Consumidor doméstico: não economize água

Parece politicamente incorreto – ou é politicamente incorreto -, mas o objetivo é o esclarecimento e não a mesmice do marketing verde!  Para os consumidores domésticos de pequeno e médio porte, em geral não vale a pena economizar água porque a conta não será maior ou menor.  E a conta não será maior ou menor porque a concessionária rouba descaradamente – ainda que legalmente – tanto porque os hidrômetros são velhos, obsoletos e já não medem mais nada, quanto porque num condomínio a concessionária tem o privilégio de cobrar a assim chamada “pena d’água”, ou um valor por unidade habitacional do condomínio em função de sua área ou número de cômodos, não importando o real consumo.

Então, por este último caminho, você pagará a conta use ou não use a água.

E, de toda forma, todos sabem que os hidrômetros dos grandes consumidores são usualmente tão antigos que medem até 50% menos do que a água efetivamente consumida, fazendo com que seja necessária aumentar a arrecadação geral para manter os serviços – de péssima qualidade.

Além disso, é claro, as concessionárias brasileiras são, elas mesmas, obsoletas, pessimamente gerenciadas, avessas à modernização e à tecnologia, e chegam a ter perdas absurdas, entre 40 e 50% do volume total da água produzida (esses são percentuais reconhecidos por elas, sem auditorias externas independentes).  O que aconteceria com uma empresa privada que perdesse entre 40 e 50% de sua produção?  Isso não significa uma defesa da privatização, já que nos países desenvolvidos as concessionárias de água e esgoto são usualmente da cidade… e não se comportam com esse descaso e essa péssima gestão!

Supõe-se que metade dessa perda é por vazamentos na rede – também obsoleta -. que eles chamam de “perdas técnicas” em lugar de “perdas por incompetência técnica” – e outra metade aquilo que eles chamam de “perdas comerciais”, mas que são fundamentalmente água não cobrada em favelas – ou comunidades, se o politicamente correto for preferível.  De toda forma, criou-se no Brasil a tradição de que não se pode cortar a água do fulano e, em decorrência, o fulano não paga mesmo porque sabe que a água não vai ser cortada.

Com as perdas, vêm os aumentos nas contas de tratamento de água, energia com transmissão à longa distância (adutoras), má gestão, fundos de aposentadoria abusados, corrupção e aversão à modernização tecnológica.

Por que, por exemplo, dar início à substituição progressiva dos hidrômetros convencionais – aqueles tipo relojoaria das antigas – por medidores de leitura automática, tecnologia já consolidada em todos os países desenvolvidos e que (a) enviam o sinal com informações de vazão e de pressão pela internet ou por algum sistema wi-fi com a frequência desejada, isto é, sem a necessidade de despesas com pessoas que têm que se deslocar e (b) dando ao cliente a possibilidade de detectar vazamentos em tempo real.

A adoção dessa tecnologia esbarra com o que, além da burrice e da aversão á inovação: com interesses já consolidados e.. preguiçosos.  Mais ou menos como as lâmpadas LED para iluminação pública, com drástica redução de consumo, a tecnologia só chega onde há representantes do poder público de maior visão – ou interesse, se a coisa for feita por PPP, que agora anda na moda e dificilmente é auditada -, ou quando as lâmpadas dos modelos anteriores já não são nem mais fabricadas nos países de origem.

Apenas muito lentamente começam a entrar no Brasil os medidores automáticos de água e gás.

Abaixo, um curto vídeo de 2010, quando os primeiros medidores de leitura remota começaram a ser implantados na Califórnia.  Nos países e cidades sérias, com concessionárias sérias e agências reguladoras sérias, esse é, hoje, a tecnologia padrão de medição de água.

De lá para cá, tais sistemas se disseminaram rapidamente nos países sérios, permitindo até mesmo a detecção de vazamentos através da leitura remota.

Divirtam-se.  E, sobretudo, não economizem água até que sua concessionária tome um mínimo de vergonha na cara.

Isso, apenas para começar.  Porque é imprescindível que estejam disponíveis online para qualquer interessado as quantidades de água produzidas, os volumes de água faturados, as vazões e os níveis de tratamento das estações de tratamento de esgotos.

É inaceitável que essas concessionárias continuem – um dos últimos “monopólios naturais” – continuem a meter a mão no bolso dos cidadãos e a abrir rombos nos cofres públicos sem qualquer transparência.

 

 

Samarco e o Mar de Lama do Governo de Minas

O mar de lama da irresponsabilidade socioambiental originado nas precárias barragens de terra da Samarco talvez sirva de alerta às autoridades ambientais federais e estaduais para a necessidade de mudanças radicais na permissividade que é a marca registrada dessa “solução” para a estocagem de resíduos tóxicos e água contaminada.

