A Floresta da Tijuca Abandonada – VI

Em 1943, o prefeito Henrique Dodsworth convida Raymundo Ottoni de Castro Maya para fazer a “remodelação” da Floresta da Tijuca.  Oriundo de uma família abastada, Castro Maya trás para o Brasil o conceito de uma remuneração apenas simbólica de “um cruzeiro por ano”, pagando de seu bolso os 60 homens que com ele trabalham e sendo posteriormente reeembolsado pela prefeitura.

Abandonando os seus afazeres pessoais, entre 1943 e 1946, Castro Maia coordena a realização dos seguintes trabalhos, entre outros: (a) remodelação da ponte Job de Alcântara e construção da represa e do lago, (b) ampliação da Praça da Cascatinha, colocação da ponte, de grades e do painel de azulejos, (c) reconstrução da Capela Mayrink, onde foram colocadas as pinturas de Cândido Portinari, (d) implantação de um playground na Praça Mayrink, (e) reconstrução completa da antiga casa do Barão de Escragnolle, transformada em grande restaurante com jardim, (f )cabo subterrâneo para lovar força e luz ao novo restaurante numa extensão de 1.200 metros, com subestações transformadoras, (g) reforma completa do Açude da Solidão, transformado em lagos com jardins (projetados por Burle Marx), (h) reconstrução de uma represa e colocação de 800 metros de tubulação de ferro para evitar a contaminação das águas do Açude da Solidão, (i) reconstrução da casa A Floresta, transformada em pequeno restaurante que funcionou a partir de 1944, (j) reforma completa e construção do sítio Bom Retiro, com playground e bar, (k) reforma do local denominado “Excelsior”, canalização de ferro para levar água ao local e construção de duas casas novas para guardas, (l) reconstrução da casa denominada A Fazenda, transformada em duas casas de residências para guardas e abertura de uma nova gruta no mesmo local, (m) restauração e conservação de 16 km de estradas e outros 16 km de caminhos.  Também foram implantados pontilhões, muralhas de contenção e sistemas de drenagem com bueiros (o que conserva as estradas em bom estado, apesar das chuvas intensas).

Felizmente não existia, então, o IBAMA, o Instituto Chico Mendes ou outros que nunca fariam essas coisas por serem quase totalmente avessos à visitação pública dos parques nacionais e estaduais, ou por simples desinteresse do poder público em dar uma destinação minimamente sensata a essas unidades de conservação!  De toda forma, os trabalhos desenvolvidos por Castro Maya na Floresta poderiam e deveriam servir de inspiração para o que se pode fazer em outros parques nacionais e estaduais, se essa vontade existissse.

Ao final dos trabalhos, Castro Maya orgulhava-se da Floresta estar sendo visitada por 5.000 pessoas em cada fim de semana.  Ninguém se preocupou em reeditar o livro de autoria do empreendedor dessas maravilhosas obras que permitiram e estimularam a visitação da área, intitulado A Floresta da Tijuca (edições Bloch, Rio de Janeiro, 1967), com fotografias de Humberto e José de Moraes Franceschi.

Em 1970, é feita outra restauração da Capela Mayrink, com a colocação de uma placa otária citando nomes e cargos de “autoridades” – coisa que Castro Maya não pensou em fazer.  Em 2013, a pintura externa da Capela encontra-se bastante desbotada.

 

Capela Mayrink.webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Já o marco em homenagem ao Barão d’Escrangnolle, segundo administrador da Floresta e que nela plantou mais de 80.000 árvores durante 9 anos, está tão caído quanto o marco em homenagem a Taunay.  E foto abaixo dispensa comentários.

 

Marco Escrangnolle e Casado.webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Pior que tudo é a dragagem escondida que está sendo feita no Açude da Solidão.  Tão escondida que fecharam o acesso depois que a imprensa foi lá perguntar.  Para onde será que vão os sedimentos que estão sendo retirados?  Que volume?  O paisagismo do Burle Marx está sendo preservado?  Ou a coisa é clandestina?

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?