Solar no Brasil – Engatinha, Mas….. Aprenderá a Andar?

O Brasil engatinha na energia fotovoltaica, que difundiu-se bastante em outros países.   Aqui, não temos a tecnologia e nem fábricas de paineis solares.  Nada muito diferente do que acontece com a energia eólica.

Em 2013, de maneira um tanto displicente, o governo realizou um leilão para aquisição de energia de diversas fontes renováveis, mas a energia fotovoltaica não teve sequer chances de entrar na disputa seriamente.  A energia eólica conseguiu um preço médio de pouco mais da metade do valor que viabilizaria a energia solar por mega-watt-hora.

Antecipando-se à expectativa de novos leilões, a Tractbel, do grupo francês GDF Suez, em parceria com outras 12 empresas, implantou, na cidade de Tubarão, em Santa Catarina, a maior usina solar do país até o momento, com capacidade de geração de apenas 3 MW, o suficiente para abastecer não mais do que 2,5 mil residências.  Prevê-se para agosto de 2015 uma central fotovoltaica ainda maior no semi-árido baiano um central fotovoltaica um pouco maior, com capacidade instalada de 4,8 MW.

Apenas para comparação, as quatro maiores centrais fotovoltaicas do mundo têm 290 MW, no Arizona, 250 MW na Califórnia, 210 MW em no estado de Gujarat, na Índia, e 200 MW na China.  Em termos de distribuição percentual por países, em 2013 a Alemanha tinha 27% da capacidade mundial instalada, a China (incluindo Taiwan) 13%, a Itália 12% (os demais países da Europa, excetuados Alemanha e Itália, 19%, os EUA 11%, o Japão 10% e o restante do mundo 8%.

Esses números estão mudando rapidamente, já que Índia e China estão implantando programas muito ambiciosos de energia solar – em grande parte para lidar com a poluição gerada pelas termelétricas a carvão.  Só em 2013, a capacidade instalada de geração fotovoltaica na China ampliou-se em 12.000 MW (muito mais do que a maioria das hidrelétricas brasileiras, cerca de 2/3 da capacidade de Itaipu Binacional).  Sempre é bom lembrar que a Índia, além de colocar satélites em órbita, já colocou um em Marte – ou seja, a diferença tecnológica é devastadora).

Agora, o governo brasileiro marcou para 31 de outubro de 2014, um leilão para aquisição de energia solar fotovoltaica.  Certamente, o governo poderia conceder um prazo maior e exigir que os painéis solares fossem fabricados no Brasil, mas esse tipo de decisão de assegurar a transferência de tecnologia – a prática usual da China à Califórnia, quando se trata de compras governamentais – não consta do contrato elaborado pela ANEEL.  Seria uma boa oportunidade de assegurar a absorção e a disseminação da tecnologia, já que as grandes centrais solares são apenas uma fração do mercado, e painéis mais baratos poderiam ajudar a energizar edificações de todos os tipos com esse essa tecnologia, incluindo as grandes cidades, onde abundam os amplos telhados.

No edital, o governo poderia, também, assegurar que fossem transferidas para o Brasil as melhores tecnologias de fabricação de painéis solares, mais eficientes e com tendências à redução nos custos por unidade de eletricidade gerada (já existem pelo menos 3 gerações de tecnologias para painéis solares), de maneira a que o Brasil não se tornasse um mercado para tecnologias obsoletas ou a caminho de se tornarem obsoletas.

De fato, a possibilidade da micro-geração descentralizada com venda da eletricidade para a rede já existe, mas esse dispositivo do regulamento do mercado de eletricidade ainda não “pegou”.  Sabe-se que na Alemanha, como em outros países, quando o governo decidiu estimular essa fonte de energia cuidou de aspectos econômico-financeiros – como a possibilidade de amortização nos mesmos prazos dados ao financiamento das edificações -, além de incentivos tributários para fortalecer a indústria local.  E, além disso, há necessidade de  treinamento dos instaladores, já que esse custo é bastante significativo na composição do preço final.

Ainda há muito por fazer, e uma grande parcela desse “muito” pode depender dos governos estaduais e até mesmo municipais, com isenções de ICMS (na venda dos painéis e na venda da energia gerada por essa fonte) e de ISS (na instalação).   Estudos recentees mostram que os custos de instalação nos EUA vêm caindo bastante,  mas continuam muito superiores aos da Alemanha.  No Brasil, os vários níveis de governo não gostam muito de isenções tributárias usualmente utilizadas nos países avançados para “criar mercados” para novas tecnologias, talvez porque sequer pensem que tais isenções são concedidas por períodos limitados, ao final dos quais a sua necessidade é reavaliada.

Há que dinamizar o conjunto do mercado e, para isso, os exemplos externos não deveriam ser desconsiderados.  Assim, poderiam ser bastante reduzidos os riscos de “apagões” decorrentes da baixa disponibilidade de água nos reservatórios das hidrelétricas.

Ao trabalho!

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Para os mais interessados, encontra-se disponível um excelente relatório da Agência Internacional de Energia sobre a evolução das tecnologias, tendências e composição de preços da energia fotovoltaica.

 

 

 

 

 

 

 

O preço-teto deve ser divulgado a partir desta semana. “Estamos dispostos a pagar mais caro para desenvolver uma massa crítica em termos de indústria e fornecedores. Assim, à medida que o preço cai, teremos uma estrutura montada”, diz Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), braço de planejamento do Ministério de Minas e Energia (MME).

 

Neste ano, pela primeira vez, o Plano Decenal de Expansão de Energia, que está em consulta pública, incluiu a energia solar na matriz energética brasileira. A previsão é de que até 2023, a capacidade instalada da energia solar no Brasil saia do zero para 3,5 mil MW, de um total de 195 mil MW. Na Alemanha, país que virou referência na geração de energia renovável, a capacidade já supera, hoje, os 25 mil MW.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?