Reuso de Água Avança em São Paulo

As boas notícias na área de gestão de águas são da Sabesp (aqui ou digitando a palavra reuso na área de busca da página da empresa), com avanços na área de reuso dos esgotos de suas estações de tratamento.

Esse processo já vem caminhando há cerca de 15 anos, quando a empresa contratou uma multinacional de engenharia com atividades já consolidadas no Brasil, para uma avaliação das potenciais melhorias a serem introduzidas nas estações de tratamento de esgotos da Região Metropolitana de São Paulo bem como do potencial de reuso para o abastecimento de indústrias.  O relatório final desse trabalho foi entregue em 2002, mas ficou adormecido nas gavetas até que os trabalhos de reuso de água se iniciaram objetivando o abastecimento do Polo Petroquímico do ABC – Brasken/Odebrecht + Petrobras -, projeto cujas operações se iniciaram ao final de 2012.  (Sem a obrigatoriedade de uma contabilidade claramente separada, a Odebrecht contrata a sua própria subsidiária – Foz – para implantar e operar o sistema, e a Petrobras paga parte da conta.)

Há cerca de um ano, a mesma empresa de engenharia foi novamente contratada para fazer uma revisão ampliada do estudo anterior.  Como no caso anterior, a discrição é imensa: os resultados do primeiro estudo nunca foram amplamente divulgados, assim como a contratação do segundo (apesar de ambos terem sido contratados segundo as regras da licitação pública).  Pena!  Ambos poderiam resultar numa grande contribuição para a conscientização das concessionárias de água e esgoto no Brasil, com a disseminação de iniciativas similares.

Com a recente “crise hídrica” atingindo São Paulo e Rio de Janeiro, entre outros estados, novas abordagens e iniciativas vêm sendo anunciadas pela Sabesp, sempre com o usual badalo das altas autoridades (ainda quando elas não entendam nada do assunto e o nome dos profissionais envolvidos permaneça na penumbra).

É uma pena que as concessionárias desses serviços públicos avancem – ainda que lentamente – na direção do reuso de água de suas estações de tratamento mas não estimulem o reuso interno nas indústrias, nos estabelecimentos comerciais e nas edificações residenciais com medo de perderem receitas.  Com a palavra, então, as autoridades encarregadas da gestão integrada de recursos hídricos – não para promover mais burocracia, mas para incentivar o reuso interno de águas, incluindo a captação de águas de chuvas.

Grandes indústrias, como a Companhia Siderúrgica de Tubarão – CST fizeram os primeiros estudos e projetos de reuso de água no Brasil já na década de 1990, pouco tempo depois de sua privatização.  Os indicadores de reuso interno de água na CST mostram percentuais que já atingiam 95,7% em 2001, subindo para 97,5% em 2003.

Seria muito bom se indústrias que vêm cada vez mais adotando essa prática, assim como empresas de engenharia com alto grau de especialização no assunto, fornecedores de equipamentos, associações de classe e as próprias concessionárias ou órgãos prestadores diretos de serviços públicos de abastecimento de água organizassem a primeira associação de reuso de água do Brasil para divulgarem as suas experiências, a exemplo do que já existe nos EUA (em muitos estados e nacionalmente), na Alemanha, na Austrália e na União Europeia – de maneira a dar uma contribuição decisiva para a sustentabilidade e boas práticas de gestão de nossos recursos hídricos.

Também a Associação Internacional de Água tem um Grupo de Especialistas em Reuso de Água, com 2.700 membros.

Programas de cooperação técnica com uma ou mais dessas entidades têm grande potencial de alavancagem do setor no Brasil.

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O que está sendo feito em São Paulo ainda está longe das melhores práticas de gestão integrada de águas, como recarga dos aquíferos subterrâneos, já feita há décadas nos EUA e na Alemanha, e que inclui a contenção de cheias, ou o reuso direto para a produção de água potável, que já ocorre no Texas e logo ocorrerá na Califórnia.  De fato, não existem mais obstáculos tecnológicos para este último tipo de reuso.

E, resta saber, quais dentre as muitas coisas anunciadas pela Sabesp e pelo governo do estado de São Paulo serão efetivamente implantadas.  Porque, no momento, só mesmo o rodízio do abastecimento, não declarado e apenas silenciado com a cumplicidade da grande imprensa.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?