Samarco e o Mar de Lama do Governo de Minas

O mar de lama da irresponsabilidade socioambiental originado nas precárias barragens de terra da Samarco talvez sirva de alerta às autoridades ambientais federais e estaduais para a necessidade de mudanças radicais na permissividade que é a marca registrada dessa “solução” para a estocagem de resíduos tóxicos e água contaminada.

Antes de passarmos aos fatos, vale ressaltar que ambas as multinacionais sócias dessa empresa localizada no Espírito Santo têm, em suas páginas na internet, áreas sobre gestão ambiental responsável: BHP Billiton e Vale.  Talvez apliquem esses princípios e diretrizes em países sérios.

Essas barragens já deveriam ter sido abolidas há muito!  E a transição para o respeito as normas em vigor no Brasil torna-se ainda mais necessária num ciclo de adaptação à escassez de água e às mudanças climáticas.

As normas brasileiras estabelecem que as atividades poluidoras devem tratar as águas de descarte contaminadas e não acumulá-las em barreiras precárias para disfarçar o seu descumprimento.  E certamente a Samarco não lança aquela lama no oceano, no outro extremo do mineroduto, exatamente porque existem normas de lançamento.  A acumulação em barragens é apenas um engodo.

Com os avanços tecnológicos, há muito existem boas alternativas de tratamento.

Um exemplo pode ser encontrado na iniciativa de outra mineradora, em parceria com a firmeza das autoridades da África do Sul, que levou ao tratamento de toda a água ácida das minas ao nível de abastecer parte da população de uma cidade em parceria com a prestadora local de serviços, com benefícios econômicos e financeiros para todos.

A tecnologia, hoje, permite qualquer coisa em matéria de tratamento de água, com preços competitivos quando comparados com os tratamentos convencionais ainda amplamente utilizados no Brasil.

O vídeo diz tudo, mas como só há a versão em inglês, aqui vão as principais informações:

A água altamente ácida e contaminada tinha um alto potencial de contaminar os aquíferos subterrâneos e os rios.  E quando a decisão foi tomada, já se encontravam acumulados nos subterrâneos das minas de carvão algo como 140 milhões de metros cúbicos dessas águas.

Como a África do Sul tem regras estritas e as aplica à perpetuidade, isto é, para sempre e mesmo depois de encerradas as atividades de qualquer tipo que contaminem o meio ambiente, a Anglo American sabia que não podia descartar essas águas nos rios mais próximos e que os riscos de extravasamento em decorrência das águas de chuvas/escorrimento superficial eram grandes.  Então, chamou uma boa firma de engenharia (nada de empreiteiras, por favor, estas não têm e não gostam da boa engenharia).

Como a Província de Mpulanga – a 150 km de Joanesburgo – e, em particular, a cidade de eMahaleni defrontavam-se com frequentes crises de falta de água, depois de feitos os primeiros estudos técnicos a Anglo American resolveu transformar um passivo num ativo: tratar a água até o nível da potabilidade e disponibilizá-la para a cidade.  Com uma estação de tratamento projetada com as melhores tecnologias disponíveis, passou a disponibilizar 25-30 milhões de litros de água pura para a municipalidade, com cerca de 400.000 habitantes.

Com essa iniciativa, a Anglo American atende, hoje, a cerca de 12% da demanda de água da cidade.

Como se não bastasse, a Anglo American passou a vender serviços de tratamento de água para a BHP Billiton – uma das sócias da Samarco -, que também opera minas nas proximidades.

Somadas essas duas receitas, a Anglo reduziu em 60% dos custos da estação de tratamento, que teria que ser construída de toda forma para evitar o passivo e um potencial desastre ambiental.

Como o governo de Minas Gerais vai provavelmente ficar onde sempre esteve quando se trata de atividades de mineração, isto é, na total apatia, refém de interesses privados em detrimento dos sociais, cabe ao Ibama enviar ao Conselho Nacional de Meio Ambiente – CONAMA um projeto de Deliberação estabelecendo parâmetros para o reuso das águas de todas as mineradoras, mesmo para aquelas já instaladas e em operação.  Assim, assegura-se o controle da poluição das águas superficiais e subterrâneas, evitam-se novos “acidentes” com perdas de todos os tipos, e garante-se um suprimento adicional de água em tempos de escassez.

Não há absolutamente nenhuma razão para esperar os resultados dos estudos atualmente contratados pelo ministério das Cidades com uma multinacional de engenharia para formular uma política nacional de reuso de água.

O regulamento pode ser elaborado e aprovado em semanas.  Até mesmo pelo governo de Minas Gerais, se houvesse vontade política.

***

Qual foi mesmo a punição aplicada à Samarco – além da reparação dos danos – quando há dois anos um um furo em seu mineroduto contaminou o rio que abastece Espera Feliz, na Zona da Mata Mineira.  A empresa ganhou um prêmio de excelência na gestão ambiental pela qualidade de suas operações de manutenção preventiva?

Mas, vale dizer, todas essas barragens devem ser substituídas aos poucos pelo tratamento das água e disposição adequada dos resíduos.  Antes que o minério acabe e o contribuinte brasileiro que sustenta padrões de mesmice governamental tenha que arcar com a reparação dos danos, além da perda de patrimônio ambiental, paisagístico, pessoal e muito mais.

 

 

 

 

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?