Archive for the 'Energias Renováveis' Category

Energia Eólica – Expande-se Rapidamente a Capacidade Instalada de Geração no Mundo

Email This Post Email This Post

Há poucos dias, uma empresa norte-americana – Terra-Gen Power – anunciou a finalização da estruturação financeira para a construção de uma “fazenda eólica” de 570 MW por um valor de cerca de R$ 2 bilhões.  O projeto será implantado na Califórnia.   A Terra-Gen já havia assinado, em 2006, um contrato de venda de energia eólica para uma concessionária californiana envolvendo um total de 1.550 MW de capacidade instalada.

O mercado de energia eólica cresce de maneira acelerada nos países desenvolvidos.  Em 2009, a capacidade de geração eólica instalada no mundo atingiu 160.000 MW, com um crescimento de quase 35% apesar de todas as turbulências econômicas e da recessão que marcaram o ano.  As projeções indicam que essa capacidade tende a dobrar a cada 3 anos e mantidas as atuais tendências os especialistas prevêem que a capacidade instalada no mundo atingirá 1.900.000 MW em 2020.

Evolução da Capacidade Instalada de Geração Eólica

A China tornou-se a locomotiva do mercado mundial de energia eólica e apenas em 2009 adicionou 13.800 MW à sua capacidade instalada, que foi duplicada anualmente nos últimos 4 anos.  Ainda assim, ao final de 2009 os EUA mantiveram a sua liderança mundial em termos de capacidade instalada de geração eólica, com 22.1% do total mundial, seguidos pela China com 16,3%.  Esses dois países representaram 61,9% da expansão da capacidade instalada em 2009, contra um aumento de 53,7% em 2008.

O Brasil encerrou o ano de 2009 com cerca de 600 MW de capacidade instalada de geração eólica, ou seja, menos da metade da meta estabelecida pela lei que criou o Programa Nacional de Energias Renováveis – PROINFA, promulgada em abril de 2002.  O programa embute de forma oculta na conta de luz de todos os consumidores – excetuados os de baixa renda – um pedágio para subsidiar a energia gerada por pequenas centrais hidrelétricas (PCHs com capacidade instalada igual ou inferior a 30 MW), cogeração com resíduos agrícolas (idem em tamanho) e energia eólica.

Os cinco maiores do mundo em termos de capacidade instalada para essa fonte de energia são EUA, China, Alemanha, Espanha e Índia, com o total de 72,9% da capacidade instalada no mundo, um ligeiro acréscimo de 0,5% em relação a 2008.

A produção total de energia eólica ainda representa apenas 2% da demanda mundial de eletricidade.  Mas esses percentuais são mais significativos na Dinamarca, onde a geração eólica responde por 20% da demanda de energia elétrica.  Seguem-se Portugal, com Portugal, Espanha e Alemanha, com respectivamente 15%, 14% e 9% da demanda de energia elétrica sendo supridos por geração eólica.

Turbinas instaladas no mar ainda representam apenas 1,2% do total da capacidade instalada de geração eólica no mundo, mas o crescimento dessas instalações em 2009 foi de 30%, com a maior ampliação da capacidade na Dinamarca, Alemanha, Inglaterra, Suécia e China.  Nesse campo – turbinas offshore -, a Inglaterra lidera, com 688 MW de capacidade instalada, seguida de perto pela Dinamarca, com 633 MW, Holanda, com 247 MW, Suécia com 164 MW e Alemanha com 72 MW.

Ao final de 2009, o setor de energia eólica empregava 550.000 pessoas direta e indiretamente, a maioria com alta qualificação técnica.  Estima-se que em 2012 o setor será responsável por 1 milhão de empregos.

Esse quadro pode mudar radicalmente com três países iniciando a fabricação de protótipos de turbinas de 10 MW, muito superiores às turbinas de 2,5 – 3 MW atualmente fabricadas.  Essas turbinas, com dimensões de até 245 metros entre as extremidades das “hélices” estão sendo projetadas para serem colocadas em mar aberto pelos EUA, Noruega e Inglaterra.  Ainda é cedo para falar no sucesso de tais equipamentos, mas é evidente a disputa entre esses três países para atingir a liderança na fabricação de turbinas desse porte.

