A energia solar fotovoltaica avança a passos rápidos, (com ou sem Trump), enquanto o Brasil patina na mesmice


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A maior planta solar do mundo terá 1.177 MW e será em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos.  A central solar denominada Noor Abu Dhabi, que deverá entrar em operação no segundo semestre de 2019, tem quase o dobro da capacidade da segunda colocada, localizada na Índia, e mais do que o dobro da terceira, na Califórnia.

Os Emirados Árabes Unidos tem como meta atingir 25% de energia limpa em sua matriz energética até 2025 e 75% até 2050, conforme documento detalhado cujo download pode ser feito aqui.

As autoridades de Abu Dabi – seguindo uma tendência de outros países árabes – estimam que investindo US$ 150 bilhões em energias renováveis até 2050, o país estará economizando US$ 192 bilhões.

A tendência global no mundo não foi muito diferente.  Com a queda contínua nos preços dos sistemas solares fotovoltaicos, o aumento da capacidade instalada em 2016 foi de 161 GW – cerca de 10 vezes a capacidade de Itaipu – e, o que é ainda mais surpreendente, com investimentos 23% inferiores ao do ano anterior, totalizando US$ 241,6 bilhões.  E os preços continuarão a cair considerada a velocidade dos avanços tecnológicos também nessa área.

Algumas notícias surpreendentes vieram de países sem alto grau de insolação.  No início de junho, no Reino Unido, a soma da geração eólica e solar atingiu um novo recorde, ultrapassando os 50% da demanda no horário mais ensolarado do dia.  E, o que talvez seja ainda mais importante, isso levou o operador do sistema a acionar, pela primeira vez, os mecanismos de venda de energia por preços inferiores.

Esse mecanismo merece um comentário.  Ao contrário do Brasil onde os consumidores pagam por termelétricas de reserva sem saberem mesmo quando elas não entram em operação – já que há que amortizar o investimento e assegurar manutenção adequada -, o Reino Unido adotou o sistema oposto, isto é, fez um leilão de compra de eletricidade pelos consumidores que se interessaram por consumir mais a preços inferiores aos do mercado sempre que ocorressem  excedentes na geração.  Nada como a criatividade, possível mesmo nas análises financeiras de alta qualificação, quando o interesse público prevalece sobre aqueles dos grupos já constituídos com capacidade de influir em decisões governamentais.

O  mesmo aconteceu na Escócia, onde a geração de eletricidade proveniente de fontes renováveis – leia-se eólica e solar – ultrapassou a demanda em muitas cidades.

Enquanto o mundo caminha nessa direção, no Brasil, onde é imensa a insolação na maior parte do território, o jovem e inexperiente ministro da Energia – alguém aí sabe o nome da figura eleita como no tempo dos faraós, por herança familiar? – anuncia, em nome do governo (quem será o “governo”) o seu desejo de investir em termelétricas que operem durante o ano todo.  Isso sem qualquer avaliação de alternativas de custos no longo prazo ou interesses estratégicos do pais.

O ministro Fernando Bezerra Coelho Filho, que se elegeu na esteira do pai, ex-ministro da Integração Nacional, é alvo de dois inquéritos, por corrupção ativa e passiva, além de otras coisitas más.

Isso até que seria de pouco relevância diante da verdadeira biruta de aeroporto- em que há muito se transformou a política nacional de energia, se é que existia alguma além das grandes obras de interesse das empreiteiras.  Basta lembrar que personagem que ocupou durante bastante tempo o mesmo ministério falava em construir 50 usinas nucleares. uma por ano.  Depois, considerados os elevadíssimos custos dessas usinas – iniciais, ao longo de sua vida útil e depois de sua desativação, tanto o assunto quanto o ex-ministro Edison Lobão, também investigado em diversos inquéritos, caíram no esquecimento.

Não importa o que dizem fontes tão credenciadas quanto a Bloomberg que indica que em breve a energia solar será mais barata do que todas as demais fontes (algo que já acontece em diversos países).

E há diversas outras opções de curto e que requerem investimentos muito menores para aumentar a capacidade de geração no Brasil.  Ha muito já se sabe, por exemplo, das amplas possibilidades oferecidas por projetos de repotencialização de parcela significativa das hidrelétricas brasileiras, mas o ministro quer termelétricas que funcionem o ano todo não importando os danos potenciais para a economia do país em função de tarifas de eletricidade mais altas.

A estocagem de energia sob a forma do bombeamento de água para os reservatórios superiores durante os horários de menor demanda, prática comum nos países avançados e nos quais o interesse público prevalece, tampouco foi considerada como alternativa econômica para o aumento da capacidade de geração.  E não é pequena a experiência internacional, como se pode ver aqui.

Mas, afinal, o que é importam políticas setoriais estratégicas num país onde a inovação é considerada como inoportuna para políticas públicas voltadas para o atendimento de interesses dos grupos já constituído?

Finalmente, vale dizer que os investidores internacionais com atuação na área de geração solar se queixam das exigências do BNDES de conteúdo nacional mínimo para todo e qualquer tipo de projeto.  Com esse tipo de exigência, o Brasil não absorve equipamentos de alta tecnologia com preços menos elevados do que aqueles praticados no mercado financeiro internacional, em especial para o caso de um país que não consegue se estabilizar num patamar de grau de investimento e tem a sua vida política marcada por escândalos os mais variados.

Enfim, um país em vias de subdesenvolvimento?  Ai, que falta faz o mestre Millôr Fernandes, ou Sergio Porto, que hoje não criaria apenas o Febeapá – Festival de besteiras que assola o país – mas, também, o festival de interesses escusos e aleatórios que assola as políticas setoriais.

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! – e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

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