Sacolas Plásticas e Oportunismo Eleitoral

Os meses que antecederam às últimas eleições estaduais foram marcados por uma campanha e uma lei improvisada contra as sacolas plásticas nos supermercados – que não atingiam as lojas dos shopping centers ou quaisquer outras formas de inibição do uso de sacolas ou embalagens plásticas.  Fiscais do órgão de meio ambiente do Rio de Janeiro chegaram a ser deslocados para multar um ou dois supermercados, sempre com o generoso acompanhamento da imprensa.  A lei foi usada para fazer um tipo de publicidade oportunista e tola: a obrigatoriedade da colocação de avisos sobre o número da lei e o tempo de decomposição dos plásticos.  Passadas as eleições, o assunto foi deixado de lado e os supermercados voltaram a distribuir gratuitamente sacolas de plástico para seus clientes.  Foi um puro jogo de cena pré-eleitoral.

Um ano antes, prefeitos da Inglaterra fizeram um trabalho mais sério e organizaram uma coleta de materiais encaminhados a aterros sanitários nas semanas imediatamente anterior e após as festas de fim de ano, quando a quantidade de lixo cresce absurdamente.  Tratava-se de verificar como se comportava a composição do lixo e, na sequência, empresas como a Disney foram notificadas pelo órgão governamental do comércio que estavam vendendo bonequinhos de plástico que pesavam quase um terço das embalagens.  Enganando os consumidores, portanto, receberam um alerta.

Agora, na mesma velha Inglaterra, um representante do governo voltou a anunciar uma sobretaxa para as sacolas de plástico em supermercados.  Mais do mesmo, gente que não tem compromisso real com as boas práticas de gestão ambiental procurando se auto-promover usando as imagens de animais marinhos mortos pela ingestão de pedaçis de plástico.

A enganação eleitoreira ocorre em muitos lugares.  Mas, lá, a indústria revidou.  Uma pesquisa mais acurada patrocinada pelo Conselho Industrial para Embalagens e Meio Ambiente demonstrou que as sacolas de plástico representam apenas 0,03% do lixo encontrado nos oceanos.  O filme plástico que embala as pequenas bandejas de isopor com todos os tipos de alimentos nos mesmos supermercados representa uma parcela bem maior do total do lixo.  As sacolas plásticas, que já sofreram restrições em alguns países, estão mais relacionadas à simbologia da luta contra o consumismo do que no campo da realidade do uso de plásticos.  De fato, basta pensar nas muitas outras formas de embalagens plásticas descartáveis – como, por exemplo, aquelas que envolvem produtos eletro-eletrônicos no momento de seu empacotamento (para não falar no plástico neles contido).

Os resultados das taxas sobre as sacolas plásticas não foram desprezíveis em algumas regiões, chegando a reduzir o seu uso em até 96% em setores de lojas de vendas diretas aos consumidores no País de Gales.  Mas esses resultados parecem só ter sido alcançados porque os recursos arrecadados com uma taxa – que não é tecnicamente uma taxa – são revertidos para organizações de caridade tais como proteção às crianças e tratamentos de câncer.  Sempre se pode consumir comprando um “ticket de boa consciência”.

Já a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA, na sigla em inglês), numa pesquisa realizada numa pequena e remota ilha do Pacífico – Tern -, encontrou desde garrafas de plástico até plásticos de eletrodomésticos que, se fragmentando em pequeníssimos pedaços representam perigo para o ecosssistema e mesmo para os seres humanos, já que esses fragmentos são ingeridos pelas espécies menores e delas repassados para as espécies no topo da cadeia alimentar.  A ilha de Tern está a mais de 800 km da ilha Oahu, que faz parte do arquipélago do Hawai!  A foto do lixo plástico nela coletado é suficiente para mostrar que o problema dos plásticos é bem maior do que a lenga-lenga das sacolinhas de supermercados.

 

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Já parece evidente que se o objetivo é combater o descarte de plástico no meio ambiente, fazem-se necessárias medidas bem mais sérias do que as de ocasião adotadas em época de campanhas eleitorais.

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Em países como o Brasil, sacolas plásticas de super-mercados são amplamente utilizadas como sacolas de lixo, e mesmo nas casas de classe média, para o lixinho da cozinha e do papel sanitário no banheiro.  Que tal se os fabricantes de sacolas plásticas e os supermercados melhorassem a qualidade das mesmas para ampliar o seu uso na coleta de lixo comum, em lugar de usarem as atuais sacolas que são tão finas que se rompem com um mínimo de peso?  Isso, evidentemente, não exclui a busca de soluções que não sejam apenas a fabricação de sacolas feitas a partir de produtos agrícolas, que comprometem a segurança alimentar dos países.

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

5 comentários sobre “Sacolas Plásticas e Oportunismo Eleitoral”

  1. Mais uma do meu querido Prado. É sacola, isopor, é até camisinha, sem falar nas caixas monstruosas de isolamento térmico dos containers que ficam abandonados à beira da estrada próximo ao porto. Não tem vez para nada. Em 1994, na Alemanha, as cidades, todas que visitei, e não foram poucas, tinham coleta seletiva. Uma caixa para cada tipo de lixo. Repeti essa visita em diversas cidades, em 2005 e em 2012, só senti avanços. Agora, 29 anos depois, não vejo nada semelhante no Rio de Janeiro. Esse prefeito e sua megalomania é um dos maiores desastres para a nossa cidade.

  2. Por falar em sacolas plásticas, vocês já perguntaram aonde vai parar a demolição da Perimetral? Como vai ser reciclada? Como vai ser reaprovetada?

  3. Esse prefeito é autista! Ele só pensa em seu próprio umbigo, que anda de mãos dadas com o interesse da máfia dos ônibus e da máfia das empreiteiras. Além disso, é claro, na venda do espaço aéreo, lateral, colateral, subterrâneo e no que mais houver de valor intangível para ser vendido.

    Falando de Alemanha, impossível não notar que o gap na gestão ambiental só aumentou. Os países sérios resolveram os problemas nessa área, os daqui só aumentaram. Em grande parte como decorrência da transformação de TUDO em “acordos políticos”, que leva o pensamento a se nivelar por baixo, tipo napalm cultural da Globo.
    g

  4. Uma parte da demolição da perimetral já foi roubada – e logo o assunto sumiu dos jornais. Afinal, eram só umas dúzias de colunas de – sei lá – 20 toneladas cada uma. Fingiram que não viram. As câmeras estavam desligadas, como no caso Amarildo. O material da implosão da perimetral – suponho – ia em parte ser jogado no mar sob o pretexto da ampliação dos cais de atracação de navios de turismo, o tal pier em Y. Não sei se desistiram ou se voltaram à carga. Algo similar ao bota-fora de pedras da escavação do metrô que quiseram fazer no quebramar da Barra com a máscara de “recuperação ambiental das lagoas”. Se não dizem o que vão fazer com o material da implosão da Perimetral, é porque alguuma coisa farão. Mas não será contabilizada na receita das empreiteiras que agora colonizam a região portuária com a máscara da PPP.

  5. Em Recife existe um naufrágio famoso chamado Pirapama distante apenas cerca de 20 minutos do porto da cidade. Lá escontra-se abundante vida marinha entre garrafas plásticas, escovas de dente e até, pasmem, panelas de pressão.
    O problema do plástico vai sim, muito além das sacolas de plástico.
    A política das propostas para descarte do lixo ou novas medidas para tratamento do mesmo são sempre utilizadas com fins eleitoreiros nesse país. Aqui nada é de verdade.

O que você pensa a respeito?