Dia Mundial de Meio Ambiente e jornalismo enviesado

Num momento de descontração, recebo um inesperado telefonema de uma tal Rádio Sputnik querendo uma entrevista para o Dia Mundial do Meio Ambiente.  Surpreso com o nome da rádio – tão óbvio e antigo – , concordo com a proposta.  Logo de início fica claro que há um viés político e que o objetivo é atacar o atual governo.

A primeira pergunta foi sobre desmatamento na Amazônia, e o entrevistador se surpreende com a resposta: ficar falando sobre as florestas é muito repetitivo, fácil até,  porque evita o fato de que o Brasil não tem nada a comemorar: no papel, 45% da Amazônia já são áreas protegidas (dados da Embrapa – Monitoramento por Satélite, mas a qualidade das águas de nenhum rio ou lagoa melhorou apesar de décadas de política nacional de meio ambiente e inumeráveis empréstimos externos para saneamento; além disso, fracassou redondamente a lei de resíduos urbanos que estabeleceu prazo para a implantação de aterros sanitários.  O entrevistador se surpreende e corre para a outra pergunta já previamente  redigida.

A decisão do ministro Ricardo Salles de colocar recursos do Fundo Amazônia na desapropriação de águas de unidades de conservação, assunto sobre o qual Sputnik tem posição pré-definida: a Noruega retiraria suas doações de “bilhões de dólares”.

Expresso um primeiro ponto de vista: a Noruega faz essas doações por razões de política interna, porque captura o imaginário popular.  Se o assunto fosse mesmo as mudanças climáticas, doaria tecnologias.  E complemento: é indispensável  promover a regularização fundiária das áreas no interior dos parques nacionais e estaduais como um primeiro passo para que eles se tornem operacionais e deixem de ser “parques de papel” (paper parks, como são conhecidos os parques brasileiros no exterior).  Com instalações de visitação e hospedagem, os visitantes são os maiores e melhores fiscais.  Pelo menos trilhas bem demarcadas e campings com boa infraestrutura!

Dou uma longa lista de exemplos de parques sem regularização fundiária que vai dos primeiros parques nacionais brasileiros até parques criados no estado do Rio de Janeiro de maneira circense, com delimitação e audiência pública improvisadas, criados apenas para comemorar o tal Dia Mundial do Meio Ambiente – como ocorreu nos casos dos parques Cunhambebe e Costa do Sol (este último, em grande parte sobre unidades de conservação já existentes).

O entrevistador se apressa a mudar de assunto e tenta pelo caminho de uma declaração do presidente Bolsonaro sobre uma hipotética transformação da Estação Ecológica de Tamoios “numa Cancún”.  Mais uma vez, a resposta parece contrariar o entrevistador: foi apenas uma figura de retórica mal colocada, já que as configurações geográficas e de ocupação dos solos são muito diferentes, mas que de fato a opção por uma Estação Ecológica não é compatível com a realidade da área.  A criação da Estação criou  conflitos até mesmo com pescadores artesanais, forçados a assinar um “termo de ajuste de conduta” e “pescar de maneira sustentável”…. numa unidade de conservação em que a lei, vale dizer novamente, só permite pesquisas científicas.  Mas, que se dane a lei, opte-se pelo “jeitinho”.

Enfim, contrariado, o entrevistador agradece e sugere ao entrevistado para não se preocupar porque “de toda forma a entrevista seria editada”.

***

A tal Rádio Sputnik tem o apoio e a colaboração da Universidade Federal de Pernambuco.  Só rindo!

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?