Archive for the 'Eficiência Energética' Category

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Petrobras – Irresponsabilidade Socioambiental e Termos de Ajuste de Conduta – TAC

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O ministro Carlos Minc não tem por que se sentir constrangido com a total irresponsabilidade ambiental da Petrobras, que não se preparou para cumprir metas estabelecidas em 2002 para a redução do teor de enxofre no diesel.  E tampouco tem que se justificar perante as ONGs ambientalistas e a sociedade em geral, incluindo os órgãos estaduais de meio ambiente.  Nem a administração passada do Ministério do Meio Ambiente fez o dever de casa exigindo a apresentação de um cronograma de iniciativas a serem tomadas para o atendimento dessas metas, nem os governos estaduais e as ONGs foram capazes de organizar-se e fazer, se necessário, o mesmo tipo de exigência através do MP federal ou diretamente pela via da ação civil pública perante o Judiciário.

Agora, fala-se em multas e termos de ajuste de conduta (TAC).  As multas nunca são pagas, nem pela própria Petrobras, que vai às últimas consequências em seus recursos ao lentíssimo Judiciário brasileiro.  Já os termos de ajuste de conduta tornaram-se um caminho legal para a violação da lei, bem como dos mais elementares princípios éticos.  O sujeito já faz a coisa errada sabendo que mais adiante poderá assinar um TAC e adiar o cumprimento de suas obrigações mediante a doação de uns trocados para algum programa de interesse eleitoral ou de monitoramento da qualidade de vida de cobras e lagartos.

A verdadeira compensação que a Petrobras deve pagar à Nação é muito simples: subsidiar a introdução de ônibus híbridos, que já são fabricados no Brasil, até o nível de preço de um ônibus comum de maneira a reduzir as emissões totais de enxofre com metas claramente definidas.  Aliás, a introdução desse tipo de veículo nas regiões metropolitanas onde a poluição atmosférica é mais grave só ainda não ocorreu em decorrência da debilidade das políticas públicas estaduais, que já poderia ter tomada iniciativas para viabilizar a introdução de ônibus híbridos em suas regiões metropolitanas há muito tempo.

Um acordo que leve em consideração essa alternativa (ainda que não se limite a ela), possibilita a redução significativa das emissões de enxofre e alavanca a introdução de veículos elétricos ou híbridos de transporte de massa no mercado brasileiro, propiciando uma vitória bem maior do que a mera redução do teor de enxofre do óleo diesel.

Tomada essa diretriz, logo outros fabricantes de ônibus colocarão no mercado os veículos híbridos, com uma queda geral de preços.  Como a taxa de renovação da frota nas capitais e regiões metropolitanas é da ordem de 20% ao ano, ao final de 3 anos seria possível atingir 60% de ônibus híbridos nessas áreas onde a poluição atmosférica é efetivamente um problema, e um problema que não se limita às emissões de enxofre.

Afinal, esses ônibus já são fabricados no Brasil e exportados para países como o Chile e o México – que têm problemas gravíssimoas de poluição atmosférica em Santiago e na Cidade do México.  A fabricação de ônibus híbridos avança em todos os países sérios, e para demonstrar as suas vantagens muitos desses veículos foram usados na China durante as Olimpíadas, exatamente em decorrência da necessidade de reduzir a poluição atmosférica (www.cummins.com.br/cla/imprensa_noticias.asp?NoticiaID=213).

Mas esses veículos não são utilizados no Brasil por omissão dos órgãos estaduais de meio ambiente, que poderiam exigir a sua adoção progressiva nas áreas de maior poluição, reduzindo, assim, não apenas as emissões de enxofre, mas todas as outras.  E a área tributária não pode continuar fingindo que a saúde pública e a inovação tecnológica não são assuntos de sua competência e pode dar isenções de IPI e de ICMS por prazo definido para esses novos veículos.

Soluções complementares, como a adoção de ônibus capazes de aceitar o B-20 – já disponíveis no Brasil -, com o consequente fornecimento dessa mistura, podem contribuir de maneira decisiva para o avanço tecnológico, para a redução das emissões de enxofre nas bacias aéreas das regiões metropolitanas e das grandes cidades, e para que se alcance, simultaneamente, uma solução mais econômica para a própria Petrobras, sem perder de vista o estabelecimento do novo prazo para a diminuição no teor de enxofre de todo o diesel vendido no Brasil.

Com esse tipo de abordagem, o Brasil não estaria sendo pioneiro em nada, mas apenas fazendo uso do da experiência internacional.  Quando a Califórnia percebeu que só poderia alcançar as metas de qualidade do ar das grandes cidades através do estabelecimento de padrões de emissão então inatingíveis, fez o mesmo tipo de exigência às montadoras de veículos.  A indústria norte-americana, conservadora e crente em seu poder de lobby, reagiu afirmando que as tecnologias para a redução drástica das emissões não existia e, portanto, as exigências não poderiam ser cumpridas.  E cruzou os braços, exatamente como fizeram a Petrobras e as montadoras brasileiras diante das novas normas para o teor de enxofre do diesel.

Essa tola reação das montadoras norte-americana de veículos abriu as portas para o debate sobre uma alternativa simples: só poderiam vender veículos na Califórnia os fabricantes que comprovassem parcerias com a então nascente indústria de veículos elétricos ou híbridos, de maneira a que fosse alcançada uma meta de redução global das emissões de veículos auto-motores.  Ou seja, estabelecia-se a possibilidade compensações entre os fabricantes dos diferentes tipos de veículos, de maneira a reduzir os preços dos veículos híbridos (sempre mantidos os padrões de emissão federais para os veículos). 

Para tanto, foi necessário apenas deixar de trabalhar com padrões individuais de emissões – sem abandoná-los – e passar a trabalhar com padrões de carga ou de emissões totais (combinação imprescindível para a recuperação da qualidade ambiental de qualquer corpo receptor).

Enquanto o debate se arrastava, os japoneses avançaram rapidamente no desenvolvimento de veículos elétricos e híbridos e simplesmente engoliram esse novo mercado.

Essa abordagem, sim, permite um tipo de TAC aceitável para a sociedade e para a qualidade do ar das grandes cidades.   Qualquer outro tipo de TAC será mera aceitação do descaso da Petrobras com as normas ambientais em troca de bobagens como alguma contribuição para a simples regulagem dos motores dos ônibus e caminhões.  O único objetivo aceitável do TAC é punir a Petrobras ao mesmo tempo em que coloca no horizonte de curto prazo uma alternativa que efetivamente melhore a qualidade do ar das regiões metropolitanas.

