Ciclos de Seca – Califórnia X São Paulo

Monitor da Seca nos EUA” é o nome de uma iniciativa conjunta de diversas instituições norte-americanas, entre as quais a Administração do Espaço e da Atmosfera que, com vários satélites, tem um dos melhores sistemas de previsão do tempo e do clima do país.  O sistema de informações sobre a seca foi criado em 1999 e conta com a participação do Departamento de Agricultura (equivalente ao nível ministerial no Brasil), do Centro Nacional de Mitigação da Seca, com uma galeria de fotos que merece ser vista por aqueles que não querem se aprofundar muito no tema.  Ambas as iniciativas contam com a participação de centros de pesquisa acadêmicos, que hospedam as páginas na internet.  Coisa de país sério.

Há poucos dias, o Monitor da Seca dos EUA mostrou que cerca de 80% do território da California encontra-se em situação de seca severa ou extrema.  O ano passado – 2013 – já havia sido o segundo ano mais seco da Califórnia desde o início dos registros históricos, em 1840.  E as autoridades da área de meteorologia não se atrevem a dizer por quanto tempo a seca pode se prolongar – já que o estado teve períodos extremamente úmidos.

Mas já existe uma nova ciência, a paleoclimatologia, que estuda os ciclos climáticos a partir das rochas, sedimentos, conchas, microfósseis, árvores e outras fontes.  E a professora Lynn Ingram, do Laboratório de Geoquímica Sedimentar e Meio Ambienta da Universidade de Berkeley, afirma que a California nunca esteve tão seca desde 1580 e que o que parece uma situação excepcional pode se tornar numa “nova normal”.  A professora Ingram é coautora do livro “O oeste sem água: o que as enchentes, secas e outras informações climáticas podem nos dizer sobre o futuro“.

“Se você retornar no tempo alguns milhares de anos, verá que as secas podem durar anos, senão décadas, e que ocorreram períodos de seca que duraram cerca de um século, como na Idade Média e no Holoceno” (que na escala geológica do tempo iniciou-se há 11.500 anos e estende-se até o presente).

Para descrever grandes enchentes, Lynn Ingram usa uma linguagem fascinante, como a expressão “rios atmosféricos”: “é quando uma enorme quantidade de umidade vinda dos trópicos atravessa o oceano Pacífico ao longo de milhares de quilômetros até a costa Oeste dos EUA trazendo chuvas equivalentes a – digamos – 10 rios Mississippi.  Durante dois ou três dias as chuvas são extremamente fortes.  Todas as grandes enchentes na Califórnia resultaram desses rios atmosféricos.  A última dessas enchentes – em 1861-1862 – foi realmente imensa e inundou completamente o Vale Central com cerca de 3 metros d’água.  A cidade de Sacramento (capital da California) ficou totalmente debaixo d’água.”

Nos EUA, o Serviço de Observação Geológica coordenou os estudos de 100 cientistas ao longo de dois anos para simular as perdas econômicas na Califórnia em caso de uma nova cheia dessas proporções.  Ao final, denominou o estudo e a correspondente modelagem como ArkStorm e estimou que uma nova cheia como as ocorridas no passado (a última em janeiro de 1969) causaria perdas de cerca de US$ 300 bilhões.

Enquanto isso, no Brasil, quem fala sobre a gravíssima situação do abastecimento d’água em São Paulo é a SABESP.  E trata o assunto como um tema político-eleitoral, fingindo que não há riscos de racionamento, como já ocorre, de maneira severa, na Califórnia.  Não chegam sequer a propor um bom programa de reuso de água pelas indústrias e até mesmo comunidades, bairros, NA-DA.  Só falam no “volume morto” e fazem chamanismos, com bombardeamento de nuvens.

Da mesma forma, a hidrovia Paraná-Tietê tem o tráfego de embarcações interrompido e tudo o que se pensa e afirma é que há necessidade de novas obras e que elas dependem de licenciamento ambiental.   O preço da preço da energia aumenta de maneira imprevisível e nada, nem uma palavra dos serviços do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE ou iniciativa de um trabalho conjunto com o Serviço Meteorológio da Marinha.  Abulia, omissão, ou proibição mesmo de esses órgãos se manifestem (como fez George W. Bush com a NASA no quesito mudanças climáticas)?

***

No estado do Rio de Janeiro, anuncia-se o lançamento de um Mapa de Ameaças Naturais, notícia de muitos órgãos de imprensa.  O trabalho, iniciado ao final de julho de 2012, tinha previsão inicial de seis meses para a conclusão.  Ou faltaram recursos ou a opção foi pelo anúncio em tempos de eleição.  De toda forma, é bastante estranho que na página da Secretaria de Estado de Defesa Civil do Rio de Janeiro não conste absolutamente nada sobre o assunto e, é claro, nenhum informação sobre a metodologia utilizada (ainda que fosse a usual observação visual após os acontecimentos).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?