O relatório sobre a evolução do mercado de energia eólica foi divulgado durante a 9ª. Conferência Mundial de Energia Eólica realizado entre os dias 17 e 19 de junho de 2010 em Istambul, na Turquia, e pode ser acessado, em inglês, no link abaixo.

http://www.wwindea.org/home/images/stories/worldwindenergyreport2009_s.pdf

Energias Renováveis – A Inglaterra Só Não Faz Porque o Blá-Blá-Blá Sobre a Amazônia É Mais Fácil

Email This Post Email This Post

Um aprofundado estudo sobre o potencial de geração de energia renovável em áreas marítimas – incluindo eólica (no mar), de marés e de ondas -, apresenta resultados surpreendentes e promissores.

Considerando apenas o aproveitamento de 29% do “potencial prático” e a tecnologia já existente para o aproveitamento dessas fontes de energia, é possível a substituição de 1 bilhão de barris de petróleo por ano, o equivalente a toda a produção de petróleo e gás do Mar do Norte, com a redução das emissões do Reino Unido em 1,1 bilhão de toneladas de CO2, com o benefício adicional da geração de 145.000 novos empregos.

Calculados os custos de investimentos e a rápida evolução tecnológica, esses níveis de geração podem ser alcançados até 2050, tudo dependendo apenas “pelo nível de ambição da Inglaterra” e de seu desejo de transformar-se em exportador de eletricidade para outros países europeus.

O relatório enfatiza o fato de que nada disso acontecerá espontaneamente, mas que demandará um esforço do governo equivalente ao que foi feito ao longo das últimas décadas para apoiar a indústria do petróleo.

Aí é que está o problema: é mais fácil para o governo inglês dedicar-se a um infindável blá-blá-blá sobre a Amazônia, para enganar o eleitorado interno, do que livrar-se do poder do lobby da indústria petrolífera, com seus interesses já consolidados e seu fingimento de que está se transformando numa indústria de energia (exatamente como acontece no Brasil).

E isso para não falar nas térmicas a carvão que continuam sendo licenciadas e implantadas na Inglaterra enquanto o discurso farsante e falsário dos príncipes Charles da vida seguem o seu curso.

O relatório, que contem estimativas de investimentos, estudos específicos de localização, avaliação da evolução da tecnologia e outras informações, pode ser encontrado na sua versão integral, em inglês, em www.offshorevaluation.org/downloads/offshore_vaulation_full.pdf.

Não se espera, evidentemente, que a Inglaterra vá transferir tecnologia nessas áreas em benefício da humanidade.  Se fizer algo, será como “business as usual”.

Tudo isso só confirma um estudo da Shell em que são traçados dois cenários.  No primeiro, as tecnologias de energias limpas foram dominadas e petróleo – sujo – será coisa de país pobre.  No segundo, tudo continuará como está e o preço do petróleo se elevará tanto que os países pobres não poderão pagar por ele.

Bicicletas Elétricas e Eficiência Energética no Transporte Urbano – A China Dá o Seu Recado – III

Email This Post Email This Post

Em meados de 2009, cerca de 100 milhões de bicicletas elétricas já se encontravam em circulação na China, com vendas anuais equivalentes a 90% de todo o planeta.  Na China, o preço médio dessas bicicletas gira em torno de US$ 300, ou menos de R$ 600.  Os chineses esperam que essa “febre” logo se alastre por toda a Ásia.  E podemos estar certos que bicicletas elétricas chinesas logo chegarão ao Brasil, importadas ou montadas aqui com componentes importados, mas por um preço muito mais elevado.  Hoje, uma bicicleta elétrica custa, no Brasil, algo como R$ 2.800.  Coisa de eco-chic.

e-bikes.jpg 

Caminhando por uma rua de pequenas lojas nas proximidades do campus da Universidade de Tsinghua, um dos grandes centros de tecnologias limpas da China, encontram-se dezenas de modelos de e-bikes, como ficaram conhecidas as bicicletas elétricas que agora se tornaram uma febre entre os jovens chineses.

