A espalhafatosa privatização da Cedae e danem-se os municípios… e o saneamento básico

Meirelles é a única voz do governo – fora as usuais disputas por cargos em Brasília.  Em tempos de crise, um mero contador tenta aparecer como economista, quando na verdade só quer que as colunas da direita e da esquerda se encontrem (o que, convenhamos, é o mínimo).  Nada sobre o aumento do dinamismo econômico que possa resultar em geração de emprego e em aumento da arrecadação.  Nada de sério na saúde pública ou na educação.

Até as mais caretas agências de classificação de risco já divulgaram notas informando que não se trata apenas do deficit público, mas da incapacidade do governo para fazer a economia crescer

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Agricultura urbana, hidroponia vertical e segurança alimentar

A agricultura urbana vem se expandindo nos países mais desenvolvidos, onde existe uma boa percepção da segurança alimentar e, também, dos custos de transporte de alimentos até os pontos de abastecimento de grandes cidades.

No torpor mental em que o Brasil se encontra, seria interessante que o poder público – em todos os níveis – incluindo prefeitos – e a iniciativa privada pensassem mais nessa alternativa.  Afinal, o país é um grande exportador de alimentos mas deles carece o consumo humano a preços menos sujeitos às oscilações do clima e do consumo de combustíveis.

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Sobre sonhos, ciência & tecnologia, desenvolvimento econômico

O conhecimento aplicado ou mesmo a mera compreensão dos fatos sempre estiveram entre os principais fatores de unidade social e avanço econômico.  Isso valeu até mesmo para a invenção da roda, o domínio sobre o fogo, a utilização da pólvora para fins bélicos e por aí afora.

Ao final da II Guerra Mundial, as tropas vitoriosas, tanto norte-americanas quanto soviéticas, procuravam por Wernher von Braun e sua equipe.  O inventor das “bombas voadoras” – que trabalhara para Hitler – terminou transferido para os EUA.  Em 1950, já liderava as equipes que desenvolviam foguetes militares e, em 1960, tornou-se o diretor do principal centro espacial da NASA, criada dois anos antes.  Há muito von Braun tinha o sonho de sair da órbita da Terra.

Desde então, a NASA é uma referência mundial em tecnologia espacial.  Mas, além da colocação de satélites de comunicação, de espionagem e de monitoramento de fenômenos de interesse humano – como tempestades e furacões – ou puramente científicos, de que serve a NASA?

Serve para manter vivo o sonho unificador de ser a primeira nação a viajar até a Lua e, mais recentemente, planetas distantes.  O que usualmente não se diz é que a NASA é talvez o mais importante instrumento norte-americano de organização da ciência e da tecnologia do país, com impactos fortíssimos sobre a economia dos EUA, conferindo-lhe razoáveis vantagens competitivas.

Apenas como exemplo, periodicamente a NASA anuncia que está disponibilizando patentes com potencial interesse comercial.  No último anúncio, foram nadas menos do que 56 patentes disponibilizadas para usos comerciais.  Na verdade, a NASA joga limpo e há muito tempo disponibiliza patentes que não são mais de seu interesse através de uma página na internet que tem como apelo a expressão “trazendo a tecnologia da NASA de volta à Terra”.

O chefe do Programa de Tecnologia da NASA, Daniel Lockney, afirma sem hesitações:

“Disponibilizando essas tecnologias para o domínio público, estamos ajudando a impulsionar uma nova era de empreendedorismo que vai novamente colocar a América na liderança da manufatura de produtos de alta tecnologia e de competitividade econômica.”

Isso talvez valha para abrir a mente de Henrique Meirelles, que acha que a economia é só uma questão de volume de trocas e de equilíbrio entre a coluna da direita e a coluna da esquerda.  Parafraseando a equipe da primeira campanha presidencial de Clinton que adotou o lema “é a economia, seu idiota”, há que lembrar ás autoridades econômicas brasileiras: é o conhecimento científico e tecnológico, seus otários.