Seja qual for o conteúdo do TAC, não há por que excluir o devido processo criminal contra os diretores da Petrobras responsáveis pelo descaso com a norma ambiental desde a sua  promulgação até a data em que ela deveria entrar em vigor.  Estudos realizados pela União Européia em doze cidades correlacionaram, em muitas delas, um aumento de 50 micra de dióxido de enxofre por metro cúbico de ar com um aumento de 3% o índice diário  de mortalidade (relação direta de causa e efeito).   O mesmo estudo demonstrou que um aumento equivalente nas emissões de fumaça negra (PM-10) result num aumento adicional de 2% na mortalidade diária.  A referência bibliográfica pode ser encontrada em www.bmj.com/cgi/content/abstract/314/7095/1658.

Afinal, se esse tipo de descumprimento de uma norma ambiental tão importante fosse feito por um cidadão comum ou por um produtor rural no Tocantins, o processo criminal seria inevitável.

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O tema dos ônibus híbridos e elétricos já foi objeto de artigo neste blog e de comentário na coluna semanal de meio ambiente que o seu autor faz às terças-feiras no programa de Ricardo Boechat, na Band News FM Rio, há cerca de um ano.

A crise pode, então, ser trasnformada em oportunidade, como ocorre nos ideogramas da escrita chinesa.
 

Tecnologia da Energia e Tecnologia da Informação – Revoluções Semelhantes?

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Acaba de ser publicado um interessante livro sobre meio ambiente.  No Brasil intitulado O Mundo é Plano, o livro tem um título bem mais longo em sua versão original, em inglês: Quente, Plano e Populoso – Por Que Necessitamos de Uma Revolução Verde e Como Ela Pode Renovar a América.  O autor, Thomas Friedman, é jornalista, colunista do New York Times, e já agraciado com um Prêmio Pulitzer.

O livro ironiza aqueles que acreditam na continuidade de uma civilização do petróleo, como George W. Bush, que aposta na exploração desse combustível fóssil em águas ultra-profundas (utra-deep drilling) – como é o caso do que aqui se convencionou chamar de pré-sal.

Numa entrevista recente para a renomada revista Foreign Policy, Thomas Friedaman afirmou que essa visão é apenas non-sense.

“Ninguém acredita sinceramente que nas profundezas dos oceanos exista petróleo para assegurar a autonomia dos EUA.  Essa é uma abordagem errada porque, num mundo que se tornou quente, plano e super-populoso, os combustíveis fósseis – e em particular o petróleo – vão ser demasiadamente caros e finitos.  Então, o nosso foco  deve ser na próxima grande indústria global: energias renováveis e limpas.  Quando o McCain diz `perfurem, perfurem, perfurem`, eu vejo algo similar a alguém que defendesse as máquinas de escrever elétricas da IBM às vésperas da revolução da tecnologia da informação.

Para o autor, a próxima revolução tecnológica será uma revolução de elétrons.  Os países que liderarem essa revolução serão aqueles nos quais os padrões de vida serão os mais elevados, que serão mais respeitados pelo “resto do mundo” (ah, a usual arrogância norte-americana), e nos quais a inovação vai se acelerar e a segurança nacional aumentará.

“Eu quero gente colocando dólares malucos em idéias malucas, em cada garagem, 100.000 pessoas tentando 100.000 coisas diferentes, cinco das quais serão bem sucedidas, e duas poderão ser o próximo Google verde.  Só assim, com cada um sendo um cientista inovador verde, é que a tecnologia da energia – TE – será para o século XXI o que a tecnologia da informação – TI – foi para as décadas de 80 e 90 do século XX.”

Thomas Friedman fala na necessidade de escala para a revolução da tecnologia da energia e ironiza os ambientalistas que acreditam na conscientização de todos: “se você tiver que educar as pessoas a fazerem 20 coisas verdes a cada dia, esqueça a possibilidade de qualquer mudança significativa; é necessário ter um novo sistema em funcionamento sem que as pessoas sequer percebam, como ocorreu com a tecnologia da informação”.

Thomas Friedman talvez sintetize o que serão as mudanças feitas por Obama caso seja eleito presidente dos EUA.  Algo similar ao que fez Bill Clinton, que dinamizou a economia e revolucionou o mundo ao retirar a internet e o GPS da lista de tecnologias restritas aos usos militares.

É bem verdade que hoje as coisas são bastante mais complexas, já que as previsões de aumento da demanda de matérias-primas sugerem um colapso da civilização do consumo.  Ainda assim, Friedman aporta um bom discurso eleitoral para Obama e de esperança para a maioria dos norte-americanos, hoje muito preocupados com os preços do petróleo.

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Numa situação dessas, as ONGs ambientalistas que já foram inovadoras, como os Greenpeace da vida e tantas outras sem a mesma fama, podem ser vistas, hoje, como tão anacrônicas quanto os combustíveis fósseis.  Elas têm tantos compromissos com o próprio passado que não lhes sobra tempo para ver o presente e o futuro.  É o conservacionismo conservador, já mais que ultrapassado.  Recentemente, o Greenpeace apelou para a produção e divulgação de um “Manual do Sexo Ecológico”, recomendando aos casais que verifiquem antes se a madeira das camas tem origem certificada.  Coisa de hippie velho.

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A maior parte do petróleo do pré-sal brasileiro está a profundidades acima de 7.000 metros.  Sondagens já são feitas até mesmo na China e na Rússia a profundidades de até 12.000 metros.  Mas a tecnologia para a efetiva exploração do petróleo e do gás em reservas ultra-profundas nunca superou a marca dos 3.500 metros.

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A entrevista de Thomas Friedman, em inglês, pode ser lida em www.foreignpolicy.com/story/cms.php?story_id=4463.

Amazônia – Reserva Legal e Pequenos Produtores

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É positiva a decisão de concordar com o plantio de “espécies exóticas” na Amazônia, reduzindo na prática o percentual da reserva legal de 80% para 50%.  Afinal, esse percentual foi elevado de 50% para 80% por Medida Provisória – isto é, do dia para a noite – por FHC e sua turma mais para agradar à imprensa internacional do que para encontrar uma solução sensata para o desmatamento na Amazônia. 

Entre outras coisas, essa decisão pode resultar numa imensa economia do diesel cujo transporte para a região é subsidiado através da Conta de Consumo de Combustíveis – CCC.  O montante desses subsídios deverá atingir R$ 3,5 bilhões em 2008.  O óleo de dendê, cujo plantio de já amplamente difundido no Pará, pode substituir o diesel no parque gerador de centenas de cidades e vilarejos não conectados à rede de distribuição de energia elétrica, com benefícios significativos para a região e para todo o Brasil.

