Água – Agrava-se a Escassez – Avanços e Mesmices

A crise de água se estende a outros municípios de São Paulo.  Agora, estendeu-se de maneira acentuada a Bauru, gerando protestos bastante preocupantes.  Já são 13 os municípios de São Paulo em que está sendo feito o racionamento de água, que se estende, até agora, a 142 municípios no país., desde a região nordeste até o Paraná, além de Porto Velho, capital de Rondônia.  Isso tudo diante da quase total abulia das autoridades públicas em todos os níveis, apesar de muitos bons exemplos da iniciativa privada para contornar os problemas gerados pela escassez de água.  O ataso tecnológico do Brasil na área de reuso é evidente, mas não justificativa para a inação, em particular quando o pretexto é usado pela maior empresa estadual de águas do país.

Além disso, municípios podem e devem tomar muitas iniciativas para incentivar a captação de água de chuva – até mesmo para evitar a sobrecarga das redes de drenagem – e o reúso dessas águas e de muitas outras.  Afinal, o que um município como Bauru, que tem quase 100% de coleta de esgotos e todo o sistema na administração direta – Departamento de Água e Esgoto – e onde se pretendem implantar estações de tratamento de esgoto em parceria com a iniciativa privada, está esperando para incentivar o reúso e para projetar as novas ETEs já com previsão de reúso?

De fato, apenas como exemplo, na Califórnia, que já experimentou secas de até 50 anos – mesmo antes dos atuais extremos climáticos -, o pensamento e as iniciativas avançam em todas as frentes, desde avanços tecnológicos (ainda que seja com a redução de custos de tecnologias já disponíveis, para disseminá-las – até a implantação de projetos variados mesmo que “apenas” usando um elevado nível de tratamento de esgotos domésticos para a recarga do lençol freático.

Em abril deste ano, o Centro para Ciências de Bacias Hidrográficas da Universidade da Califórnia coordenou um concorrido encontro intitulado “Cúpula da Seca“, numa excelente interação entre cientistas, pesquisadores e autoridades públicas.

“Nós não podemos fazer chover, mas estamos fazendo todo o possível para responder à seca”, afirmou Barbara Allen-Diaz, vice-presidente da Universidade da California para agricultura e recursos naturais.  Já a SABESP contratou, por duas vezes, uma empresa para “fazer chover“.

Lá, os cientistas já avançaram na direção da paleontoclimatologia – o estudo do clima no passado remoto – e recuaram no tempo por 1.000 anos.  A análise das taxas de crescimento e vida das árvores os permitiu saber que no século XII ocorreu uma seca que durou 50 anos.

Mas não ficam por aí!  Um dos cientistas do Centro de Ciências de Bacias Hidrográficas da Universidade da California declarou, durante a Cúpula da Seca que “não conseguiremos fazer com que a Califórnia seja à prova de secas e para conviver com elas teremos que conviver com elas e aprender a tirar o máximo de cada gota de chuva”.

A gestão das águas subterrâneas está entre as prioridades.  “A Califórnia deve começar a pensar na recarga dos aquíferos subterrâneos durante os anos chuvosos” – afirmou Ruth Langridge, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, que está conduzindo estudos sobre a criação de áreas para a recarga desses aquíferos em Sonoma, Monterrey e Santa Cruz.

Na Alemanha, os primeiros sistemas de recarga dos aquíferos subterrâneos começaram a ser projetados logo após a II Guerra Mundial.   Atualmente, já se encontra implantado no município de Orange, na California, um sofisticado sistema desse tipo, conhecido pela sigla GWRS, capaz de abastecer uma população de 600.000 habitantes (para os interessados, vale uma visita à página na internet, clicando sobre a sigla).

A agricultura é a atividade econômica que mais consome água – cerca de 40%, quando considerados os grandes usuários -, mas aí não há mais muito espaço para ganhos de eficiência, já que a maioria dos produtores agrícolas já utilizam sistemas de irrigação por gotejamento.

No Brasil, há muito o que fazer em todas as áreas relacionadas à conservação e ao uso eficiente da água.   O país pode e deve abrir-se mais à experiência internacional e agir em todas as frentes, já que não há uma solução única.

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Para os mais interessados, recomenda-se visitar com regularidade a página da Associação de Reuso de Águ e de sua Fundação de Pesquisa em Reuso da Água.

 

 

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?