Governo brasileiro cultiva o atraso no setor elétrico


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O ministério das Minas e Energia nunca gostou muito das energias renováveis e, agora, comete erros graves na sua proposta de Plano Decenal para Expansão de Energia – 2026.  Antiquado, o documento foca em petróleo, gás / gasodutos, hidrelétricas, e faz poucas – e errôneas – referências à energia solar.

De fato, no item 3.5.2.3, onde se analisa o Caso 4 de Expansão sob Incerteza da Demanda, considera-se a redução do investimento para a geração solar fotovoltaica com base numa referência encontrada num relatório de 2016 do Sistema Nacional de Laboratórios de Energias Renováveis dos EUA (NREL, na sigla em inglês), sem qualquer referência ao fato de que no mesmo consta claramente que os valores são aqueles de 2014!

E aí, com base nesse relatório – já na origem desatualizado em termos de valores, porque buscava macro-tendências, o documento que leva o timbre da Empresa de Pesquisa Energética – EPE (já toda animada com novos gasodutos e termelétricas) e do próprio ministério de Minas e Energia, afirma que:

“O valor utilizado para o CAPEX (investimento de capital) da opção fotovoltaica na avaliação da oferta é de US$ 1.300/kW, baseado nos valores ofertados nos últimos leilões de energia no Brasil.  Esse valor é inferior aos preços praticados em 2016 nos Estados Unidos, que alcançam algo da ordem de US$ 1.490/kW (….).  Uma redução em seu custo pode, efetivamente, se refletir em um menor valor para o custo de implantação da fonte fotovoltaica.

“Admitindo-se a hipótese de redução expressiva no investimento da opção fotovoltaica, de 40% a partir de 2023, seu custo de implantação cairia para US$ 800/kW.  Embora pouco provável, esse valor corresponderia ao patamar no qual esta fonte passaria a ser competitiva frente às demais opções.”

Descaso com os fatos e números, burrices, ou indução intencional ao erro para justificar termelétricas?

Na verdade, já que o documento brasileiro está se referindo aos preços da energia solar fotovoltaica em escala de geração para concessionárias – e não para a micro-geração distribuída -, ele não tem a mais vaga conexão com a realidade (e aqui vamos usar a realidade norte-americana para manter os parâmetros de comparação).

De fato, os EUA conseguiram antecipar a antecipar a meta prevista para 2.020 e atingi-la no início de 2017: US$ 1.000/kW.    E a tendência à queda nesses custos continua a se acentuar bem mais rapidamente do que desejam os defensores das desde já anacrônicas usinas térmicas.

A grupo de finanças da energia da Bloomberg (notem bem, não estamos falando de ONGs), que envolve 65 especialistas e considera projetos já em andamento nas mais diversas regiões do mundo, divulgado em jungo de 2017, afirma que os preços da geração solar e eólica continuarão a cair rapidamente, assim como os preços da estocagem de energia (ao final do texto, o link, que não permite a sua inserção aqui, para ver se acordam, desde o MME até o ministro / Grande Contador Henrique Meirelles (já conhecido como “ministro etc, etc, etc”, na fala do jornalista Ricardo Boechat).

Aqui, apenas a tradução de dois trechos do relatório da Bloomberg Energy Finance em suas projeções (com base, diga-se novamente, nos projetos já em andamento):

“Solar e eólica dominam o futuro da energia elétrica.  Espera-se que US$ 7,4 trilhões (o grifo é nosso) serão investidos em novas usinas de energias renováveis até 2.040 – o que corresponde a 72% da nova geração no mundo.  Na energia solar serão investidos US$ 2,8 trilhões, resultando num aumento de 14 vezes na capacidade instalada.  A energia eólica ficará com US$ 3,3 trilhões, resultando num aumento de 4 vezes na capacidade instalada.  Como resultado, as fontes de energia solar e eólica atingirão uma capacidade instalada de 48% da capacidade instalada no mundo, e 34% de toda a geração já em 2040, comparados com 12% e 5% atualmente.

“O diferença entre os custos da energia solar e da geração térmica a carvão se ampliarão (considerados os custos ao longo da vida útil dos projetos – “levelized costs”).  Os custos de implantação da energia solar, que é hoje de apenas 25% do que era em 2009, cairá mais 66% até 2040.  Então, cada dólar comprará mais 2,3 vezes eletricidade do que hoje.  A energia solar já é tão barata quando aquela gerada por carvão na Alemanha, na Austrália, nos EUA, na Espanha e na Itália.  O mesmo ocorrerá já em 2021 na China, na Índia, no México, na Inglaterra e no Brasil.”

Um bom avanço já seria parar com a separação entre os custos da geração e os custos da transmissão, que são considerados separadamente (levando ao desperdício que já se vê em Belo Monte e em muitas centrais eólicas).  A outra, sem dúvida, seria fazer os leilões independentes da fonte de energia.

Um bom exemplo dos resultados que foram recentemente alcançados no Chile e em Dubai com a geração solar concentrada (CSP, que estoca energia solar sob a forma de calor para ser despachada 24 horas por dia).  O preço alcançado por esse tecnologia no Chile já é inferior aos US$ 50.89/MWh projetados pela EPE e, seu estudo intitulado Custo Marginal de Expansão (cf. página 7).  Uma central desse tipo – CSP – no deserto do Atacama terá custos de US$ 29,10/MWh.

Estes últimos números podem estar longe de serem precisos já que foram bem superiores na última concorrência usando esse tipo de tecnologia em Dubai – talvez variando em função da inclusão ou não das linhas de transmissão nos preços finais.  Mas mesmo em Dubai aproximam-se dos preços finais mencionados pelo Plano Decenal para a energia solar competitiva com outras fontes no Brasil… e sem os riscos hidrológicos que crescem a cada dia.

Agora, ao trabalho!  Que tal se os ministros, inclusive o da Fazenda, usarem os jatinhos da FAB para irem até o Chile ver o que estão fazendo lá?  Vai que de repente ainda aproveitam algumas outras iniciativas da política econômica do país que optou por não participar do Mercosul.

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Global wind and solar costs to fall even faster, while coal fades even in China and India

 

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! – e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

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