O mesmo ocorre com o babaçu, originário da Amazônia.  Na Amazônia Oriental, há extensos babaçuais hoje sem qualquer aproveitamento ou benefício para a população local.  Com um mínimo de boa vontade, os ambientalistas poderiam estar mais atentos a essa oportunidade de substituição de combustível fóssil por fontes renováveis de energia.  E ainda com a realocação desses recursos financeiros para atividades mais benéficas para a população local.

Essa produção de óleo (biodiesel) pode ser feita de forma descentralizada, com unidades modulares de esmagamento e produção de óleo por produtores de todos os portes.  A tecnologia nacional nessa área já se encontra desenvolvida.  E os grupos geradores podem operar com B-100, se houver boa vontade da ANP e do MME para enfrentar o lobby da CCC.

Com um pouco de esforço na formação de cooperativas, associações de produtores e outras formas de organização social que propiciem uma melhor participação na geração de renda para as populações mais pobres que vivem do extrativismo, além das usuais culturas de subsistência, como a mandioca, o feijão e até o milho, entre outras. Iniciativas que ainda merecem a atenção do governo nesse momento de transição incluem a concessão de títulos de propriedade para os pequenos produtores da região, que não têm acesso às mesmas facilidades que os grandes para processar papéis e percorrer os corredores da burocracia.

Essa iniciativa, com o uso de GPS e uma injeção de recursos na advocacia pública não é – ou não deveria – ser difícil, mas o jogo de poder na região sem dúvida a dificulta muito. Da mesma forma, é preciso pensar no fato de que os pequenos produtores não têm como elaborar planos de manejo para as áreas de onde tiram o seu sustento.  Para que o façam, é fundamental um grande reforço nos serviços de extensão rural, que deixam muito a desejar, quando não são simplesmente inexistentes.

A possibilidade de que os pequenos vendam as suas terras se regularizada a situação fundiária é alta devido à atração que as grandes cidades exercem numa sociedade de consumo e à influência da televisão.  Essa tendência pode ser retardada ou contrabalançada pelo acesso a serviços básicos de saúde e educação, que ainda são escassos quando consideradas os núcleos populacionais menores e mais dispersos.

É hora de investir maciçamente na formação dos pequenos produtores para que deixem de ser apenas “mão de obra” e passem a ter mais acesso à tecnologia e às formas de organização da produção que aumentem a sua geração de renda e auto-estima.

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Usar a expressão “introdução de espécies exóticas” para falar da nova realidade pode não ser adequado para a percepção que os brasileiros têm da mudança nas regras do jogo.  O dendê e o coco também são espécies exóticas.  A questão é saber se devem ser consideradas como estranhas à vida da população da Amazônia, num momento em que o mero extrativismo já se revelou, na prática, insuficiente ou mesmo inviável como alternativa econômica para o conjunto dos pequenos produtores da região.

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As reservas legais em propriedades rurais não encontram paralelos em outros países, e isso talvez seja suficiente para uma reflexão sobre o tema.

Mudanças Climáticas – Mudanças na Agenda Internacional

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Os países ricos estão investindo maciçamente em veículos híbridos – parcialmente movidos a eletricidade – como forma de se protegere, do fim da era do petróleo e sob a alegação de que assim contribuem para a redução das emissões de gases causadores de mudanças climáticas.  O desenvolvimento dessas tecnologias é em grande parte subsidiado pelos governos.  Se um dia os países pobres quiserem produzir veículos com essas tecnologias, os royalties pela tal da propriedade intelectual serão altos.  As montadoras brasileiras, todas estrangeiras, remeterão para os países ricos não apenas os lucros, mas também esse dízimo incessante nunca auditado pela Receita Federal.

Enquanto os países sérios usam as mudanças climáticas para gerar mais tecnologia e mais lucros, no Brasil os políticos e a imprensa chafurdam no mesmo fatigado tema da proteção e da regularização fundiária na Amazônia.  Sem cair no monótono discurso governamental da distribuição de renda sem educação de boa qualidade, há que se dizer uma verdade: os muito ricos falam nos interesses maiores da humanidade mas não vão transferir nenhuma dessas novas tecnologias sem mandar a conta, certamente mais pesada do que as doações para a proteção das florestas….. ah, essas florestas amazônicas que eles querem preservar sempre que não tiverem interesse nos minérios que nelas se escondem.

As novas tecnologias não se limitam, é claro, aos veículos automotores.  Disputam palmo a palmo a liderança na geração eólica e a partir da energia das marés, dos biocombustíveis de segunda geração ou com o cultivo de algas, as tecnologias de eficiência na geração, na transmissão e no uso da energia, e por aí afora.

Seguramente já é hora de mudar o foco dos debates internacionais sobre as mudanças climáticas.  Ou então, é melhor que se pare de fingir que existem interesses comuns de uma tal de humanidade.

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Sem o ínterminável blá-blá-blá dos intelectuais paulistanos que engoliram Marina Silva sem nenhum conhecimento da Amazônia, o ministro Carlos Minc pode convencer o Itamaraty a trocar o velho disco já gasto que se resume a pedir doações para a Amazônia.

Novos Campos de Petróleo – Verdades e Mentiras

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O anúncio da descoberta das jazidas petrolíferas de Tupi pelo governo omitiu a informação de que não existe tecnologia para exploração a uma profundidade superior a 6 quilômetros e podendo chegar até 10 quilômetros.

Na ocasião - novembro de 2007 – dona Dilma, discretamente,  fez apenas a ressalva de que o início efetivo da entrada em operação comercial dessas jazidas poderia levar uns 8 anos.  Um outro representante do governo falou em “altíssimos custos de investimento inicial, mas com a garantia da ‘sustentabilidade da auto-suficiência’ no longo prazo” (sic).  Ninguém se estendeu sobre esses temas - tecnologia e viabilidade econômico-financeira – e a imprensa brasileira tampouco interessou-se em aprofundar o tema.

Estima-se que Tupi, na bacia de Santos, tenha entre 5 e 8 bilhões de barris.  Poucos meses depois, a Petrobras anunciou a descoberta de reservas muito maiores nas proximidades de Tupi, algo na faixa de 33 bilhões de barris.  Esse “mega-campo” foi denominado Carioca e a Petrobras afirmou que ainda serão necessários alguns meses para a definição mais precisa de seu potencial.  As profundidades das duas jazidas, bastante próximas, sao similares.

