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A Mentira Certificada e o Jogo da Enganação

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Acordos negociados ao longo de muito anos para flexibilizar as regras da aviação internacional entram em vigor neste mês e permitirão uma explosão dos vôos entre a Europa e os Estados Unidos, com passagens muito mais baratas.  Especialistas britânicos estimam em 200 novas partidas diárias só dos aeroportos da Inglaterra a partir de abril de 2008.   

Com isso, o blá-blá-blá dos países ditos desenvolvidos sobre a importância do Brasil preservar as florestas amazônicas em prol do bem comum da humanidade já se tornaram piadas.  Fica comprovado que esse tipo de discurso serve mesmo é para desviar a atenção de seus cidadãos para as próprias responsabilidades.

Aos fatos.  Em 2005, um estudo do Centro Tyndall de Pesquisa em Mudanças Climáticas (www.tyndall.ac.uk) mostrou que se o uso do transporte aéreo pelos ingleses continuasse a crescer no ritmo dos anos anteriores o aumento das emissões decorrente seria mais do que suficientes para neutralizar o conjunto de reduções alcançadas pelo país em todas as outras áreas até 2050.  Nos cálculos, foram consideradas a adoção de novas fontes de energia e os programas de eficiência energética.

O estudo, que se estende a outros países da União Européia e aos EUA, pode ser baixado em www.tyndall.ac.uk/publications/working_papers/wp84.pdf.

Mas nenhum alerta desse tipo, mesmo proveniente dos mais sérios centros de pesquisa científica, vai frear os projetos de expansão de aeroportos europeus e norte-americanos, bem como todo um conjunto de medidas para tornar os vôos mais acessíveis.  Estima-se que até o final de março, com a nova política de Céus Abertos (Open Skyes), o número de vôos transatlânticos partindo só do aeroporto de Heathrow aumente em cerca de 25%, com 524 novos vôos por mês.

Nada diferente dos movimentos de direitos humanos inglêses e norte-americanos que silenciaram diante do genocídio e das atrocidades cometidas pelos invasores do Iraque sedentos de petróleo, ou das torturas em Guantánamo, mas discursam sobre as condições dos presídios no Brasil.

Se esse é o caminho predileto de nações ditas civilizadas e o Brasil entra no jogo, então, prevalece a mentira certificada já denunciada pelo divertidíssimo grupo também inglês  cuja página na internet merece ser revista – www.cheatneutral.com.   A gente faz de conta que impede o desmatamento na Amazônia com um belo e dispendioso jogo de cena envolvendo numerosas forças policiais e os países altamente industrializados fingem que vão mudar os seus estilos de vida do qual resultam abundantes emissões de gases causadores de mudanças climáticas.

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Evidentemente, a mentira de lá não justifica a daqui.  O governo brasileiro não tem um projeto estratégico para as florestas amazônicas e nem para o Cerrado.  Na verdade, não tem um conjunto de políticas ambientais consistentes, mas apenas um conjunto de restrições das quais são excluídas as grandes mineradoras, hidrelétricas e outros poderosos, além favelados e assentados. 

Mudanças Climáticas, Energias Renováveis e Eficiência Energética

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Agora que o encontro sócio-ambiental-político-turístico de Bali naufragou e os países sérios resolveram cuidar dos problemas relacionados às mudanças climáticas de maneira independente uns dos outros, há que atender a pedidos de informações sobre coisas boas que estão sendo feitas em diversos lugares do mundo para reduzir o impacto das mudanças climáticas.

1.   Uma empresa de Nova York terminou a fase de testes e iniciou a implantação comercial de turbinas submersas que utilizam tanto a energia do rio Hudson quanto à da maré.  Espera-se que em poucos anos a tecnologia já esteja gerando eletricidade limpa para abastecer 1 milhão de residèncias ou algo como 3,5 milhões de habitantes, o que é mais do que 20% da população (ainda que não da energia consumida na cidade).  Turbinas submersas não são um segredo sequer para o Brasil, que não dispõe de autonomia tecnológica nessa área (no Brasil, os fabricantes de turbinas são estrangeiros).  Já há turbinas similares até mesmo no Rio de Janeiro, no complexo de Lajes, há décadas, com tecnologia canadense.  Esse tipo de geração ainda não avançou mais no Brasil por não interessar à mão forte das empreiteiras que cafetinam o setor elétrico.  Mas, sim, é possível utilizar turbinas submersas na Amazônia e mesmo aqui no rio Paraíba do Sul.  Se houver interesse pela geração de energia elétrica de menor custo e impacto ambiental desprezível, é claro.

2.   Objetivando melhorar o desempenho energético da cidade de Nova York, o prefeito Bloomberg estabeleceu prazo para a conversão de toda a frota de táxi para a utilização de veículos híbridos (aqui, o país recua rapidamente no uso do gás natural automotivo como instrumento de redução da poluição urbana, ainda que a Petrobras continue a desperdiçar gás nas plataformas por não ter investido em transmissão e liquefação).  Os veículos híbridos talvez sejam os únicos que atendem aos novos padrões de eficiência automotiva aprovados pelo Congresso norte-americano e que podem ser copiados pelo Brasil, como ocorreu no passado.  Ou será que a indústria automotiva é que vai decidir quando e por quanto quer transferir a tecnologia para as filiais brasileiras?

3.   Seria possível aumentar a geração de energia elétrica no Brasil em cerca de 10% com investimentos relativamente reduzidos na repotencialização e na automação das hidrelétricas mais antigas.  Repotencialização é a troca dos grupos geradores por outros, mais novos e mais eficientes.  Automação envolve os sistemas eletrônicos capazes de ajustar a vazão de água à demanda do sistema, fechando as comportas e retendo mais água (ou mais energia) no interior dos reservatórios.  O assunto foi recentemente levado ao ilusório presidente de Furnas, Luiz Paulo Conde, não tendo gerado sequer reações de curiosidade, como ocorreria com uma geradora privada.

4.   A Alemanha trilhou rapidamente o caminho da energia solar, incorporando tanto o simples aquecimento de água – são equipamentos que se pagam em 18 meses, ao preço da energia elétrica e tributos no Brasil – quanto a geração fotovoltaica feita até mesmo por unidades residenciais, com a implantação de medidores que fazem a contagem nos dois sentidos, isto é, também das residências (ou centros comerciais, empresariais, industriais) para a rede, otimizando o balanço energético do país.  Na Califórnia, como em outros estados norte-americanos, a geração fotovoltaica só agora penetra na contrução civil, com os abatimentos nos impostos e, sobretudo, à possibilidade de que os equipamentos sejam amortizados ao longo do prazo, incorporados ao financiamento das edificações.   Nada mal, já que um grande obstáculo à energia fotovoltaica encontra-se no pagamento adiantado da energia que será gerada nos próximos 8-10 anos.

5.   Correntes de cientistas apostam no hidrogênio veicular sem, no entanto, dar prazos ou detalhes do ”estado da arte”.   Arte mesmo será a produção em larga escala de algas marinhas para a produção de biocombustíveis e de alimento de alto valor protéico de  modo a (a)  evitar a concorrência com os usos de terras agrícolas para a produção de alimentos, e (b) ampliar a área de captura de carbono.  Os estudos de viabilidade técnica e econômica avançam rapidamente.

6.   A Austrália está iniciando a construção de uma torre de um quilômetro de altura para captura da energia solar com tecnologia inteiramente inovadora.  O vídeo com a visão ”artística-futurista” do projeto pode ser visto na página da empresa Enviromission,  apoio do governo, em www.enviromission.com.au/project/video/video.htm.  Para os mais afoitos, vale, no entanto, dizer que a empresa ainda não conseguiu se capitalizar para iniciar a implantação do projeto, apesar do forte apoio do governo australiano.  Ainda cruzando os dedos para que a empresa seja bem-sucedida, é sempre bom lembrar que mega-projetos desse tipo demandam também grandes quantidades de energia na extração e transformação de matérias-primas para a construção civil e na fabricação dos equipamentos, além do transporte.