Há os mais diversos modelos – desde aquelas feitas em plástico para reduzir o peso até as mais sofisticadas -, tanto no que se refere aos materiais e ao design quanto às baterias.

“Eu optei por uma denominada Turtle King – uma simples cópia de uma Vespa italiana – com um motor de 500 W e uma bateria comum, idêntica às utilizadas nos automóveis.  Ela tinha autonomia de 40 a 50 km e velocidade máxima de 40 km/hora, mas não custava mais do que US$ 500.  (…)  Pouco tempo depois, troquei-a por outra, com baterias litium-ion, que pesam menos e estocam mais energia, além de terem uma vida útil mais longa.

“Quando eu me encontrava na loja, conversei com dois jovens clientes, estudantes da Faculdade de Aeronáutica e Astronáutica da Universidade de Pequim. 

“Vocês devem ter toneladas dessas bicicletas nos EUA – disse um, que usava uma camiseta com a figura de Che Guevara – já que vocês estão sempre falando em consciência ecológica.  Expliquei que não, que os norte-americanos usam bicicletas para se exercitarem, não como meio de transporte.  Nas proximidades de seu campus, em Pequim, as bicicletas elétricas são tão rotineiras quanto as motocicletas nas montanhas da Itália.”

Em seu lindo e meticuloso relato intitulado Carta da China – o Gigante Verde, já citado nos dois artigos anteriores deste blog, Evan Osnos descreve duas etapas das mudanças no transporte urbano do país que hoje é o maior produtor mundial de automóveis.  Na primeira, abandonaram-se as ciclovias para dar lugar aos carros; mas agora as ciclovias estão de volta.  As bicicletas elétricas tornaram-se símbolos de status, dinamismo, excelente forma de evitar a lentidão do tráfego nas horas de rush.

A Agência Ambiental da China subsidia as bicicletas elétricas e, mais recentemente, os subsídios estenderam-se a um modelo que é mais semelhante a uma scooter, sem a alternativa de serem pedaladas.

electric-bikes-2.jpg

Lá, também cresce rapidamente a produção de carros elétricos. 

E a turma aqui brincando de “Dia da Árvore” e de “inspeção veicular” do Oiapoque ao Chuí.

***

A China encontra-se mergulhada em todos os tipos de novas tecnologias que possam reduzir o consumo de combustíveis fósseis.  De um lado, o governo não quer ficar dependente de um petróleo que pode estar em outro país ou num navio-tanque no meio do mar, e sabe que a exploração do petróleo encontrado em profundidades muito grandes (no Brasil confundido, intencionalmente, como pré-sal) pode ter custos demasiadamente elevados.  Do outro, as autoridades vêem na nova onda de energias renováveis e de eficiência energética uma fonte de profundas mudanças tecnológicas e um imenso potencial de novos negócios – incluindo geração de emprego e de renda.

Energias Limpas e Liderança Tecnológica – A China Dá o Seu Recado – II

Email This Post Email This Post

Em 2010, a China tornou-se o terceiro país do mundo em capacidade instalada de geração de energia eólica, com 20 GW.  Segundo o Conselho Mundial de Energia Eólica, com o atual ritmo de crescimento nessa área, já ao final de 2011 a China assumirá a liderança mundial nessa fonte de energia.  Os EUA temem, hoje, que turbinas eólicas chinesas invadam o seu mercado e os republicanos chegam a pedir o fim dos subsídios a essa fonte de energia.

A China, hoje o país que mais emite gases causadores de mudanças climáticas tem como meta atingir 15% de seu consumo de energia provenientes de fontes renováveis até 2020 (a meta européia é alcançar 20% naquele ano).  Mas a redução proposta pela China em suas emissões pode ser muito superior.  De fato, a China vê o assunto como uma oportunidade de avanços tecnológicos, de exportação de produtos e tecnologias, e de geração de emprego.

