Archive for the 'Biocombustíveis' Category

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A Mentira Certificada e o Jogo da Enganação

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Acordos negociados ao longo de muito anos para flexibilizar as regras da aviação internacional entram em vigor neste mês e permitirão uma explosão dos vôos entre a Europa e os Estados Unidos, com passagens muito mais baratas.  Especialistas britânicos estimam em 200 novas partidas diárias só dos aeroportos da Inglaterra a partir de abril de 2008.   

Com isso, o blá-blá-blá dos países ditos desenvolvidos sobre a importância do Brasil preservar as florestas amazônicas em prol do bem comum da humanidade já se tornaram piadas.  Fica comprovado que esse tipo de discurso serve mesmo é para desviar a atenção de seus cidadãos para as próprias responsabilidades.

Aos fatos.  Em 2005, um estudo do Centro Tyndall de Pesquisa em Mudanças Climáticas (www.tyndall.ac.uk) mostrou que se o uso do transporte aéreo pelos ingleses continuasse a crescer no ritmo dos anos anteriores o aumento das emissões decorrente seria mais do que suficientes para neutralizar o conjunto de reduções alcançadas pelo país em todas as outras áreas até 2050.  Nos cálculos, foram consideradas a adoção de novas fontes de energia e os programas de eficiência energética.

O estudo, que se estende a outros países da União Européia e aos EUA, pode ser baixado em www.tyndall.ac.uk/publications/working_papers/wp84.pdf.

Mas nenhum alerta desse tipo, mesmo proveniente dos mais sérios centros de pesquisa científica, vai frear os projetos de expansão de aeroportos europeus e norte-americanos, bem como todo um conjunto de medidas para tornar os vôos mais acessíveis.  Estima-se que até o final de março, com a nova política de Céus Abertos (Open Skyes), o número de vôos transatlânticos partindo só do aeroporto de Heathrow aumente em cerca de 25%, com 524 novos vôos por mês.

Nada diferente dos movimentos de direitos humanos inglêses e norte-americanos que silenciaram diante do genocídio e das atrocidades cometidas pelos invasores do Iraque sedentos de petróleo, ou das torturas em Guantánamo, mas discursam sobre as condições dos presídios no Brasil.

Se esse é o caminho predileto de nações ditas civilizadas e o Brasil entra no jogo, então, prevalece a mentira certificada já denunciada pelo divertidíssimo grupo também inglês  cuja página na internet merece ser revista – www.cheatneutral.com.   A gente faz de conta que impede o desmatamento na Amazônia com um belo e dispendioso jogo de cena envolvendo numerosas forças policiais e os países altamente industrializados fingem que vão mudar os seus estilos de vida do qual resultam abundantes emissões de gases causadores de mudanças climáticas.

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Evidentemente, a mentira de lá não justifica a daqui.  O governo brasileiro não tem um projeto estratégico para as florestas amazônicas e nem para o Cerrado.  Na verdade, não tem um conjunto de políticas ambientais consistentes, mas apenas um conjunto de restrições das quais são excluídas as grandes mineradoras, hidrelétricas e outros poderosos, além favelados e assentados. 

Etanol, Biodiesel e Outras Tolices

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Cresce a dificuldade de assegurar um mínimo de alimentos para os mais pobres do mundo.  Esse é o resultado do rápido aumento nos preços dos produtos agrícolas decorrente do aumento da demanda por biocombustíveis.  Não se trata de uma opinião, mas de uma constatação da FAO, a agência da ONU para agricultura e alimentação.

“Estamos vendo um crescente número de pessoas com fome.  E a quantidade de comida que a FAO pode adquirir para tentar dar algum alimento para essas crianças caiu para 40% do que era há 5 anos.”

Essa declaração da diretora-executiva da FAO, Josette Sheeran, feita há poucos dias, não repercutiu na imprensa brasileira.  Aqui, ainda se anuncia como algo sensacional a decisão da Petrobras de investir numa mega-usina de biodiesel em Minas Gerais.  Misturam-se decisões eleitoreiras – ganhar votos em território governado por outro partido – com a velha crença colonial de que os recursos naturais são inesgotáveis.  Um mega-projeto desse tipo só pode gerar monocultura e migração dos pequenos proprietários rurais para a periferia das grandes cidades.

A estimativa da FAO é de que 100 milhões de toneladas de grãos estão sendo redirecionadas anualmente para a produção de biocombustíveis.  Em escala global, a maior parte desse percentual é constituída de milho - 12% de todo o milho produzido no mundo.  Mas no Brasil a quase totalidade do biodiesel é proveniente da soja.  A redução da produção de alimentos básicos da dieta dos brasileiros – como feijão – já foi anunciada pela EMBRAPA há algum tempo.  O aumentos dos preços dos alimentos que constituem a cesta básica dos brasileiros de menor renda pesou de maneira decisiva na inflação de 2007.

Os resultados desse direcionamento dos cereais para a produção de biocombustíveis já vêm sendo anunciados pelos órgãos do governo norte-americano desde o início de 2007.  A cotação de cereais subiu para patamares nunca antes atingidos, com aumento de 25% nos preços do trigo, do milho e da soja.  O aumento da demanda de cereais pela China e Índia influiram nesse aumento, mas não foram apontados pelas autoridades norte-americanas como o principal fator, que continua sendo a demanda por biocombustíveis.

Faz-se urgente a criação de cinturões verdes em torno das cidades brasileiras por razões de segurança alimentar, incluindo menores custos de transporte, um dos mais graves efeitos perversos dos preços garantidos pelo governo aos poucos produtores de etanol.  Há décadas, o etanol brasileiro é subsidiado de muitas formas.  Entre elas, pela constante variação no teor obrigatório de mistura à gasolina utilizada pelos consumidores brasileiros.  Isso, sim, é que é parceria público-privada!  Uns ficam com a receita garantida e outros com a gasolina malhada.

Além dos cinturões verdes por razões de segurança alimentar – que não pode se restringir à caridade com dinheiro público -, a única coisa que se pode acrescentar a esse quadro perverso é o rápido aumento da eficiência energética, a utilização de energias renováveis que não demandem terras agrícolas (inclusive os biocombustíveis de segunda geração).  E, o que é mais importante, ações no sentido da rápida mudança nos padrões de consumo.