7.  O Congresso dos EUA aprovou uma nova lei sobre energias renováveis e eficiência energética que impõe padrões de eficiência a equipamentos, veículos, materiais de construção, sistemas de transporte público, sistemas de transmissão e distribuição, além de subsídios à pesquisa e ao desenvolvimento de iniciativas coerentes com a lei.  Trata-se, sem dúvida, de um avanço importante e é necessário dizer que ainda não subscrevendo ao Protocolo do Quioto, à Convenção Sobre a Biodiversidade e a outros acordos internacionais, metade da população norte-americana já vive em estados que arpovaram metas semelhantes àquelas do Protocolo de Quito.   Bush baixou um pouco a crista, mas não cedeu no fundamental que une democratas e republicanos: os EUA não fazem nada em nome do interesse comum, tudo em nome de seus próprios interesses.  Não o fizeram durante o governo Clinton-Gore, e só o farão quando o mundo se alinhar com as próprias políticas energéticas norte-americanas.

8.  Diz-se que os chineses transferiram a tecnologia espacial recentemente adquirida para os sistemas de aquecimento de água, e a aplicaram, também,  ao aquecimento domiciliar.  A tecnologia usada por satélites e naves espaciais requer que o lado voltado da unidade que está voltado para o sol transmita calor para o lado que está voltando para o vazio do cosmo numa rapidez muito maior do que aquela captada pela tecnologia meio “caseira” ainda utilizada no Brasil.  Com os programas de substituição do aquecimento com energia do carvão por energia solar, a China ficou durante anos como líder absoluta na captação de créditos de carbono.

9.   A cidade de São Paulo promulgou lei que prevê a obrigatoridade de que novas construções incluam sistemas de captação e estocagem de água da chuva.  A isso deveria se adicionar a obrigatoriedade do uso de sistemas solares de aquecimento de água para evitar os picos de demanda causados pelos chuveiros elétricos.  A modernização tecnológica dos sistemas de aquecimento solar de água de maneira a atingir os níveis de eficiência de seus similares chineses deve se tornar uma prioridade de governo ou das federações das indústrias (a Federação das Indústrias do Estado do Paraná já enviou várias missões comerciais à China, sem esperar por decisões do poder público ou da abúlica Confederação Nacional da Indústria).

10.   Cresce a percepção da necessidade de que alimentos sejam produzidos localmente, tanto em função da percepção da segurança alimentar como algo bem fundamentalmente diferente das bolsas-familias da vida como para que produtos orgânicos não sejam transportados por via aérea de um lado para o outro do mundo.  Cresce, também, a atenção dos consumidores dos países sérios para a presença ou não de hormônios na carne de frango e de gado, bem como no leite.  Nesses países, isso já é visível nos rótulos das embalagens de leite.

A lista é longa, mas ainda muito distante de ser suficiente para reverter o crescimento das emissões de carbono.  A contenção e reversão do crescimento populacional são imprescindíveis mas não estiveram presentes nesse conjunto de apresentações oratórias ocorridas em Bali.

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O que a imprensa brasileira tentou noticiar como “acordo histórico” ocorrido em Bali depois das lágrimas do secretário-geral da ONU foi apenas um adiamento de 2 anos para qualquer tomada da decisão que deveria ocorrer em Bali.  Os representantes de Bush tiveram que recuar para que, internamente, o moribundo cacique gringo ganhe alguma sobrevida política.  Depois da derrota no Iraque, ser derrotado por um Congresso que agora tem maioria democrata e aprovou, dias antes desse pouco ou nada relevante “mapa do caminho” de Bali, uma lei de energia e de eficiência energética bastante bem arquitetada, deve ser duro.  Alguém já deve ter dito a Bush que há muito nem o republicano Schawarzenegger segue a trilha da Casa Branca, agora Branquela.

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A outra boa notícia na área de meio ambiente é a greve de fome de Dom Luiz Cappio contra a tolice que é a “transposição” do São Francisco.  A greve de fome é um jejum, já usado outras vezes por grandes líderes políticos e espirituais da humanidade, como Gandhi.  As organizações ambientalistas que foram contra o projeto, agora já devidamente cooptadas pelo sistema, permanecem caladas.

Quem Está Nos Enganando?

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dá se foram, para Bali, um montão políticos que querem dar a impressão a seus eleitores de que estão fazendo o melhor para uma negociação global sobre as mudanças climáticas.   Pobre Bali!

Desde muito antes, a imprensa internacional percebeu que lá não se tomaria qualquer decisão relevante, e não deu ao encontro nem mesmo uma pequena fração do espaço e das manchetes concedidos aos relatórios científicos do Painel Internacional de Mudanças Climáticas, conhecido por sua sigla em inglês, IPCC.  O encontro de Bali deu chabu por antecipação.

Já se sabe que não está em questão apenas a emissão de carbono que causa as mudanças climáticas, mas todo o modelo de produção e consumo adotado pela assim autodenominada “civilização ocidental”, que já não se limita ao Ocidente.  Nela, as pessoas se sentem mais satisfeitas por ganharem dinheiro e  consumir do que por apender a tocar um instrumento, a pintar, ou a partilhar com amigos.  Aqueles, sim, tornaram-se os valores sociais máximos e excludentes dos demais.

Há poucas semans, a Agência Internacional de Energia – www.ieg.org - alertou para o fato de que, mantidos esses padrões de produção e consumo, a demanda de energia crescerá em cerca de 30% até 2020, época em que a civilização do petróleo já estará bem próxima de seu fim.

Evidentemente, não se trata apenas de energia, mas de seu uso para transformar matérias-primas em bens de consumo.  Mas como cada tema é tratado em separado, quanto mais se debate mais fica tudo igual.  E o Brasil subsidiando a eletricidade utilizada na fabricação de latinhas de alumínio.

Em Bali, realiza-se um encontro de políticos e de diplomatas, duas categorias profissionais pouco ou nada confiáveis.  Diplomacia é uma palavra que tem origem no grego antigo, com o significado de objeto duplo, papel dobrado em dois, e talvez aquele que vê com dois olhos, e que é pouco confiável.  Só os franceses conseguiram dar a essa palavra um tom de elegância, mas os anglo-saxões ficaram com a expressão assuntos externos (foreign affairs).  Diplomatas não decidem nada, apenas levam e trazem recados.

Quanto aos políticos, ninguém sequer imagina a possibilidade de que cogitem do envio de uma mensagem a seus eleitores propondo mudanças radicais no sistema de valores que caracteriza a sociedade de consumo.

O que já estava dito desde antes do primeiro encontro de cúpula sobre o desenvolvimento sustentável – em 1972! – é que esse modelo de desenvolvimento não é sustentável.  O mundo não tem matérias-primas suficientes para que a Índia e a China alcancem os mesmos padrões de desenvolvimento – leia-se, de consumo – que os países altamente industrializados.

Parte da responsabilidade pelo fracasso antecipado do encontro de Bali se deve à noção formulada pelos economistas do Banco Mundial e consagrada pelo Protocolo de Quioto de que seria possível a adoção de mecanismos de mercado para resolver o problema das emissões de carbono.  Pois bem, o Protocolo de Quioto fracassou, as emissões globais de carbono aumentaram e continuam a crescer, mas até mesmo ONGs como o Greenpeace – que já foi símbolo de alguma luta – ainda tentam acreditar nos tais mecanismos de mercado.

Por sua própria natureza, os mecanismos de mercado nunca se aplicaram aos assim denominados bens comuns.  E não serão suficientes para que o preço do carbono que se deixa de emitir seja igual ao preço do carbono emitido, simplesmente por não terem o mesmo valor de mercado.