Hoje,  70% da eletricidade do país são provenientes da queima de carvão.  Assim, excetuada a alternativa da substituição dessas fonte de energia pela nuclear, resta a alternativa da rápida modernização das usinas térmicas e da incorporação de tecnologia de gaseificação do carvão, uma área em que o desenvolvimento tecnológico chinês já supera o norte-americano.  A eficiência média da conversão do carvão em energia nas unidades de geração térmicas mais antiquadas é de 25% ou menos, enquanto unidades mais modernas, que incorporam tecnologias avançadas, alcançam eficiência de até 55% na conversão do carvão, com uma redução proporcional das emissões de CO por unidade de eletricidade gerada, segundo a Agência Internacional de Energia.

Sistemas de gaseificação de carvão já existem há décadas, mas o seu preço era tão alto que a sua aplicação em larga escala os tornava inviáveis.  Os sistemas de gaseificação chineses já custam 1/3 dos seus equivalentes fabricados pela GE e pela Shell, e são mais eficientes.  E a China já está licenciando tais sistemas para empresas de geração térmica norte-americanas.  A gaseificação – um processo de queima com temperatura e pressão muito mais elevadas - aumenta em muito a eficiência energética e reduz significativamente a emissão de dióxido de carbono.

Esse e outros assuntos relacionados à liderança mundial no campo das energias renováveis foram motivo da visita de Obama a Pequim em novembro deste ano, depois de cinco visitas sucessivas à China feitas pelo subsecretário norte-americano de energia para políticas e assuntos internacionais – em apenas cinco meses.

Ao final desse encontro do G-2, Hu-Jintao, o presidente chinês, deixou claro que o seu país não pretende arcar com os altos custos da acelerada implantação de usinas térmicas mais modernas, equipadas com sistemas de gaseificação do carvão e ciclo-combinado, sem o auxílio financeiro dos países mais ricos enquanto a renda per capita chinesa for de apenas cerca de 1/7 da renda per capita nos EUA.  Ponto final.

Os grandes avanços tecnológicos da China têm uma origem algo prosaica.

“Em 3 de março de 1986, quatro dos mais importantes cientistas chineses – todos veteranos nas áreas de mísseis e do programa espacial – escreveram uma carta a Deng Xiaoping, então presidente da China.  A carta continha um alerta: décadas de concentração de esforços na área militar haviam debilitado o desenvolvimento científico civil do país.  A China deveria se unir ao xin jishu geming, a nova revolução tecnológica em andamento no mundo.  (…)  Deng Xiaoping concordou e rabiscou num canto da carta: ação deve ser iniciada nesse campo imediatamente.”

A partir daí, desencadeou-se uma política de envio massivo de chineses para fazer doutorado nas mais avançadas universidades do mundo.  A política de educação básica já estava consolidade e não havia tempo para esperar pelo avanço tecnológico interno convencional.  Aquele foi o ponto de partida, também, para uma política de massivos investimentos públicos em pesquisa e desenvolvimento.  Os investimentos públicos nessa área cresceram mais do que em qualquer outro país do mundo, a uma taxa média anual de 20%, atingindo 70 bilhões de dólares em 2008.

Feliz do país em que o presidente e a administração pública lêem.  E lêem cartas de cientistas com base nas quais tomam decisões com tal nível de repercussão sobre o futuro da nação.

***

Este artigo foi escrito com base em notícia do Le Monde de hoje e numa publicação bem mais ampla do The New Yorker intitulada Carta da China – O Gigante Verde – O Acelerado Programa de Pequim para Energias Limpas.  O artigo foi enviado pelo leitor Jaime Francisconi e pode ser encontrado em  www.newyorker.com/online/blogs/evanosnos.

***

Os rumos do G-2 são decisivos para o futuro climático e econômico da humanidade, já que o terceiro pilar, a União Européia, há muito optou por definir metas próprias.

No Brasil, a turma continua brincando de “Dia da Árvore” em escala nacional.

Copenhague – O Discurso de Obama e o Jornalismo de Cabresto com Grife

Email This Post Email This Post

Ao contrário da tendenciosa cobertura de O Globo, que superestimou o papel – até mesmo potencial – do Brasil na reunião de Copenhague e subestimou o discurso de Obama, este  último merece alguns comentários.