Acordos Internacionais e Esquizofrenia Energética

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Há cerca de 2 anos, a British Petroleum derramou um rio de dinheiro no mercado publicitário tentando mudar a percepção pública de sua sigla – BP.  Em todos os luminosos de Times Square, em Nova York, lia-se BP – Beyond the Limits (BP - Além dos Limites).  A publicidade afirmava o compromisso da empresa com energias renováveis.  E, de fato, quem visita de maneira superficial a página da BP na internet é capaz de acreditar que se trata de uma empresa verde.  A BP, como outras petroleiras, inclusive a Petrobras, tenta, com afã, acreditar ou fazer com que os outros acreditem que são empresas de energia caminhando em direção às energias renováveis.  Para isso, as petroleiras contam com o apoio da mídia, que além de bons contratos de propaganda tenta com igual afã – no melhor estilo Globo – garimpar boas notícias sobre o meio ambiente para não assustar a clientela.

A BP está se preparando mesmo é para investir R$ 5,2 bilhões numa área até agora intocada do Canadá, na extração de combustível fóssil das chamadas areias betuminosas.  Só a extração desse combustível – isto é, sem falar no uso final do combustível dela resultante -  resultará na emissão de 100 milhões de toneladas anuais de gases causadores de mudanças climáticas.  Isso para não mencionar o desmatamento de 140.000 kmde florestas nativas e a contaminação de imensos volumes de água. 

Na verdade, a BP é apenas mais uma petroleira entrando no que já está sendo chamado de “corrida do petróleo”, num paralelo com a  ”corrida do ouro” do antigo faroeste.  Nessa corrida já estão a anglo-holandesa Shell e a norte-americana Esso.  E a proposta conta com o enfático apoio do governo do Canadá, já que com as areias betuminosas o país passará a ser o segundo maior detentor de reservas de combustíveis fósseis, logo depois da Arábia Saudita.

Evidentemente, acusar apenas a BP é uma atitude um tanto esquizofrência, já que se ela não participar dessa corrida do petróleo outras petroleiras o farão, como já estão fazendo.  A corrida já se estende, por antecipação, à Antárdida e a outras áreas onde se encontram jazidas de petróleo de grande profundidade e cuja exploração vem se tornando viável com o aumento dos preços dessa fonte de energia.

Além disso, denunciar a atuação das empresas de petróleo sem fazer o mesmo em relação ao comportamento de seus países de origem – que subscreveram ao Protocolo de Quioto – não faz sentido.

Alguém acredita mesmo, com toda a sinceridade, que a humanidade está preparada, política ou culturamente, para abrir mão de uma Arábia Saudita de petróleo, mesmo ao custo do colapso climático e talvez civilizatório?

Quem acredita pode, talvez, olhar para a China, onde se situam mais da metade das 45.000 maiores hidrelétricas do mundo.  Com uma sólida bases tecnológica e financeira, empresas e bancos chineses estão, hoje, participando da construção de pelo menos 46 grandes hidrelétricas em 26 países, tais como Laos, Paquistão e Nigéria.  Contratos bilionários para gerar energia limpa, renovável?  Tudo como parte do pacote de ajuda a países mais pobres, mas em troca de acesso a reservas de petróleo e minérios.  A China tem anunciado metas ambiciosas de eficiência energética e de participação de energias renováveis em sua matriz energética.  Mas, evidentemente, sem abrir mão do tal do crescimento econômico, que demanda mais e mais energia.

A adoção de fontes renováveis de energia não resultará em redução do consumo de combustíveis fósseis, mas em seu aumento até o limite do possível.  Ou seja, a emissão de gases causadores de mudanças climáticas também continuará a crescer, exceto em alguns bolsões de riqueza onde a população e os níveis de consumo já se estabilizaram.

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Na produção de um barril de petróleo convencional são emitidos 29 kg de CO2, o que coloca os países produtores de petróleo entre os maiores responsáveis pela emissões causadoras das mudanças climáticas per capita.  Na produção de combustível fóssil a partir das areias betuminosas essas emissões sobem para 125 kg de CO2 por barril.

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No Canadá, nenhum cretino dirá que a exploração de novas reservas não contribuirá para as mudanças climáticas como afirmou um representante do governo brasileiro quando questionado pela imprensa na entrevista coletiva em que foi feito o anúncio da descoberta das reservas de grande profundidade de Tupi.

Biodiesel e Outras Boas Notícias de Ano Novo

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Ainda com o fracasso do encontro de Bali, há diversas boas notícias de ano novo para os que se preocupam com as mudanças climáticas.  Entre elas, o fato do Brasil iniciar a comercialização obrigatória de B-2 (uma mistura de 2% de óleos vegetais ao diesel fóssil).

Nos EUA, que todos dizem serem os mais reticentes em relação ao controle da emissão de gases causadores de efeito estufa, o ano de 2007 se encerra com centenas de postos de distribuição de B-20 e de B-100.  O B-100 requer pequenas adaptações nos motores e é mais frequentemente utilizado em frotas cativas.  A localização dos postos de abastecimento pode ser obtida na página do ministério da energia do governo norte-americano, em www.eere.energy.gov/afdc/fuels/biodiesel_locations.html, com mapa, endereço e tudo o mais.  Lá, o uso do B-20 e do B-100 é facultativo, mas são grandes e sólidos os estímulos fiscais.

Os EUA fecharam 2007 tendo substituído por biodiesel mais de 1% de seu consumo total de diesel fóssil.  Estão, assim, mexendo na matriz energética sem empurrar combustíveis goela abaixo dos consumidores, mas dando estímulos para que o mercado se regule.

Os EUA também avançam rapidamente nas pesquisas de produção de etanol de segunda geração, a partir dos resíduos vegetais.  Um relatório sobre esse tipo de etanol está disponível na página do Laboratório Nacional de Energia Renovável – NREL (na sigla em inglês), em www.nrel.gov/bioamass, e um vídeo sobre a planta-piloto de produção pode ser visto em www.nrel.gov/learning/re-biofuels.html (ambos apenas em inglês).