Os países sérios sabem disso e continuarão formulando e implementando políticas de segurança alimentar e energética local, regional.  Enquanto Lula e seus pagadores de dívidas sociais continuarão a insistir na abertura desses mercados para os produtos primários brasileiros de baixo valor agregado - entre os quais se incluem, agora, os óleos vegetais com um novo codinome: biocombustíveis.

Terminada a farsa montada no cenário balinês, tudo voltará ao velho debate sobre crescimento econômico, ou seja, mais produção e mais consumo das mesmas coisas.

Há algum tempo, um filósofo de botequim fez um grafite na porta do banheiro de um bar da Califórnia: venda o lixo velho, compre lixo novo (sell old junk, buy new junk).  Lá mesmo, recentemente, milhares de adolescentes fizeram filas durante dias para comprar seus novos iPhones.

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China e Índia, países com taxas de desenvolvimento elevadas, já disseram claramente que não aceitam a imposição de limites às suas emissões de gases causadores de mudanças climáticas, ainda que se comprometam com programas de eficiência energética.  Já o Brasil, com suas baixíssimas taxas de crescimento econômico, continua na ladainha do “me dá um dinheiro aí”, mendigando uma bolsa-família planetária e, se possível, inter-galática, pirotécnica.  Lula e outros representantes do governo insistem numa sobretaxa para o petróleo, mesmo quando não conseguem sequer fazer com que a CPMF seja utilizada para a gestão de um sistema de saúde pública minimamente decente.  E celebram o lançamento da televisão digital capenga, anunciando o subsídio a conversores do sinal.  É o PAC da vacuidade mental!

Afinal, Quem Estamos Enganando?

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“Afinal, quem estamos enganando?”.  A pergunta foi feita por Auden Schendler, um dos precursores da responsabilidade ambiental das empresas, assunto que lhe rendeu prêmios e muito dinheiro, quando percebeu que seus primeiros esforços nessa área não tiveram nenhuma conseqüência ou tiveram conseqüências negativas.  Auden trabalhou diretamente com o brilhante físico Amory Lovins, fundador do Rocky Mountain Institute, de onde saíram muitas das melhores soluções na área de eficiência energética.  E ambos sabiam que a grande publicidade em torno da tal responsabilidade ambiental das empresas de esqui de Aspen já tinha se tornado  feitiço contra o feiticeiro por resultar na atração de um público muito maior.  Mesmo com todas as medidas de eficiência energética adotadas e amplamente divulgadas para fins de publicidade, o consumo de energia subira rapidamente, tanto quanto a demanda por neve artificial.  Hoje, ambos, Auden e Amory, sabem que a responsabilidade ambiental das empresas tem mais objetivos publicitários do que resultados concretos.

Na mesma linha de pensamento, Ricardo Neves escreveu recentemente um divertidíssimo artigo onde parte da hipótese de que Dunga tenha que abandonar critérios ténicos para convocar a seleção e adotar critérios política e ambientalmente corretos: cotas étnicas e também para gays, o gramado dos estádios devendo ser feito com gramas nativas e os deslocamentos da seleção incluindo um troco para as certificadoras de emissões de carbono.  A brincadeira, enfatiza o autor, destina-se a chamar a atenção para o fato de que o objetivo fundamental das empresas é o lucro.

“A história das corporações de negócios tem mostrado que são justamente as mais controversas empresas as que mais levantam o argumento da responsabilidade social corporativa.  As petroleiras, a indústria do tabaco, as cadeias de fast-food, megaempresas que esmagam a concorrência e destróem a fina tessitura urbana  onde se instalam – essas são seguramente as que gastam os maiores orçamentos em ações e atividades de propaganda, publicidade, relações públicas e marketing de relacionamento.  Não sejamos cínicos.  Isso acaba sendo uma atitude construída para dizer à sociedade: olha, somos grandes e lucrativos, mas não somos tão maus quanto parecemos.”

De fato, são bem piores do que parecem e jamais divulgarão que percentual de seus lucros aplicam em responsabilidade social e ambiental e que percentual desse valor vai para o puro marketing da atividade de responsabilidade ambiental.  Isso, sem falar nos benefícios fiscais.  Ou nas trocas de multas por compensações ambientais de interesse exclusivo dos órgãos governamentais de meio ambiente, frequentemente mal disfarçando os interesses eleitorais daqueles que ocupam cargos políticos nesses órgãos.

Se querem, mesmo, apresentar balanços transparentes de sua responsabilidade social e ambiental, é imprescindível deixar claros os indicadores acima citados.

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A referência aos danos “à fina tessitura urbana” provocada por essas empresas que tanta publicidade fazem de suas atividades na área de responsabilidade social e ambiental trás à mente a uma prática verdadeiramente daninha da Petrobras Distribuidora: a colocação de postos de abastecimento em áreas públicas, em particular em canteiros centrais das vidas públicas, até mesmo na orla marítima.  A BR vai dizer que ela apenas cede a bandeira.  Escapismo.  Que pare, então, de ceder a sua bandeira para esse tipo de iniciativa, que além de prejudicar o trânsito e agredir a paisagem urbana, distorce o mercado.  Alguém já se perguntou por que só ou quase exclusivamente a Petrobras consegue essas facilidades?

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Numa iniciativa tão truculenta e autoritária quanto inútil, o governador Sergio Cabral promulgou uma lei de sua própria iniciativa obrigando as empresas que prestam serviços de acesso público à internet (lan houses) a requerer, anotar e manter em arquivo as informações referentes à identidade dos usuários, bem como data, horário e identificação do terminal em que foi feito o acesso.  Nessa linha de raciocínio – se é que há, aí, algum vestígio de raciocínio -, seria interessante fazer o mesmo em locais que disponibilizam ao público terminais de telefonia convencional.  Ou colocar câmeras fotográficas nos orelhões!.  Como a internet também é um meio de comunicação, vale perguntar se a lei não viola o princípio constitucional da privacidade nessa área.

Etanol de Segunda Geração e PACs da Mesmice

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De maneira polida mas firme, os países nórdicos disseram não ao etanol brasileiro.? Lula, com a sua?cara de pau,?colocou o seu personagem de vendedor de quinquilharias no saco e seguiu viagem.? Não sem antes assinar um “memorando de entedimentos”, o que é de praxe nesse tipo de turismo com o dinheiro público.

Na Finlândia, o recado foi claro: o país prefere o caminho da tecnologia e da eficiência energética.? Não poderia ser de outra forma, já que a Finlândia foi o primeiro país a apresentar, em 26 de junho de 2007,?o Plano de Ação Nacional para Eficiência Energética, solicitado pela União Européia aos países membros com o objetivo de reduzir 20% o consumo de energia até 2020.? A data limite, estabelecida em 2006, era 30 de junho de 2007.

De fato, em 2006, ?a União Européia já havia divulgado um documento em que reafirmava, de maneira contundente,? seu compromisso com a segurança energética e com as mudanças climáticas.? Quando se trata de questões de segurança nacional,?essa história de livre mercado e de globalização é colocada de lado.

“A União Européia se defronta com desafios energéticos sem precedentes que resultam da crescente dependência das importações, preocupações com o suprimento de combustíveis fósseis em escala mundial e mudanças climáticas claramente visíveis.? A despeito disso, a Europa a desperdiçar pelo menos 20% da energia que consome devido à ineficiência.? (…)? O custo direto de nossa falta de habilidade para usar energia de maneira eficiente é superior a 100 bilhões de euros por ano.?? Aumentar a eficiência de nosso uso de energia nessa medida é a maneira mais efetiva de melhorar a segurança de nossos suprimentos de energia, reduzir as emissões de carbono, impulsionar a competitividade e estimular o desenvolvimento de tecnologias de ponta para um mercado que se amplia rapidamente.” (http://ec.europa.eu/energy/action_plan_energy_efficiency/index_en.htm)

Ou seja, ou o Itamaraty não fez o dever e alertou Lula para o potencial fiasco de sua viagem, ou Lula não soube ouvir, já que nunca gosta de assuntos que?o desagradem.? Ou,? então,?o interesse pelo turismo nos países nórdicos era tanto que o desempenho do papel de representante comercial da indústria de etanol foi só um pretexto para o passeio.

