O Rio de Janeiro da Copa do Mundo, dos Jogos Olímpicos e do “Porto Maravilha” na Visão da Grande Imprensa dos EUA

Nas últimas semanas, dois grandes jornais norte-americanos publicaram extensas reportagens com visões bastante negativas sobre a preparação do Rio de Janeiro para a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, com fatos e uma abordagem evitados pela imprensa local.

A primeira delas, do Washington Post, o maior jornal da capital dos EUA, recebeu o seguinte título: “As águas do Rio das Olimpíadas ainda estão cheias de lixo e de esgotos, restando pouco tempo para os Jogos”.  Além de fotos bastante impressionantes, a reportagem inclui um vídeo sobre a Baía de Guanabara (precedido de um anúncio de 30′) que merece ser visto, ainda que apenas pelas imagens.

Nela, afirma-se que “as infindáveis praias e luxuriosas florestas tropicais do Rio de Janeiro serão um sonho para os fotógrafos durante os Jogos Olímpicos de 2016.  Mas, fazendo-se um zoom sobre as antes pristinas águas da Baía de Guanabara, as imagens são de lixo doméstico e esgoto sem tratamento.  (…) Nas águas verde-neon ao redor do futuro Parque Olímpico, as taxas de coliformes fecais são 76 vezes superiores aos limites considerados ‘satisfatórios” pelo governo brasileiro e 195 vezes os limites considerados seguros nos EUA.  (…)  Faltando apenas dois anos e meio para os jogos, especialistas afirmam que os esforços para a limpeza dessas águas avançam a passos de caramujos (ou de cágado, na expressão brasileira)…”.

“A alta concentração de resíduos humanos não tratados significa a presença de patógenos e organismos transmissores de doenças – afirma o Dr. Casey Brown, professor de engenharia civil e ambiental da Universidade de Massachusetts Amhrest.  Se eu fosse tomar parte (nos Jogos), eu me certificaria de que todos os meus atletas teriam tomado todas as vacinas. ”

Depois de mencionar os altos índices de poluição aquática na região da Barra da Tijuca, “onde metade dos Jogos Olímpicos ocorrerão” – não há referência ao fato de que o programa de saneamento dessa área começou há mais de 30 anos e ainda não tem data para ser concluído -, a reportagem do Washington Post faz referências aos altos índices de coliformes fecais da praia de Copacabana e às frequentes mortandades de peixes da Lagoa Rodrigo de Freitas, “onde ocorrerão competições de remo e canoagem”.

“Outro problema arraigado encontra-se nos 383 km quadrados da Baía de Guanabara que se comunica com o mar por apenas um pequeno canal.  Até os anos 70, local de intensa pesca artesanal e praias populares adornadas com coqueiros, a Baía se tornou num local de descarte de resíduos de estaleiros e de áreas portuárias comerciais, assim como de material lixiviado, subproduto tóxico de montanhas de lixo apodrecido proveniente do que foi o maior aterro da América do Sul, cujas atividades só se encerraram em 2012.”  Com justa razão, os jornalistas do Washington Post preferiram ignorar os anúncios factóides de que o chorume decorrente da decomposição do lixo de aterros encerrados às margens da Baía de Guanabara – Caju e Gramacho –  estaria recebendo tratamento minimamente adequado.  Não, esse chorume continua e continuará poluindo a Baía de Guanabara por décadas caso as autoridades ambientais continuem apenas improvisando “soluções” para dar a impressão de que foi feito um trabalho sério.

“O governo japones ajudou no financiamento para limpar a Baía de Guanabara com US$ 700 milhões num projeto que começou em 1992 mas duas décadas depois ainda apresenta poucos resultados.  Pelo menos 5 estações de tratamento foram concluídas, mas a maioria opera com capacidade ociosa porque as redes coletoras não foram totalmente implantadas.  Uma estação de tratamento, em São Gonçalo, nunca tratou uma gota de esgoto.”

A reportagem não menciona que o empréstimo japonês foi atrelado a um outro, do Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID, bem maior, que destinava-se a implantar as redes coletoras, e que o relatório final do BID considerou que o programa havia fracassado em grande parte pela incapacidade local de executá-lo.  (Nada diferente de programas de despoluição similares com financiamento internacional, como o do Tietê, do Guaíba, e da Grande Vitória, incluindo Guarapari).  O dinheiro foi gasto, a dívida contraída, mas as redes de coleta não foram implantadas, e ninguém nunca auditou nada, até porque as empreiteirasa continuam as mesmas.  E o BID – coitado! – se faz auditorias, limita-se à contabilidade, nada em campo para ver se a fatura emitida para a implantação de 30 km de troncos coletores não foi apenas.. uma fatura.  Afinal, obras enterradas podem simplesmente ser cobradas sem que nada ou quase nada tenha sido feito.

