Tarifas de pico e fora do pico na energia elétrica – o Brasil avança ou a ANEEL coloca a mão no freio?


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Sem sombra de dúvidas, a adoção da assim denominada “tarifa branca” pela ANEEL representa algum avanço, ainda que tardio, de implantação lenta, e sem especificações mínimas sobre que tipos de medidores de eletricidade serão adotados.

Além disso, de um modo geral, o populismo prevalece e tenta-se vender a iniciativa como de interesse apenas do consumidor, e não do conjunto do sistema elétrico, da nação (se esse conceito ainda existe no país) ou, em particular, das concessionárias (tal é a elevação das tarifas nos horários de pico).

Afinal, a arrecadação das geradoras e das concessionárias de distribuição aumenta, permanece estável… ou a ANEEL vende gato por lebre ao afirmar que os consumidores serão beneficiados (se deixarem para tomar seus banhos com chuveiro elétrico  ou usarem suas máquinas de lavar roupa depois das 10 da noite, apesar de terem que acordar às 5 da manhã)? Alô, alô, ANEEL, queremos os números, as planilhas, ainda que com estimativas.

Aos fatos!

De início, vale dizer que esse tipo de tarifação requererá medidores inteligentes (smart meters), que não são nenhuma novidade nos países mais desenvolvidos onde já foram adotados para a medição de eletricidade, água e gás.

A função original dos medidores inteligentes foi a de reduzir os custos operacionais das prestadoras de serviços, evitando a necessidade de enviar alguém fisicamente para fazer as medições: os medidores enviavam sinais com as informações que eram capturados de variadas formas.  Então, o benefício primeiro é da concessionária e não há nada de errado nisso se os ganhos de eficiência forem repassados para as tarifas, ao menos em parte.

Além disso, existem dois tipos básicos de smart meters: os que enviam os sinais para as prestadoras de serviços, basicamente para fins de leitura, e os que enviam os resultados das medições nos dois sentidos, isto é, também para os consumidores, em intervalos previamente estabelecidos.  Evidentemente, estes últimos apresentam maiores benefícios para ambos os lados, já que permitem a operação de redes inteligentes (smart grids), com o repasse das informações para os geradores de energia elétrica.

Para fins de melhor compreensão, a sigla em inglês dos medidores mais simples, orientadas para a economia das prestadoras de serviços, é AMR – correspondente a Medição Automática; estes, são medidores de “mão única” e, nos EUA, cerca 30 milhões desses modelos já estavam em operação em 2007 (assim, temos uma ideia de grandeza do atraso tecnológico das concessionárias brasileiras e da ANEEL).

Já os medidores que operam nos dois sentidos e permitem aos consumidores e às concessionárias uma total interação através da troca de informações são conhecidos, na sigla em inglês, como AMI – sigla correspondente à Infraestrutura de Medição Automática, já que permitem a otimização de toda a infraestrutura de distribuição de energia elétrica, gás ou água.

A evolução do uso desses dois tipos de medidores pode ser vista no gráfico abaixo (o gráfico é da Administração de Informações sobre Energia, do governo norte-americano).

ami-x-amr_meters

 

 

 

 

 

 

 

Em palavras diretas e simples, se o Brasil – no caso excepcionalmente representado pelo governo federal e pela ANEEL – não quer ampliar ainda mais o fosso que separa o setor de energia elétrica aqui e nos países avançados, essa é uma grande oportunidade de catapultar a gestão dos sistemas para um estágio superior de planejamento, engenharia e tudo o mais.  Os AMI – a Infraestrutura de Medição Automática permite saber em que áreas da rede há necessidades de investimentos e melhorias, que quantidades de energia devem ser despachadas em cada horário, e muito mais.

Se não, o país será recipiente de uma tecnologia que está sendo rapidamente ultrapassada.

Finalmente, uma observação: não dá para saber por que razões a ANEEL está dando prazos tão amplos para que tais sistemas de medição sejam instalados: início de 2018 para as residências e o comércio com consumo superior a 500 Kwh/mês (kilowatt hora por mês), em 2019 para aqueles com consumo superior a 250 Kwh/mês, e só em 2020 para os demais, quando o consumo médio do Brasil é de 150 kWh/mês.

Algum acordo de bastidores com fabricantes estrangeiros com capacidade ociosa ou com fabricantes nacionais que optaram por investir no avanço mínimo em lugar do salto tecnológico?

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Vale ressalta que esse tipo de medição mais avançada poderia ser utilizado,  também, para as concessionárias de água.  Mas elas não querem, com medo de perder receitas, ainda que tais medidores sejam indispensáveis para reduzir os riscos de escassez e gerenciar as perdas.  São medíocres mesmo, porque estão perdendo imensas receitas por não substituírem os medidores de consumidores de médio e grande porte, sabem disso e não tomam qualquer iniciativa.

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?