Rocinha e São Conrado – O Abandono no Rio de Janeiro


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Tudo bem, reduzir despesas é fundamental na situação em que se encontra o poder executivo em todos os níveis.  Mas há, também, que dinamizar a economia – e não apenas ou nem principalmente através das taxas de juros.  Boas políticas públicas não dependem necessariamente de investimentos diretos.  Em todo caso, enquanto se espera pelo fim da crise, que tal produzir projetos de boa qualidade, que não saiam de negociações espúrias com empreiteiras que desprezam a engenharia e querem mesmo é colocar mais concreto e faturar por mais metros cúbicos de escavação?

São Conrado, uma das mais belas praias do Rio de Janeiro, estão completamente abandonada e frequentemente imunda.  Ali, naquele trecho da cidade encravado entre o Leblon e a Barra da Tijuca, há condomínios, hotéis e um shopping de alto luxo, além de um dos mais notáveis clubes de golfe da cidade.  Mas todos esses fingem que não vêem – ou não veem mesmo – o que se tornou a praia que é o maior patrimônio coletivo e que valoriza os seus patrimônios individuais: o lixo e o esgoto que descem da Rocinha.

A seguir, imagens filmadas por um morador da Rocinha que resolveu mostrar São Conrado em todo o seu esplendor – nos amanheceres de mar calmo, com surfistas -, sem ocultar as suas misérias.  As imagens, gravadas por Marcello Farias, um brilhante sniper da beleza e do abandono, mostra um dia de chuvas fortes na Rocinha.

Como sobre essas coisas os “ambientalistas” não costumam falar e o poder público se omite, vale mostrar para onde descem as águas do esgoto – que escorre pelas ruas ou outros caminhos – e das águas de chuva da Rocinha: justamente num canal que já foi um riacho e hoje é um valão

 

 

 

 

 

 

 

Para que todo esse esgoto não desaguasse diretamente em frente ao Hotel Nacional e à vista de todos, o “poder público” escavou na rocha um canal para que fazer com que não ficasse visível.

Abaixo, Marcello Farias, autor de uma bela página no Facebook intitulada “Salvemos São Conrado”, mostra as consequências desse mascaramento desavergonhado e canalha.

As areias da praia também ficam imundas depois dessas chuvas e logo que animais mortos, seringas e muito mais é trazido de volta pelo mar.

Evidentemente, só um cretino colocaria a responsabilidade por isso tudo nos moradores da Rocinha.  Ah, sim, Marcello ressalta que é importante descartar o lixo em locais apropriados.  Por locais apropriados deve-se entender recipientes em número suficiente, não demasiadamente distantes um dos outros, com capacidade suficiente e coleta regular (ainda que através de algum mecanismo inovador de transporte até os caminhões).

Quanto aos esgotos, vale dizer que no passado, ali na base da Rocinha justamente pela vertente de São Conrado, construiu-se uma “estação de tratamento” em tempo seco.  Assim se denominam as estações de tratamento que coletam e tratam os esgotos nos dias em que não chove e, por padrões de engenharia mais sérios, com capacidade de reter – num sistema qualquer de estocagem, em alvenaria mesmo – a chuva que leva as ruas e as galerias de águas pluviais nos primeiros 15-20 minutos de chuvas máximas, para depois encaminhar essas águas ao tratamento.

A geringonça foi construída aí pelo início dos anos 2.000, sem as usuais badalações que cercam esse tipo de obra.  Não se tem notícia de que a tal estação tenha operado nem por um dia sequer.  E o Ministério Público estadual encarregado do meio ambiente nunca questionou nada e nem ninguém.  O dinheiro teria sido melhor empregado se empacotado e distribuído aos moradores.

Um mínimo de investimento em projetos – um conceito, ao menos, de urbanização – de saneamento básico com boa engenharia seria recomendável (só não vale chamar as grandes empreiteiras que desprezam as boas práticas de engenharia para colocar mais concreto e fazer mais escavações, faturar pelo uso de mais horas de máquinas).

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Essa é uma boa oportunidade para o prefeito Marcelo Crivella que agora assume e cuja campanha se baseou no slogan “é preciso cuidar das pessoas”.  Ou a turma de meio ambiente dele vai cuidar de pets? … já que a secretaria de meio ambiente da administração de Eduardo Paes não fez absolutamente nada de relevante!

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Num país sério, os ricos moradores de São Conrado, os proprietários do shopping (um fundo de investimento sem nenhum compromisso com nada?), os frequentadores do Gávea Golf Country Club (que poderia perfeitamente ter recebido as competições dessa modalidade nas Olimpíadas do Rio) e outros já teriam feito um fundo para a contratação desses projetos e aberto negociações com a prefeitura.

Quanto aos esgotos, já é tempo de não esperar mais nada da super-falida empresa de saneamento do “governo” do estado.

 

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?