Lá, há espaço para discordar do núcleo central do governo, mesmo dentro do governo.  A diversidade de idéias é fundamental para o dinamismo econômico.

Feliz Ano Novo!

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Com os novos contratos feitos na Califórnia, os EUA terão, em breve, o maior parque de geração fotovoltaica (eletricidade a partir da energia solar) do mundo.  A meta do governo republicano de Schawarzennegger é chegar a 2030 com 30% de energia proveniente das fontes renováveis.  Isso, para não falar dos ganhos de eficiência, que fazem com que a Califórnia tenha conseguido manter os mesmos níveis de consumo de energia ao longo dos últimos 25 anos.  A China tornou-se provavelmente no maior usuário mundial de aquecimento de água por energia solar, o que se reflete, também, em economias de geração de energia por fontes de geração. 

Quem Está Nos Enganando?

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dá se foram, para Bali, um montão políticos que querem dar a impressão a seus eleitores de que estão fazendo o melhor para uma negociação global sobre as mudanças climáticas.   Pobre Bali!

Desde muito antes, a imprensa internacional percebeu que lá não se tomaria qualquer decisão relevante, e não deu ao encontro nem mesmo uma pequena fração do espaço e das manchetes concedidos aos relatórios científicos do Painel Internacional de Mudanças Climáticas, conhecido por sua sigla em inglês, IPCC.  O encontro de Bali deu chabu por antecipação.

Já se sabe que não está em questão apenas a emissão de carbono que causa as mudanças climáticas, mas todo o modelo de produção e consumo adotado pela assim autodenominada “civilização ocidental”, que já não se limita ao Ocidente.  Nela, as pessoas se sentem mais satisfeitas por ganharem dinheiro e  consumir do que por apender a tocar um instrumento, a pintar, ou a partilhar com amigos.  Aqueles, sim, tornaram-se os valores sociais máximos e excludentes dos demais.

Há poucas semans, a Agência Internacional de Energia – www.ieg.org - alertou para o fato de que, mantidos esses padrões de produção e consumo, a demanda de energia crescerá em cerca de 30% até 2020, época em que a civilização do petróleo já estará bem próxima de seu fim.

Evidentemente, não se trata apenas de energia, mas de seu uso para transformar matérias-primas em bens de consumo.  Mas como cada tema é tratado em separado, quanto mais se debate mais fica tudo igual.  E o Brasil subsidiando a eletricidade utilizada na fabricação de latinhas de alumínio.

Em Bali, realiza-se um encontro de políticos e de diplomatas, duas categorias profissionais pouco ou nada confiáveis.  Diplomacia é uma palavra que tem origem no grego antigo, com o significado de objeto duplo, papel dobrado em dois, e talvez aquele que vê com dois olhos, e que é pouco confiável.  Só os franceses conseguiram dar a essa palavra um tom de elegância, mas os anglo-saxões ficaram com a expressão assuntos externos (foreign affairs).  Diplomatas não decidem nada, apenas levam e trazem recados.

Quanto aos políticos, ninguém sequer imagina a possibilidade de que cogitem do envio de uma mensagem a seus eleitores propondo mudanças radicais no sistema de valores que caracteriza a sociedade de consumo.

O que já estava dito desde antes do primeiro encontro de cúpula sobre o desenvolvimento sustentável – em 1972! – é que esse modelo de desenvolvimento não é sustentável.  O mundo não tem matérias-primas suficientes para que a Índia e a China alcancem os mesmos padrões de desenvolvimento – leia-se, de consumo – que os países altamente industrializados.

Parte da responsabilidade pelo fracasso antecipado do encontro de Bali se deve à noção formulada pelos economistas do Banco Mundial e consagrada pelo Protocolo de Quioto de que seria possível a adoção de mecanismos de mercado para resolver o problema das emissões de carbono.  Pois bem, o Protocolo de Quioto fracassou, as emissões globais de carbono aumentaram e continuam a crescer, mas até mesmo ONGs como o Greenpeace – que já foi símbolo de alguma luta – ainda tentam acreditar nos tais mecanismos de mercado.

Por sua própria natureza, os mecanismos de mercado nunca se aplicaram aos assim denominados bens comuns.  E não serão suficientes para que o preço do carbono que se deixa de emitir seja igual ao preço do carbono emitido, simplesmente por não terem o mesmo valor de mercado.

Os países sérios sabem disso e continuarão formulando e implementando políticas de segurança alimentar e energética local, regional.  Enquanto Lula e seus pagadores de dívidas sociais continuarão a insistir na abertura desses mercados para os produtos primários brasileiros de baixo valor agregado - entre os quais se incluem, agora, os óleos vegetais com um novo codinome: biocombustíveis.

Terminada a farsa montada no cenário balinês, tudo voltará ao velho debate sobre crescimento econômico, ou seja, mais produção e mais consumo das mesmas coisas.

Há algum tempo, um filósofo de botequim fez um grafite na porta do banheiro de um bar da Califórnia: venda o lixo velho, compre lixo novo (sell old junk, buy new junk).  Lá mesmo, recentemente, milhares de adolescentes fizeram filas durante dias para comprar seus novos iPhones.

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China e Índia, países com taxas de desenvolvimento elevadas, já disseram claramente que não aceitam a imposição de limites às suas emissões de gases causadores de mudanças climáticas, ainda que se comprometam com programas de eficiência energética.  Já o Brasil, com suas baixíssimas taxas de crescimento econômico, continua na ladainha do “me dá um dinheiro aí”, mendigando uma bolsa-família planetária e, se possível, inter-galática, pirotécnica.  Lula e outros representantes do governo insistem numa sobretaxa para o petróleo, mesmo quando não conseguem sequer fazer com que a CPMF seja utilizada para a gestão de um sistema de saúde pública minimamente decente.  E celebram o lançamento da televisão digital capenga, anunciando o subsídio a conversores do sinal.  É o PAC da vacuidade mental!

Etanol de Segunda Geração e PACs da Mesmice

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De maneira polida mas firme, os países nórdicos disseram não ao etanol brasileiro.? Lula, com a sua?cara de pau,?colocou o seu personagem de vendedor de quinquilharias no saco e seguiu viagem.? Não sem antes assinar um “memorando de entedimentos”, o que é de praxe nesse tipo de turismo com o dinheiro público.

