Desperdício do Potencial Hidrelétrico – Desleixo ou Submissão às Grandes Empreiteiras?

Parece inacreditável, mas o Brasil ainda desperdiça uma imensa quantidade de energia gerada por suas hidrelétricas.

O Operador Nacional do Sistema – ONS solicitou – quando poderia determinar – que usinas hidrelétricas desliguem as suas turbinas durante a madrugada ou quando a energia por eles gerada não estiver sendo utilizada.  A notícia, que pode ser lida aqui, passou desapercebida da grande imprensa.  Abaixo, são transcritos dois trechos de uma notícia:

“Em mais um sinal de agravamento nas condições de suprimento de energia, o Operador Nacional de Energia Elétrica (ONS) tem solicitado a alguns geradores que desliguem ou alterem o modo de operação de algumas turbinas de suas hidrelétricas durante a madrugada para economizar água dos reservatórios. A medida tem sido adotada em algumas usinas de Furnas, da Cemig e da AES Tietê, além da hidrelétrica de Itaipu.

“(…) essa situação mostra que o operador e o governo federal estão usando todos os recursos técnicos disponíveis para evitar ao máximo o racionamento de energia.  (…) No domingo, 13, os reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste, o mais importante do País, operavam com 36,77% da capacidade.”

Pois nem o governo e nem o Operador do Sistema – e, de fato, ninguém – está usando de uma pequena fração dos recursos ténicos disponíveis para evitar um racionamento.  Se estivessem, já teriam avançado e muito com a repotencialização das hidrelétricas, começando pelas mais antigas.

A repontecialização consiste, basicamente – ainda que não apenas – na troca das unidades geradoras por outras mais modernas e muito mais eficientes.  Exatamente como trocar um motor de um veíiculo de 30 ou 50 anos atrás pelo motor de um veículo moderno. A troca aumenta a capacidade de geração das usinas hidrelétricas, pode ser feita em muito menos tempo do que a construção de uma nova hidrelétrica, além de se pagar num período bastante curto.

Mas essas iniciativas não interessam às empreiteiras que comandam o orçamento de obras públicas do setor elétrico.  Adotado esse caminho, os investimentos maiores são em novos equipamentos, em não na construção de barragens.

Em 2007, o assim chamado governo já sabia, havia muito, que a repotencialização é possível e os resultados de estudos de viabilidade ja se encontravam disponíveis.

“O custo do KW instalado com a repotencialização seria de US$ 500 a US$ 600, bem abaixo dos US$ 1.200 a US$ 15.000 necessários, hoje, para a construção de novas usinas.” – afirmava o professor de pós-graduação em energia da USP, Célio Berman. Segundo ele, o Brasil podia, então, conseguir adicionar 8.000 MW de capacidade de geração apenas com a repotencialização, isto é, sem a construção de novas hidrelétricas.  E mais, poderia reduzir pelo menos de 15% para 10% as perdas técnicas na transmissão e na distribuição de energia elétrica, disponibilizando, assim, 4.500 MW adicionais de eletricidade para o consumo.

Em 2010, analistas do setor apontavam para a responsabilidade da ANEEL – outra agência dedicada apenas às trivialidades das concessões e das revisões dos contratos – nos obstáculos à repotencialização das hidrelétricas brasileiras.

A ANEEL é um belo exemplo das muitas vitórias da burocracia mais medíocre sobre os interesses maiores da nação e, de uma certa forma, do próprio governo, que aceita o loteamento de cargos nas agências regulatórias. Sob a alegação da existência de um “vácuo jurídico”,  a ANEEL se espojava no assunto como se a resolução do problema comportasse mais do que uma única alternativa: o aumento no valor da concessão, que afinal é a única que cabe em seus poucos neurônios.

Pouco tempo depois um grande número de empresas geradoras tiveram as suas concessões simplesmentes estendidas, sem a parolagem do “vácuo jurídico”.

Quem tiver interesse ou paciência de colocar as palavras “repotencialização” e “hidrelétricas” no sistema de busca na internet encontrará um sem número de notícias e estudos.

Mas a inércia prevalece. À repotencialização pode-se e deve-se acrescentar a automação das hidrelétricas que permite a otimização, ganhos de eficiência e de segurança na operação do sistema.

Além disso, de lá para cá novas tecnologias de redução de perdas nas linhas de transmissão de longa distância já chegaram ao Brasil através de empresas chinesas que venceram as concorrências para a construção e a operação de um grande número dessas linhas – reduzindo em muito o tempo de retorno de seus investimentos.

Parcerias público-privadas (PPP) são caminhos excelentes para reduzir os investimentos diretos do governo ou mesmo das concessionárias das hidrelétricas mais antigas.  A atração dos fundos de pensão dessas concessionárias para tais parcerias facilita o processo porque o diálogo se dá com profissionais do ramo, além de garantir a segurança dos pensionistas (atuais e futuros) dessas empresas.

Acorda, Brasil.  É só sair da inércia… e da submissão aos interesses das grandes empreiteiras – no passado conhecidas como  “barrageiras” – que só querem mesmo e só sabem colocar concreto, emitir faturas por medição e negociar aditivos aos contratos originais, sem nunca se preocuparem em prestar um melhor serviço aos clientes.  Em países sérios, obras são conduzidas por empresas de engenharia, nunca por empreiteiras.  As empreiteiras brasileiras, hoje, subcontratam a engenharia, que consideram um apêndice ou componente acessório à gestão dos contratos.

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?