Não é improvável que o prazo para o anúncio do dimensionamento “final” de Carioca se dê um pouco antes das eleições.  Quem se antecipar à data do anúncio oficial pode se dar bem comprando ações da Petrobras.

O que não se disse, nessa lenga-lenga toda de que Deus é brasileiro, é que não existe a tecnologia para chegar a essa profundidade, bem maior do que a alcançada pela Exxon e pela Chevron no Golfo do México, onde, há cerca de 2 anos, os sistemas de tubulação foram esmagados e brocas de diamante desintegraram-se em decorrência das pressões elevadas.  A Exxon abandonou o projeto em 2006.  Mas quem, no afã de divulgar resultados positivos para o governo, se interessaria por um detalhe como esse?

Alguns dizem que a Petrobras já sabia da existência de Tupi há anos, e sempre optou por não divulgar por as informações por temer ironias do mercado internacional diante desse detalhe da inexistência de tecnologia para a produção comercial de petróleo a essas profundidades.

Além da profundidade e da pressão corrrespondente, a temperatura das jazidas brasileiras, encontradas abaixo de espessas camadas de sal – algo em torno de 1,5 quilômetros -, pode atingir 260 graus Celsius, o suficiente para derreter até mesmo  estruturas metálicas utilizadas para transportar urânio para usinas nucleares.

Ao longo dos esforços para extrair petróleo e gás a profundidades bastante inferiores, uma empresa norte-americana – a Anadarko – desenvolveu e está utilizando aços capazes de suportar as pressões da exploração de gás natural a 2.700 metros de profundidade.  Numa entrevista recente, um engenheiro da Anadarko comparou os esforços da empresa à exploração espacial.

“O que fazemos nessas profundidades é semelhante ao que a NASA fez e faz na área do desenvolvimento de materiais para o lançamento de espaçonaves.  Mas a NASA não se defronta com o problema das enormes pressões externas.”

Os especialistas acreditam que essas tecnologias podem ser desenvolvidas e utilizadas comercialmente, em particular com o aumento contínuo dos preços do petróleo.  Afinal, US$ 200 por barril ao final deste ano da graça de 2008 é, hoje, a projeção do mercado de futuros da Bolsa de Chicago.  Mas todos concordam que no atual momento nenhum país ou empresa se arriscaria a fazer investimentos tão elevados na produção comercial em decorrência dos riscos tecnológicos.

Os mais otimistas estimam que com imensos investimentos – se comparados com os necessários para explorar petróleo às profundidades atuais -, Tupi pode entrar em operação até mesmo em 2012.  Mas 2008 já vai quase em meio  e não há sinais da contratação das plataformas para a exploração de Tupi, plataformas cuja mera fabricação demanda esse prazo (e ainda mais quando  considerados os prazos da publicação de editais, impugnações administrativas, e outras mumunhas mais até a assinatura dos contratos.

Não é tão remota a possibilidade do desenvolvimento das tecnologias necessárias.   Engenheiros sempre acham que Deus criou o mundo e a eles cabe a tarefa de aperfeiçoá-lo.  Resta saber qual será o balanço energético dessa exploração, isto é, quantas unidades de energia serão necessárias para extrair e refinar cada unidade de energia obtida a partir do petróleo nessas profundidades.  Em tese, a humanidade pode extrair energia até mesmo do centro da Terra, onde as temperaturas são elevadíssimas.  Mas não o faz por falta dos mesmos detalhes: tecnologia e balanço energético.

Ainda não há estimativas sobre os custos da extração do petróleo de Tupi e de Carioca.  Mas tampouco há dúvidas de que eles serão muito elevados.  E estabelecerão patamares para os aumentos dos preços para os consumidores nas bombas de gasolina.  Depois das eleições, é claro!  Aí, como de hábito, no dia seguinte virão os aumentos enfaticamente negados nos discursos da véspera.

Num país que há muito trocou o transporte ferroviário pelo rodoviário, os riscos inflacionários são elevados com os novos preços dos derivados do petróleo.  E como a alta produtividade agrícola depende de fertilizantes derivados do petróleo, vale preparar-se desde já para as adaptações necessárias às novas realidades, com ou sem mudanças climáticas.

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O Brasil já produz mais petróleo que países membros da OPEC – a sigla em inglês dos países exportadores de petróleo – tais como Angola, Líbia e Algéria.  A diferença é que o Brasil não é um país exportador.

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As miçangas do “grau de investimento” foram concedidas ao Peru um mês antes de Brasília comemorá-las.   Nunca se ouvir falar de um gigante estrangeiro que tomasse a decisão de investir ou não no Brasil com base nelas.  As operadoras de telefonia, concessionárias de serviços de eletricidade e muitas grandes empresas privadas foram compradas por grupos estrangeiros com ou sem as bobagens do grau de investimento.  A Standard & Poor’s foi uma dessas que não percebeu ou foi conivente com o tombo que a Enron e muitas outras deram nos fundos de pensão norte-americanos, tendo mantido o bom rating até o colapso.  É esse tipo de “máfia” que dá os certificados de bom comportamento que Brasília comemora.

A Mentira Certificada e o Jogo da Enganação

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Acordos negociados ao longo de muito anos para flexibilizar as regras da aviação internacional entram em vigor neste mês e permitirão uma explosão dos vôos entre a Europa e os Estados Unidos, com passagens muito mais baratas.  Especialistas britânicos estimam em 200 novas partidas diárias só dos aeroportos da Inglaterra a partir de abril de 2008.   

Com isso, o blá-blá-blá dos países ditos desenvolvidos sobre a importância do Brasil preservar as florestas amazônicas em prol do bem comum da humanidade já se tornaram piadas.  Fica comprovado que esse tipo de discurso serve mesmo é para desviar a atenção de seus cidadãos para as próprias responsabilidades.

Aos fatos.  Em 2005, um estudo do Centro Tyndall de Pesquisa em Mudanças Climáticas (www.tyndall.ac.uk) mostrou que se o uso do transporte aéreo pelos ingleses continuasse a crescer no ritmo dos anos anteriores o aumento das emissões decorrente seria mais do que suficientes para neutralizar o conjunto de reduções alcançadas pelo país em todas as outras áreas até 2050.  Nos cálculos, foram consideradas a adoção de novas fontes de energia e os programas de eficiência energética.

O estudo, que se estende a outros países da União Européia e aos EUA, pode ser baixado em www.tyndall.ac.uk/publications/working_papers/wp84.pdf.

