Crise e Reuso de Água – A Imprensa Começa a Despertar, as “Autoridades” Prosseguem Letárgicas

Pela primeira vez, optei por transcrever um reportagem integralmente, por sua excelente qualidade.  Talvez a grande imprensa tenha começado a despertar para a falta de políticas públicas de reúso de água e seu potencial.  Mas certamente os altos escalões do poder público continuam imersos em seu usual entorpecimento, omissos, tentando dar a impressão de que não há um racionamento de fato ou mesmo uma crise, tentando passar a impressão de que a responsabilidade é de São Pedro.  Parabéns à jornalista Heloisa Brenha!

 

Com água de reúso, Grande São Paulo teria mais dois sistemas Cantareira, por Heloisa Brenha, na Folha de São Paulo, (infelizmente) na seção Cotidiano, em lugar da primeira página.

 

Na Grande São Paulo, um estoque de água equivalente a dois sistemas Cantareira, capaz de sanar a crise de abastecimento, é ignorado.

Essa é a visão do professor de engenharia hidráulica da USP Ivanildo Hespanhol sobre os cerca de 60 mil litros de esgoto que calcula serem produzidos na região metropolitana a cada segundo.

Uma das maiores autoridades do país em reúso, ele defende que a técnica seja usada para “reciclar” a água, tornando-a própria. Compartilham dessa perspectiva especialistas como a relatora da ONU para a questão da água, Catarina de Albuquerque, para quem é preciso “olhar o esgoto como recurso”.

Editoria de Arte/Folhapress

No Brasil, a água de reúso não é usada para beber, mas para processos como limpeza de calçadas, irrigação de jardins e na produção industrial.

Ainda falta regulamentar seu emprego no abastecimento, como em cidades inteiras de países como EUA, Austrália e Bélgica –muitas delas misturando a água de reúso com a convencional.

“Temos cinco estações que tratam esgoto em nível inicial. Poderíamos completar o tratamento incluindo mais etapas, capazes de tornar a água potável”, diz o professor, que comanda o Cirra (Centro Internacional de Referência em Reúso de Água), da USP.

Ele afirma que só nessas cinco estações, seria possível obter mais 16 mil litros de água potável por segundo para a Grande São Paulo, o suficiente para abastecer cerca de 4,8 milhões de pessoas.

Segundo o professor, não há estimativas dos custos para implantar o reúso potável na região metropolitana, mas cerca de 2/3 dos gastos referem-se à rede distribuidora –que já existe e poderia incorporar a água “reciclada”.

Ele diz que o custo de produção é mais alto –nos EUA, mil litros de água de reúso potável saem por cerca de US$ 3, mais que o triplo da comum– mas compensa se comparado à construção de sistemas de abastecimento.

Para efeito de comparação, o sistema São Lourenço, uma obra de R$ 2,2 bilhões, que trará água de uma represa a quase 100 km da capital, produzirá 4.700 l/s a partir de 2017.

“A tecnologia do reúso já é avançada o suficiente para produzir água limpa e segura para beber. Há parâmetros para controlar sua qualidade, que pode superar a da água captada dos rios”, diz.

Ele cita o caso da represa Billings (zona sul), de onde são retirados 4.000 litros de água por segundo para abastecer a Grande São Paulo –o suficiente para atender cerca de 1,2 milhão de pessoas.

“A Billings recebe esgoto de uma sequência de rios muito poluídos: Tamanduateí, Tietê e Pinheiros. E sua água já é captada para abastecimento”, afirma.

A Sabesp tem gastos altos para preservar a represa e monitorar a qualidade de sua água. Segundo seu último relatório de sustentabilidade, em 2013, foram R$ 48,4 milhões em um programa envolvendo a Billings e sua vizinha Guarapiranga -onde até há remoção de plantas e lixo.

Segundo Hespanhol, a poluição de cursos d’água pode encarecer o tratamento convencional e gerar um “reúso inconsciente e não planejado” em diversas regiões do país.

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Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?