O Ano Mais Quente Desde 1880 e a Necessidade de Políticas de Segurança Hídrica e Energética

Julho de 2015 foi o mês mais quente da história desde os inícios das medições, em 1880.

A informação consta da página da Administração Nacional dos Oceanos e da Atmosfera (NOAA, na sigla em inglês), o mais importante centro de monitoramento e previsão do clima dos EUA.

O período compreendido entre janeiro e julho deste mesmo ano também teve as temperaturas mais elevadas dos mesmos períodos desde 1880, ultrapassando o recorde anterior, que ocorreu em 2007, com um aumento de 0,85° C acima da média do século XX (para o mesmo período).

No mapa múndi da NOAA, abaixo, as regiões onde foram alcançadas temperaturas recordes (incluindo os oceanos), com os tons do rosa ao vermelho indicando temperaturas superiores à média, muito superiores à média e recordes.

Temperatures 2015

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como é fácil visualizar, quase todo o Brasil enquadrou-se numa dessas três categorias.

As mudanças climáticas colocam-nos diante da necessidade de elaborarmos planos de segurança hídrica, energética e alimentar, entre outros necessários a uma sociedade de transição.  Como, aliás, há muito já vêm fazendo os países sérios.

Algumas observações sobre o planejamento brasileiro – ou a falta de planejamento – para as mudanças climáticas merecem ser feitas.

Em primeiro lugar, o fato de que o poder público não parece consultar o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos – CPTEC, que é o órgão do governo federal mais qualificado nessa área e que mantem informações bastante atualizadas sobre as temperaturas e as probabilidades de chuvas – abaixo do normal – para os próximos meses.  Talvez o poder público não goste de notícias “ruins” e, em consequência, finja que elas não existem.  Ou essa atitude será reflexo de uma espécie de pensamento mágico primitivo, do tipo “se não falarmos em notícias ruins, nada de ruim acontecerá”?   Então, a opção de acreditar nas “meninas do tempo” das televisões, com previsões de quinta categoria e só para os próximos dias.

Informações sérias, consistentes, são extremamente úteis em muitas áreas e para o conjunto da economia, do planejamento energético ao abastecimento de água, da produção agrícola à ocorrência de enchentes com suas consequências frequentemente devastadoras.

Em segundo, mas não menos importante, ao que tudo indica os governadores dos estados – em particular de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais – parecem mais inclinados a perguntar aos presidentes das concessionárias estaduais de serviços de abastecimento de água e coleta de esgotos se há uma “crise hídrica”, ou se ela se agravará, e que obras públicas podem ser feitas para evitar o racionamento de água.  Nada de investimentos em tecnologias que permitam reduzir as imensas perdas nos sistemas de distribuição ou estimular de maneira drástica o reuso, nem mesmo no setor privado (reuso que essas mesmas concessionárias seguramente vêem como um imenso risco de perda de suas já combalidas receitas (por má gestão mesmo).  Que se dane o interesse coletivo e os impactos da falta d’água sobre a economia!

Note-se que modernamente a expressão reuso de água não se limita à recirculação interna nas indústrias e edificações, mas estende-se à recarga de aquíferos, na irrigação para a produção agrícola.  Mas as concessionárias não avançam, não querem avançar, são comandadas por indicações político-partidárias de cultura gerencial e tecnológica extremamente limitadas.

Em terceiro, o fato de que a Defesa Civil em geral – em todos os níveis – ainda não parece informada de que, desde janeiro de 2014, a NASA lançou e colocou em operação um sistema que informa – não apenas prevê – a ocorrência de chuvas, entre outros fenômenos, em todo a planeta a cada três horas, mesmo em pequenas quantidades.   Os benefícios para a população podem ser imensos se as autoridades públicas resolverem ligar o tico e o teco, investir um mínimo e disponibilizar esses dados para todos os governos estaduais e municipais.

Propor uma mudança de atitude, uma atualização de procedimentos, a humildade de consultar que pode fornecer as informações – como o próprio CPTEC – seria pedir muito?  Ou a turma por aqui vai preferir continuar cada um com o seu cada qual, comprando e operando radares antiquados que dão informações quando a inundação já devastou toda uma região?

Em qualquer situação, é urgente que o Brasil – e os estados não precisam ficar esperando pela União e sua abulia – tenha políticas de segurança hídrica e energética.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?