Na Finlândia, o recado foi claro: o país prefere o caminho da tecnologia e da eficiência energética.? Não poderia ser de outra forma, já que a Finlândia foi o primeiro país a apresentar, em 26 de junho de 2007,?o Plano de Ação Nacional para Eficiência Energética, solicitado pela União Européia aos países membros com o objetivo de reduzir 20% o consumo de energia até 2020.? A data limite, estabelecida em 2006, era 30 de junho de 2007.

De fato, em 2006, ?a União Européia já havia divulgado um documento em que reafirmava, de maneira contundente,? seu compromisso com a segurança energética e com as mudanças climáticas.? Quando se trata de questões de segurança nacional,?essa história de livre mercado e de globalização é colocada de lado.

“A União Européia se defronta com desafios energéticos sem precedentes que resultam da crescente dependência das importações, preocupações com o suprimento de combustíveis fósseis em escala mundial e mudanças climáticas claramente visíveis.? A despeito disso, a Europa a desperdiçar pelo menos 20% da energia que consome devido à ineficiência.? (…)? O custo direto de nossa falta de habilidade para usar energia de maneira eficiente é superior a 100 bilhões de euros por ano.?? Aumentar a eficiência de nosso uso de energia nessa medida é a maneira mais efetiva de melhorar a segurança de nossos suprimentos de energia, reduzir as emissões de carbono, impulsionar a competitividade e estimular o desenvolvimento de tecnologias de ponta para um mercado que se amplia rapidamente.” (http://ec.europa.eu/energy/action_plan_energy_efficiency/index_en.htm)

Ou seja, ou o Itamaraty não fez o dever e alertou Lula para o potencial fiasco de sua viagem, ou Lula não soube ouvir, já que nunca gosta de assuntos que?o desagradem.? Ou,? então,?o interesse pelo turismo nos países nórdicos era tanto que o desempenho do papel de representante comercial da indústria de etanol foi só um pretexto para o passeio.

Com a reação finlandesa mal-digerida e incapaz de mudar o discurso, Lula seguiu viagem.? E na Dinamarca ouviu uma contundente afirmação da ministra de Meio Ambiente, Connie Hedegaard: “tal como realizada hoje, a produção de etanol não é necessariamente boa para o meio ambiente”.? Difícil saber se Lula estava mais interessado em realmente em aprender, em compreender o que os seus interlocutores estavam dizendo ou em ser fotografado com reis e rainhas!? Afinal, a ministra realçou a importância do “etanol de segunda geração“, outro assunto que não recebeu o devido destaque nem mesmo dos jornais de negócios daqui, ainda que o Brasil corra o risco de perder esse mercado por falta de…. tecnologia.? E note-se que?os usineiros e o próprio governo tanto?se vangloriaram do alto nível de tecnologia?”genuinamente nacional” que o setor já teria desenvolvido.

A produção de etanol a partir de resíduos agrícolas com a utilização de enzimas é o que se denomina etanol de segunda geração.? Há várias empresas nos países sérios trabalhando sobre esse tipo de solução, que não é mais apenas uma hipótese, mas uma realidade.? No Canadá, já se encontra em operação uma primeira fábrica de etanol feito de celulose.? A empresa de biotecnologia, Iogen, foi fundada em 1970?e já investiu 130 milhões de dólares em pesquisa e desenvolvimento (www.iogen.ca).??Esse é o tamanho do nosso atraso tecnológico na produção de etanol.

Uma outra empresa de alta tecnologia já se consolidou na área de gaseificação de materiais orgânicos e, além de suas inúmeras instalações na Alemanha, começa a trabalhar na China.??A gaseificação de resíduos agrícolas ou materiais orgânicos em geral permite a geração de energia com altos índices de eficiência.??(www.choren.com)

Tecnologias têm um custo, e os países sérios não vão fazer “transferência de tecnologia” em nome de interesses humanitários.? O Brasil continua perdendo terreno?para as sociedades de conhecimento.??Foi preciso uma viagem presidencial, com “aerolula” e tudo, para descobrir o etanol de segunda geração e chegar à assinatura de dois memorandos de entendimento entre uma empresa dinamarquesa produtora de enzimas, de um lado, e a Petrobras e o Centro de Tecnologia Canavieira, do outro.? Afinal, há muito os usineiros que Lula elevou à categoria de “heróis”,? perderam o bonde da tecnologia de ponta.? Agora, em termos comerciais, práticos, êles entram com a tecnologia, de alto valor agregado, e nós com a terra e a mão-de obra barata.? Quem sai ganhando?? O Brasil se transformará numa “Árabia Saudita dos biocombustíveis do futuro”?

Nas palavras de um experiente profissional de gestão ambiental, “essa história de desenvolvimento sustentável é coisa de país sério; aqui, continuamos a ter crescimento puro e simples”.??Ou seja, mais do mesmo.? Ainda assim,?ninguém se surpreenderá se o governo anunciar um “PAC do etanol”.?????

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PAC é uma abreviatura de “pacote” utilizada para fins de marketing.? Nada mais.? Empacotam-se projetos que seriam feitos de toda forma e adota-se um nome?fantasia.? Agora, temos até PAC?de legalização de terras de quilombolas!? Duda Mendonça?e seus genéricos continuam vivos e atuantes.

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Uma versão ligeiramente modificada deste artigo pode ser encontrada em www.portofentry.com/site/root/resources/features_article/5213.html, com a opção do idioma espanhol no canto superior direito da página.

Biocombustíveis – As Trivialidades Lúlicas na Europa

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No mesmo dia em que Lula visitava a Finlândia – viagem turística importantíssima! -, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou um relatório reforçando a posição de que o aumento da demanda por biocombustíveis seguramente implicará no aumento dos preços dos alimentos.  A OCDE não é uma ONG e inclui, entre os seus membros,  a própria Finlândia, além da Dinamarca, Noruega, Suécia, Holanda, Alemanha, Inglaterra, França e muitos outros países.  Lula discorda e não vê conflitos entre os usos da terra.

