Carta aos Mineiros – Lições da Devastação Causada pela Mineração na África

O jornal inglês The Guardian publicou recentemente uma reportagem fotográfica sobre a devastação causada pela indústria de mineração na África do Sul.  A reportagem e as fotos resultaram num post que se destinava a alertar os brasileiros, e em particular os mineiros – já que o governo mostra-se um tanto lerdo ou mesmo conivente com as mineradoras – sobre os riscos da estocagem de resíduos de mineração em barragens, sem o devido tratamento da água.

O post foi removido porque a fotógrafa protestou contra o uso de suas fotos – com os créditos – em decorrência do fato de duas ou três fotos suas terem sido retiradas da reportagem e colocadas no corpo do post de modo a tornar os danos mais visíveis para os leitores deste blog que não dominam o idioma inglês  A autora  protestou contra a violação de seus direitos autorais – ainda que este blog não tenha nenhum objetivo comercial ou patrocinador.  O post foi removido, mas as imagens publicadas pelo The Guardian podem ser vistas aqui.  A reportagem intitula-se “Como os rios ácidos estão corroendo a paisagem sul-africana – em fotografias”.

Aparentemente, a fotógrafa super-valorizou o seu trabalho, já que o mesmo jornal já publicou muitas reportagens sobre os graves danos aos recursos hídricos e aos solos – além dos seres humanos, é claro – causados pela mineração na África, e com muito maior abundância de informações (não apenas fotográficas), como se pode ver em “Poeira, Tuberculose e AIDs – A Face Feia da Mineração na África do Sul“, de maio de 2015.

Documentários sobre essa devastação provocada pela mineração irresponsável – na maior parte das vezes estrangeiras e que nunca fariam o mesmo em seus países de origem – também podem ser encontrados no YouTube, como o que está abaixo.

Agora, tardiamente, o “governo” de Minas Gerais fala em alterar algumas normas relativamente irrelevantes da construção de barragens, com um ilustre alguém discutindo se as barragens devem ser à montante ou à jusante de alguma devastação causada pela mineração.   Com os transbordamentos do ego tão difundidos no Brasil, o subsecretário de alguma coisa na área da “gestão ambiental” discorre sobre os seus pontos de vista para dar a impressão que está inovando em alguma coisa, quando a questão central seria mesmo barragens X tratamento de todas as águas residuais e posterior recuperação das áreas devastadas pela mineração.

Enfim, que Minas Gerais se prepare pela continuidade da mesmice mascarada em inovação também nessa área, com a continuidade das diversas metástases do câncer que é a conivência mal disfarçada dos carguinhos políticos: a devastação dos recursos hídricos, das terras marcadas por cicatrizes e sem planos claros de recuperação – com metas e garantias financeiras -, dos balanços medíocres de “riscos maiores X riscos menores” de acidentes.

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Enquanto isso, o Ibama se masturba com o anúncio de análises químicas da lama que chega ao sul da Bahia e, potencialmente, em Abrolhos.  O acompanhamento do lamaçal pode ser feito, retroativamente, com imagens de satélites e – em caso de tempo nublado – deveria ter sido feito, desde o início, com traçadores variados amplamente utilizados em estudos de engenharia costeira (estudos sérios, é claro, e não improvisados, nas coxas, ao gosto do cliente). além do acompanhamento in loco, com embarcações de pesquisa adequadas.

A “africanização” de Minas Gerais e do Brasil parecem inevitáveis nessa caminhada auto-confiante e pretensiosa em direção ao subdesenvolvimento moral, administrativo e tecnológico.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?