O que é essencial?

Sair proibindo e cafetinando o medo, como faziam os inquisidores, é fácil.  O difícil é pensar.  O que é “essencial”?

Os serviços médicos, é claro.  Mas além de profissionais da área médica e seus equipamentos de proteção, eles requerem todas as equipes de suporte e, pegando dois exemplos ao acaso, da tecnologia da informação ao papel.  Isso significa que a fabricação de peças de computadores e todos os serviços de internet e TI em geral não podem parar.

Por seu lado, os hospitais necessitam de tubos plásticos, cilindros de oxigênio e atividades de produção e distribuição desse oxigênio, que não podem parar.

Continuar lendo O que é essencial?

Agricultura urbana, hidroponia vertical e segurança alimentar

A agricultura urbana vem se expandindo nos países mais desenvolvidos, onde existe uma boa percepção da segurança alimentar e, também, dos custos de transporte de alimentos até os pontos de abastecimento de grandes cidades.

No torpor mental em que o Brasil se encontra, seria interessante que o poder público – em todos os níveis – incluindo prefeitos – e a iniciativa privada pensassem mais nessa alternativa.  Afinal, o país é um grande exportador de alimentos mas deles carece o consumo humano a preços menos sujeitos às oscilações do clima e do consumo de combustíveis.

Continuar lendo Agricultura urbana, hidroponia vertical e segurança alimentar

O Ano Mais Quente Desde 1880 e a Necessidade de Políticas de Segurança Hídrica e Energética

Julho de 2015 foi o mês mais quente da história desde os inícios das medições, em 1880.

A informação consta da página da Administração Nacional dos Oceanos e da Atmosfera (NOAA, na sigla em inglês), o mais importante centro de monitoramento e previsão do clima dos EUA. Continuar lendo O Ano Mais Quente Desde 1880 e a Necessidade de Políticas de Segurança Hídrica e Energética

Segurança Alimentar e Aquisição de Terras em Países de Economia Periférica

Na esteira dos programas de segurança alimentar e energética, corporações européias e mesmo chinesas estão fechando acordos com governos totalitários africanos nos quais inexiste a propriedade da terra, expulsando as pessoas que nelas viviam, apossando-se de áreas agriculturáveis e produzindo comida e biocombustíveis para exportação. Esses acordos, é claro, implicam nos usuais indícios de corrupção dos governantes e de descaso com as populações locais.

Nos últimos 14 anos, pelo menos 31 milhões de hectares foram “adquiridos” por investidores em países estrangeiros. Pelo menos metade dessa área foi comprada ou alugada por longos prazos na África e, em particular, no Sudão, mas também na Indonésia, Papua e Nova Guiné.

Cinicamente, os “investidores” argumentam que serão gerados empregos e aumentada a produção de alimentos, ainda que as populações locais não sejam sequer consultadas e que a quase totalidade dos produtos seja para exportação. Dessa forma, entre outras coisas, os países europeus que têm metas para a substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis de biocombustíveis – e que já limitaram o percentual de seus territórios agriculturáveis que podem ter esse tipo de uso sem causar riscos à segurança alimentar – objetivam cumprir essas metas de “sustentabilidade”.

Um novo estudo sobre o assunto, publicado recentemente sob o título de Apropriação de Alimentos Através da Aquisição de Terras em Grande Escala, analisou todas as apropriações de terra declaradas acima de 200 hectares no período 2000-2013 indicou que ainda que 443% dessas terras se encontrem na África, as mais produtivas e com capacidade de produção de alimentos mais nutritivos encontram-se na Indonésia, Malásia e Papua Nova Guiné.

“A cessão dessas terras é frequentemente feita sem o consentimento das populações nativas e que delas tiram o seu sustento” – afirma o estudo.