Com toda a razão, a reportagem ironiza as unidades de tratamento de rios, “com elevados custos operacionais por requererem caminhões para transportar os resíduos para aterros sanitários” e apenas faz referência as “eco-barreiras” que apenas recolhem uma parte do lixo mais visível e flutuante depois de lançado nos rios ou de atingirem a Baía.  Convenhamos, para um especialista qualquer proveniente de um país minimamente sério, essas iniciativas são apenas maquiagens, senão pura e simples enganação.  De toda forma, uma declaração oficial de incompetência para resolver os problemas de maneira tecnicamente correta.

Essa não é uma visão puramente norte-americana, já que especialistas brasileiros também são citados nas severas críticas feitas à qualidade das águas dos rios da região da Barra da Tijuca e da Baía de Guanabara.

E note-se que só a Copa do Brasil já custa mais caro do que as três últimas somadas (cf. link ao final do texto).

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A outra reportagem, do New York Times, intitulada Um Rio de Janeiro dividido, tentando ir além para o mundo, também tem um slide-show que pode ser visto clicando em sua primeira fotografia ou aqui.  (A palavra usada – “overreaching” – tem o duplo sentido de “indo além” ou de “tentando enganar dando a impressão de que se faz mais do que realmente se consegue”.)

Esta reportagem se concentra mais nos aspectos urbanísticos do Rio de Janeiro e em suas divisões sociais.  “Essa divisão é mais evidente no pantagruélico  (gargantuan, no texto original, algo exagerado em termos de tamanho ou quantidade) plano do prefeito, que prevê investimentos de US$ 4 bilhões (cerca de R$ 10 bilhões) para a área portuária, com a visão de transformar uma parte amplas, antes industrial, da cidade, numa concentração de arranha-céus para um novo Rio global.  (…) Mas o projeto de redesenvolvimento da área portuária é muito mais um projeto de comercial imobiliário de um governo em busca de investidores, com um novo Museu do Amanhã – seja lá no que isso vena a ser -, na forma de um gigantesco crustáceo com formas perfecionistas mas com objetivos nada claros, desenhado por Santiago Calatrava, um arquiteto de ontem.  Não existe um plano diretor real (…) garantindo que a área portuária não será sacrificada para a construção de um mar de torres de escritórios.  As recentes promessas do prefeito de incluir na área 2.000 unidades de habitações populares são tardias e vagas, e parecem mais destinadas a apaziguar opositores sem assustar os investidores.”

“No coração da Barra da Tijuca há um símbolo de esbanjamento de dinheiro público e da divisão de classes: um novo centro de artes, a Cidade da Música, desenhada pelo arquiteto francês Christian de Portzamparc, próximo a um gigantesco shopping center onde há uma réplica da Estátua da Liberdade na parte exterior.  O projeto, iniciado durante a administração anterior, com um orçamento que ao final foi duplicado, atingindo US$ 250 milhões, está situado no meio de uma via de tráfego intenso (uma auto-estrada, no texto original), e despertou críticas de que não tem qualquer contato com as necessidades reais ou com a cultura da cidade”.

Depois de mencionar as ameaças (?) de remoção da Vila Autódromo, a reportagem elogia iniciativas nos bairros de Madureira, Olaria e no Meier.  Mas afirma que simultaneamente outras iniciativas públicas “não fazem sentido: o Projeto Minha Casa-Minha Vida são melancólicos quarteirões para os pobres, construídos de maneira barata, distantes de onde as pessoas viviam”.  (…) Já o programa “Morar Carioca”, que tinha como objetivo a consulta pública – algo incomum – com a participação de arquitetos, terminou levando a uma decisão judicial contrária à decisão da prefeitura de construir mais um sistema de bondes e um funicular (como o do Cristo Redentor), juntamente com um centro cultural para celebrar a vida na favela, resultante de uma ação movida pela associação de moradores do Morro da Providência”.

“Nós queremos o diálogo, mas eles nunca nos ouvem realmente – afirma Roberto Marinho, 38 anos, presidente da Associação de Moradores”.  É, eles nunca ouvem ninguém além daqueles que têm muito dinheiro ou influência partidária, exceto as pencas de puxa-sacos que usualmente os cercam.  Odeiam ideias que possam destoar da opinião que desejam ouvir.

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“O custo da Copa do Mundo no Brasil será maior do que a soma do total investido nas últimas três edições do evento, no Japão/Coreia (que se uniram para realizar um único torneio), Alemanha e África do Sul. Além disso, se os orçamentos das obras dos estádios e de infraestrutura urbana e de transporte continuarem a ser reajustados para cima no ritmo atual, a Copa do Mundo do Brasil terminará custando mais do que todas as outras juntas.”  A conclusão é de um estudo é da consultoria legislativa do Senado Federal, cujo resumo encontra-se resumo publicado pelo UOL/Folha de São Paulo.  Segundo Alexandre Guimarães, consultor do Senado, “o Poder Público já investiu quase R$ 50 bilhões no evento, mas o legado e benefícios para o país e a população brasileira ainda não foram colocados em primeiro plano nos debates.”

“- Haverá retorno de todo esse investimento? – questionou.”, durante recente seminário.

 

 

 

 

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?