Naufrágios de Gestão Ambiental no Brasil – O Caso dos Veículos Automotores – I

No Brasil, as políticas públicas de meio ambiente fracassaram ou foram muito pouco efetivas em todas as áreas de ação: do controle da poluição sob as suas muitas formas à gestão das unidades de conservação.  Nada muito diferente do que ocorreu nas áreas de educação, saúde pública, transporte, e por aí afora.  Ou seja, avanços muito menores do que “o país do futuro” poderia ter alcançado e dele se esperava.

Evidentemente, como nesses outros campos, sempre há notícias de avanços pontuais e não se questiona a existência de profissionais dedicados.  É o sistema que não funciona e já se tornou obsoleto!  Como diz o ditado inglês, “a prova do pudim está no sabor”, e o “sabor” é lastimável nos rios, lagoas e águas costeiras, na gestão do território, na poluição atmosférica nos grandes centros urbanos, no abandono ou na má gestão dos parques nacionais e estaduais, na implantação de sistemas de destinação final de resíduos, na gestão do litoral e territorial em geral, e até mesmo na quase paralisia da implementação de leis com nomes modernos como a “logística reversa”.

Podem ser listados os motivos que levaram esse barco a encalhar antes de chegar a um resultado equivalente àquele alcançado por “países sérios”, mas os principais são (a) a falta de visão de conjunto, de foco no meio ambiente em lugar do olhar individualizado, o controle de cada indústria prevalencendo sobre a gestão da qualidade da água dos rios, por exemplo, (b) a falta de metas e de projetos operacionais concretos, com etapas e os correspondentes orçamentosm e (c) a má definição das prioridades, prevalecendo o midiático, o loteamento de cargos e a politicagem de compradrios sobre a realidade da gestão ambiental.

Os países sérios, isto é, aqueles que têm políticas de longo prazo que não estão sujeitas às oscilações imediatistas do humor dos políticos – e nem ao compadrio – já resolveram a totalidade ou a quase totalidade de seus problemas ambientais locais (os globais são outro assunto).  Em consequência, neles, a “questão ambiental’ já até saiu de moda ou foi substituída por assuntos de outra natureza, como produtos alimentares de cultivo orgânico ou disseminação de novas tecnologias que possam beneficiar a área da gestão ambiental.

Tomemos o caso da poluição por veículos automotores.  Enquanto o Brasil patina na revisão anual da aparência dos veículos com fins de arrecadação, revisão na qual se inclui a medição dos gases de escapamento, na Europa praticamente já não se encontram veículos que não sejam híbridos, com drástica redução das emissões.  Além disso, países como EUA, Japão e Alemanha caminham rapidamente na utilização mais ampla de materiais conhecidos como “composites” na fabricação de veículos, de maneira a diminuir, drasticamente, o consumo de combustíveis e, em consequência, as emissões.  Nesses países, a indústria já está se preparando, há algum tempo, para ganhar escala na produção desses materiais de maneira a reduzir o seu custo.  E o Brasil fazendo mais do mesmo, até porque as autoridades ambientais se movem – quando se  movem – com a mesma lerdeza das demais quando se trata da aplicação de novas tecnologias com finalidades práticas, comerciais.

O orgulho quase autista pelo atraso mental, conceitual, político na gestão ambiental é marca registrada do país sobre o qual se disse que tinha a lanterna na popa, os olhos voltados para celebrar um passado de qualidade no mínimo duvidosa.  A medição do escapamento dos veículos é, hoje, uma simples tolice quando considerado os mencionados avanços tecnológicos e, em especial, quando o que se vê em escala nacional é a opção preferencial por ônibus comuns no transporte urbano e interurbano.

Como escapar da mesmice antiquada na gestão ambiental, é a questão que se coloca e sobre a qual devemos refletir.

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Não se trata, evidentemente, de afirmar que nada do que foi feito teve qualquer utilidade e que as coisas poderiam estar muito piores se não fosse a ação de profissionais dedicados de órgãos ambientais.   Trata-se, sim, de avaliar a distância entre os resultados alcançados aqui e os alcançados nos países sérios, em prazos semelhantes ou pouco diferentes.  “Avançar” é diminui a distância entre o que foi e os resultados que poderiam ser esperados.  O fato é que a qualidade ambiental em geral não melhorou ou melhorou muito pouco na maior parte do país!

Esta série de artigos buscará examinar as causas desse verdadeiro naufrágio das políticas públicas de meio ambiente e propor algumas mudanças de rumo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?