Antes de mais nada, Obama não é maluco falar em assinar acordos internacionais depois de aprovar um projeto de lei sobre emissões de carbono na Câmara e estar fazendo enormes esforços para driblar os lobbies do petróleo que ainda impedem a aprovação do projeto pelo Senado.

O discurso de Obama em Copenhague foi muito mais avançado do que os jornalistas mais tendenciosos – de grife – ou superficiais transmitiram para o público brasileiro.

Em primeiro lugar, há um imenso avanço na posição dos EUA com o reconhecimento de que as mudanças climáticas existem, são causadas pelo uso de combustíveis fósseis e colocam o mundo em risco.

O segundo ponto mais importante foi o reconhecimento da significativa parcela de responsabilidade dos EUA e o anúncio de que com ou sem acordos internacionais os EUA avançarão de maneira decisiva na área de energias renováveis e de eficiência energética.    Trata-se de uma questão de segurança energética do país e de assegurar a sua presença entre as lideranças tecnológicas internacionais, com a resultante criação de emprego e renda.

Em terceiro lugar, enfatizou metas de redução de emissões norte-americanas em 17% até 2020 e em mais de 80% até 2050, de acordo com a legislação que espera que o Congresso aprove em breve.  (O tendencioso jornalismo tupiniquim só ressaltou a meta inicial).

Prosseguindo, deixou claro que os EUA estão dispostos a dar acesso às informações sobre as suas emissões, e que essa deverá ser uma obrigação de todos que aderirem a um acordo sem que isso seja considerada uma intromissão nos negócios internos dos países. 

Aí é que se dá a divergência com as posições da China, da Índia e do Brasil, que até falam em metas mas se recusam a aceitar metas obrigatórias e mecanismos de monitoramento, como definiu o Protocolo de Quioto para os paises em desenvolvimento.  Obama demoliu, assim, com a farsa das economias emergentes que só aceitam “metas” não obrigatórias.

“Eu não sei como se pode ter um acordo internacional sem que se tenha um mecanismo confiável de monitoramento que assegure que todas as partes envolvidas estão cumprindo com os compromissos assumidos.

“Nós nos comprometemos a nos engajar num esforço global de mobilização de recursos financeiros que cresçam até US$ 100 bilhões por ano em 2020 SE, E APENAS se isso for parte de um acordo maior que envolva os mecanismos de monitoramento antes mencionados.

“Redução das emissões, transparência e financiamento constituem-se numa fórmula clara que envolve os princípios de responsabilidades comuns ainda que diferenciadas em função da capacidade de cada um.

“Há países em desenvolvimento que querem ajuda financeira sem compromissos com a transparência em relação às responsabilidades assumidas. E há países desenvolvidos que acham que os países em desenvolvimento não têm condições de absorver o apoio financeiro.

“Todos nós sabemos as falhas da linha de acordos internacionais em vigor e que só levaram a uma aceleração das mudanças climáticas.

“Nós podemos aceitar esses fundamentos de um acordo global, refinar e construir esse acordo ou voltar à mesma situação que fez com que não ocorressem avanços efetivos até o presente. 

“Os EUA fizeram a sua escolha, definiram a sua direção, assumiram os seus compromissos, nós faremos o que dizemos. Estamos prontos para fazer isso HOJE. Desde que as partes envolvidas  assumam as suas responsabilidades com os seus povos e com o futuro do planeta.”

O discurso completo de Obama – com o seu estilo tranquilo – pode ser visto em www.youtube.com/watch?v=yZ-SMqh7q3o

Ele tem razão.  O Protocolo de Kyoto foi um fracasso e repeti-lo seria muito ruim.  Agora, as coisas estão claras.  Os países que avançarem tecnologicamente e que formularem as melhores políticas públicas de adaptação as mudanças climáticas estarão muito melhor posicionados para enfrentá-las do que os demais.