Com a reação finlandesa mal-digerida e incapaz de mudar o discurso, Lula seguiu viagem.? E na Dinamarca ouviu uma contundente afirmação da ministra de Meio Ambiente, Connie Hedegaard: “tal como realizada hoje, a produção de etanol não é necessariamente boa para o meio ambiente”.? Difícil saber se Lula estava mais interessado em realmente em aprender, em compreender o que os seus interlocutores estavam dizendo ou em ser fotografado com reis e rainhas!? Afinal, a ministra realçou a importância do “etanol de segunda geração“, outro assunto que não recebeu o devido destaque nem mesmo dos jornais de negócios daqui, ainda que o Brasil corra o risco de perder esse mercado por falta de…. tecnologia.? E note-se que?os usineiros e o próprio governo tanto?se vangloriaram do alto nível de tecnologia?”genuinamente nacional” que o setor já teria desenvolvido.

A produção de etanol a partir de resíduos agrícolas com a utilização de enzimas é o que se denomina etanol de segunda geração.? Há várias empresas nos países sérios trabalhando sobre esse tipo de solução, que não é mais apenas uma hipótese, mas uma realidade.? No Canadá, já se encontra em operação uma primeira fábrica de etanol feito de celulose.? A empresa de biotecnologia, Iogen, foi fundada em 1970?e já investiu 130 milhões de dólares em pesquisa e desenvolvimento (www.iogen.ca).??Esse é o tamanho do nosso atraso tecnológico na produção de etanol.

Uma outra empresa de alta tecnologia já se consolidou na área de gaseificação de materiais orgânicos e, além de suas inúmeras instalações na Alemanha, começa a trabalhar na China.??A gaseificação de resíduos agrícolas ou materiais orgânicos em geral permite a geração de energia com altos índices de eficiência.??(www.choren.com)

Tecnologias têm um custo, e os países sérios não vão fazer “transferência de tecnologia” em nome de interesses humanitários.? O Brasil continua perdendo terreno?para as sociedades de conhecimento.??Foi preciso uma viagem presidencial, com “aerolula” e tudo, para descobrir o etanol de segunda geração e chegar à assinatura de dois memorandos de entendimento entre uma empresa dinamarquesa produtora de enzimas, de um lado, e a Petrobras e o Centro de Tecnologia Canavieira, do outro.? Afinal, há muito os usineiros que Lula elevou à categoria de “heróis”,? perderam o bonde da tecnologia de ponta.? Agora, em termos comerciais, práticos, êles entram com a tecnologia, de alto valor agregado, e nós com a terra e a mão-de obra barata.? Quem sai ganhando?? O Brasil se transformará numa “Árabia Saudita dos biocombustíveis do futuro”?

Nas palavras de um experiente profissional de gestão ambiental, “essa história de desenvolvimento sustentável é coisa de país sério; aqui, continuamos a ter crescimento puro e simples”.??Ou seja, mais do mesmo.? Ainda assim,?ninguém se surpreenderá se o governo anunciar um “PAC do etanol”.?????

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PAC é uma abreviatura de “pacote” utilizada para fins de marketing.? Nada mais.? Empacotam-se projetos que seriam feitos de toda forma e adota-se um nome?fantasia.? Agora, temos até PAC?de legalização de terras de quilombolas!? Duda Mendonça?e seus genéricos continuam vivos e atuantes.

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Uma versão ligeiramente modificada deste artigo pode ser encontrada em www.portofentry.com/site/root/resources/features_article/5213.html, com a opção do idioma espanhol no canto superior direito da página.

Energias Sustentáveis – O Abismo Cultural Entre o Brasil e os Países Sérios

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Financistas investem em meio ambiente para ganhar dinheiro e não por ética ou “responsabilidade ambiental”. Há exceções, como em tudo. Exceções que comprovam a regra. Mas qualquer discussão sobre “a ética no sistema financeiro” – incluindo as organizações do tipo Banco Mundial e BNDES – é puro diletantismo. Ainda assim, boas coisas acontecem à medida em que muda o sistema de percepções e valores da sociedade e os financistas vislumbram a possibilidade de novas fontes de lucros.

Sob a liderança de um poderoso grupo financeiro – o Texas Pacific Group -, há alguns meses foi feita a aquisição da pior concessionária de energia elétrica dos EUA, a Texas Utilities (TXU). Essa foi a maior operação de aquisição de uma empresa com capital próprio, isto é, sem o recurso a empréstimos bancários: cerca de R$ 90 bilhões. A decisão não foi tomada em decorrência das preocupações ambientais, mas da expectativa de lucro. A idéia é transformar a TXU numa empresa modelo em termos de fontes renováveis de energia, redução de perdas no sistema, programas de gerenciamento da demanda e outras iniciativas que, ao final de um ciclo, atraiam a atenção dos pequenos investidores em ações, elevando o seu preço.

Ao Texas Pacific Group, uniu-se o banco Goldman Sachs, que ficou com a fama, já que o primeiro não gosta de divulgar as suas operações. O Goldman Sachs já havia se envolvido numa controvertida operação de compra de 270.000 hectares na Terra do Fogo, no Chile, sob a alegação de criar uma reserva. Com benefícios fiscais, é claro, já que a área foi depois doada a uma ONG norte-americana.

Grupos financistas não agem segundo princípios da ética ou do interesse coletivo, mas a presença de consagrados “ambientalistas” em seus quadros certamente facilitam muito a avaliação de iniciativas nas quais a possibilidade de lucro coincida com os interesses sociais. Assim, a iniciativa da compra da Texas Utilities foi originalmente concebida por representantes de duas ONGs sérias – Environmental Defense – ED (www.environmentaldefense.org) e Natural Resources Defense Council – NRDC (www.nrdc.org) em contatos com um alto executivo do Texas Pacific Group – William K. Reilly. Reilly foi presidente do WWF dos EUA na juventude, diretor da Agência de Proteção Ambiental – EPA, depois presidente do Conselho de Administração do mesmo WWF, e assim por diante, com toda uma vida dedicada aos temas ambientais.

A operação deverá ter a aprovação final das autoridades no início de setembro e as duas ONGs acima mencionadas já foram convidadas a ter representantes num Comitê Consultivo para Energias Sustentáveis a ser criado pelos novos acionistas majoritários da Texas Utilities.

Alguém consegue conceber a presença de profissionais com o perfil de Reilly no topo de grandes grupos financeiros ou no conselho de administração de uma grande corporação brasileira (à excessão da área de cosméticos)? Ou uma companhia de eletricidade brasileira negociando coisas tão sérias com ONGs e ainda convidando os seus representantes para participarem de conselhos consultivos, ou simplesmente tendo um conselho consultivo para “energias sustentáveis”.

Esse é o tamanho do fosso cultural que separa o Brasil dos países sérios!

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De toda forma, foi com base nos verdadeiros princípios federativos que a Califórnia elaborou e implementou políticas públicas de eficiência energética que resultaram em ZERO AUMENTO DE CONSUMO de energia durante 30 anos! Lá – como nos países sérios em geral – consultas e audiências públicas são para valer e não meros jogos de cena. Pessoas de fora da máquina administrativa do governo e das corriolas partidárias têm espaço para se pronunciar e são ouvidas! Além disso, mesmo o governador Arnold Schwarzenegger sendo do mesmo partido político do lastimável George W. Bush, isso não impediu a Califórnia de fazer muitas coisas extramente sérias para a questão das mudanças climáticas, em nada compatíveis com o obscurantismo agressivo que há anos é a marca registrada da Casa Branca.

