Parque Nacional da Tijuca transforma-se aos poucos em mais um parque que afasta visitantes


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A entrevista abaixo foi dada no dia 19/02/2017. com foco no abandono crescente – intencional ou por omissão – que vem marcando a atual gestão do Parque Nacional da Tijuca.

No caso, os “gestores” antiquados apropriam-se aos poucos, sub-repticiamente, de um patrimônio público, transformando-se em latifundiários de um tipo de sonho ultrapassado: uma natureza intocada e um paraíso perdido, frequente nas mitologias humanas.

Durante a entrevista, concentramo-nos em dois aspectos: (a) a rápida redução da visibilidade dos mirantes, em particular da Vista Chinesa e da Mesa do Imperador e (b) o fechamento progressivo de restaurantes que durante décadas funcionaram dentro do parque.

Abaixo, uma imagem da Vista Chinesa, bastante próxima daquela que consta do tal “Plano de Manejo” do “Parna“, na página 276.

 

 

 

 

 

 

 

Até o nesse documento, a Vista Chinesa é descrita como “um dos mais belos mirantes do Parna Tijuca”.  Mirante é um local destinado à observação de uma paisagem.  Pois bem, com a obsessão ou a preguiça de não se tocar em árvores, o “mirante” tornou-se isso que se pode ver abaixo (à exceção da anterior, todas as imagens são de registro pessoal, não profissional).

A vista dos cantos esquerdo e direito já desapareceu e a da parte central será tomada pela copa das árvores muito bem breve.

Já na Mesa do Imperador, área edificada para uso da família real em decorrência de sua deslumbrante vista, esta já foi ocultada bastante mais pela omissão e descaso ou pela mal disfarçada vontade da gerência do Parque Nacional da Tijuca de canonizar as árvores, como se pode ver abaixo.

E agora, o que mais falta para caracterizar esse tipo de abordagem que afasta pessoas do parque, ainda que mal mascarada em dificuldades de preparar um novo edital de concessão ou projeto?  (Comparar com o que levou anos para ser feito nas Paineiras, área de intensa visitação decorrente do Cristo Redentor, não vale; ou vale para mostrar que é possível).

Logo nas proximidades da entrada do parque existe a Cascatinha da Tijuca, onde viveu Nicolas-Antoine Taunay.  Para os mais interessados vale uma curta pesquisa sobre esse ilustre pintor francês.  Muito mais tarde, ali foi feita uma edificação que se transformou no Restaurante Cascatinha, em frente ao estacionamento, onde as pessoas que se banhavam logo abaixo, num pequeno lago, podiam comer um sanduíche ou mesmo uma refeição mais simples.

Pois bem, o restaurante foi fechado há cerca de 4 anos, o prédio encontra-se abandonado, com o reboco externo caindo e as janelas de madeira sem um mínimo de manutenção.  Sem o papo de que ali se pretendia instalar um “centro de recepção de visitantes”.  Os centros de recepção desse tipo têm, quase sempre, odor de mofo e nele só se encontram alguns míseros panfletos sobre bichinhos que não se podem ver.   E nada do tal centro.

No início dessa filmagem pode ser vista a pequena loja de souvernirs onde se compravam camisetas e cartões postais e que, agora, transformou-se num depósito de material de limpeza.  Quanta mediocridade!  Logo depois, as imagens do prédio onde por tanto tempo funcionou o restaurante Cascatinha.

Essa é a concepção predominante na gestão de parques do ICMBio  até mesmo antes de sua criação, da gestão de parques no Brasil: nada de gente e nada de infraestrutura para o convívio das pessoas com a natureza.  Essa abordagem é também adotada pela quase totalidade dos órgãos estaduais, com a sua infinidade de “parques de papel” (como são conhecidos os parques brasileiros no exterior).

Por fim – mas sem esgotar o assunto – também deve ser fechado em breve o mais tradicional dos restaurante, Os Esquilos (assim como o outro, o Restaurante Floresta).  As imagens abaixam mostram o abandono dos marcos históricos e da clássica case onde ainda funciona o restaurante.

No caso do Parque Nacional da Tijuca não se pode argumentar falta de recursos financeiros, tendo em vista a imensa obra de recuperação do Açude da Solidão feita há poucos anos (sem informações sobre a destinação das grandes quantidades de sedimentos dele retiradas).  Quem definiu essa prioridade e por que a obra foi feita quase às escondidas, com a proibição do acesso de pessoas à área tão logo o autor deste blog foi alertado de que não poderia tirar fotografias da mesma.

Nenhuma diretriz emanada de Brasília – mesmo depois de tantos estudos e badalados seminários sobre a participação privada nos parques brasileiros com o objetivo de promover o convívio com a natureza e algum grau de sustentabilidade financeira!  Nenhuma cúpula, por mais inovadora que seja, resiste ao bolor e às traças organizados dos “gestores de parques” brasileiros.

Quem perde com isso tudo são os interessados no convívio com a natureza, os parques, e a administração pública que encara os parques como uma fonte de despesas e não de receitas mínimas.  Talvez a turma esteja querendo apenas cobrar ingressos, e para isso estão fazendo a contagem de visitantes.  Talvez prefiram aqueles horrorosos jeeps de empresas amigas com turistas vestidos como se estivessem indo visitar uma selva…

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Logo após a entrevista que abre este post, a Band telefonou para a administração do parque para saber se ela queria se manifestar.  Não quis.  Preferiu impor os seus temas e no dia seguinte plantar reportagens nos meios de comunicação mais conservadores sobre a necessidade de mais “guarda parque”.  Ora, ora!  O latifundiário de terras que pertencem ao patrimônio público não se digna a falar sobre assuntos que o podem incomodar.

Em plena época de fiscalização com drones – mais efetivos e menos dispendiosos porque podem orientar a direção que os guardas devem tomar em tempo real =- querer apenas mais guardas e veículos é mais um sinal de pensamento arcaico. Ou de interesses comuns com a empresa terceirizada para o fornecimento desse tipo de serviços.

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Imagens do descaso com as áreas comuns de visitação abundam.  Abaixo, apenas uma entre muitas, para não fazer com que esse post fique demasiado longo: uma escada na Mesa do Imperador, de onde os dois imensos bancos de pedra já desapareceram há anos e, quando questionada pela mesma Band, a administração do parque informou que eles tinham sido “retirados para restauração”.

 

 

 

 

 

 

 

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?