Dessalinização e reuso (tardio) de água na Grande Fortaleza


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O governo do Ceará anunciou iniciativas na área do reuso de esgotos e de dessalinização.

O reuso das águas residuais descartadas através do emissário submarino é uma iniciativa louvável, certamente o melhor caminho para evitar o desabastecimento – inclusive e principalmente das indústrias localizadas no Porto de Pecém.

Conforme anúncio, à época, da concessionária estadual, os estudos de viabilidade técnica e econômica devem devem – ou deveriam – ter sido concluídos em agosto de 2015.   Em agosto de 2016, o o governo do Ceará anunciou que a empresa francesa Veolia havia vencido a licitação para essa iniciativa.  A empresa investiria recursos próprios mas teria garantias de venda de um certo volume de água por um período determinado.

Aí é que se encontra o famoso “pulo do gato”.  Até esta data, não há notícias de que o contrato tenha sido assinado.  Reina um estranho silêncio.

Em 2014, as as perdas de água tratada em Fortaleza eram estimadas em 43% do volume total.  Dificilmente, alguma coisa substantiva mudou desde então.  Não há informações sequer sobre programas de macro-medição que teriam indicado prioridades na renovação ou em reparos na rede.

Perdas de água significam altos custos de tratamento e de consumo de energia elétrica.

Mas o reuso de águas residuais em larga escala pode e deve ser visto como uma iniciativa pioneira no Brasil!  Ele já é praticado há muito em outros países, usualmente com sistemas de controle de qualidade e bacteriológico antes do encaminhamento dos esgotos tratados com as tecnologias mais avançadas para as estações de tratamento de água.

Mais recentemente, a Califórnia aprovou ou encontra-se nos estágios finais de avaliação do reuso potável direto baseado na certeza de que as tecnologias disponíveis garantem a segurança dessa abordagem para a saúde pública.

Já quanto à dessalinização, ainda não é clara com a proposta, já que essa tecnologia continua sendo a mais cara.  Ainda assim, estimou-se em R$ 5 milhões os estudos e projetos, incluindo a modelagem para a constituição de uma parceria público-privada, valores que seriam ressarcidos pela empresa vencedora da concorrência.  Uma quantia bastante elevada, mas….

Seja como for, injetar água proveniente de dessalinização numa rede de distribuição com perdas tão elevadas não faz qualquer sentido.  Não importa se o investimento será privado ou não: a empresa estadual de água e esgoto – Cagece – pagará a conta por metro cúbico fornecido ao tal investidor privado.  Então, é melhor que os encarregados da modelagem pensem nos compromissos financeiros da empresa para o período do contrato, no impacto sobre as contas de água dos usuários, e na situação que se criará se as chuvas voltarem e fizerem com que o Castelão –  o reservatório que abastece a Grande Fortaleza – voltarem a e água dele proveniente for mais barata do que a água de dessalinização.

Essas questões já foram resolvidas em outros países e regiões – Israel, Singapura, Califórnia, entre outros – e a experiência internacional não deve ser desconsiderada.

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É interessante notar que os estudos de licenciamento ambiental da “transposição do São Francisco” não consideraram as alternativas de reuso das águas nas regiões do litoral e muito menos da dessalinização (para não falar nas taxas de evaporação ao longo do percurso).

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?