Aqui, ainda somos reféns das regras da mentalidade da coroa portuguesa, e leis estaduais ou municipais incluem frases como “respeitado o disposto na lei federal” ou mesmo citam o número da lei federal ou até de normas que as regulamentam – devida ou indevidamente -, desprezando qualquer bom senso e amarrando tudo a tudo, numa teia que engessa a criatividade, a diversidade de pensamento, a dinâmica social e econômica, e o país. Até recentemente, para dizer que era proibido fumar no avião citava-se o número da lei federal, em lugar de um mero “é proibido fumar neste vôo”… como se o número da lei interessasse a alguém.

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Apesar de listado numa área denominada “blogsfera” da página denominada “Planeta Sustentável” da editora Abril (que tem finalidades puramente comerciais), este blog não guarda qualquer relação profissional ou editorial com a mesma. O Planeta Sustentável da Abril tem o estilo “Globo” e busca atrair visitantes usando uma abordagem na qual uma notícia “ruim” se dilui entre muitas maquiadas com tons róseos. Com a atual população – e ainda por cima crescendo – e os atuais padrões de consumo o planeta não é sustentável. Todo mundo sabe disso.

Agricultura e Mudanças Climáticas

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Alguns cientistas norte-americanos estimam que para produzir uma caloria de milho nos EUA são necessárias pelo menos duas calorias de combustíveis fósseis. Isso se deve principalmente ao fato de que os altos níveis de produtividade atual só são alcançado em decorrência de imensas quantidades de fertilizantes fabricados a partir de combustíveis fósseis. Além disso, os óxidos nitrosos liberados pelo uso excessivo de fertilizantes – com excedentes não absorvidos pelas plantas – também contribuem de forma significativa para as mudanças climáticas.

Isso significa que as políticas de redução das emissões de gases causadores dessas mudanças deveriam ser complementadas por políticas de substituição progressiva do uso de fertilizantes nas grandes monoculturas dos países desenvolvidos e mesmo do Brasil. Mudanças desse porte nas políticas agrícolas dos EUA são, hoje, simplesmente inconcebiveis, já que resultariam em impactos nos preços de boa parte da produção de alimentos do país.

Com o tempo, o gado bovino, os suínos, os frangos, o tradicional peru, as ovelhas e até os peixes produzidos em cativeiro passaram a ser alimentados com ração à base de milho, que é altamente subsidiado. Em decorrência, os ovos e o leite também são indiretamente subsidiados, da mesma forma que o óleo em que são fritos os alimentos, em particular quando processados industrialmente. A “brincadeira” se estende até as bebidas não alcoólicas adoçadas com frutose extraída do milho, enquanto a cerveja barata para o consumo de massa é feita com glucose… de milho, que é também utilizado em muitos produtos não alimentícios.

Lá, os subsídios não vão para o bolso dos fazendeiros – como ocorre no Brasil com os subsídios camuflados ao etanol -, mas sim para a cafetinagem das sementes, para os fabricantes de fertilizantes e de tratores, e por aí afora. Assim, são fortes as pressões para que essa política “agrícola” não seja modificada, apesar do usual blá-blá-blá sobre as maravilhas da “mão invisível do mercado” (que tampouco se aplicou à iniciativa da guerra pelo petróleo, com o renascimento do poder do complexo industrial-militar).

Além disso, há a percepção pública que influi de forma decisiva no já debilitado apoio a Bush. Uma pesquisa do Bureau de Estatísticas do Trabalho do governo ddos EUA divulgada recentemente mostrou o aumento do preço do milho nos produtos alimentícios e o atribuiu ao crescente uso do milho para a produção de etanol. Considerados os meses de abril de 2006 e 2007, o aumento percentual de preços foi de 3,2% no leite, 3,7% nos biscoitos e bolos, 4,6% no frango, 4,7% na carne, 18,6% nos ovos e… 5% nos refrigerantes. O aumento médio nos produtos alimentares foi de 3,6%.

Mas o imbroglio não termina aí. Os centros de pesquisa caminham rapidamente na direção do desenvolvimento de materiais plásticos a partir de produtos agrícolas. E aí surge a inevitável pergunta que ainda não teve o necessário espaço nos debates sobre o fim da era do petróleo: a agricultura terá capacidade de suprir matérias-primas para todas essas finalidades se forem mantidos os atuais padrões de “desenvolvimento”?

***

Só mesmo Lula para afirmar, com base no nada, a inexistência da evidente tendência ao aumento no preço dos alimentos em decorrência do crescimento da demanda de terras para a produção de biocombustíveis, à qual vem se somando a expansão das monoculturas de pinus (que se expande de forma descontrolada sob a alegação farsante de que utilizará “terras degradadas”, quando nada pode degradar mais os solos do que esse tipo de monocultura).

Recentemente, até o ex-ministro da agricultura de Lula, Roberto Rodrigues, que se notabilizou pela defesa inteligente dos interesses dos grandes produtores, do agribusiness, chamou a atenção para a necessidade de um planejamento estratégico para a produção de biocombustíveis. Ou seja, esse planejamento não existe.

Nos últimos dias , Abram Szajman, presidente da Federação do Comércio do Estado de São Paulo, foi mais contundente num artigo intitulado “Etanol – Problema ou Solução?” no qual afirmou ser “estranho o silêncio do governo brasileiro a respeito de um assunto que exige posições claras e definidas”. O autor foi ainda mais contundente ao afirmar que a abertura do mercado norte-americano para o etanol brasileiro pode levar o país “ao progresso, à riqueza, ao conforto social (…) ou a mais atraso e miséria, fome e crescimento da injustiça social”.

“O país corre o risco de voltar, ironicamente, (…) ao engenho de açúcar, à monocultura, à ‘maldição do petróleo’, que faz de seus grandes produtores países pobres, ditatoriais, dependentes contumazes da importação de todo tipo de bens e serviços.”

Será que a elite brasileira está, enfim, “acordando”, ou são essas apenas algumas vozes isoladas que estão ousando falar o óbvio, cuidadosamente afastado do anêmico discurso político e da apatia em relação à formulação de políticas públicas?

"Não acredite em tudo que a sua cabeça lhe diz!" – Lula, Bush e Mudanças Climáticas

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A frase do título estava escrita num adesivo colado no vidro de um carro na Califórnia. Dá para lembrar o blá-blá-blá de Lula e Bush diante das propostas dos países sérios em relação à necessidade de medidas para conter o avanço das mudanças climáticas. Ambos parecem sempre acreditar no que as cabeças lhes dizem.

Lula fingiu um protesto veemente contra a falta de compromissos consensuais claros sobre a redução das emissões de gases causadores de mudanças climáticas na reunião do G-8, ainda sabendo que a Europa e o Japão continuarão a avançar com ou sem os EUA. Lula reclamou mas não propôs nada, exceto que os países ricos devem aumentar a sua contribuição financeira para os pobres. Essa repetitiva obsessão com a caridade desconsidera o fato de que todos os países que escaparam do subdesenvolvimento nas últimas décadas não contaram com qualquer ajuda externa, nem mesmo das tolas organizações financeiras tipo Banco Mundial. China e Coréia do Sul contaram mesmo foi com investimentos massivos e prolongados em educação e tecnologia, além de todo um conjunto de políticas públicas setoriais.

Lula talvez talvez tenha ficado com uma pontinha de inveja da decisão do G-8 de liberar US$ 60 bilhões para a África. Mas no campo específico das mudanças climáticas não propôs e nem poderia propor, já que, como Bush, não consegue estabelecer relações entre eficiência no uso de energia e avanços tecnológicos, de um lado, e redução das emissões desses gases, do outro. O Brasil não tem políticas públicas de eficiência energética e não dá atenção nem mesmo ao imenso potencial de aumento da geração com a simples “repotencialização” e automação de suas hidrelétricas mais antigas (“repotencialização” é a troca de velhas turbinas por outras mais modernas, aumentando significativamente a geração com um custo muito abaixo daquele resultante da construção de novas hidrelétricas). Afinal, projetos de “repotencialização” não dão lucro para as grandes empreiteiras.