O Brasil não vai sair de seu atual atoleiro político só produzindo commodities de baixo valor agregado.  E mais: de nada adianta termos reservas de Lítio e Nióbio se exportamos esses minerais raros em estado bruto, como ainda fazemos com o Silício, exportado em “grau siderúrgico” (pouco beneficiamento) e importado já incorporado a produtos finais por um preço cerca de 50 vezes mais elevado (sem falar na geração de empregos nos países que detém a tecnologia para o beneficiamento e para a sua incorporação – por exemplo – em células fotovoltaicas.

Basta lembrar que há cerca de 30 anos os produtos chineses e coreanos eram considerados de qualidade muito inferior e hoje já estão no topo da cadeia tecnológica… e tentar repetir em algumas dimensões a experiência desses países.

Além de acordos políticos, o Brasil precisa voltar a ter algum sonho de unificação nacional, algo voltado para o futuro e não limitado à cordialidade, ao “jeitinho brasileiro” e às riquezas que permitiam alguma unidade enquanto “deitado eternamente em berço esplêndido”.

 

Resíduos de mineração, Ministério Público de Minas Gerais e apenas mais do mesmo

Um dos mais ricos e influentes dirigentes de minas de carvão dos EUA acaba de ser condenado a um ano de prisão e ao pagamento de uma multa de US$ 250.000, além de um ano subsequente de liberdade condicional.  Donald Blankenship foi acusado de conspirar para violar os padrões federais de segurança na mineração. Os seus advogados pediram que ele aguardasse o recurso em liberdade, mas o juiz negou – segundo a reportagem do New York Times diante do olhar perplexo e de seus advogados. Nada de responder em liberdade para um crime de tal gravidade!

O processo foi movido pelo Departamento de Justiça depois de um “acidente” ocorrido em abril de 2010.

Em dezembro de 2011, a Administração de Saúde e Segurança das Minas já havia concluído o seu relatório, com um total de 369 citações de violações das normas de segurança.  Nesta área administrativa, as penas foram de apenas US$ 10,8 milhões.  O acordo inicial com a Promotoria de Justiça para dar fim ao processo criminal contra a corporação subiu o valor para US$ 209 milhões.

Enquanto isso, no Brasil, cinco meses depois da maior catástrofe ambiental do país, a lama da Samarco (leia-se Vale + BHP Billiton) continua vazando, ninguém foi preso, a Justiça Federal deu mais um prazo de cinco dias para que esse vazamento contínuo seja estancado sob ameaça de uma multa diária que não será aplicada.  E a patetice geral continuará, crônica.

Como se não bastasse, o Ministério Público de Minas Gerais resolve colher assinaturas para um projeto de lei sobre a mesmice, isto é, sobre como assegurar às mineradoras o direito de fazer mais do mesmo com um verniz de maior segurança.  O projeto não prevê alternativas como redução dos percentuais de água nos resíduos – o que é plenamente factível – ou, o que seria melhor, que as mineradoras fosse obrigadas a, no mínimo, obedecer aos padrões nacionais de lançamento de efluentes para evitar a contaminação de corpos d’água superficiais ou subterrâneos.

Um projeto de lei elaborado não se sabe como, com um conteúdo inacessível para a maioria esmagadora dos que assinarão e, o que é mais importante, sem uma programação de audiências públicas ou de recebimento de contribuições de especialistas em outras áreas além da pretensa estabilidade geológica das barragens. Afinal, se o objetivo for apenas aperfeiçoar os mecanismos de controle sobre as mesmas soluções tecnológicas, não precisa de coletar assinaturas, basta sentar com o governador ou encaminhar através de algum deputado estadual simpático à causa. Ou será uma cortina de fumaça.

Uma abordagem inovadora é ainda mais importante numa época em que as mudanças climáticas já dão sinais de chuvas muito mais intensas do que as séries históricas, e muito mais concentradas geograficamente também. Os principais serviços de meteorologia do mundo já identificaram esse fenômeno e até lhe deram um nome: flash floods, inundações súbitas. Chove intensamente num lugar e não há indícios de precipitação a poucos quilômetros dali. Assim, as barragens se tornarão cada vez mais inseguras.

Mas… por que é mesmo que as mineradoras são isentas do tratamento da água contaminada, ao contrário de todas as demais atividades poluidoras do Brasil? E, em particular, numa época de ciclos de escassez de água e os preços dos sistemas mais sofisticados de tratamento de água vêm se reduzindo de maneira acentuada!

