Lagoa Rodrigo de Freitas – Mortandade de Peixes e Versões Convenientes

Com a mortandade de mais de 65 toneladas de peixes nos últimos dias na Lagoa Rodrigo de Freitas, ficou claro que o Projeto Lagoa Limpa, do Grupo EBX (Eike Batista), não deu certo ou foi insuficiente.  A imprensa local não fez o mesmo estardalhação sobre o tema quanto à época do lançamento do projeto.  Mas anunciou que um projeto da COPPE/UFRJ “poderá acabar com episódios similares…. sem informar que o relatório final do projeto  é de janeiro de 2001, com uma revisão em 2009.  Notícias requentadas pelo jornalismo superficial ou de ocasião ajudam a confundir a opinião pública.  Um projeto similar já havia sido pelo engenheiro Flávio Coutinho, da CEDAE, na década de 1990.

Trata-se de um projeto de renovação das águas da lagoa através da ampliação das trocas com a água do mar, ou seja, de hidrodinâmica.  O projeto é assinado pelo professor Paulo Cesar Rosman, profissional altamente qualificado que apresentou uma alternativa mais saudável do que a proposta anterior do Laboratório Nacional de Engenharia Civil – LNEC, de Lisboa, que recomendou a implantação de dois enrocamentos paralelos com cerca de 200 metros de comprimento para estender o canal do Jardim de Alah, mas sem assegurar a troca de águas entre a lagoa e o mar.  À época, levantou-se a hipótese de que as pedras viriam, eventualmente, de uma duplicação do túnel Zuzú Angel; talvez fosse esse o objetivo principal do projeto: encontrar um bota-fora para essas pedras.

Já na década de 1970, através de convênio realizado com o governo do antigo estado da Guanabara, foram elaborados projetos com a participação de profissionais da área de Liminologia da Universidade de Lund, da Suécia.  O canal ligando a lagoa ao mar – como forma de promover a troca de águas – já havia sido concluído em 1922 e as coisas continuavam ruins.

Talvez seja hora de pensar num conjunto de soluções, e não apenas na troca de água.  Ainda que esta última não deva ser descartada (mas há necessidade de atenção com os impactos sobre a qualidade/transparência/coloração da água do mar na região).

Entre as soluções complementares às propostas de Rosman, recomenda-se o estudo de alternativas de contenção dos sedimentos e material orgânico em decomposição lançados na lagoa – e em todas as lagoas urbanas – através de rios.  É dos micro-nutrientes deles decorrentes que originam os blooms de algas que levam à queda abrupta do oxigêncio dissolvido, e daí as mortandades de peixes quando os nutrientes do fundo são revolvidos.

Também deve ser considerado algum tipo de tratamento das águas de chuvas lançadas através das galerias de águas pluviais.  Segundo dados da própria prefeitura, “na Lagoa Rodrigo de Freitas e no Canal do Jardim de Alah, existem 26 pontos de chegada de galerias de águas pluviais, responsáveis por transportar a água das chuvas que entra pelos bueiros das ruas até a Lagoa ou o Canal”.

A prefeitura não monitora a qualidade das águas de escorrimento superficial – que lava as ruas – nesses 26 pontos nos minutos iniciais de chuvas máximas para saber a “pancada” de poluenets que através deles chegam à lagoa.  A experiência internacional não é no sentido de “tratar” toda a água de chuva que escorre pelas ruas, mas apenas de reter os poluentes presentes nas águas equivalentes aos 15-20 minutos de chuvas fortes (tempo baseado na experiência de outros países).  Essa descarga inicial de poluentes é conhecida como first flush ou primeira descarga, e já foi bastante estudada.

O tratamento das águas que lavam as ruas (stormwater managment)antes de seu lançamento em corpos d’água superficiais ou em áreas costeiras já é uma preocupação nos países desenvolvidos há bastante tempo.  Metodologias e regulamentos específicos já foram adotados em diversos países, e informações sobre esse tipo de trabalho podem ser encontradas, por exemplo, na página da internet da Agência de Proteção Ambiental dos EUA.

Equipamentos e sistemas de contenção de poluição das águas de chuva bastante simples também foram implantados durante os preparativos das Jogos Olímpicos de Londres.Conceber e desenvolver um conjunto de políticas públicas apropriadas e implementá-las é sempre melhor do que esperar que uma única solução resolva o problema.  O patrimônio paisagístico e as oportunidades de lazer oferecidas pelas lagoas costeiras do Rio têm valor inestimável.

No Brasil, as chances de um trabalho assim são pequenas, já que demandam estudos multi-disciplinares, e as autoridades gostam mesmo é de empreiteiras, que são medíocres em termos de engenharia e de tecnologia.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

One thought on “Lagoa Rodrigo de Freitas – Mortandade de Peixes e Versões Convenientes”

  1. Sem dúvida, a beleza dos lagos alemães, suíços e até alguns italianos no norte que conheço, o azul profundo é devido a esse cinturão para absorver as primeiras águas. Contudo, a minha tia e linguista Yonne Leite responsável pela escrita fonética da língua Tapirapé, a única atualmente escrita e ensinada, sempre disse que temos que ouvir as origens: Ipa Nema em tupi significa “água ruim (podre)”.
    É pode ser.
    Muito bom lembrar as soluções atuais.

O que você pensa a respeito?