O Brasil não domina tecnologia para a geração elétrica solar ou eólica. Na verdade, não domina sequer a tecnologia de fabricação de turbinas para hidrelétricas, que é exclusividade de multinacionais instaladas no país. Tendo abraçado e passado a venerar o tal “investimento externo”e abandonado o conceito de nação, o Brasil continuará pagando pedágio para o desenvolvimento de seus recursos naturais. O capital que entra, sai, sob a forma de remessa de lucros e pagamentos de royalties pela tecnologia. As empresas brasileiras, hoje, não dominam nem mesmo o mercado interno de creme dental! Fabrica ônibus híbridos para exportação e não os adota nas grandes cidades altamente poluídas por não ter políticas ambientais claras e sistemas de incentivos fiscais direcionados para o interesse público. Quando a Eletrobras paga mais caro por um tipo de geração de eletricidade por fontes “alternativas”, acaba gerando mais impostos, ao contrário até mesmo dos EUA, onde a geração eólica é estimulada por reduções nos impostos.

Lula insiste na “tese” de que não há conflitos entre a produção massiva de biocombustíveis para exportação e acredita no que sua cabeça lhe diz, apesar da FAO já ter tornado públicos os primeiros relatórios indicando aumentos substantivos nos preços dos alimentos em decorrência do aumento da concorrência pelo uso de terras agrícolas. Lula insistiu na “redenção do pequeno agricultor nordestino” através do biodiesel da mamona ainda que ninguém sensato vá produzir óleo de mamona para usar como combustível – já que os preços desse óleo para usos mais nobres são muito mais elevados. Como concebido, o Programa Nacional do Biodiesel vai é transformar esses pequenos produtores em reféns das grandes esmagadoras e, depois, em favelados. Afinal, que pequeno produtor pode participar de um leilão de compra da Petrobras, onde o “lance mínimo” é de 1 milhão de litros?

Por seu lado, Bush também acredita no que a sua cabeça lhe diz, se é que ele tem uma que não se limita a repetir o que lhe dizem as grandes petroleiras. Mesmo os republicanos já sabem que Bush está cometendo um grande erro ao negar-se a colaborar com a humanidade. A obiteração da consciência na alta administração norte-americana é tamanha que o chefão da NASA chegou a declarar, recentemente, que “ninguém pode dizer que clima é o clima ideal para a humanidade”! Total falta de limites para a arrogância vazia.

Grandes investidores norte-americanos já apostam numa mudança total de atitude logo após o seu mandato. Contagem regressiva para o grande alívio que será a transmissão do cargo, não importando para quem. Nem mesmo os republicanos não suportam mais o que está acontecendo na Casa Branca e comentam, abertamente, que não são ouvidos. Nos EUA, governadores e prefeitos continuam tomando iniciativas importantes para a redução das emissões de carbono e grandes investidores já começaram a tomar o mesmo rumo. Recentemente, dois gigantes financeiros – Texas Pacific Group e Goldman Sachs – adquiriram a mais “suja” empresa de energia elétrica dos EUA – a TXU Energy, do Texas – com o objetivo de fazer um rápido aumento no seu valor de mercado (valor das ações) através de uma transformação radical baseada nas energias renováveis e na eficência energética. Foi o maior investimento direto (chamado equity nos EUA, isso é, investimento com capital próprio) desse tipo da história: cerca de US$ 50 bilhões. Grupos com o histórico de de só considerarem projetos com altas taxas de retorno não firmariam o compromisso de substituir a impalantação de uma dezena de novas usinas térmicas por energia eólica se não estivessem totalmente confiantes de que o panorama do setor vai mudar totalmente ao final da “administração” Bush.

Lula e Bush poderiam fazer o G-2! Ambos acreditando em tudo o que as suas cabeças lhe dizem. Lula colocaria a culpa nos ricos, Bush dobraria a aposta em sua proposta de que o Brasil sirva de capataz da produção de etanol nos países mais pobres da América Latina. E, de repente, quem sabe, “rola uma graninha” para cessar a destruição da Amazônia.

Essa é uma proposta que já vem sendo discutida há algum tempo. Mas, afinal, quanto vale a floresta amazônica? O valor “de mercado” dos créditos de carbono – definidos pelos países que integram o G-8 -, o valor da madeira em pé, o valor da madeira beneficiada, ou esses valores e mais os lucros cessantes pela não expansão da fronteira agrícola? E qual o valor simbólico de uma negociação desse tipo para o Brasil? Para os adoradores do livre-mercado, que não entendem o que não pode ser quantificado, basta lembrar que, no passado, a Casa Branca mandou um parque nacional sob gestão privada das negociações envolvendo a venda da Paramount para a Sony. No parque vive a águia de cabeça branca ou águia-careca que é símbolo dos EUA.

***

Evidentemente, a chanceler alemã e presidente da União Européia Angela Merkel tratou Bush de maneira diplomática ao declarar que as propostas dele eram bem vindas. De toda forma, a União Européia já havia entrado num acordo sobre as suas próprias metas. Angela Merkel ignorou a presença e os comentários de Lula, cuja participação na cúpula do G-8 se deu fundamentalmente no momento da foto.

***

O conceito de “valor simbólico” é diferente do de “valor da marca”. Assim, tanto a Microsoft como a Coca-Cola sabem exatamente qual o valor de suas marcas, que está lançado em suas contabilidades. Aqui, nada. No Rio de Janeiro, descarta-se o valor da marca FEEMA – Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente, o mais antigo órgão especificamente de meio ambiente do Brasil, por um capricho.

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Que percentual da “neblina” que cobre a cidade do Rio de Janeiro no inverno se deve à poluição acumulada em condicões desfavoráveis de dispersão atmosférica?

“Não acredite em tudo que a sua cabeça lhe diz!” – Lula, Bush e Mudanças Climáticas

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A frase do título estava escrita num adesivo colado no vidro de um carro na Califórnia. Dá para lembrar o blá-blá-blá de Lula e Bush diante das propostas dos países sérios em relação à necessidade de medidas para conter o avanço das mudanças climáticas. Ambos parecem sempre acreditar no que as cabeças lhes dizem.

Lula fingiu um protesto veemente contra a falta de compromissos consensuais claros sobre a redução das emissões de gases causadores de mudanças climáticas na reunião do G-8, ainda sabendo que a Europa e o Japão continuarão a avançar com ou sem os EUA. Lula reclamou mas não propôs nada, exceto que os países ricos devem aumentar a sua contribuição financeira para os pobres. Essa repetitiva obsessão com a caridade desconsidera o fato de que todos os países que escaparam do subdesenvolvimento nas últimas décadas não contaram com qualquer ajuda externa, nem mesmo das tolas organizações financeiras tipo Banco Mundial. China e Coréia do Sul contaram mesmo foi com investimentos massivos e prolongados em educação e tecnologia, além de todo um conjunto de políticas públicas setoriais.

Lula talvez talvez tenha ficado com uma pontinha de inveja da decisão do G-8 de liberar US$ 60 bilhões para a África. Mas no campo específico das mudanças climáticas não propôs e nem poderia propor, já que, como Bush, não consegue estabelecer relações entre eficiência no uso de energia e avanços tecnológicos, de um lado, e redução das emissões desses gases, do outro. O Brasil não tem políticas públicas de eficiência energética e não dá atenção nem mesmo ao imenso potencial de aumento da geração com a simples “repotencialização” e automação de suas hidrelétricas mais antigas (“repotencialização” é a troca de velhas turbinas por outras mais modernas, aumentando significativamente a geração com um custo muito abaixo daquele resultante da construção de novas hidrelétricas). Afinal, projetos de “repotencialização” não dão lucro para as grandes empreiteiras.

