Eólicas offshores X turismo e lazer – Uma questão de distância da costa – O caso da Caucaia, no Ceará


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Como algumas eólicas offshore estão previstas para o litoral do Rio de Janeiro e do Ceará, o tema merece uma avaliação.

As questões centrais das usinas eólicas offshore não são as tartarugas ou os pássaros.  Maneiras de contornar esses problemas já foram avaliadas e desenvolvidas há bastante tempo.  Eólicas offshore existem há quase 30 anos e ganharam fôlego nos últimos 20 anos.  Ninguém está começando do zero.

A questão central são a poluição visual e o ruído, que colidem com os usos turísticos do litoral: pousadas, lazer, esportes náuticos costeiros.  No projeto em fase de audiência pública – licenciamento garantido – na proximidade da praia e até mesmo a colocação de turbinas na própria praia liquidará ou causará um imenso dano ao turismo de Caucaia, no Ceará!  A construção de pequenos enrocamentos para conter a erosão costeira – já apresentada como medida mitigatória, que não é -, não passa do jabuti em cima da árvore, já que nada tem a ver com o projeto, tem bem mais o estilo de pura movimentação de grana.

Um bom exemplo – um entre muitos – dos níveis de conflito entre eólicas offshore e outras atividades econômicas em áreas onde a população tem um maior nível de consciência e organização ficou evidenciado, em 2017, em Ocean Front, no litoral de Maryland, nos EUA: uma linda praia, uma pequena cidade de 7.000 habitantes que recebe 345.000 visitantes todo ano, turistas que trazem grande riqueza e uma geração de adicionais de US$ 150 milhões em impostos para o estado.

Corria o ano de 2017 e até hoje o projeto não foi aprovado.  Em 2020, a Comissão de Serviços Públicos – não o órgão ambiental – realizou uma audiência pública que envolveu até a altura e o desenho das turbinas.  Ninguém se disse contra as  energias renováveis, mas até o prefeito insistiu em que as turbinas fossem mais afastadas.  para não serem sequer visíveis.  A participação da 1.850 moradores pôde ser vista no noticiário local (que vale ser visto mesmo para quem não entende o idioma inglês).

De fato, no lado europeu, os números mostram que a energia eólica offshore afastou-se bastante da costa entre a partir de 2008, comprovando que a tecnologia já permite que isso seja feito sem inviabilizar os projetos.  A partir deste ano, a distância média da costa começa a subir de pouco mais de 20 km até atingir cerca de 55 km em 2016, voltando, depois, em 2018, aos 30 km.  No mesmo histograma de barras, na cor verde, que no período 2016 – 2018, fica acima dos 25 metros e atinge os 30 metros.

Os números compilados pelo Ministério de Assuntos Econômicos e de Energia da Alemanha mostram que em poucos países a distância do litoral é inferior a 15 km, já tendo atingido 115 km do litoral e 41 metros de profundidade com o início da implantação, em 2014, e o início das operações, em 2017, de uma usina de 700 MW denominada Global Tech 1.

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Tentaram alegar que os estudos de engenharia costeira que justificavam os enrocamentos propostos para a praia na área do empreendimento foram feitos pela Universidade de Nápoles.  Na página da Universidade e nada consta de Brasil. de engenharia costeira, Ceará ou eólica.  Vai ver que os investidores são amigos do dono da pedreira, uma alternativa para o usual jabá, ou vontade de jogar dinheiro fora.

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A cascata de que o licenciamento de eólicas offshore é de competência exclusivamente federal não se sustenta se as municipalidades recusarem a expedição de alvarás para instalações periféricas em terra com base na lei de zoneamento urbano e no Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro.  Isso já aconteceu antes em diversos países é já é passada a hora dos estados e municípios terem os seus pontos de vista considerados com seriedade.  Ou se trata apenas de uma disputa pelas tais “compensações ambientais”?

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Outra visualização rápida da evolução das centrais eólicas offshore em termos de profundidade e distância da costa pode ser feita clicando aqui.  Também em nosso litoral, em particular nos trechos com vocação turística já consolidada ou mesmo potencial, há que afastar as turbinas das costa!  O aumento dos custos de investimento é irrisório e, com isso, não há prejuízos ao turismo e ao lazer, como ocorrerá no município de Caucaia.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?