Já a professora Maria Cristina Rulli, do Instituto Politécnico de Milão, coloca o “dedo na ferida” de maneira mais direta: “É preciso saber quantas pessoas poderiam ser alimentadas com a produção dessas áreas agrícolas”.  Participante de uma equipe de pesquisadores que fez o levantamento de mais de 1.000 aquisições ou leasing de terras em países estrangeiros de economia periférica por corporações de países altamente desenvolvidos, levantamento de mais de 1.000 “aquisições” de terras desse tipo, a pesquisadora resssalta que mesmo mesmo consideradas as terras direcionadas para a produção de biocombustíveis, essas terras poderiam alimentar entre 350 e 550 milhões de pessoas se a produtividade atingisse os níveis dos países desenvolvidos; ou entre 190 e 370 milhões de pessoas em condições normais de produtividade.

A matriz  das “aquisições” de terras nesses moldes indica que muitas delas se deram em áreas nas quais as populações se defrontam com a fome e crescente necessidade de ajuda alimentar.   Os pesquisadores constataram, por exemplo, que aquisições de terras em Serra Leoa entre 2007 e 2012 foram utilizadas para o plantio de culturas voltadas para a exportação, tornando mais difícil a alimentação e o emprego das populaçõs locais.  Da mesma forma, no Camboja, campos de arroz foram transformados em plantações de cana-de-açúcar e os camponeses foram realocados para terras menos férteis.

O Brasil tampouco têm uma política de segurança alimentar, com a de cana de açúcar frequentemente deslocando a produção até mesmo de perecíveis para regiões mais distantes dos centros de consumo, e assim aumentando os seus preços em decorrência dos custos de transporte rodoviário.  Em muitas regiões do país é possível dirigir um veículo por horas e só ver soja ou cana-de-açúcar de ambos os lados das estradas, sem qualquer separação de áreas para a produção de alimentos para consumo local ou regional.

Agora, que se aproximam eleições, este tema pode e deve debatido!  A começar pelo velho, desgastado e persistente “passeio do álcool”, transportado a longas distâncias para ser misturado à gasolina sem qualquer estratégia de otimização logística.

Simplesmente proibir a propriedade de terras acima de certos limites por corporações estrangeiras é uma piada.  Laranjas estão por aí disponíveis aos montes!

 

 

 

Impactos Abruptos das Mudanças Climáticas – Quando Falam os Cientistas Norte-Americanos

Os EUA continuam sendo, de longe, o país que emite maiores quantidades per capita de gases causadores de mudanças climáticas.  E, também, o maior obstáculo a acordos internacionais sobre o tema.  Não importa o que diga a NASA, capaz de medir até mesmo os níveis de umidade nos solos subsuperficiais e nos aquíferos profundos de maneira a prever oscilações nas safras de alimentos, os grandes lobbies de geração de eletricidade com energia suja (carvão) preferem responsabilzar o desmatamento na Amazônia e doar uns trocados para as ONGs internacionais de lá com forte atuação no Brasil.

No entanto, diversos estados norte-americanos já vêm, há muito, desenvolvendo políticas para “sociedades de transição”, com vistas a garantir, em seus territórios, a segurança alimentar (sobretudo de perecíveis), energética, e até de infraestrutura em geral (estradas costeiras, sistemas de captação de água, edificações, etc.).

Agora, o Conselho Nacional da Pesquisa Científica dos EUA acaba de publicar um extenso relatório intitulado Impactos Abruptos das Mudanças Climáticas – Antecipando Surpresas, que pode ser lido online, ainda que os interessados se restrinjam ao Sumário Executivo.  Para os cretinos que insistem que nada disso é verdade e para a turma do “Rolando o Lero” das “arvrinhas” da Amazônia e da Mata Atlântica, essa é uma boa leitura, ainda que com o risco de perderem as suas fontes de renda.

O resumo da ópera é: as mudanças climáticas já estão acontecendo, são irreversíveis, e causarão graves impactos sobre a ordem social e econômica mundial.  A enrolação diplomática do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) é amplamente demolida.  Nada de “até 2.100”, mas agora e num futuro bem mais próximo.  Para o que lêem inglês, as páginas podem ser avançadas clicando nas teclas com a seta para a direita, acima do link.  Infelizmente, baixar o relatório todo é um pouco mais complicado.

