Dessalinização – Como Reduzir Custos e Evitar o Jogo de Cartas Marcadas

Um dia, do nada, como mágica, alguns órgãos de imprensa são informados de que os governos do Rio de Janeiro e de São Paulo vão implantar unidades de dessalinização.  Para um percentual significativo de incautos, isso pode soar como a salvação através de um salto tecnológico: abracadabra, e a seca estará resolvida.

Esse tipo de anúncio faz lembrar a famosa frase atribuída a Mário Henrique Simonsen: “no caso de certas obras, é melhor pagar a comissão sem realizá-las”.  Sai mais barato.   Sobretudo quando não foram ainda elaborados estudos de viabilidade técnica e econômica.

Na suposição de que essa alternativa seja efetivamente considerada, recomenda-se que os governadores não permitam os usuais editais de cartas marcadas através da especificação do tipo de tecnologia ou do tamanho da experiência prévia.

Afinal, as técnicas de dessalinização vêm avançando bastante e os custos ainda são bastante elevados em decorrência, sobretudo, do alto consumo energético e da necessidades de substituição regular do meio filtrante.

Apenas como exemplos – e sem defender uma tecnologia específica -, entre outubro de 2008 e julho de 2011 a Siemens testou uma nova tecnologia em Singapura, com redução de 50% da demanda energética para a produção de cada metro cúbico de água.  A meta era fazer uma planta de larga escala com essa tecnologia.  Mas as autoridades de Singapura optaram por outra tecnologia, outro fabricante – Hyflux – com larga experiência na entrega dessas plantas já em operação e até mesmo com contratos de fornecimento de água no longo prazo (vale visitar a página da Hyflux).  Da mesma forma, em março de 2014, a coreana coreana LG adquiriu a norte-americana NanoH20, que antes havia conseguido reduzir em 28% o consumo de energia numa planta de dessalinização nas Ilhas Cayman.

Num mercado que se move com essa velocidade e com muitos fornecedores de tecnologia e dos equipamentos, acordar com a notícia de que uma empresa espanhola e outra israelense estão trazendo as melhores soluções é coisa de assessores dos governadores que certamente não conhecem o suficiente sobre o mercado de dessalinização e ainda podem corrigir os rumos.  Para tanto, basta começar designando uma comissão plural participar  da abertura do Congresso Internacional sobre Reutilização e Dessalinização de Água que ocorrerá nos dias 23 e 24 de março no Rio de Janeiro, com a missão de organizar uma reunião com os especialistas e representantes dos fabricantes de sistemas de dessalinização.

Afinal, são os consumidores e os contribuintes que pagarão a elevada conta da água dessalinizada, se esses projetos vierem a ser implantados.

Além disso, é fundamental que além dos custos de capital sejam estimados os custos operacionais ao longo de pelo menos 10 anos (com esses custos trazidos ao valor presente).

Isso para não falar nos custos do bombeamento a longas distâncias e  da elevação da coluna d’água até a Região Metropolitana de São Paulo, que só pode interessar a empreiteiros amigos sem compromissos com o interesse público.

Em ambos os casos, a distribuição de uma água tão mais cara e com alta demanda energética através das redes das concessionárias resultará nos mesmos níveis de desperdício atuais – grosso modo na faixa de 40%, se incluídas as áreas de baixa renda onde não há sequer a cobrança e, portanto, qualquer incentivo para o uso eficiente da água.

Considerados esses “detalhes”, é importante divulgar os termos do edital para comentários e não requerer apenas o prazo mínimo previsto na legislação para a apresentação de propostas.  O prazo mínimo é apenas o mínimo, e os vários fornecedores da tecnologia e dos equipamentos certamente necessitarão de algum tempo para apresentar os seus projetos executivos – atenção, senhores governadores, nada de rabiscos denominados “projetos básicos” ou “projetos conceituais” usualmente utilizados nos editais dos serviços públicos.

Que tal uma audiência pública, nesses tempos de turbulência com grandes empreiteiras, quando a maior transparência se faz imprescindível?

***

Uma excelente precaução é a opção por um edital do tipo “chaves na mão” (turnkey ou EPC, na sigla em inglês), sem margens para as usuais mutretas dos faturamentos por medição e aditivos contratuais.   Se os governadores e quem lhes sugeriu esse caminho para gastar dinheiro rapidamente não quiserem mesmo fazer os estudos de alternativas, talvez valha um contrato de longo prazo para o fornecimento de água diretamente com os fornecedores dos equipamentos, de maneira a evitar os riscos tecnológicos e de má operação pelas concessionárias.

Mas, sem dúvidas, diversas alternativas não devem ser desconsideradas: (a) redução de perdas, (b) utilização de água do lençol freático, (c) promoção massiva do reuso pelos usuários finais em todas as classes de consumo e (d) captação e tratamento de águas superficiais ainda quando muito poluídas – como é o caso do rio Tietê -, (e) sistemas de contenção e redirecionamento (bombeamento) de águas de chuvas que inundam as cidades, e (f) implantação de medidores (hidrômetros) eletrônicos que detectam até mesmo pequenos vazamentos internos e possibilitam a gestão mais eficiente da água distribuída pelas concessionárias.

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

3 comentários em “Dessalinização – Como Reduzir Custos e Evitar o Jogo de Cartas Marcadas”

  1. Acertou na mosca! Político, neste país, detesta soluções baratas e eficazes e concorrência. Abominam Audiências, ainda mais se públicas e obrigatórias. Exterminam gente inteligente e informada. Continue a colocar a boca no trombone e na imprensa.

  2. Várias excelentes ideias. Porém, nossos governantes não se mostram interessados ou capazes de implantar uma sequer. Assistem inertes os problemas se avolumarem, como se estivessem no cinema vendo um filme e nada tivessem com aquilo.

  3. No caso da dessalinização – inicialmente proposta pelo novo presidente da SABESP quase como um fato consumado -, sem chances de ser uma excelente ideia; apenas um jogo de cartas marcadas. Sem estudos. sem projetos, com total descaso pelo potencial de aproveitamento do aquífero Guarani, sem estimativas de custos de implantação e de operação, nada. Apenas uma tentativa de dar um “tiro curto”.

O que você pensa a respeito?