Enchentes no Acre e em Rondônia: A “Culpa” é da Bolívia”

Enchentes sem precedentes na Inglaterra – inclusive com ondas anormalmente altas e fortes atingindo e causando danos patrimoniais no litoral; secas na California com graves perdas de produção agrícola juntamente com ondas de frio igualmente fora dos registros históricos; cidades isoladas no Acre e em Rondônia em decorrência de cheias igualmente anormais, falta d’água em São Paulo e uma briguinha de fingimento com o Rio de Janeiro para ambos os governadores ganharem espaço na mídia.

A Califórnia já vem tomando sérias medidas de proteção do habitat humano há muito tempo.  O seu Plano de Controle de Cheias não é um improviso do tipo “declaração de estado de alerta”, da mesma forma que o seu Plano de Gestão de Recursos Hídricos tem sido revisto periodicamente e não se resume a um blá-blá-blá acadêmico-burocrático contendo generalidades, mas envolve ações concretas.  Ambos os documentos merecem no mínimo uma leitura cruzada ou de seus sumários executivos por gente que se interessa pelo assunto.

Inglaterra, Alemanha, Holanda e outros não ficam atrás em sua preparação para a ocorrência de extremos climáticos,incluindo a segurança alimentar e energética de suas populações, além do conjunto de iniciativas orientadas para aquilo que denominam “adaptação a uma sociedade de transição”.

Aqui, quando a presidente Dilma Roussef visitou as regiões alagadas no noroeste do país saiu-se com algo como “a culpa é da Bolívia”.  Não consta que especialistas do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE  estivesse na comitiva ou tenha sido consultado.

De fato, a NASA e outras fontes de informação vêm reportando chuvas anormalmente fortes na Bolívia há alguns anos, mas as ocorridas em fevereiro deste ano foram de severidade “nada usual” – segundo informações do Observatório da Terra.  As chuvas deste ano foram além dos recordes históricos, é verdade, mas foram detectadas bem antes de chegarem ao território brasileiro.  E não havia qualquer plano de contingência, as autoridades federais e estaduais não se prepararam, os danos já são imensos.

Há uma correlação entre essas chuvas de grande intensidade e o desaparecimento de importantes geleiras andinas, (clicando no campo em azul é possível visualizar imagens dessas geleiras).  Em palavras simples, a umidade que ao longo de milhares de anos se transformava em gelo – que, escorrendo lentamente, abastecia de água a Bolívia e o Peru – agora está dando origem às chuvas anormalmente intensas que impactam o lado brasileiro da cordilheira andina.  “A culpa é da Bolívia.”

O rio Madeira já se encontra 19,42 metros acima de seu nível máximo histórico e a previsão é de que as chuvas continuem intensas em suas cabeceiras até o final de março/início de abril de 2014.  Do ponto de vista climatológico, a questão, agora, é saber se durante o período na região conhecido como “vazante” – quando os rios atingem os seus níveis mais baixos – haverá uma grande seca (ou estiagem muito acentuada), com grandes prejuízos para a economia local e para a geração de eletricidade das unidades hidrelétricas do rio Madeira já em operação – além dos impactos potenciais para aquelas que se encontram em fase de implantação.

Afinal, as três maiores secas na Amazônia ocorreram em 1998, 2005 e 2010.  O último recorde atingiu quase metade da região, conforme avaliação da NASA – com grandes danos à população, chegando a resultar em estado de emergência em 37 municípios.  Da mesma forma, é bom lembrar, 9 dos 10 anos mais quentes constantes dos registros históricos ocorreram no século XXI.

Mas… quem se importa com esses detalhes ou com o futuro no Brasil da Copa e das disputas meramente partidárias, sem substância, ainda quando as mudanças ja estejam ocorrendo e tendam a se acentuar nor próximos poucos anos?

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O monitoramento dos “snowpacks” – isto é, da neve acumulada no topo das montanhas – vem sendo feito em diversas partes do mundo.  Na Califórnia, diariamente, porque é dessa neve que depende a vazão dos rios e o abastecimento de água – inclusive para irrigação – no período seco.

Já é hora do Brasil ouvir um pouco mais os seus órgãos de meteorologia.  Grandes produtores estrangeiros de cana de açucar em território brasileiro já estão atentos à baixa produtividade gerada pela escassez de água.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

One thought on “Enchentes no Acre e em Rondônia: A “Culpa” é da Bolívia””

  1. A prioridade deste governo é desmantelar o Brasil.
    Não há interesse em agir preventivamente!!!
    Não existe estudo, quiçá monitoramento da dinâmica marinha costeira no país.
    A diminuição da vazão do rio tem propiciado o aumento dos efeitos negativos do fenômeno da transgressão do mar em Atafona. O rio perdeu forças e o mar está invadindo seu leito. A língua salina já chega a Barcelos, onde o pargo, peixe marinho tem sido pescado.
    Está tudo seriamente “antropizado”! O governo não intervem efetivamente no sistema de esgoto doméstico e industrial, nos leitos dos rios, no sistema de irrigação, etc, e aí temos o padecimento do Paraíba do Sul, que está assoreado, poluído e enfraquecido.
    O cenário ambiental brasileiro está triste e tem enorme potencial para ficar pior!

O que você pensa a respeito?