Não é a primeira vez que a OCDE apresenta estudos bastante aprofundados projetando significativos aumentos de preços dos produtos agropecuários em função da demanda por biocombustíveis.  Há poucos meses, a OCDE divulgou relatório conjunto com a FAO (a ultra-conservadora Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) no qual as projeções são bastante conservadoras.  Essas projeções indicavam para o aumento de 13% a 17% no preço dos grãos até 2017, 50% nos preços da carne bovina e suína, e de pelo menos 70% nos preços dos óleos vegetais (www.oecd.org/dataoecd/6/10/38893266.pdf) .  Isso tudo sem considerar a crescente demanda por terras agriculturáveis para a produção de madeira para uso em termelétricas e, também, para suprir a demanda adicional proveniente da substituição dos plásticos por produtos de origem vegetal.

O novo relatório, sem a influência dos pruridos diplomáticos da FAO, vai bastante além e ressalta que a produção de biocombustíveis implica, também, no aumento do consumo de pesticidas tóxicos e fertilizantes altamente danosos ao meio ambiente, na acidificação dos solos, e na inexorável perda da biodiversidade.  Como era de se esperar, esses países priorizam os avanços tecnológicos que possam resultar na redução do uso de combustíveis.  Parece inevitável que o Brasil se mantenha como exportador de produtos primários, de baixo valor agregado, e importador de tecnologia, com alto valor agregado. 

No mesmo dia em que a OCDE divulgou o seu último relatório, Rubens Barbosa, presidente do Conselho de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo – FIESP, publicou um artigo intitulado “Crise no Programa de Biocombustíveis”.  Vale citá-lo:

“Qual a situação real do biodiesel (no Brasil)?

“Segundo a ANP, entre janeiro e junho de 2007 foram produzidos no Brasil 122 milhões de litros de biodiesel (…).  Apesar da expansão, o volume é 30% inferior ao que deveria ter sido entregue até junho de 2007  de acordo com os contratos firmados no segundo leilão de biodiesel realizados pela ANP em março de 2006.”

O autor demonstra que o cumprimento dos contratos em sua totalidade requer um aumento de 600% da produção no segundo semestre de 2007 quando comparada com a produção do primeiro semestre.”

Fora a acentuada divergência de pontos de vista entre Lula, sem números, e a OCDE/FAO, com números, resta, então, saber se as empresas que assinaram contratos e não cumpriram serão multadas, como sempre ocorre com os cidadãos comuns, ou se o assunto será esquecido, como é mais provável.

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Na Suécia, Lula repetiu a mesma monótona baboseira sobre as “barreiras comerciais”, sem se dar conta que a Europa inteira preza a sua segurança alimentar e energética, ao contrário do Brasil, que exporta alimentos que aqui faltam.

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Ninguém, mas ninguém mesmo, jamais comprará mamona para a produção de biodiesel.  A produção de óleo de mamona refinado para uso em cosméticos, aditivo em motores de aviação (inclusive da NASA), na indústria de esmaltes e outras, proporciona uma taxa interna de retorno média de 25%, enquanto se o produto for encaminhado ao mercado de biodiesel essa taxa de retorno não será superior a 12%.  As grandes esmagadoras que compram óleo de mamona para ter um “selo social” (eleitoral) do governo vendem o produto para os fins mencionados acima e empurram na Petrobras o óleo de soja mesmo.  É a velha política do “me engana que eu gosto”.

Biocombustíveis e Inexistência de Estratégias no Brasil

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Recentemente, Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura do governo Lula, escreveu um artigo que em enfatizou a necessidade de se definirem políticas estratégicas para a área de biocombustíveis no Brasil. Não deu qualquer satisfação sobre as razões pelas quais tais políticas não foram definidas durante os seus 4 anos de gestão.

Além disso, o ex-ministro, notoriamente ligado aos agro-negócios, argumentou que não haveria necessidade de deflorestamento para o plantio de monoculturas de oleaginosas já que o Brasil tem vastas áreas de pastagens que podem ser utilizadas desde que haja alguma “modernização” da pecuária brasileira.

Esse tipo de argumento sugere a leitura de um livro recente que descreve com riqueza de informações a “modernidade” da produção de milho e de gado dos EUA, onde quase não é concebível que bovinos possam se alimentar em pastagens. Lá, o gado é confinado e se alimenta de milho altamente subsidiado, hormônios para que o crescimento seja rápido e os animais possam ser abatidos antes de terem os seus fígados “explodidos” por uma alimentação que não é natural, e antibióticos para prevenir das doenças decorrentes das condições sanitárias e das próprias doenças advindas do tipo de alimentação.

A resenha da primeira parte desse livro, intitulado O Dilema do Onívoro (The Omnivorous Dilemma), a seguir, ilustra bastante bem o tipo de “modernização” a que se refere o ex-ministro.

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O Dilema do Onívoro – A Insensatez do Agro-Negócio

Nos EUA, são necessárias duas calorias de fertilizantes sintetizados a partir do petróleo para produzir uma caloria de milho. E como o gado bovino é alimentado com milho, quase um barril de petróleo é consumido para cada animal abatido. Os excedentes da produção de milho estão na origem tanto da abundância quanto da obesidade. Os subsídios governamentais são altíssimos, o alimento industrializado tem preços baixos, mas dão origem aos altíssimos índices de obesidade que custam algo em torno de 90 bilhões de dólares por ano em despesas médicas. Ou esses excedentes atravessam a fronteira do México, onde liquidam com os pequenos produtores.

Toda uma complexa cadeia de interesses gira em torno da produção de milho, impedindo que cessem os subsídios. A insensatez do agro-negócio é objeto de um fascinante livro intitulado O Dilema do Onívoro, que faz sucesso crescente à medida que os leitores descobrem a importância de saberem como se estrutura a indústria dos alimentos que chegam diariamente às suas mesas. Ainda não publicado no Brasil, o livro de Michael Pollan certamente é um importante alerta para um Brasil que pretendem transformar numa “Arábia Saudita dos biocombustíveis”.

