Solar flutuante – O mundo acelera e o Brasil marca passo


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Usinas fotovoltaicas flutuantes têm grandes vantagens, entre as quais evitar o custo de aluguel da terra.  Mas têm uma grande vantagem adicional, em especial em áreas com altas temperaturas e incidência solar, além de ventos: reduzem significativamente a evaporação de água.  E os benefícios desse tipo não são sequer contabilizados no Brasil.

Isso decorre em grande parte da caretice e da compartimentação do sistema político e institucional, que impedem o mero diálogo entre áreas diferentes – quem cuida de água, cuida de água, e quem cuida de solar, cuida de solar.  E com o tamanho do ego dos brasileiros – e dos latinos em geral – fazer sugestões fora da própria caixinha institucional ou de especialização é ofensa pessoal.

Estimativas feitas desde que foram instalados os primeiros sistemas solares flutuantes indicam a redução da evaporação da ordem de 63 mil metros cúbicos de água por ano (63 milhões de litros, como governantes gostam de arrotar no caso do Brasil) em decorrência da implantação de uma unidade desse tipo com capacidade de 10 MW.  As duas razões básicas são (a) o sombreamento, com redução da exposição do sol, e (b) a proteção contra o vento (que é outro fator de evaporação).

Aí, os dados médios em outros países, e certamente eles são mais altos no caso do semi-árido ou mesmo do litoral nordestino, onde há alta incidência de sol e dos ventos.  Uma água altamente dispendiosa em decorrência do bombeamento e das perdas por evaporação ao longo da “transposição” do rio São Francisco poderia ter o custo significativamente reduzido com a diminuição dessas perdas.

Mas quem se interessa por reduzir preços se podem conseguir subsídios de algum outro lugar, do governo ou os (quase sempre infames) subsídios cruzados.

Em resumo, enquanto o Brasil fica fazendo pilotos de usinas solares flutuantes em diversos reservatórios – há anos, pelo menos desde 2016 – e anunciando que essa ou aquela poderá se expandir, inaugurando o piloto fase I e depois reinaugurando o piloto fase II, nada avança realmente nessa área (do solar flutuante), ainda que a iniciativa privada possa arcar com todos os investimentos – ainda mais nas proximidades de estações elevatórias -, os países sérios dão uma demonstração de como poderiam fazer, por exemplo, açudes do nordeste, que frequentemente atingem níveis baixíssimos.

Na Holanda, está sendo implantada a maior usina solar flutuante do mundo fora da China, com capacidade de 27 MW e um total de 73.000 painéis solares.  O mais surpreendente é que 1/3 desses painéis foram instalados em apenas 2 semanas e a a empresa garante a conclusão dos trabalhos no total de 8 semanas.

Não esbarrando nas já tradicionais chatices do licenciamento ambiental e mantendo os olhos um pouco abertos, há muita coisa boa para ser feita.  Não é apenas e talvez nem principalmente uma questão de governo, mas das equipes de funcionários públicos e de estatais que ficam por baixo e nos cargos de gerência montando seus pequenos feudos, arrumando seus pequenos negócios.

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Tudo bem, as solares flutuantes são em princípio um pouco mais caras.  Do ponto de vista da iniciativa privada, vale apenas o retorno sobre o investimento na geração.  Já nos cálculos do governo do Ceará, por exemplo, deveriam ser incluídos os custos de bombeamento da água e a retenção da água por ser evitada a evaporação quando comparada com a alternativa mais cara, que é a dessalinização.

Novidade por novidade para ano eleitoral, ambas empatam.  Já que não conseguem mesmo fazer o reuso dos efluentes do emissário da Grande Fortaleza sem um empreiteiro da facção Amigos dos Amigos.  O business as usual de grande parte – senão da maioria – dos políticos continua igual!

Já a política que sabe aritmética, calcula os custos econômicos do bombeamento de água da transposição – R$ 300 milhões/ano – que vão para os estados que recebem a água ou para a conta “da viúva”. Mas as decisões, no discurso já tomadas, ainda são executadas com razoável lentidão.  A máquina no nível gerencial intermediário ainda conta com as mesmas mentalidades pouco amplas e lerdas na inovação.

 

 

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?