Mas nenhum alerta desse tipo, mesmo proveniente dos mais sérios centros de pesquisa científica, vai frear os projetos de expansão de aeroportos europeus e norte-americanos, bem como todo um conjunto de medidas para tornar os vôos mais acessíveis.  Estima-se que até o final de março, com a nova política de Céus Abertos (Open Skyes), o número de vôos transatlânticos partindo só do aeroporto de Heathrow aumente em cerca de 25%, com 524 novos vôos por mês.

Nada diferente dos movimentos de direitos humanos inglêses e norte-americanos que silenciaram diante do genocídio e das atrocidades cometidas pelos invasores do Iraque sedentos de petróleo, ou das torturas em Guantánamo, mas discursam sobre as condições dos presídios no Brasil.

Se esse é o caminho predileto de nações ditas civilizadas e o Brasil entra no jogo, então, prevalece a mentira certificada já denunciada pelo divertidíssimo grupo também inglês  cuja página na internet merece ser revista – www.cheatneutral.com.   A gente faz de conta que impede o desmatamento na Amazônia com um belo e dispendioso jogo de cena envolvendo numerosas forças policiais e os países altamente industrializados fingem que vão mudar os seus estilos de vida do qual resultam abundantes emissões de gases causadores de mudanças climáticas.

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Evidentemente, a mentira de lá não justifica a daqui.  O governo brasileiro não tem um projeto estratégico para as florestas amazônicas e nem para o Cerrado.  Na verdade, não tem um conjunto de políticas ambientais consistentes, mas apenas um conjunto de restrições das quais são excluídas as grandes mineradoras, hidrelétricas e outros poderosos, além favelados e assentados. 

Mudanças Climáticas, Energias Renováveis e Eficiência Energética

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Agora que o encontro sócio-ambiental-político-turístico de Bali naufragou e os países sérios resolveram cuidar dos problemas relacionados às mudanças climáticas de maneira independente uns dos outros, há que atender a pedidos de informações sobre coisas boas que estão sendo feitas em diversos lugares do mundo para reduzir o impacto das mudanças climáticas.

1.   Uma empresa de Nova York terminou a fase de testes e iniciou a implantação comercial de turbinas submersas que utilizam tanto a energia do rio Hudson quanto à da maré.  Espera-se que em poucos anos a tecnologia já esteja gerando eletricidade limpa para abastecer 1 milhão de residèncias ou algo como 3,5 milhões de habitantes, o que é mais do que 20% da população (ainda que não da energia consumida na cidade).  Turbinas submersas não são um segredo sequer para o Brasil, que não dispõe de autonomia tecnológica nessa área (no Brasil, os fabricantes de turbinas são estrangeiros).  Já há turbinas similares até mesmo no Rio de Janeiro, no complexo de Lajes, há décadas, com tecnologia canadense.  Esse tipo de geração ainda não avançou mais no Brasil por não interessar à mão forte das empreiteiras que cafetinam o setor elétrico.  Mas, sim, é possível utilizar turbinas submersas na Amazônia e mesmo aqui no rio Paraíba do Sul.  Se houver interesse pela geração de energia elétrica de menor custo e impacto ambiental desprezível, é claro.

2.   Objetivando melhorar o desempenho energético da cidade de Nova York, o prefeito Bloomberg estabeleceu prazo para a conversão de toda a frota de táxi para a utilização de veículos híbridos (aqui, o país recua rapidamente no uso do gás natural automotivo como instrumento de redução da poluição urbana, ainda que a Petrobras continue a desperdiçar gás nas plataformas por não ter investido em transmissão e liquefação).  Os veículos híbridos talvez sejam os únicos que atendem aos novos padrões de eficiência automotiva aprovados pelo Congresso norte-americano e que podem ser copiados pelo Brasil, como ocorreu no passado.  Ou será que a indústria automotiva é que vai decidir quando e por quanto quer transferir a tecnologia para as filiais brasileiras?

3.   Seria possível aumentar a geração de energia elétrica no Brasil em cerca de 10% com investimentos relativamente reduzidos na repotencialização e na automação das hidrelétricas mais antigas.  Repotencialização é a troca dos grupos geradores por outros, mais novos e mais eficientes.  Automação envolve os sistemas eletrônicos capazes de ajustar a vazão de água à demanda do sistema, fechando as comportas e retendo mais água (ou mais energia) no interior dos reservatórios.  O assunto foi recentemente levado ao ilusório presidente de Furnas, Luiz Paulo Conde, não tendo gerado sequer reações de curiosidade, como ocorreria com uma geradora privada.

4.   A Alemanha trilhou rapidamente o caminho da energia solar, incorporando tanto o simples aquecimento de água – são equipamentos que se pagam em 18 meses, ao preço da energia elétrica e tributos no Brasil – quanto a geração fotovoltaica feita até mesmo por unidades residenciais, com a implantação de medidores que fazem a contagem nos dois sentidos, isto é, também das residências (ou centros comerciais, empresariais, industriais) para a rede, otimizando o balanço energético do país.  Na Califórnia, como em outros estados norte-americanos, a geração fotovoltaica só agora penetra na contrução civil, com os abatimentos nos impostos e, sobretudo, à possibilidade de que os equipamentos sejam amortizados ao longo do prazo, incorporados ao financiamento das edificações.   Nada mal, já que um grande obstáculo à energia fotovoltaica encontra-se no pagamento adiantado da energia que será gerada nos próximos 8-10 anos.

5.   Correntes de cientistas apostam no hidrogênio veicular sem, no entanto, dar prazos ou detalhes do ”estado da arte”.   Arte mesmo será a produção em larga escala de algas marinhas para a produção de biocombustíveis e de alimento de alto valor protéico de  modo a (a)  evitar a concorrência com os usos de terras agrícolas para a produção de alimentos, e (b) ampliar a área de captura de carbono.  Os estudos de viabilidade técnica e econômica avançam rapidamente.

6.   A Austrália está iniciando a construção de uma torre de um quilômetro de altura para captura da energia solar com tecnologia inteiramente inovadora.  O vídeo com a visão ”artística-futurista” do projeto pode ser visto na página da empresa Enviromission,  apoio do governo, em www.enviromission.com.au/project/video/video.htm.  Para os mais afoitos, vale, no entanto, dizer que a empresa ainda não conseguiu se capitalizar para iniciar a implantação do projeto, apesar do forte apoio do governo australiano.  Ainda cruzando os dedos para que a empresa seja bem-sucedida, é sempre bom lembrar que mega-projetos desse tipo demandam também grandes quantidades de energia na extração e transformação de matérias-primas para a construção civil e na fabricação dos equipamentos, além do transporte.