O livro começa pela descrição da gigantesca monocultura de milho no estado de Iowa, e volta até a origem da alta produtividade, com raízes na produção de sementes híbridas na década de 30, permitindo a mecanização da lavoura e dando início a um processo que rapidamente transformará os agricultores em reféns – mais do que em beneficiários – da agroindústria. São todos devedores das Monsanto, dos fabricantes de fertilizantes e pesticidas, da Cargill e ADM que atual como intermediários, e dos bancos.

Como surgiu esse sistema tão perverso e pervertido?

Ao final da segunda guerra mundial, quando os Estados Unidos detinham imensos estoques de nitrato de amônia para a fabricação de explosivos, a solução encontrada foi o uso intensivo de fertilizantes. Também a indústria de pesticidas se estrutura com base nos estoques de produtos químicos destinados à fabricação de gases venenosos para uso militar. Os excedentes da produção de milho precisam encontrar mercados, e logo começam a ser utilizado na alimentação de animais, mesmo dos ruminantes, cujo sistema digestivo não é adaptado ao consumo de cereais.

Seguindo em busca da cadeia produtiva da agroindústria, Pollock viaja até Garden City, no estado de Kansas, e descreve a criação de gado bovino confinado, alimentado com milho, antibióticos e outros medicamentos, suplementos alimentares e estrogênio, gordura liquefeita e uréia sintetizada a partir do gás natural. Trinta e sete mil cabeças numa instalação que na linguagem da agroindústria norte-americana é conhecida como Operação Concentrada de Alimentação Animal (CAFO – Concentrated Animal Feeding Operation).

“Essa instalação se parece como uma cidade pré-moderna, sem espaço, imunda e mal-cheirosa, com o esgoto a céu aberto, ruas sem pavimentação e o ar tornado visível pela poeira. (…) A concentração de animais em meio à fala de higiene sempre foi uma receita para doenças. A única razão pela qual não ocorrem epidemias como nas cidades humanas medievais é o uso intensivo de antibióticos. (…) Essa alimentação da à carne a textura e o sabor que os consumidores norte-americanos passaram a gostar. No entanto, essa carne é menos saudável para nós, já que contem teor mais elevado de gorduras saturadas e menos ômega-3 do que as carnes do bovino alimentado no pasto. (…) Na medida em que se avança na compreensão desse sistema de produção, torna-se inevitável questionar se o que parece racional não é também uma loucura total”.

Depois, o autor disseca o processamento dos alimentos consumidos nos EUA. Pode-se dizer que o cereal matinal é o protótipo desse modelo: a indústria transforma 4 centavos de dólar de milho comprado como “commodity” em 4 dólares de alimentos processados, com novas formas e sabores, vendidos em embalagens que atraem o olhar do consumidor, tudo com o apoio de grandes campanhas publicitárias. Para cada caloria de alimento assim processado são necessárias 10 calorias de combustível fóssil.

“Na General Mills eu ouvi, pela primeira vez, a expressão “sistema alimentar”. Essa expressão é mais atrativa e indicadora da alta tecnologia to que a palavra comida. E evita as conotações negativas de sua antecessora, “alimento processado industrialmente”. Os especialistas do setor falam, também, em “proteína vegetal texturizada” e em “nutracêuticos”.”

Daí, o caminho até o McDonald’s é denso de truques apoiados em estudos de mercado e na “ciência da alimentação”. Foi o esforço para aumentar a receita de cadeias de cinema que, depois de muitas experiências, levou à criação dos imensos sacos de pipoca e copos de soda que hoje estão presentes em todos os locais dos EUA, tendo as crianças como alvo principal. Três em cada cinco norte-americanos têm o peso mais elevado do que o recomendável, um em cada cinco é obeso, e cada criança nascida depois de 2000 tem 33% de possibilidades de desenvolver diabetes.

“Atualmente, 19% das refeições norte-americanas são feitas em automóveis. Refeições compradas sem que a porta do veículo precise ser aberta, comidas sem que o carro tenha que parar, com o uso de uma só mão. De fato, essa é a genialidade dos “nuggets” de frango: poder consumir sem o uso de prato ou garfo. Não há dúvidas de que os pesquisadores do McDonald’s estão neste momento trabalhando para que se possa fazer o mesmo com uma simples salada.”

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O livro de Pollock segue por caminhos fascinantes e a sua leitura nos faz perguntar se é isso que queremos como “estratégia” para a produção brasileira de biodiesel e para a “modernização” de nossa agricultura, com a Petrobras fazedno leilões de compra de imensas quantidades de óleo vegetal e fazendo com que os pequenos agricultores se tornem reféns das esmagadoras. Enquanto a estratégia não é definida pelo governo, os investidores estrangeiros compram terras e fazem o que bem entendem. Além de ainda virarem sócios formais da Petrobras na produção de óleos vegetais para exportação e para uso como biocombustível.

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THE OMNIVOROUS DILEMMA – A Natural History of Four Meals, de Sidney Pollan, The Penguin Press, New York, 2006.

Agricultura e Mudanças Climáticas

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Alguns cientistas norte-americanos estimam que para produzir uma caloria de milho nos EUA são necessárias pelo menos duas calorias de combustíveis fósseis. Isso se deve principalmente ao fato de que os altos níveis de produtividade atual só são alcançado em decorrência de imensas quantidades de fertilizantes fabricados a partir de combustíveis fósseis. Além disso, os óxidos nitrosos liberados pelo uso excessivo de fertilizantes – com excedentes não absorvidos pelas plantas – também contribuem de forma significativa para as mudanças climáticas.

Isso significa que as políticas de redução das emissões de gases causadores dessas mudanças deveriam ser complementadas por políticas de substituição progressiva do uso de fertilizantes nas grandes monoculturas dos países desenvolvidos e mesmo do Brasil. Mudanças desse porte nas políticas agrícolas dos EUA são, hoje, simplesmente inconcebiveis, já que resultariam em impactos nos preços de boa parte da produção de alimentos do país.

Com o tempo, o gado bovino, os suínos, os frangos, o tradicional peru, as ovelhas e até os peixes produzidos em cativeiro passaram a ser alimentados com ração à base de milho, que é altamente subsidiado. Em decorrência, os ovos e o leite também são indiretamente subsidiados, da mesma forma que o óleo em que são fritos os alimentos, em particular quando processados industrialmente. A “brincadeira” se estende até as bebidas não alcoólicas adoçadas com frutose extraída do milho, enquanto a cerveja barata para o consumo de massa é feita com glucose… de milho, que é também utilizado em muitos produtos não alimentícios.