“Além das mudanças abruptas no próprio sistema climático, mudanças climáticas graduais podem ultrapassar limites tanto nos sistemas naturais quanto nos sistemas humanos. (leia-se, a inundações mais frequentes do sistema de metrô de Nova York ou a necessidade de realocar sistemas de captação de água para o consumo humano, como já ocorre no delta do rio San Francisco).   (…) A infraestrutura humana é construída para certas expectativas de vida, mas mesmo mudanças climáticas graduais podem ultrapassar de maneira abrupta certos limites em sua funcionalidade, tais como a elevação do nívels dos oceanos (…), comprometendo barragens marinhas, dutos, estradas e edificações”.

O relatório, com 222 páginas, foi patrocinado, entre outras instituições, pela Academia Nacional de Ciências, pela Administração Nacional dos Oceanos e da Atmosfera (órgão do governo dos EUA), pela Fundação Nacional de Ciências e outras instituições  cientificas.  É altamente improvável que neles tenham influído a diplomacia que força a ONU a adiar tudo para um futuro distante – “até 2.100” – ou a politicagem que predomina nas instituições científicas brasileiras.

“O clima não é o único fator de stress no planeta – outros fatores, como a exaustão dos recursos e as sempre crescentes densidades populacionais e de consumo também exercem uma enorme pressão à resiliência (capacidade de adaptação )  da natureza e da sociedade às mudanças súbitas.  (…) Este estudo difere dos anteriores relacionados às mudanças abruptas por incluir não apenas as mudanças climáticas físicas mas, também, às severas mudanças nos sistemas naturais e humanos. (…) A característica-chave dessas mudanças é que elas podem ocorrer de maneira mais rápida do que o previsto, o planejado ou o orçado de maneira a forçar comportamentos mais reativas do que proativos.”

Entre as mudanças que já estão ocorrendo, o estudo cita a drástica redução da camada de gelo no Ártico durante o verão, a extinção de espécies (“as mudanças climáticas atuais são as mais rápidas que ocorreram nos últimos 65 milhões de anos”). A patir da página 39, o estudo começa a descrever as mudanças abruptas que causam preocupações mais elevados (“primary concern”),  entre as quais (a) as mudanças de direção nas correntes superficiais e profundas do Atlântico, (b) a elevação do nível dos oceanos (que é usualmente gradual mas pode se tornar “súbita”, isto é, ocorrer em poucos anos, já que ela depende da topografia de cada região), (c) acidificação e teores de oxigênio dissolvido nos oceanos, (d) alterações na circulação dos ventos na atmosfera, (e) aumento da frequência de eventos climáticos extremos (ondas de calor e chuvas intensas), com especial ênfase nos ciclones (47,4%) e secas (23,8%), além de grandes tempestades e enchentes (aumento em torno de 10%).

Entre os mais graves impactos decorrências das mudanças climáticas súbitas está a produção de alimentos, cuja demanda deve duplicar (um crescimento de 100%) até 2050 (cf. páginas 131 e seguintes), e as disponbilidades de água (páginas 133 e seguintes) cuja utilização é em até 90% para a irrigação.  Ou seja, os dois problemas estão interrelacionados.

Já é tempo do governo brasileiro – e das autoridades estaduais  – falarem sério sobre esses temas.  Será que elas já conseguem ver ao menos alguma relação entre os portos em fase de implantação, a elevação do nível dos mares e a topografia costeira.  Aliás, será que o governo brasileiro tem as plantas com a topografia costeira no litoral do país?  Este seria um bom início de conversa….

***

Num estado como o Rio de Janeiro, onde se faz o licenciamento ambiental de um Complexo Petroquímico (COMPERJ) sem que haja uma definição das fontes de abastecimento de água e do local de lançamento dos efluentes líquidosk, a situação é grave.

***

Esse tema já havia sido parcialmente abordado, neste blog, na descrição do tema conhecido como flash flooodings ou enchentes abruptas.