Estocagem de vento e lerdeza na gestão do setor elétrico


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Durante algum tempo, a turma se divertiu com as falas sem nexo de Dilma Roussef.  Numa delas, abaixo, a ex-uma porção de coisas – presidente, secretária de energia do governo do Rio Grande do Sul, ex-ministra da Energia, etc, fala em “estocagem do vento”.  Se tivesse tido ou ouvido assessores mais interessados em informá-la sobre avanços tecnológicos e alternativas de estocagem – não dos vendos, mas da água nos reservatórios de hidrelétricas, Dilma teria evitado esse constrangimento.

Para quem já viu  vídeo, é suficiente pulá-lo, porque ele não passa de uma alegoria que mostra um tipo de desinformação constante em nossos políticos – e mesmo das agências encarregadas do setor elétrico (ou outros).


De fato, nessa época já estavam em andamento diversos sistemas de estocagem de energia, como as células de combustível ou de hidrogênio (não concebidas com essa finalidade, mas podendo atendê-la).  Já existia, também, nos EUA, uma Associação de Estocagem de Energia e, na Europa, uma Associação Européia para Estocagem de Energia (ease-storage.org).  Em 2015, o Japão anunciou que um orçamento de US$ 700 milhões para incentivar o mercado de estocagem de energia, e as iniciativas não se iniciaram e nem terminaram aí.

De fato, em 2012, sistemas de estocagem de energia eólica já estavam implantado e em operação em, bem antes, em 2008, já se encontravam em operação no Deserto de Atacama, no Chile.

Dilma estava cercada de assessores incompetentes ou era/é um tipo de personalidade que não escolhia assessores que tinham opiniões próprias, conhecimentos sobre os avanços mais recentes da tecnologia?

Mas, o mais importante, é que existem, sim, sistemas práticos, já consagrados, de estocagem indireta de energias dos vendos e de energia solar: simplesmente estocar água nos reservatórios das hidrelétricas nos períodos em que essas fontes estiverem gerando para atender a demanda, ou parte dela.  Para isso, o ideal é que tivessem sido tomadas iniciativas para a repotencialização e para a automação das hidrelétricas.

A repotencialização consiste, basicamente, na troca de turbinas antigas, até mesmo da década de 1950 e 1960, por outras, mais modernas e com maior capacidade de geração.  Quais foram os obstáculos para essas iniciativas que se pagam em tempo muito inferior à construção de novas hidrelétricas?  A usual aversão brasileira à inovação ou o fato de que elas colidiam com os interesses das empreiteiras em construir novas hidrelétricas?  Afinal, em projetos de modernização, não há obras civis, mas apenas aquisição de tecnologia!

Da mesma forma, a automação, que consiste basicamente na implantação de dispositivos que regulam as comportas das hidrelétricas em função da demanda na rede.

E assim, é possível, sim, estocar a energia dos ventos e a energia solar via estocagem da água nos reservatórios.

Será que a preguiçosa ANEEL aceita dar um passo no sentido de um cálculo mais sofisticado ou aceita pagar pela energia eólica e pela energia solar utilizada para compensar o deficit de geração hidrelétrica nos períodos de escassez hídrica o mesmo que paga as tais termelétricas de reserva?  Ou continuaremos sem uma estratégia de segurança energética para os ciclos de seca que tendem a se acentuar, a se tornarem mais frequentes e prolongados num quadro de mudanças climáticas?

Finalmente, apenas como ilustração, vale um exemplo quase banal: a Tesla está implantando, no Hawaí, uma central solar que se propõe a suprimir um mega sistema solar que objetiva substituir a geração térmica e assegura o fornecimento de energia renovável 24 horas por dia, com sistemas de estocagem de energia (ainda que o sol não brilhe 24 horas por dia, como bem afirmava dona Dilma).

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Nas páginas das associações de estocagem de energia acima citadas há bom número de estudos de caso para aqueles que se interessarem.

 

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! – e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

2 thoughts on “Estocagem de vento e lerdeza na gestão do setor elétrico”

  1. Dilma é muito arrogante para aceitar qualquer assessoria. Mas o que causa mais indignação é perceber que não existe o menor interesse em mudar , da Aneel ou de outro órgão afim. Óbvio que há manobras escusas por trás. O que me espanta bastante é a burrice crassa desse pessoal. Os recursos vão se esgotar para todos. Mesmo os muito ricos viverão em um planeta devastado!

  2. Nossos políticos são todos arrogantes e, o que é pior, têm assessorias constituídas de puxa-sacos. Dilma vira piada porque é disléxica. Agora, acho que o país tem mesmo uma certa aversão à inovação, tende a achar “metido a besta” quem sonha alto e quem tem ideias inovadoras- você imagina um Elon Musk aqui? -, chama de “projeto” o que é apenas uma ideia surgida ao acaso, e por aí afora. Esse é um traço cultural, parece-me. Mas, fora isso, você tem toda a razão, a ANEEL compactua com os caraminguás – além da mesmice – das térmicas a gás, que nos fizeram entrar na bandeira vermelha (invenção de Dilma) em abril, com significativo aumento das contas de luz, na prática reduzindo a renda no bolso da população e sua capacidade de compra, causando mais inflação e mais estagnação. Como se fosse normal, como se eles não soubessem da redução do nível dos reservatórios, como se não existissem alternativas além de São Pedro. Enfim, a pasmaceira geral do poder público e dos consumidores, da academia e de todos os especialistas do setor (incluindo da Empresa de Planejamento Energético).

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