Lá, os subsídios não vão para o bolso dos fazendeiros – como ocorre no Brasil com os subsídios camuflados ao etanol -, mas sim para a cafetinagem das sementes, para os fabricantes de fertilizantes e de tratores, e por aí afora. Assim, são fortes as pressões para que essa política “agrícola” não seja modificada, apesar do usual blá-blá-blá sobre as maravilhas da “mão invisível do mercado” (que tampouco se aplicou à iniciativa da guerra pelo petróleo, com o renascimento do poder do complexo industrial-militar).

Além disso, há a percepção pública que influi de forma decisiva no já debilitado apoio a Bush. Uma pesquisa do Bureau de Estatísticas do Trabalho do governo ddos EUA divulgada recentemente mostrou o aumento do preço do milho nos produtos alimentícios e o atribuiu ao crescente uso do milho para a produção de etanol. Considerados os meses de abril de 2006 e 2007, o aumento percentual de preços foi de 3,2% no leite, 3,7% nos biscoitos e bolos, 4,6% no frango, 4,7% na carne, 18,6% nos ovos e… 5% nos refrigerantes. O aumento médio nos produtos alimentares foi de 3,6%.

Mas o imbroglio não termina aí. Os centros de pesquisa caminham rapidamente na direção do desenvolvimento de materiais plásticos a partir de produtos agrícolas. E aí surge a inevitável pergunta que ainda não teve o necessário espaço nos debates sobre o fim da era do petróleo: a agricultura terá capacidade de suprir matérias-primas para todas essas finalidades se forem mantidos os atuais padrões de “desenvolvimento”?

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Só mesmo Lula para afirmar, com base no nada, a inexistência da evidente tendência ao aumento no preço dos alimentos em decorrência do crescimento da demanda de terras para a produção de biocombustíveis, à qual vem se somando a expansão das monoculturas de pinus (que se expande de forma descontrolada sob a alegação farsante de que utilizará “terras degradadas”, quando nada pode degradar mais os solos do que esse tipo de monocultura).

Recentemente, até o ex-ministro da agricultura de Lula, Roberto Rodrigues, que se notabilizou pela defesa inteligente dos interesses dos grandes produtores, do agribusiness, chamou a atenção para a necessidade de um planejamento estratégico para a produção de biocombustíveis. Ou seja, esse planejamento não existe.

Nos últimos dias , Abram Szajman, presidente da Federação do Comércio do Estado de São Paulo, foi mais contundente num artigo intitulado “Etanol – Problema ou Solução?” no qual afirmou ser “estranho o silêncio do governo brasileiro a respeito de um assunto que exige posições claras e definidas”. O autor foi ainda mais contundente ao afirmar que a abertura do mercado norte-americano para o etanol brasileiro pode levar o país “ao progresso, à riqueza, ao conforto social (…) ou a mais atraso e miséria, fome e crescimento da injustiça social”.

“O país corre o risco de voltar, ironicamente, (…) ao engenho de açúcar, à monocultura, à ‘maldição do petróleo’, que faz de seus grandes produtores países pobres, ditatoriais, dependentes contumazes da importação de todo tipo de bens e serviços.”

Será que a elite brasileira está, enfim, “acordando”, ou são essas apenas algumas vozes isoladas que estão ousando falar o óbvio, cuidadosamente afastado do anêmico discurso político e da apatia em relação à formulação de políticas públicas?

Alimentos X Biocombustíveis? Fidel, Lula e a FAO

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Recentemente, Fidel Castro deu uma cutucada em Lula pelo que considerou ser uma ênfase excessiva na indústria canavieira, que da origem colonial até os nossos dias utiliziou trabalho escravo, semi-escravo e, mais recentemente, de baixa remuneração e alto alto risco ocupacional. O comandante ampliou as críticas aos eventuais acordos entre Lula e Bush para o fornecimento de biocombustíveis para os EUA, mencionando potenciais conflitos entre a produção de alimentos e de energia. Do alto de sua “çabedoria”, Lula limitou-se a dizer que esse tipo de conflito não existe. Sem maiores explicações.

Não mais do que duas semanas depois, a ONU divulgou um amplo relatório no qual enfatiza o grande potencial de conflito entre nos usos da terra em decorrência da crescente produção de biocombustíveis. O relatório afirma o óbvio: esses conflitos serão mais agudos em países com menos disponibilidades de terra agrículturável para alimentação humana, como a India e a China, com menores riscos para o Brasil. Mas sonegou a informação de que no Brasil extensas áreas agriculturáveis já vêm sendo compradas por grupos estrangeiros há algum tempo. O governo brasileiro fingiu que não ouviu. O estudo pode ser encontrado em http://esa.un.org/un-energy/pdf/susdev.Biofuels.FAO.pdf, em inglês.

A concorrência entre o uso da terra para a produção de alimentos, de energia, e também de produtos florestais tradicionais, da madeira à celulose para a fabricação de papel, é fato, e a sua ampliação é certa como 2 + 2 são quatro. Na melhor das hipóteses, haverá “apenas” um aumento no preço dos alimentos. Num cenário mais realista, um massivo êxodo dos pequenos produtores rurais em direção à periferia das grandes cidades.

Esse debate torna inevitável um questionamento do próprio modelo de “desenvolvimento” (que no Brasil voltou a ser mero “crescimento”, como durante o reinado de Delfim Netto).

Em 1972, foi publicado um livro que deveria ter revolucionado o pensamento econômico: Limites para o Crescimento. De autoria de um grupo interdisciplinar do Massachussets Institute of Technology – MIT, o estudo foi encomendado pelo Clube de Roma, designação bem humorada de um encontro periódico de dirigentes de grandes multinacionais. Até então, esses encontros eram limitados à s clássicas acordos para dividir mercados. Ao final da década de 60, por inspiração de Giovanni Agnelli, fundador da Fiat, as multinacionais resolveram avaliar as disponibilidades de matérias-primas objetivando melhor assegurar as suas fontes de suprimentos no quadro da tal “ordem econômica internacional”. Desse tipo de abordagem surgiram as grandes associações 50-50 entre a CVRD e grupos estrangeiros para a exportação de alumina e ferro-gusa, bem como o “modelo” exportador da “província mineral de Carajás”: com baixo valor agregado no território nacional e altos subsídios no preço de insumos como energia e outros custos de infra-estrutura (ferrovias, portos, etc). Ao vencedor, as batatas, e aos provincianos, a província.

