Reuso de Água – Avanços nos Países Sérios, Lerdeza e Politicagem no Brasil

O condado de Orange, na Califórnia, já tem a maior estação de tratamento e reúso de esgoto do mundo, com a capacidade um pouco acima de 3 m³/s (metros cúbicos por segundo) , já em fase de ampliação para quase 4,5 m³/s, com investimentos de R$ 310 milhões.

Durante a fase anterior à atual seca, a estação de tratamento já foi concebida para recarregar o lençol freático, mantendo os seus níveis constantes.  A reinjeção de água no subsolo assegura a recarga da água subterrâenea e impede a salinização das águas subterrâneas e para abastecer uma população adicional equivalente a 250.000 habitantes.

Os responsáveis pelo abastecimento de água do condado afirmam que há muito já não vêem o esgoto como um problema, mas como um recurso que precisa ser aproveitado.  “Nós temos que ter o controle de nosso destino” – afirma um dos responsáveis pelo projeto ao final do curto vídeo que pode ser visto aqui.

Ainda não existindo regulamento na Califórnia que permita o reuso da água para fins de potabilidade, o projeto está sendo concebido para assegurar níveis de potabilidade, através da tecnologia conhecida como osmose reversa (o Brasil ainda não produz as membranas para esse tipo de tratamento, e nem detem a tecnologia para esse tipo de reuso de água; a produção local de membranas é incipiente e a maioria das membranas são importadas).  O sistema usado nessa estação de tratamento remove até mesmo os sais minerais, compostos farmcêuticos, bactérias e vírus.

Para elaborar o projeto – como lá não há empreiteiras no comando desse tipo de iniciativa -, os engenheiros calcularam os custos de energia para todo esse tratamento é de cerca de 50% do que seria necessário para bombear a água de uma região do estado para a outra e de cerca de 30% do que custaria para dessalinização de água do mar.

Os cientistas californianos já admitem que a atual seca, antes historicamente excepcional, pode ser o “novo normal” (new normal) em decorrência das mudanças climáticas.

Enquanto isso, o governador Geraldo Alckmin, a Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo – ARSES e a própria SABESP só pensam em grandes obras para trazer água de um rio para o outro, sem apresentar qualquer estudo de alternativas de longo prazo, inclusive para fins de recarga do lençol freático.  Por outro lado, a presidente Dilma faz acusações indiretas, fingindo esquecer que o governo federal tem um Conselho Nacional de Recursos Hídricos – CNRH e uma Agência Nacional de Águas – ANA que pouco ou nada fizeram para promover o reúso de água ou mesmo para auxiliar na elaboração de planos estratégicos de abastecimento de água.  Politicagem de quinta categoria!

Felizmente, diversas iniciativas de todos os tamanhos já estão sendo tomadas no Brasil para assegurar o reúso de água, ainda que sem apoio das grandes concessionárias que continuam interessadas em vender água.

É urgente a formulação e a implantação de políticas públicas de implantação de projetos de reúso pela iniciativa privada, já que do setor público espera-se mesmo bastante pouco, exceto quando interesses de grandes empreiteiras estão envolvidos.

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O download de um excelente documento (em inglês), publicado em 2012, intitulado  Reúso de Água – O Potencial para Expandir o Abastecimento de Água da Nação Através do Reúso dos Esgotos Municipais, merece uma leitura – ainda que rápida – ao menos para mostrar como estão procedendo os países sérios, senão para uma leitura mais detalhada.  Encontra-se disponível no link para download gratuito.

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Depois de publicado este artigo, até a Operadora Nacional do Sistema – ONS, com atuação no setor de eletricidade, entrou nessa politicagem de baixarias e ocultações.  Aproveita-se das medidas tomadas pelo governo de São Paulo para dar palpites sobre os riscos de abastecimento de água para cidades do estado do Rio de Janeiro.  Assim, evita falar sobre o baixíssimo nível de outros reservatórios – como os do nordeste do país.  A ONS é a mesma que atribuiu vários apagões regionais à queda de raios e/ou abriu investigações que nunca levaram a lugar nenhum (ou cujos resultados nunca foram divulgados).

 

 

 

 

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?