspondente implantação quando quando empresta dinheiro para a empresa do governo.

As informações são úteis para a reflexão sobre responsabilidades pela poluição hídrica.  Em nenhum dos casos citados houve a afirmação de que as empresas de saneamento são as únicas responsáveis, mas elas passaram a ser consideradas como pertencendo ao seleto grupo dos principais responsáveis.

A transparência não deveria ser tão difícil assim!  Estabelecer metas e prazos para as empresas de saneamento – e até mesmo para a total despoluição dos corpos d’água – foi e continua sendo a prática adotada pelos países que resolveram esses problemas.  Não é difícil informar qual a quantidade e a qualidade dos afluentes e dos efluentes de estações de tratamento de esgotos, bem como avaliar os seus impactos nos pontos de lançamento.  E já é tempo da imprensa entender que a capacidade instalada de uma estação de tratamento não diz nada – absolutamente nada – se as informações anteriores não estiverem permanentemente disponíveis, de preferência online, até mesmo em tempo real para os dados de vazão (hidrômetros eletrônicos de grandes vazões já existem no mercado há muito tempo).

Esse tipo de transparência é apenas início – ainda que fundamental – dos muitos aperfeiçoamentos que se fazem necessários no controle da poluição hídrica no Brasil.

 

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?