7.  O Congresso dos EUA aprovou uma nova lei sobre energias renováveis e eficiência energética que impõe padrões de eficiência a equipamentos, veículos, materiais de construção, sistemas de transporte público, sistemas de transmissão e distribuição, além de subsídios à pesquisa e ao desenvolvimento de iniciativas coerentes com a lei.  Trata-se, sem dúvida, de um avanço importante e é necessário dizer que ainda não subscrevendo ao Protocolo do Quioto, à Convenção Sobre a Biodiversidade e a outros acordos internacionais, metade da população norte-americana já vive em estados que arpovaram metas semelhantes àquelas do Protocolo de Quito.   Bush baixou um pouco a crista, mas não cedeu no fundamental que une democratas e republicanos: os EUA não fazem nada em nome do interesse comum, tudo em nome de seus próprios interesses.  Não o fizeram durante o governo Clinton-Gore, e só o farão quando o mundo se alinhar com as próprias políticas energéticas norte-americanas.

8.  Diz-se que os chineses transferiram a tecnologia espacial recentemente adquirida para os sistemas de aquecimento de água, e a aplicaram, também,  ao aquecimento domiciliar.  A tecnologia usada por satélites e naves espaciais requer que o lado voltado da unidade que está voltado para o sol transmita calor para o lado que está voltando para o vazio do cosmo numa rapidez muito maior do que aquela captada pela tecnologia meio “caseira” ainda utilizada no Brasil.  Com os programas de substituição do aquecimento com energia do carvão por energia solar, a China ficou durante anos como líder absoluta na captação de créditos de carbono.

9.   A cidade de São Paulo promulgou lei que prevê a obrigatoridade de que novas construções incluam sistemas de captação e estocagem de água da chuva.  A isso deveria se adicionar a obrigatoriedade do uso de sistemas solares de aquecimento de água para evitar os picos de demanda causados pelos chuveiros elétricos.  A modernização tecnológica dos sistemas de aquecimento solar de água de maneira a atingir os níveis de eficiência de seus similares chineses deve se tornar uma prioridade de governo ou das federações das indústrias (a Federação das Indústrias do Estado do Paraná já enviou várias missões comerciais à China, sem esperar por decisões do poder público ou da abúlica Confederação Nacional da Indústria).

10.   Cresce a percepção da necessidade de que alimentos sejam produzidos localmente, tanto em função da percepção da segurança alimentar como algo bem fundamentalmente diferente das bolsas-familias da vida como para que produtos orgânicos não sejam transportados por via aérea de um lado para o outro do mundo.  Cresce, também, a atenção dos consumidores dos países sérios para a presença ou não de hormônios na carne de frango e de gado, bem como no leite.  Nesses países, isso já é visível nos rótulos das embalagens de leite.

A lista é longa, mas ainda muito distante de ser suficiente para reverter o crescimento das emissões de carbono.  A contenção e reversão do crescimento populacional são imprescindíveis mas não estiveram presentes nesse conjunto de apresentações oratórias ocorridas em Bali.

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O que a imprensa brasileira tentou noticiar como “acordo histórico” ocorrido em Bali depois das lágrimas do secretário-geral da ONU foi apenas um adiamento de 2 anos para qualquer tomada da decisão que deveria ocorrer em Bali.  Os representantes de Bush tiveram que recuar para que, internamente, o moribundo cacique gringo ganhe alguma sobrevida política.  Depois da derrota no Iraque, ser derrotado por um Congresso que agora tem maioria democrata e aprovou, dias antes desse pouco ou nada relevante “mapa do caminho” de Bali, uma lei de energia e de eficiência energética bastante bem arquitetada, deve ser duro.  Alguém já deve ter dito a Bush que há muito nem o republicano Schawarzenegger segue a trilha da Casa Branca, agora Branquela.

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A outra boa notícia na área de meio ambiente é a greve de fome de Dom Luiz Cappio contra a tolice que é a “transposição” do São Francisco.  A greve de fome é um jejum, já usado outras vezes por grandes líderes políticos e espirituais da humanidade, como Gandhi.  As organizações ambientalistas que foram contra o projeto, agora já devidamente cooptadas pelo sistema, permanecem caladas.

Quem Está Nos Enganando?

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dá se foram, para Bali, um montão políticos que querem dar a impressão a seus eleitores de que estão fazendo o melhor para uma negociação global sobre as mudanças climáticas.   Pobre Bali!

Desde muito antes, a imprensa internacional percebeu que lá não se tomaria qualquer decisão relevante, e não deu ao encontro nem mesmo uma pequena fração do espaço e das manchetes concedidos aos relatórios científicos do Painel Internacional de Mudanças Climáticas, conhecido por sua sigla em inglês, IPCC.  O encontro de Bali deu chabu por antecipação.

Já se sabe que não está em questão apenas a emissão de carbono que causa as mudanças climáticas, mas todo o modelo de produção e consumo adotado pela assim autodenominada “civilização ocidental”, que já não se limita ao Ocidente.  Nela, as pessoas se sentem mais satisfeitas por ganharem dinheiro e  consumir do que por apender a tocar um instrumento, a pintar, ou a partilhar com amigos.  Aqueles, sim, tornaram-se os valores sociais máximos e excludentes dos demais.

Há poucas semans, a Agência Internacional de Energia – www.ieg.org - alertou para o fato de que, mantidos esses padrões de produção e consumo, a demanda de energia crescerá em cerca de 30% até 2020, época em que a civilização do petróleo já estará bem próxima de seu fim.

Evidentemente, não se trata apenas de energia, mas de seu uso para transformar matérias-primas em bens de consumo.  Mas como cada tema é tratado em separado, quanto mais se debate mais fica tudo igual.  E o Brasil subsidiando a eletricidade utilizada na fabricação de latinhas de alumínio.

Em Bali, realiza-se um encontro de políticos e de diplomatas, duas categorias profissionais pouco ou nada confiáveis.  Diplomacia é uma palavra que tem origem no grego antigo, com o significado de objeto duplo, papel dobrado em dois, e talvez aquele que vê com dois olhos, e que é pouco confiável.  Só os franceses conseguiram dar a essa palavra um tom de elegância, mas os anglo-saxões ficaram com a expressão assuntos externos (foreign affairs).  Diplomatas não decidem nada, apenas levam e trazem recados.