Até mesmo a África do Sul já vem exigindo, há algum tempo, o tratamento da água de rejeito de atividades de mineração ao ponto de torná-la potável!

Supondo que alguns membros do MPMG saibam inglês ou possam dispor de estagiários que façam as necessárias traduções, é só buscar, por exemplo, por eMahaleni Reclamation Plant e encontrarão muitos estudos de caso com o que está no link (trecho sublinhado), publicado pela da Associação Internacional de Água. e não se trata de coisa nova, mas de algo que está em operação desde 2012, com a água residual de mineração sendo transformada em água potável e fornecida à população da cidade.

E isso feito por uma mineradora atuante no Brasil – a Anglo American – que ainda presta serviços de tratamento da água residual da mineração a uma sócia da Samarco – a BHP Billiton.

Tudo bem, não se trata de dizer a todas as mineradoras que a partir de amanhã de manhã elas devem tratar as suas águas residuais, mas pelo menos dar um prazo ao final do qual barragens de rejeitos com água simplesmente não seriam mais permitidas. Quem sabe nas renovações da licenças que vençam dentro de 3 anos, e já co a obrigação de apresentar os projetos um ano antes!

Então, senhores do MPMG, mãos à obra. Nada de projetos para fazer apenas mais do mesmo e com a consulta interna limitada a geólogos.

É tempo de inovar! Ou de trazer o Brasil para as tecnologias de tratamento de água já disponíveis e para uma realidade climática-hídrica de transição.

Ah – Até mesmo o Núcleo de Estudos e Pesquisas do Senado Federal reconhece que o Brasil não tem sistemas de reservação de água suficientes para enfrentar uma nova crise hídrica, que outros países avançam rapidamente no reuso e.. cita o caso específico de eMahahleni. Vale ler pelo menos dos itens 14 ao 17, para aqueles que realmente se preocupam com gestão de recursos hídricos.

 

Arte, Símbolos, Sonhos, Povos e o Imaginário das Nações

Cada povo cria ou homenageia os deuses, ídolos e outros símbolos que representam os seus anseios.

Já na Roma antiga, construiu-se o Panteão, um templo que era a morada de todos os deuses, ou ao menos dos principais.  Muito mais tarde, a França edifica o Panteão de Paris, onde são enterrados ou para o qual são transladados os restos mortais de seus heróis.  No topo da fachada, a inscrição “Aos Grandes Homens, a Pátria Agradecida”.

Para dar apenas mais um exemplo, mesmo quando a foto é montada – como no caso do hasteamento da bandeira ao final da batalha de Iwo Jima, a vitória ocorreu e tornou-se um símbolo.

No Brasil, ao contrário, tem-se a impressão de que há uma simbologia de homenagem aos derrotados, como se pode ver na imensa estátua na orla da avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, em homenagem aos assim chamados 18 do Forte, uma nítida homenagem aos derrotados (seja lá qual fosse a justiça de sua causa).

Dezoito do Forte

Outros heróis ou fatos históricos do imaginário “panteão brasileiro” são Lampião – Rei do Cangaço, Padim CiçoGuerra de Canudos (liderada pelo “homem santo” Antonio Conselheiro, a Revolução Constitucionalista de 1932 (rapidamente derrotada), a Guera dos Farrapos ou Revolução Farroupilha, Tiradentes, que defendia a elite local e  foi preso antes de iniciar-se a insurreição, e por aí afora.  Uma séria sequência de homenagens a derrotas e derrotados, não importando, aqui, se as causas defendidas eram justas.

Cultuam-se muito mais esses movimentos do que grandes nomes da vida brasileira como Villa-Lobos, Santos Dumont, Chiquinha Gonzaga e tantos outros  Ah – mas os “tantos outros” são heróis do conhecimento e das artes, mais cultuados na Europa e nos outros países do que aqui.

Nada de tão estranho quando se pensa na influência que o sebastianismo teve sobre alguns desses movimentos.  De fato, grande número de portugueses simplesmente não acreditava que Don Sebastião havia sido morto em combate no norte de África e acreditavam no seu retorno.

