Reuso Industrial de Água e Boas Práticas de Engenharia

Com razoável atraso – o que não impede que se louve a iniciativa -, o governo do Rio de Janeiro prepara medidas relacionadas ao reuso industrial de água.

Mas ainda foca em garantir receitas extras para a Cedae, a Compahia Estadual de Águas e Esgotos que não consegue nem sequer reduzir as suas perdas e não tem especialidade em reuso -, além de dar ao assunto um tom de soluções rapidíssimas incompatíveis com a necessária elaboração de projetos de engenharia.

De fato, não há alternativas do tipo “café solúvel” e as empresas não podem ser forçadas a comprar água de reuso da concessionária – ou seja, água descartada no meio ambiente, depois da remoção de impurezas – sob pena de que seja criado um imenso desestímulo para essa atividade.  Ou o que se quer é fazê-las engolir uma Odebrecht Ambiental da vida como intermediária para cobrar um pedágio ao levar água da ETE Alegria para a Refinaria de Duque de Caxias?

Ao contrário, o objetivo maior, em escala nacional, deve ser impedir que as concessionárias cobrem pela água que devolvem ao meio ambiente, ainda que depois de tratamento.  Esse tipo de impedimento do reuso já aconteceu em Cubatão num momento em que se cogitou da possibilidade da refinaria lá situada usar os esgotos municipais tratados.  À época, a concessionária privada resolveu que tinha direito a cobrar um “pedágio” pelo que até então lançava num rio.  Resultado: projeto inviabilizado e a Sabesp optando por fazer uma nova captação para atender a refinaria.

Já na década de 1990, o reuso de esgotos da Grande Vitória para abastecer as usinas da Vale foi inviabilizado pelo jogo político-partidário, com a prefeitura da capital decidindo cobrar impostos pelo esgoto com o qual nunca havia se preocupado e a própria concessionária estadual preocupada com a possível perda de uma receita demasiadamente fácil, ainda que recebida às expensas da falta de abastecimento em bairros da periferia, mais pobres.

Excelentes exemplos do atraso mental e institucional das partes envolvidas, todas com cartas escondidas na manga, avessos ao jogo limpo e transparente, com prejuízos para o conjunto da sociedade e para a boa gestão dos recursos hídricos.

Para se ter ideia de como podem ser complexos os projetos de reuso de água para fins de utilização em processos industriais, escolhemos três exemplos (todos da mesma empresa de engenharia apenas por uma questão de facilidade na busca na internet).

O primeiro é um projeto implantado na Austrália e que recebeu o nome de Fábrica de Água de Gippsland, envolvendo o reuso de águas de esgotos domésticos e industriais para o abastecimento de uma fábrica de papel e celulose.  Ninguém ali estava pensando em ganhar dinheiro com a tubulação de 78 km, mas com a boa engenharia e com a seleção da tecnologia adequada.  Nada de empreiteiras!

O segundo é um projeto de reuso de água de tratamento de esgotos municipais para o abastecimento da Refinaria de El Segundo, na Califórnia, cuja concepção se iniciou em 1990 e a inauguração se deu em 1994.

O terceiro é um projeto cuja água também se origina de uma estação de tratamento municipal para o abastecimento de uma usina de geração térmica de eletricidade na cidade de Redlands, uma região semi-árida a 80 km de Los Angeles.

Em todos os casos, da elaboração de bons projetos de engenharia até a sua implantação, foram necessários alguns anos.  Não há projetos na prateleira dos supermercados!  Além disso, todos os projetos citados – como de um modo geral ocorre quando se necessita de água para abastecimento industrial – envolveram tecnologias não disponíveis no Brasil, mas que devem ser importadas, como filtração com membranas e similares.

Para reduzir o impacto da seca sobre as atividades industriais, há muitos caminhos e o mais aconselhável começar a pensar em exigir estudos de viabilidade técnica e econômica, com projetos de engenharia de boa qualidade, além da concessão de isenção de impostos sobre os equipamentos importados a serem utilizados no reuso de água (que chegam a resultar em 70% dos preços finais desses equipamentos colocados no Brasil).

Essa isenção pode ser dada por um determinado prazo para que os fabricantes tenham tempo de avaliar a conveniência de fabricá-los no Brasil (até porque a vida útil das membranas não é muito longa e há necessidade de sua substituição periódica).

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Há cerca de 7 meses, o autor deste blog apresentou uma proposta de ante-projeto de lei promovendo o reuso de água.  A adoção desse anteprojeto como base para o projeto que será encaminhado à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro é excelente, ainda que um pouco tardia.

O anteprojeto aqui publicado também foi apresentado a lideranças políticas – estaduais e federais – de Minas Gerais e de São Paulo.  Nenhuma delas se interessou.  Agora, ao que parece, São Paulo começa a despertar.

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Atualmente, a tecnologia permite que uma unidade de tratamento transforme água do Tietê ou do canal do Mangue em água potável, com todos os equipamentos dentro de um container.  Mas mesmo para isso há necessidade de fazer as encomendas antes, e não quando a casa desabar sobre a cabeça de todos.

A dessalinização em grande escala tem um preço muito elevado, incompatível com o abastecimento industrial ou agrícola.  No caso da produção agrícola, o reuso de água é mais aconselhável, seguido de sistemas como irrigação por gotejamento, produção em estufas e hortaliças hidropônicas.  E mesmo para a produção de água potável, a Associação de Reuso de Água dos EUA tem concentrado esforços em modelos de comunicação que levem à aceitação do reuso direto após tratamento com tecnologias similares àquelas utilizadas para a dessalinização.  Em palavras simples, evita-se o custo do bombeamento e transmissão da água produzida por longas distâncias.

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Se vai ser iniciada uma grande campanha para evitar o desperdício de água, que tal começar pelos imensos desperdícios das próprias concessionárias dos serviços?  E por regras mais claras para que todas as concessionárias implantem programas de redução de perdas, com macro e micro medição tecnicamente adequadas?

 

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

2 comentários sobre “Reuso Industrial de Água e Boas Práticas de Engenharia”

  1. Projetos? Qual nada. De repente, um chuveiro de grana e chamam os empreiteiros amigos para fazerem os ante projetos que depois são transferidos para o papel timbrado e licitados, cabendo à empreiteira vencedora elaborar os projetos executivos com folgas para muitos aditivos.

    Fora o que, o principal – e muito forte – obstáculo ao reuso industrial de água hoje são as próprias concessionárias, que temem perder receitas.

    É o culto do atraso!

O que você pensa a respeito?