Antes de passarmos aos fatos, vale ressaltar que ambas as multinacionais sócias dessa empresa localizada no Espírito Santo têm, em suas páginas na internet, áreas sobre gestão ambiental responsável: BHP Billiton e Vale.  Talvez apliquem esses princípios e diretrizes em países sérios.

Essas barragens já deveriam ter sido abolidas há muito!  E a transição para o respeito as normas em vigor no Brasil torna-se ainda mais necessária num ciclo de adaptação à escassez de água e às mudanças climáticas.

As normas brasileiras estabelecem que as atividades poluidoras devem tratar as águas de descarte contaminadas e não acumulá-las em barreiras precárias para disfarçar o seu descumprimento.  E certamente a Samarco não lança aquela lama no oceano, no outro extremo do mineroduto, exatamente porque existem normas de lançamento.  A acumulação em barragens é apenas um engodo.

Com os avanços tecnológicos, há muito existem boas alternativas de tratamento.

Um exemplo pode ser encontrado na iniciativa de outra mineradora, em parceria com a firmeza das autoridades da África do Sul, que levou ao tratamento de toda a água ácida das minas ao nível de abastecer parte da população de uma cidade em parceria com a prestadora local de serviços, com benefícios econômicos e financeiros para todos.

A tecnologia, hoje, permite qualquer coisa em matéria de tratamento de água, com preços competitivos quando comparados com os tratamentos convencionais ainda amplamente utilizados no Brasil.

O vídeo diz tudo, mas como só há a versão em inglês, aqui vão as principais informações:

A água altamente ácida e contaminada tinha um alto potencial de contaminar os aquíferos subterrâneos e os rios.  E quando a decisão foi tomada, já se encontravam acumulados nos subterrâneos das minas de carvão algo como 140 milhões de metros cúbicos dessas águas.

Como a África do Sul tem regras estritas e as aplica à perpetuidade, isto é, para sempre e mesmo depois de encerradas as atividades de qualquer tipo que contaminem o meio ambiente, a Anglo American sabia que não podia descartar essas águas nos rios mais próximos e que os riscos de extravasamento em decorrência das águas de chuvas/escorrimento superficial eram grandes.  Então, chamou uma boa firma de engenharia (nada de empreiteiras, por favor, estas não têm e não gostam da boa engenharia).

Como a Província de Mpulanga – a 150 km de Joanesburgo – e, em particular, a cidade de eMahaleni defrontavam-se com frequentes crises de falta de água, depois de feitos os primeiros estudos técnicos a Anglo American resolveu transformar um passivo num ativo: tratar a água até o nível da potabilidade e disponibilizá-la para a cidade.  Com uma estação de tratamento projetada com as melhores tecnologias disponíveis, passou a disponibilizar 25-30 milhões de litros de água pura para a municipalidade, com cerca de 400.000 habitantes.

Com essa iniciativa, a Anglo American atende, hoje, a cerca de 12% da demanda de água da cidade.

Como se não bastasse, a Anglo American passou a vender serviços de tratamento de água para a BHP Billiton – uma das sócias da Samarco -, que também opera minas nas proximidades.

Somadas essas duas receitas, a Anglo reduziu em 60% dos custos da estação de tratamento, que teria que ser construída de toda forma para evitar o passivo e um potencial desastre ambiental.

Como o governo de Minas Gerais vai provavelmente ficar onde sempre esteve quando se trata de atividades de mineração, isto é, na total apatia, refém de interesses privados em detrimento dos sociais, cabe ao Ibama enviar ao Conselho Nacional de Meio Ambiente – CONAMA um projeto de Deliberação estabelecendo parâmetros para o reuso das águas de todas as mineradoras, mesmo para aquelas já instaladas e em operação.  Assim, assegura-se o controle da poluição das águas superficiais e subterrâneas, evitam-se novos “acidentes” com perdas de todos os tipos, e garante-se um suprimento adicional de água em tempos de escassez.

Não há absolutamente nenhuma razão para esperar os resultados dos estudos atualmente contratados pelo ministério das Cidades com uma multinacional de engenharia para formular uma política nacional de reuso de água.

O regulamento pode ser elaborado e aprovado em semanas.  Até mesmo pelo governo de Minas Gerais, se houvesse vontade política.

***

Qual foi mesmo a punição aplicada à Samarco – além da reparação dos danos – quando há dois anos um um furo em seu mineroduto contaminou o rio que abastece Espera Feliz, na Zona da Mata Mineira.  A empresa ganhou um prêmio de excelência na gestão ambiental pela qualidade de suas operações de manutenção preventiva?

Mas, vale dizer, todas essas barragens devem ser substituídas aos poucos pelo tratamento das água e disposição adequada dos resíduos.  Antes que o minério acabe e o contribuinte brasileiro que sustenta padrões de mesmice governamental tenha que arcar com a reparação dos danos, além da perda de patrimônio ambiental, paisagístico, pessoal e muito mais.

 

 

 

 

 

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