O Brasil não domina tecnologia para a geração elétrica solar ou eólica. Na verdade, não domina sequer a tecnologia de fabricação de turbinas para hidrelétricas, que é exclusividade de multinacionais instaladas no país. Tendo abraçado e passado a venerar o tal “investimento externo”e abandonado o conceito de nação, o Brasil continuará pagando pedágio para o desenvolvimento de seus recursos naturais. O capital que entra, sai, sob a forma de remessa de lucros e pagamentos de royalties pela tecnologia. As empresas brasileiras, hoje, não dominam nem mesmo o mercado interno de creme dental! Fabrica ônibus híbridos para exportação e não os adota nas grandes cidades altamente poluídas por não ter políticas ambientais claras e sistemas de incentivos fiscais direcionados para o interesse público. Quando a Eletrobras paga mais caro por um tipo de geração de eletricidade por fontes “alternativas”, acaba gerando mais impostos, ao contrário até mesmo dos EUA, onde a geração eólica é estimulada por reduções nos impostos.

Lula insiste na “tese” de que não há conflitos entre a produção massiva de biocombustíveis para exportação e acredita no que sua cabeça lhe diz, apesar da FAO já ter tornado públicos os primeiros relatórios indicando aumentos substantivos nos preços dos alimentos em decorrência do aumento da concorrência pelo uso de terras agrícolas. Lula insistiu na “redenção do pequeno agricultor nordestino” através do biodiesel da mamona ainda que ninguém sensato vá produzir óleo de mamona para usar como combustível – já que os preços desse óleo para usos mais nobres são muito mais elevados. Como concebido, o Programa Nacional do Biodiesel vai é transformar esses pequenos produtores em reféns das grandes esmagadoras e, depois, em favelados. Afinal, que pequeno produtor pode participar de um leilão de compra da Petrobras, onde o “lance mínimo” é de 1 milhão de litros?

Por seu lado, Bush também acredita no que a sua cabeça lhe diz, se é que ele tem uma que não se limita a repetir o que lhe dizem as grandes petroleiras. Mesmo os republicanos já sabem que Bush está cometendo um grande erro ao negar-se a colaborar com a humanidade. A obiteração da consciência na alta administração norte-americana é tamanha que o chefão da NASA chegou a declarar, recentemente, que “ninguém pode dizer que clima é o clima ideal para a humanidade”! Total falta de limites para a arrogância vazia.

Grandes investidores norte-americanos já apostam numa mudança total de atitude logo após o seu mandato. Contagem regressiva para o grande alívio que será a transmissão do cargo, não importando para quem. Nem mesmo os republicanos não suportam mais o que está acontecendo na Casa Branca e comentam, abertamente, que não são ouvidos. Nos EUA, governadores e prefeitos continuam tomando iniciativas importantes para a redução das emissões de carbono e grandes investidores já começaram a tomar o mesmo rumo. Recentemente, dois gigantes financeiros – Texas Pacific Group e Goldman Sachs – adquiriram a mais “suja” empresa de energia elétrica dos EUA – a TXU Energy, do Texas – com o objetivo de fazer um rápido aumento no seu valor de mercado (valor das ações) através de uma transformação radical baseada nas energias renováveis e na eficência energética. Foi o maior investimento direto (chamado equity nos EUA, isso é, investimento com capital próprio) desse tipo da história: cerca de US$ 50 bilhões. Grupos com o histórico de de só considerarem projetos com altas taxas de retorno não firmariam o compromisso de substituir a impalantação de uma dezena de novas usinas térmicas por energia eólica se não estivessem totalmente confiantes de que o panorama do setor vai mudar totalmente ao final da “administração” Bush.

Lula e Bush poderiam fazer o G-2! Ambos acreditando em tudo o que as suas cabeças lhe dizem. Lula colocaria a culpa nos ricos, Bush dobraria a aposta em sua proposta de que o Brasil sirva de capataz da produção de etanol nos países mais pobres da América Latina. E, de repente, quem sabe, “rola uma graninha” para cessar a destruição da Amazônia.

Essa é uma proposta que já vem sendo discutida há algum tempo. Mas, afinal, quanto vale a floresta amazônica? O valor “de mercado” dos créditos de carbono – definidos pelos países que integram o G-8 -, o valor da madeira em pé, o valor da madeira beneficiada, ou esses valores e mais os lucros cessantes pela não expansão da fronteira agrícola? E qual o valor simbólico de uma negociação desse tipo para o Brasil? Para os adoradores do livre-mercado, que não entendem o que não pode ser quantificado, basta lembrar que, no passado, a Casa Branca mandou um parque nacional sob gestão privada das negociações envolvendo a venda da Paramount para a Sony. No parque vive a águia de cabeça branca ou águia-careca que é símbolo dos EUA.

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Evidentemente, a chanceler alemã e presidente da União Européia Angela Merkel tratou Bush de maneira diplomática ao declarar que as propostas dele eram bem vindas. De toda forma, a União Européia já havia entrado num acordo sobre as suas próprias metas. Angela Merkel ignorou a presença e os comentários de Lula, cuja participação na cúpula do G-8 se deu fundamentalmente no momento da foto.

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O conceito de “valor simbólico” é diferente do de “valor da marca”. Assim, tanto a Microsoft como a Coca-Cola sabem exatamente qual o valor de suas marcas, que está lançado em suas contabilidades. Aqui, nada. No Rio de Janeiro, descarta-se o valor da marca FEEMA – Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente, o mais antigo órgão especificamente de meio ambiente do Brasil, por um capricho.

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Que percentual da “neblina” que cobre a cidade do Rio de Janeiro no inverno se deve à poluição acumulada em condicões desfavoráveis de dispersão atmosférica?

Rio de Janeiro – Sacolejando em Caminhões de "Transporte Público"

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A falta de políticas públicas que determinem e incentivem o uso do gás natural nos ônibus de transporte público e, o que seria ainda melhor, nos ônibus híbridos (ver adiante), que consomem menos combustível fóssil, merece um breve histórico para a compreensão das responsabilidades, omissões e oportunidades na área dos transportes públicos em algumas regiões metropolitanas brasileiras. Se o Rio de Janeiro não tem, até o presente, ônibus para o transporte público – e sim meras carroserias montada sobre chassis de caminhão, extremamente desconfortáveis para os passageiros e motoristas, parecendo latas-velhas -, isso se deve, exclusivamente, ao pensamento retrógrado das empresas de ônibus e à sua capacidade de influenciar o “poder público”.

Já em 1975, o Grupo Executivo de Integração da Política de Transportes – GEIPOT, criado pelo governo federal em 1965, enfatizava que as características dos ônibus urbanos eram causa da péssima qualidade dos serviços nas principais regiões metropolitantas do país. Pouco depois, iniciou-se o Projeto Padron, destinado a assegurar uma série de especificações mínimas dos ônibus urbanos, especificações que já eram, então, comuns nos países sérios. Em 1979, o GEIPOT publicou uma lista de especificações básicas em consonância com padrões internacionais. Todos os requisitos foram aceitos pela indústria brasileira! Na sequência, foram fabricados protótipos, testados em várias capitais do país.

Entre essas especificações encontravam-se: (a) transmissão automática, (b) direção hidráulica, (c) suspensão pneumática, (d) uso de sistemas redutores dos níveis de ruído e das emissões poluentes, (e) 35 centímetros de altura do primeiro degrau, (f) no mínimo duas portas de 1,20 metro de largura e, em alguns modelos, três, sendo uma de 1,70 metros, (g) pneus radiais, aumentando a segurança e diminuindo os custos por quilômetro rodado, e (h) carrocerias fabricadas com materiais que asseguravam a redução do peso combinado com o aumento da resistência à deformação, à corrosão e á fadiga (vida útil minima de 10 anos). Além disso, as especificações adotadas nos protótipos aumentavam significativamente o “raio de giro” dos veículos (ou a versatilidade para fazer curvas mais fechadas), adaptando-os ao meio urbano, bem como a ventilação forçada de ar (sem considerar o ar condicionado), tornando-a equivalente a 20 vezes o volume interno da área destinada aos passageiros.

