A morte anunciada das térmicas a carvão… e o Brasil na mesmice


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O título de uma notícia não poderia ser melhor – e por isso foi, aqui, apenas traduzido: Assim morre o carvão – Com energias renováveis super baratas e sistemas de estocagem de energia.

A notícia foi publicada inicialmente por Think Progress e logo reproduzida por outros meios de comunicação.  Ela pode ser lida aqui (em inglês).

A noticia é sobre a última concorrência feita no Colorado para aquisição de energia firme – isto é, de fornecimento constante, 24 horas por dia – que resultou em preços de energias renováveis mais baixos do que os meros custos operacionais das termelétricas a carvão existentes (e já amortizadas).  E isso no Colorado, onde os índices de insolação não são tão altos quanto na região nordeste do Brasil.

Em resumo, os preços da energia solar e eólica adicionado aos investimentos necessários em sistemas de estocagem vêm se reduzindo tanto que o carvão começa a deixar de competir.

O Colorado tem um programa de assistência aos mecanismos regulatórios que traça estratégias para aumentar a competitividade e garantir a segurança dos sistemas propostos.  Os resultados da última concorrência foram tão impactantes que James Lazar, consultor sênior do Projeto de Assistência Regulatória, chegou a declarar:

Os preços das fontes solar e eólica chegaram a um ponto de inflexão.  Elas são agora mais baratas do que o de térmicas a a gás se considerados os custos variáveis do combustível e os custos de O&M.  Esse é um verdadeiro deslocamento tecônico (para a indústria da geração de energia).

O Brasil ainda tem tempo de corrigir / fazer ajustamentos em sua decisão de assegurar a energia firme e o controle de frequência apenas via massivos investimentos em termelétricas de reserva, melhor utilizando os seus sistemas de estocagem já existentes que são os reservatórios das hidrelétricas.

Que percentual das hidrelétricas têm sistemas automatizados para o controle de frequência quando há uma elevação súbita da geração solar ou eólica?  Quinze por cento?  Nesses casos, o envio de água para as turbinas é reduzido ou aumentado em função da variação da geração desas duas fontes renováveis.  Não seria o caso de investir um pouco mais na automação dessas hidrelétricas para evitar desperdícios de água reservada?

Se assim não for, ao final, será o conjunto da população que pagará a conta de investimentos de longo prazo mal planejados.  Consumidores de médio e grande porte já estão analisando propostas de geração solar como produtores independentes e com estocagem de energia para atender às demandas de pico, horário em que os preços da eletricidade vai ao espaço. Essa alternativa logo competirá com a solução dada pelas autoridades, solução que se apoia em contratos de longo prazo com geração a gás de preços altamente variáveis ou mesmo voláteis e com tendência ao crescimento no mercado internacional (volatilidade que a Petrobrás resolveu incorporar aos seus preços mensais de venda, ainda com o blá-blá-blá do “petróleo é nosso” e do pré-sal).

Assim, está sendo chocado “o ovo da serpente” da próxima crise do setor elétrico.  A prioridade são os contratos de longo prazo para os membros da facção Amigos dos Amigos e do cartel de fabricantes de termelétricas.  Não se investe em automação das hidrelétricas – que, novamente, são reservatórios de energia – porque aí as mamatas são impossíveis ou bem mais difíceis.  A opção é a mesmice.

O Brasil não pode consolidar-se como o país do passado também na área energética só para sustentar a Petrobras!  Há que acelerar essa transição, inclusive com isenções a importação de baterias de grande porte no quadro de um programa qualquer de nacionalização desses equipamentos.

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Aliás, sugere-se que as autoridades setor elétrico considerem as disponibilidades de água para o resfriamento das térmicas.  O caso mais escandaloso de má gestão de água parece estar em no porto de Pecém onde uma termelétrica a carvão consome grandes quantidades de água para resfriamento enquanto a região metropolitana da Grande Fortaleza debate-se com problemas de escassez.  A conferir.

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?