Quanto aos políticos, ninguém sequer imagina a possibilidade de que cogitem do envio de uma mensagem a seus eleitores propondo mudanças radicais no sistema de valores que caracteriza a sociedade de consumo.

O que já estava dito desde antes do primeiro encontro de cúpula sobre o desenvolvimento sustentável – em 1972! – é que esse modelo de desenvolvimento não é sustentável.  O mundo não tem matérias-primas suficientes para que a Índia e a China alcancem os mesmos padrões de desenvolvimento – leia-se, de consumo – que os países altamente industrializados.

Parte da responsabilidade pelo fracasso antecipado do encontro de Bali se deve à noção formulada pelos economistas do Banco Mundial e consagrada pelo Protocolo de Quioto de que seria possível a adoção de mecanismos de mercado para resolver o problema das emissões de carbono.  Pois bem, o Protocolo de Quioto fracassou, as emissões globais de carbono aumentaram e continuam a crescer, mas até mesmo ONGs como o Greenpeace – que já foi símbolo de alguma luta – ainda tentam acreditar nos tais mecanismos de mercado.

Por sua própria natureza, os mecanismos de mercado nunca se aplicaram aos assim denominados bens comuns.  E não serão suficientes para que o preço do carbono que se deixa de emitir seja igual ao preço do carbono emitido, simplesmente por não terem o mesmo valor de mercado.

Os países sérios sabem disso e continuarão formulando e implementando políticas de segurança alimentar e energética local, regional.  Enquanto Lula e seus pagadores de dívidas sociais continuarão a insistir na abertura desses mercados para os produtos primários brasileiros de baixo valor agregado - entre os quais se incluem, agora, os óleos vegetais com um novo codinome: biocombustíveis.

Terminada a farsa montada no cenário balinês, tudo voltará ao velho debate sobre crescimento econômico, ou seja, mais produção e mais consumo das mesmas coisas.

Há algum tempo, um filósofo de botequim fez um grafite na porta do banheiro de um bar da Califórnia: venda o lixo velho, compre lixo novo (sell old junk, buy new junk).  Lá mesmo, recentemente, milhares de adolescentes fizeram filas durante dias para comprar seus novos iPhones.

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China e Índia, países com taxas de desenvolvimento elevadas, já disseram claramente que não aceitam a imposição de limites às suas emissões de gases causadores de mudanças climáticas, ainda que se comprometam com programas de eficiência energética.  Já o Brasil, com suas baixíssimas taxas de crescimento econômico, continua na ladainha do “me dá um dinheiro aí”, mendigando uma bolsa-família planetária e, se possível, inter-galática, pirotécnica.  Lula e outros representantes do governo insistem numa sobretaxa para o petróleo, mesmo quando não conseguem sequer fazer com que a CPMF seja utilizada para a gestão de um sistema de saúde pública minimamente decente.  E celebram o lançamento da televisão digital capenga, anunciando o subsídio a conversores do sinal.  É o PAC da vacuidade mental!

Afinal, Quem Estamos Enganando?

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“Afinal, quem estamos enganando?”.  A pergunta foi feita por Auden Schendler, um dos precursores da responsabilidade ambiental das empresas, assunto que lhe rendeu prêmios e muito dinheiro, quando percebeu que seus primeiros esforços nessa área não tiveram nenhuma conseqüência ou tiveram conseqüências negativas.  Auden trabalhou diretamente com o brilhante físico Amory Lovins, fundador do Rocky Mountain Institute, de onde saíram muitas das melhores soluções na área de eficiência energética.  E ambos sabiam que a grande publicidade em torno da tal responsabilidade ambiental das empresas de esqui de Aspen já tinha se tornado  feitiço contra o feiticeiro por resultar na atração de um público muito maior.  Mesmo com todas as medidas de eficiência energética adotadas e amplamente divulgadas para fins de publicidade, o consumo de energia subira rapidamente, tanto quanto a demanda por neve artificial.  Hoje, ambos, Auden e Amory, sabem que a responsabilidade ambiental das empresas tem mais objetivos publicitários do que resultados concretos.

Na mesma linha de pensamento, Ricardo Neves escreveu recentemente um divertidíssimo artigo onde parte da hipótese de que Dunga tenha que abandonar critérios ténicos para convocar a seleção e adotar critérios política e ambientalmente corretos: cotas étnicas e também para gays, o gramado dos estádios devendo ser feito com gramas nativas e os deslocamentos da seleção incluindo um troco para as certificadoras de emissões de carbono.  A brincadeira, enfatiza o autor, destina-se a chamar a atenção para o fato de que o objetivo fundamental das empresas é o lucro.

“A história das corporações de negócios tem mostrado que são justamente as mais controversas empresas as que mais levantam o argumento da responsabilidade social corporativa.  As petroleiras, a indústria do tabaco, as cadeias de fast-food, megaempresas que esmagam a concorrência e destróem a fina tessitura urbana  onde se instalam – essas são seguramente as que gastam os maiores orçamentos em ações e atividades de propaganda, publicidade, relações públicas e marketing de relacionamento.  Não sejamos cínicos.  Isso acaba sendo uma atitude construída para dizer à sociedade: olha, somos grandes e lucrativos, mas não somos tão maus quanto parecemos.”

De fato, são bem piores do que parecem e jamais divulgarão que percentual de seus lucros aplicam em responsabilidade social e ambiental e que percentual desse valor vai para o puro marketing da atividade de responsabilidade ambiental.  Isso, sem falar nos benefícios fiscais.  Ou nas trocas de multas por compensações ambientais de interesse exclusivo dos órgãos governamentais de meio ambiente, frequentemente mal disfarçando os interesses eleitorais daqueles que ocupam cargos políticos nesses órgãos.

Se querem, mesmo, apresentar balanços transparentes de sua responsabilidade social e ambiental, é imprescindível deixar claros os indicadores acima citados.

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A referência aos danos “à fina tessitura urbana” provocada por essas empresas que tanta publicidade fazem de suas atividades na área de responsabilidade social e ambiental trás à mente a uma prática verdadeiramente daninha da Petrobras Distribuidora: a colocação de postos de abastecimento em áreas públicas, em particular em canteiros centrais das vidas públicas, até mesmo na orla marítima.  A BR vai dizer que ela apenas cede a bandeira.  Escapismo.  Que pare, então, de ceder a sua bandeira para esse tipo de iniciativa, que além de prejudicar o trânsito e agredir a paisagem urbana, distorce o mercado.  Alguém já se perguntou por que só ou quase exclusivamente a Petrobras consegue essas facilidades?