A adoção desses requisitos resultavam em aumento acentuado dos níveis de conforto dos passageiros e motoristas, e para comprová-lo basta, por exemplo, circular em ônibus urbanos em Curitiba. A transmissão automática impede as arrancadas bruscas que tanto maltratam os passageiros na região metropolitana do Rio de Janeiro, e a suspensão pneumática evitaria que a viagem se torne um permanente chacoalhar de ossos e mentes, que deixa a todos exaustos e estressados.

Em 1982, o veículo Padron começou a ser adotado pela Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos – CMTC de São Paulo e, no ano seguinte, a Companhia de Transportes Coletivos do Rio de Janeiro – CTC adquiriu 183 desses ônibus. Curitiba, pioneira em projetos de transporte público em decorrência da implantação da Volvo no estado do Paraná, adota ônibus articulados e até veículos com portas em ambos os lados.

As portas mais largas e os degraus mais baixos não apenas aumentavam o conforto dos passageiros mas, também, reduziam de forma significativa o tempo despendido nas viagens. Todo esse conjunto resulta em melhoria significativa da qualidade de vida, que é o que diferencia os países sérios do nosso e de outros países de “economia periférica”.

O GEIPOT foi extinto em 2001, com a legislação que criou Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a Agência Nacional de Tranportes – ANTT (que ainda não disse ao que veio), a Agência Nacional de Transportes Aquaviários – ANTAQ (idem), o Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes – DNIT (idem), e o Conselho Nacional de Integração da Política de Transportes Terrestres – CONIT (esse, então, totalmente desconhecido). Até o presente, o processo de liquidação do acervo do GEIPOT ainda não terminou!

Com base nesse histórico, bem como no que já avançaram outras capitais e regiões metropolitanas do país, não existem razões que justifiquem a péssima qualidade dos transportes urbanos no Rio de Janeiro! Dizer que os ônibus Padron são mais caros não é argumento válido, tendo em vista a alta lucratividade das empresas que operam esses serviços públicos bem como a redução dos custos operacionais alcançadas pela adoção do ônibus Padron. Isso para não falar dos benefícios para o trânsito! Os gigantescos engarrafamentos provocam aumento no consumo de combustível, com imensos custos sociais. Autoridades e empresas de ônibus da cidade e da região metropolitana do Rio de Janeiro igualam-se em matéria de inércia e de pensamento retrógrado, tendo como resultado uma verdadeira agressão ao bom senso e à qualidade de vida.

Gás Natural e Veículos Híbridos

Tornar o uso do gás natural obrigatório no ônibus urbanos das regiões metropolitanas do país onde esse combustível se encontre disponível seria uma excelente iniciativa das autoridades ambientais, como forma de reduzir a poluição urbana e de melhorar a qualidade do ar que respiram milhões de brasileiros. De fato, no Rio de Janeiro, o abastecimento dos ônibus urbanos com gás natural iniciou-se em 1983 com veículos da então estatal CTC! O programa não avançou devido à resistência das empresas privadas de ônibus e à inércia do Conselho Nacional de Meio Ambiente – CONAMA. O uso do gás natural em ônibus urbanos reduziria de forma significativa a poluição atmosférica em regiões metropolitanas já totalmentes saturadas, como as de São Paulo e do Rio de Janeiro! A conversão progressiva da frota para o gás natural poderia ser determinada pelo CONAMA, da mesma forma que esse órgão impôs o uso de catalisadores em veículos de passeio há cerca de 2 décadas.

De fato, nos países sérios, sempre que se estabelecem padrões de qualidade ambiental - seja do ar, da água ou dos solos -, são estabelecidos, também, procedimentos e prazos para que esses padrões sejam atingidos! Sem isso, os padrões não têm qualquer sentido. A legislação ambiental requer a apresentação de programas e projetos de curto, médio e longo prazo para a redução progressiva da poluição! Evidentemente, para isso é frequentemente necessário o estabelecimento de restrições cada vez maiores às emissóes das fontes individuais de poluição, inclusive proibindo a instalação de novas indústrias em áreas já saturadas. Essas crescentes restrições têm resultado em avanços tecnológicos significativos, que beneficiam as economias dos países sérios.

Os veículos automotores, no entanto, sempre foram um problema. Os níveis de emissão individuais- isto é, por fonte de emissão – melhoraram durante anos, mas o número de veículos aumentou desproporcionalmente. Isso ocorreu até o momento em que o conselho de qualidade do ar da Califórnia admitiu que seria impossível atingir os padrões em algumas cidades sem a introdução de veículos elétricos. Sem um plano consistente, a Califórnia não poderia acessar certas fontes de recursos financeiros do governo federal. A indústria automobilística norte-americana estrilou, afirmou que carros elétricos teriam um preço muito elevado, que não existia tecnologia para dar-lhes a autonomia requerida pelos compradores, e assim por diante. E, de fato, essa tecnologia não existia.

O governo da Califórnia endureceu e os japoneses acabaram abocanhando uma boa parcela do mercado com veículos denominados híbridos, isto é, que só usam combustível líquido nas acelerações e nas subidas, e que têm a tecnologia para captar a energia dissipada quando a velocidade é reduzida ou nas descidas, utilizando-a para carregar baterias. A notável redução do uso de combustíveis fósseis resultou em equivalente diminuição nas emissões de poluentes determinada pelo poder público. Os veículos híbridos – inclusive os de passeio – já são responsáveis por 5% do mercado norte-americano de veículos automotores e o crescimento das vendas é tão acentuado que as projeções indicam que esse percentual dobrará nos próximos 3 anos.

Tendo perdido competitividade em decorrência da atitude retrógrada, hoje a indústria automobilística norte-americana corre atrás do prejuízo. Ou nem corre mais.

No Brasil, uma indústria de ônibus híbridos já se encontra instalada desde 1999! A empresa exporta, ganha prêmios internacionais. fabrica ônibus que usam muito menos combustível e portanto reduzem significativamente a poluição, mas não consegue o apoio do poder público brasileiro que uma montadora estrangeira facilmente tem conseguido: isenções ou diferimento de IPI, ICMS, linhas de crédito especialmente favoráveis no BNDES, etc. Nos países sérios, uma empresa com tal nível de inovação tecnológica de impacto positivo sobre o interesse público receberia mesmo uma isenção temporária de imposto de renda.

Enquanto o Brasil patina, os veículos híbridos avançam rapidamente nos países sérios. Todos os grandes fabricantes de veículos europeus já lançaram ou pretendem lançar em 2007 veículos de passeio híbridos. Mas, aqui, pelo jeito, um fabricante brasileiro não tem o “status” necessário para convencer as autoridades, que só concederão benefícios tributários e linhas de crédito especiais quando a empresa for comprada por um “investidor estrangeiro”.

Por enquanto, fica a sugestão de que os ônibus Padron sejam os únicos a serem agraciados pelo BNDES por suas ultra-generosas linhas de crédito para o setor quando se destinarem ao uso nas regiões metropolitanas onde já se constate a violação dos padrões de qualidade do ar – como é o caso do Rio de Janeiro -, e que os governos estaduais concedam isenção de temporária de ICMS e redução do IPVA para os veículos que atenderem à s especificações acima relacionadas. A isenção total ou parcial do ICMS para o gás natural fornecido a esses veículos também pode e deve ser consideradas. E aí, quem sabe, o governo federal acorda e concede a isenção total do IPI para os ônibus híbridos até que a indústria possa se consolidar.

A qualidade de vida, bem como a consistência entre a formulação e a implementação de políticas públicas agradeceriam, penhoradamente.