Marina da Glória e Apropriação Privada de Espaços Públicos

Ao final do governo Carlos Lacerda, Lota Macedo Soares foi informada de que a nova administração pretendia lotear o Parque do Flamengo, como já havia acontecido com outras áreas da cidade do Rio de Janeiro resultantes de aterros sobre a Baía de Guanabara.  Afinal, no início, a proposta da Superintendência de Urbanismo e Saneamento do antigo Estado da Guanabara – SURSAN era apenas a construção de pistas de rolamento para ligar o Centro da cidade à zona sul  da cidade.  Os engenheiros da SURSAN não compreendiam porque Lota queria tanto aterro e haviam ficado um tanto ofendidos com os poderes dados à Lota para conceber e implantar o Parque.  Lota apressou-se para conseguir o tombamento do Parque pelo IPHAN antes da posse da nova administração.  Salvou, assim, uma das mais belas áreas públicas da cidade.  A área foi colocada sob a administração da Fundação Parque do Flamengo.  Logo depois, irritados, os novos donos do poder fizeram retornar aos órgãos estaduais de origem todos os funcionários que se encontravam à disposição da Fundação.

Bem mais tarde, por mero decreto presidencial, a área em que hoje se encontra a Marina da Glória foi cedida à Prefeitura do Rio de Janeiro, que tempos depois cedeu-a mediante um contrato de concessão.   Do projeto, não constava um Centro de Convenções como o que agora quer se construir.

Em 2006, por iniciativa do Ministério Público, foi paralisada a construção de uma garagem de barcos que se pretendia construir sob a alegação de que seria necessária para as competições náuticas dos Jogos Panamericanos.  A notícia ainda consta da página do IPHAN na internet, ainda que de maneira resumida:  “A construção, de quase 15 metros, foi paralisada pelo Ministério Público em 2006. O embargo aconteceu porque a obra não respeitava a caracterização do entorno do Parque do Flamengo, patrimônio tombado pelo Iphan, desde 1965, por sua importância arqueológica, etnográfica e paisagística. Além disso, o projeto atrapalhava a vista da paisagem do Pão-de-Açúcar e do Morro da Urca. Ambos, também, tombados pelo Instituto, em 1973.”

O ante-projeto, cujas linhas gerais só se tornaram de conhecimento público depois de aprovado em tempo recorde pelo IPHAN em Brasília (por que em Brasília?  o IPHAN do Rio de Janeiro se mantem em silêncio), prevê também a criação de a construção de um Centro de Convenções, 50 lojas, 333 vagas adicionais de estacionamento de veículos, dez píeres com capacidade para 450 embarcações e uma “área de convivência”.  O Globo deu a notícia com o título “Desvendados os mistérios da nova Marina da Glória“, e logo depois silenciou.

Difícil acreditar que um Centro de Convenções nunca antes previsto já conste do Plano Diretor Urbano da cidade do Rio de Janeiro, cuja prefeitura se mantem em silêncio.  Em princípio, será preciso alterar este Plano através da Câmara Municipal, o que em tese requer consulta pública.

Esse tipo de apropriação privada do espaço público já foi amplamente descrito no livro Os Donos do Rio em Nome do Rei, de Fania Fridman, do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional, da UFRJ.

Essa talvez seja uma excelente oportunidade para que os alunos e professores do Instituto se pronunciem sobre esse novo projeto de descaracterização e apropriação de um patrimônio da cidade.

Fora o que, não é difícil imaginar o engarrafamento de trânsito que ali ocorrerá em dias de “convenção” – trata-se de uma estrutura de apoio ao Hotel Glória -, quando se fizerem presentes todos os convencionais (quantos?) e os correspondentes serviços de apoio – tradutores, equipamentos de som e elétrico, e muito mais.  Afinal, qual a relação entre um Centro de Convenções e uma Marina?  O tal Centro de Convenções pod estar em qualquer outro lugar!

Em artigo recente, Elio Gaspari escreveu brilhante artigo simulando uma carta ao prefeito Eduardo Paes, pedindo que ele não se mantenha em silêncio e nem se omita.  Afinal, lembra o jornalista, já existe um espaço reservado para um Centro de Convenções nas proximidades da estação da Leopoldina, com grandes vantagens para a cidade.

 

 

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

3 comentários em “Marina da Glória e Apropriação Privada de Espaços Públicos”

  1. É evidente que existe uma terra de ninguém no Aterro da Glória que necessita de uma intervenção urbanística de alta qualidade: é o espaço que se encontra entre o Aeroporto Santos Dumont e o Museu de Arte Moderna. É uma mixórdia, como se ali nenhum olhar digno tivesse passado para ver que seria o local para o shopping,mais baixo que seu projeto para a marina, e o centro de convenções. A intervenção na marina é absurda, irracional, e sem sentido. Por que não arrumar aquele espaço entregue a um posto de gasolina e estacionamentos de modo a integrá-lo definitivamente à beleza do projeto de Lota, Burle Marx e Reidy? Além do mais ajudaria a integrar o MAM à cidade.

  2. É fácil verificar a distonia a que estou me referindo na resposta acima, basta entrar no Google Maps. Os clubes de regatas que foram deslocados para a orla depois do aterro em 1955, por ocasião do Congresso Eucarístico, ainda no início do atual aterro são um mafuá que precisa de um padronização arquitetônica de qualidade. Uma imensa lage bem desenhada para pedestres pode ligar o Santos Dumont ao MAM, essa lage pode ser atravessada vertical e horizontalmente pelo shopping e centro de convenções, bem pensada com jardins suspensos. Este é o projeto óbvio que é necessário para encerrar a estupidez da intervenção na marina. Por que o IPHAN não faz essa proposta para o Eike Batista?

  3. Não me parece que ao IPHAN Brasília reste qualquer vestígio de autoridade moral ou intelectual para propor nada, depois de aprovar o pacote na surdina e do jeito que mandaram aprovar! Não há NENHUMA razão para que ali se faça um “centro de convenções” e um estacionamento tão grande exceto a vontade de Eike de criar um “anexo” do Hotel Glória. Não me lembro de centros de convenções ou shoppings nas marinas públicas da Côte d’Ãzur. O fornecimento de suprimentos aos barcos é feito por pequenos caminhões que fazem as entregas, mas as lojas ficam em outros lugares. O mesmo vale para Mônaco e para centenas de marinas públicas nos EUA.

    Concordo inteiramente que a revitalização da área é necessária, imprescindível, mas não com projetos destinados a atender aos interesses de UM hotel e de UM empresário, em vez dos interesses da cidade!

    Aliás, por que Brasília?

O que você pensa a respeito?