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Numa iniciativa tão truculenta e autoritária quanto inútil, o governador Sergio Cabral promulgou uma lei de sua própria iniciativa obrigando as empresas que prestam serviços de acesso público à internet (lan houses) a requerer, anotar e manter em arquivo as informações referentes à identidade dos usuários, bem como data, horário e identificação do terminal em que foi feito o acesso.  Nessa linha de raciocínio – se é que há, aí, algum vestígio de raciocínio -, seria interessante fazer o mesmo em locais que disponibilizam ao público terminais de telefonia convencional.  Ou colocar câmeras fotográficas nos orelhões!.  Como a internet também é um meio de comunicação, vale perguntar se a lei não viola o princípio constitucional da privacidade nessa área.

Etanol de Segunda Geração e PACs da Mesmice

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De maneira polida mas firme, os países nórdicos disseram não ao etanol brasileiro.? Lula, com a sua?cara de pau,?colocou o seu personagem de vendedor de quinquilharias no saco e seguiu viagem.? Não sem antes assinar um “memorando de entedimentos”, o que é de praxe nesse tipo de turismo com o dinheiro público.

Na Finlândia, o recado foi claro: o país prefere o caminho da tecnologia e da eficiência energética.? Não poderia ser de outra forma, já que a Finlândia foi o primeiro país a apresentar, em 26 de junho de 2007,?o Plano de Ação Nacional para Eficiência Energética, solicitado pela União Européia aos países membros com o objetivo de reduzir 20% o consumo de energia até 2020.? A data limite, estabelecida em 2006, era 30 de junho de 2007.

De fato, em 2006, ?a União Européia já havia divulgado um documento em que reafirmava, de maneira contundente,? seu compromisso com a segurança energética e com as mudanças climáticas.? Quando se trata de questões de segurança nacional,?essa história de livre mercado e de globalização é colocada de lado.

“A União Européia se defronta com desafios energéticos sem precedentes que resultam da crescente dependência das importações, preocupações com o suprimento de combustíveis fósseis em escala mundial e mudanças climáticas claramente visíveis.? A despeito disso, a Europa a desperdiçar pelo menos 20% da energia que consome devido à ineficiência.? (…)? O custo direto de nossa falta de habilidade para usar energia de maneira eficiente é superior a 100 bilhões de euros por ano.?? Aumentar a eficiência de nosso uso de energia nessa medida é a maneira mais efetiva de melhorar a segurança de nossos suprimentos de energia, reduzir as emissões de carbono, impulsionar a competitividade e estimular o desenvolvimento de tecnologias de ponta para um mercado que se amplia rapidamente.” (http://ec.europa.eu/energy/action_plan_energy_efficiency/index_en.htm)

Ou seja, ou o Itamaraty não fez o dever e alertou Lula para o potencial fiasco de sua viagem, ou Lula não soube ouvir, já que nunca gosta de assuntos que?o desagradem.? Ou,? então,?o interesse pelo turismo nos países nórdicos era tanto que o desempenho do papel de representante comercial da indústria de etanol foi só um pretexto para o passeio.

Com a reação finlandesa mal-digerida e incapaz de mudar o discurso, Lula seguiu viagem.? E na Dinamarca ouviu uma contundente afirmação da ministra de Meio Ambiente, Connie Hedegaard: “tal como realizada hoje, a produção de etanol não é necessariamente boa para o meio ambiente”.? Difícil saber se Lula estava mais interessado em realmente em aprender, em compreender o que os seus interlocutores estavam dizendo ou em ser fotografado com reis e rainhas!? Afinal, a ministra realçou a importância do “etanol de segunda geração“, outro assunto que não recebeu o devido destaque nem mesmo dos jornais de negócios daqui, ainda que o Brasil corra o risco de perder esse mercado por falta de…. tecnologia.? E note-se que?os usineiros e o próprio governo tanto?se vangloriaram do alto nível de tecnologia?”genuinamente nacional” que o setor já teria desenvolvido.

A produção de etanol a partir de resíduos agrícolas com a utilização de enzimas é o que se denomina etanol de segunda geração.? Há várias empresas nos países sérios trabalhando sobre esse tipo de solução, que não é mais apenas uma hipótese, mas uma realidade.? No Canadá, já se encontra em operação uma primeira fábrica de etanol feito de celulose.? A empresa de biotecnologia, Iogen, foi fundada em 1970?e já investiu 130 milhões de dólares em pesquisa e desenvolvimento (www.iogen.ca).??Esse é o tamanho do nosso atraso tecnológico na produção de etanol.

Uma outra empresa de alta tecnologia já se consolidou na área de gaseificação de materiais orgânicos e, além de suas inúmeras instalações na Alemanha, começa a trabalhar na China.??A gaseificação de resíduos agrícolas ou materiais orgânicos em geral permite a geração de energia com altos índices de eficiência.??(www.choren.com)

Tecnologias têm um custo, e os países sérios não vão fazer “transferência de tecnologia” em nome de interesses humanitários.? O Brasil continua perdendo terreno?para as sociedades de conhecimento.??Foi preciso uma viagem presidencial, com “aerolula” e tudo, para descobrir o etanol de segunda geração e chegar à assinatura de dois memorandos de entendimento entre uma empresa dinamarquesa produtora de enzimas, de um lado, e a Petrobras e o Centro de Tecnologia Canavieira, do outro.? Afinal, há muito os usineiros que Lula elevou à categoria de “heróis”,? perderam o bonde da tecnologia de ponta.? Agora, em termos comerciais, práticos, êles entram com a tecnologia, de alto valor agregado, e nós com a terra e a mão-de obra barata.? Quem sai ganhando?? O Brasil se transformará numa “Árabia Saudita dos biocombustíveis do futuro”?

Nas palavras de um experiente profissional de gestão ambiental, “essa história de desenvolvimento sustentável é coisa de país sério; aqui, continuamos a ter crescimento puro e simples”.??Ou seja, mais do mesmo.? Ainda assim,?ninguém se surpreenderá se o governo anunciar um “PAC do etanol”.?????

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PAC é uma abreviatura de “pacote” utilizada para fins de marketing.? Nada mais.? Empacotam-se projetos que seriam feitos de toda forma e adota-se um nome?fantasia.? Agora, temos até PAC?de legalização de terras de quilombolas!? Duda Mendonça?e seus genéricos continuam vivos e atuantes.

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Uma versão ligeiramente modificada deste artigo pode ser encontrada em www.portofentry.com/site/root/resources/features_article/5213.html, com a opção do idioma espanhol no canto superior direito da página.