A insistente crença num libertador messiânico talvez explique um pouco do que está acontecendo no Brasil de hoje.

No passado, povos inteiros construíram grandes impérios com base num imaginário que os unificava.   Assim, desde Gengis Khan que, depois de unificar a Mongólia partiu para a conquista de Pequim, ele que imaginava ter como missão divina a unificação do mundo, até onde a História narra, com Machu Pichu e muitas outras culturas.

A unificação de um povo depende de seus símbolos, anseios, sonhos.  Assim ocorreu com a decisão norte-americana de levar Wernher von Braun para os Estados Unidos, onde em sintonia com o desenvolvimento de mísseis criou o sonho da conquista espacial.

Modernamente, a NASA e a Agência Espacial Européia – entre outras – aliam-se na mesma conquista do espaço cada vez mais distante.  Não se apoiam em nada além de um sonho – e von Braun dizia que um sonho era imprescindível para unir uma nação -, mas um sonho que a cada dia se realiza e, sobretudo, resulta na organização sistemática do conhecimento, com muitos resultados decisivos no desenvolvimento desses países.

Em 2014, após o pouso num cometa, o presidente da Agência Espacial Européia fez um curtíssimo discurso no qual disse apenas que aquilo era o resultado da cooperação entre centenas de empresas dos mais diversos países europeus e enviou uma mensagem à juventude: “foi o conhecimento que nos tirou das cavernas e só o conhecimento poderá nos tirar dos problemas com os quais estamos envolvidos”.

Esses são apenas um dos sonhos unificadores da Europa, dos EUA, da China, e com a Estação Espacial Internacional, da Rússia.  Eles não têm a relação custo-benefício como objetivo primeiro, mas os resultados econômicos são fenomenais.

E quais são mesmo os sonhos e projetos de nação do Brasil?  Algo em torno de uma verdadeira revolução na educação, assim como na pesquisa e no desenvolvimento científico e tecnológico?

Afinal, o conhecimento – incluindo a capacidade de transformá-lo em tecnologia e em disseminá-lo – sempre foi a principal arma dos mais desenvolvidos.  Assim como foi uma das peças fundamentais dos imensos avanços da China e da Coréia, entre outros.  Enquanto isso, no Brasil, só 10% dos estudantes alcançam índices satisfatórios de desempenho escolar.

***

Contesta uma grande e amado amigo, talvez como resultado de uma leitura corrida, que o texto não esgota a simbologia no pensamento brasileiro – ainda dizendo que o “Brasil não é uma nação, nem sequer um país, e talvez viva no século XIX”.

Nunca foi a intenção de um curto texto de um blog “esgotar” nada, mas apenas destacar alguns aspectos do imaginário brasileiro.

Ainda assim, resolvi acrescentar um link para um artigo postado há muito que incluiu a citação de um trecho de um poema do brilhante Bruno Tolentino, grande amigo a quem presto minha homenagem saudosa.

Para que o leitor não tenha que volta ao link, que trata de outro assunto – trecho sublinhado – volto a transcrever o que aqui importa:

 “Este estado não é uma nacionalidade. Este país não é uma sociedade; esta gente não é um povo.  Nossos homens não são cidadãos.”  (Alberto Torres)

 Um Interlúdio – Torres e Deuses (Bruno Tolentino, publicado em Os Deuses de Hoje, 1995 – escrito entre entre 1964 e 1985).

Nada parece ter mudado de lá para cá, ou de Alberto Torres para cá.

 
"Alberto Torres

há muitos anos

disse de nós

que não formamos

uma união

ainda não;

que, como os símios

que trocam os ramos

pelos cipós,

nos enredamos

com o ilusório

e confundimos

o bem e o mal;

que porque temos

um território

nos persuadimos

de que há um país

neste local."

 

Que nesses termos

nunca faremos

uma nação

de um matagal,

pois se não dermos

comida, teto, 

lugar, raiz

e dignidade 

ao cidadão,

ao branco e ao negro,

nosso projeto,

nossa retórica

nacional,

não passarão

de uma inverdade,

de uma ilusão

escrita a giz

no quadro-negro.