As conclusões desse relatório do MIT influiram na decisão da primeira-ministra da Suécia, Gro Brundtland, no sentido de propor a convocação da primeira Conferência Mundial de Meio Ambiente e Desenvolvimento. A conferência realizou-se em Estocolmo em 1972. o mesmo ano da publicação livro (que foi bem posterior à conclusão dos estudos). A segunda conferência realizou-se no Rio, em 1992.

No Brasil, um único pensador de renome enfatizou, à época, a importância do assunto: Celso Furtado. Em 1974, o nosso economista mais inovador publica “O Mito do Desenvolvimento Econômico”. Com ironia ímpar, Celso Furtado afirma: “os mitos operam como faróis que iluminam o campo de visão do cientista social, permitindo-lhe ter uma visão clara de certos problemas e nada ver de outros”.

“A literatura sobre desenvolvimento econômico do último quarto de século nos dá um exemplo meridiano do papel diretor dos mitos nas Ciências Sociais: pelo menos 90% do que aí encontramos se funda na idéia de que o desenvolvimento econômico,tal qual vem sendo praticado pelos países que lideraram a Revolução Industrial, pode ser universalizado. Mais precisamente: pretende-se que os padrões de consumo da minoria da humanidade, que atualmente vive nos países altamente industrializados, são acessíveis à s grandes massas de população em rápida expansão e que formam o chamado Terceiro Mundo.”

Comentando o estudo feito para o Clube de Roma, Celso Furtado realça o fato de que “nele foi abandonada a idéia de um sistema aberto no que concerne à fronteira dos recursos naturais”. Surpreendemente, nesse brilhante texto, o autor já afirma que “além das consequências diretamente econômica, esse processo (de degradação do mundo físico) provoca elevação da temperatura média de certas áreas do planeta cujas consequências a mais longo prazo dificilmente poderiam ser exageradas“.

Nesse ponto, Celso Furtado faz referência a uma palestra do também economista Georgesu-Roegen pronunciada em 1970 na Universidade do Alabama, na qual afirmara que “do ponto de vista termo-dinâmico, a matéria-energia entra no processo econômico num estado de baixa entropia e sai dela num estado de alta entropia“. Entropia é um conceito da física que mede o grau de “desordem” da energia, e a “alta entropia” aí mencionada significa a energia que é desperdiçada ou não pode ser “transformada em trabalho”.

Com o tempo, esse tipo de debate foi dado por encerrado, e instituições como o Banco Mundial, o BID, o FMI, o BNDES, e outras do gênero continuaram a fazer mais do mesmo, como tropas de burros que percorrem sempre um só caminho. A consagração da mesmice.

É evidente que por maior que seja a produção de biocombustíveis e a utilização de fontes renováveis de energia, a demanda continuará crescendo a taxas mais elevadas do que a oferta e de que as disponibilidades físicas da Terra. É inútil ficar imaginando que tudo melhorará se existir um outro planeta habitável. E é fantasiosa a idéia de que a rápida disseminação das tecnologias já existentes nos países altamente industrializados permitirá a reversão ou pelo menos a estabilização das atuais tendências às mudanças climáticas. Essas tecnologias estão protegidas por patentes e os países ricos não vão pagar por sua disponibilização para as economias periféricas. Se alguém tiver dúvidas, basta ver o exemplo dos medicamentos que salvam ou deixam de salvar vidas em função do nível de renda.

Além disso, é importante ressaltar que não pode existir “transferência de tecnologia” sem um custos. A tecnologia está na cabeça das pessoas, em sua capacidade de criar soluções para os problemas com que se defrontam, de inovar em todos os campos da atividade sócio-econômica. Tecnologia é um misto de educação com cultura, no sentido mais amplo.

A moeda brasileira está momentaneamente valorizada em relação ao dólar em consequência de ter sido atingido o auge de um ciclo de dos massivos investimentos externos necessários para assegurar a expansão das fronteiras econômicas das empresas dos países altamente industrializados, aos quais se acrescentaram a China, a India e o México. Compram tudo, de amplas áreas costeiras para o desenvolvimento turístico até as concessões para a operação de telefonia celular. Fora isso, não querem apenas os biocombustíveis, mas a terra. E estão comprando terras para produzir biodiesel para a exportação.

Isso tudo não significa que o Brasil não deva entrar na era dos biocombustíveis mas, sim, que deve pensar estrategicamente em sua própria segurança alimentar e energética, ou seja, na segurança alimentar e energética dos brasileiros, antes de priorizar os interesses dos investidores estrangeiros, que logo começarão a exportar e a remeter lucros para os seus países de origem, sem aqui deixar nem mesmo os impostos para a promoção do mínimo necessário aos brasileiros: saúde básica, educação, saneamento. Só assim não nos tornaremos uma “potência em biocombustíveis” apenas no nome, como ocorre na maior parte dos países exportadores de petróleo caracterizados pela existência de uma casta de milionários e pela pobreza da esmagadora maioria da população.

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Quanto à s fontes renováveis de energia, sejamos sinceros: o Brasil não desenvolveu tecnologia na área de geração solar ou eólica de eletricidade. Se quisermos utillizá-las, vamos ter que pagar “pedágios”, royalties, ou seja lá qual for a denominação preferida. Como também pagamos pela transferência de tecnologia à s multinacionais instaladas no Brasil que fabricam desde as turbinas de nossas hidrelétricas a meros transformadores (vendidos de forma cartelizada, com imensos prejuízos para a nação?). Vale dizer que essas multinacionais têm origens nacionais bastante bem definidas. Todo o dinheiro que vem, volta. O objetivo dos investidores é um só: o lucro a ser remetido para os países em que vivem.