***

Só alguém totalmente desinformado chegou à Copenhague acreditando numa vaga possibilidade de acordo.  Venderam a Lula a bandeira errada, a imprensa fez drama para vender notícia, mas o fato é que não havia chances de acordo.

Desde que minutas das propostas de acordo vazaram para a imprensa inglesa semanas antes, estava claro que os burocratas da ONU, do Banco Mundial e todos os demais que foram aos encontros preparatórios estavam MUITO longe de algum consenso.  Sugere-se a leitura dos seguintes artigos aqui publicados sobre esse naufrágio antecipado.

www.luizprado.com.br/2009/09/29/mudancas-climaticas-minuta-de-novo-acordo-e-confusa-e-vaga-i

www.luizprado.com.br/2009/10/04/mudancas-climaticas-minuta-de-novo-acordo-e-confusa-e-vaga-ii

www.luizprado.com.br/2009/11/06/mudancas-climaticas-e-o-naufragio-antecipado-de-copenhaguem/

Copenhague – Razões do Fraco Desempenho do Brasil

Email This Post Email This Post

O Brasil teve um fraco desempenho em Copenhague como decorrência do excesso de ênfase dada à redução do desmatamento e à necessidade de recursos externos para atingir metas nessa área.

Essa miopia – ou mania – segundo a qual os pobres só são pobres porque os ricos são ricos não corresponde à realidade, servindo apenas para incentivar as tensões sociais e encobrir a inépcia do poder público para dar aos cidadãos aquilo que levou os países altamente industrializados e realmente “emergentes” à posição em que se encontram: serviços e políticas públicas de qualidade para as áreas de educação, habitação, saúde e saneamento.  E, na área de educação, também o amplo apoio à pesquisa e ao desenvolvimento científico.

De fato, a superação do problema das mudanças climáticas é vista pelos países desenvolvidos como um problema de aceleração do desenvolvimento científico e tecnológico.  A manutenção das florestas existentes é, para eles, importante como uma ponte para chegar ao estágio necessário para consolidar o desenvolvimento de fontes alternativas de energia que não entrem em competição com a produção de alimentos num mundo em que a população continua a crescer.  Eles estão apostando, também, na  aceleração da disseminação de medidas de eficiência energética.

Um bom exemplo disso pode ser encontrado nas apresentações feitas em Copenhague pela Agência Internacional de Energia – IEA, na sigla em inglês.  Para se ter uma idéia do que está sendo feito nos países mais avançados – e são muitas as iniciativas nas mais diversas áreas – vale citar a utilização de sistemas de captação de energias oceânicas. Para tanto, sugere-se ver um curto vídeo em www.iea-oceans.org (em inglês) e até fazer o download da versão completa do vídeo no link logo abaixo da tela do mesmo (há necessidade de “registro” que não leva mais do que um minuto, já que apenas o nome, o país, a organização e um endereço eletrônico são solicitados).

No vídeo maior, há exemplos das mais diversas formas de captação de energias oceânicas: marés, correntes, ondas, diferenciais de gradientes de salinidade e de temperatura.  Entre elas, uma que pode produzir, além de energia, água doce. Entre os desenvolvimentos mais fascinantes encontra-se a planta piloto recém inaugurada nas proximidades de Oslo, Noruega.  Para sair da mesmice dos serviços ambientais das florestas em pé – que não resolvem o problema da geração de energia – vale visitar a página da empresa que desenvolveu a tecnologia e está testando o protótipo em www.statkraft.com/energy-sources/osmotic-power.  

Outro exemplo notável é o da Coréia do Sul, que está finalizando a implantação de uma unidade de energia oceânica que a permitirá economizar um milhão de barris de petróleo por ano.  Não é muito? E daí?  Quem ganha mais?  Com isso, a Coréia ficará não apenas com os créditos de carbono, mas com a energia limpa e, sobretudo, com a tecnologia.

O curto documentário preparado pela Agência Internacional de Energia lista, ao final, 25 países que estão trabalhando no desenvolvimento de energias oceânicas.  Entre eles, o Brasil!  O documentário enfatiza, ao final, que a indústria precisa de vultosas quantias para colocar essas tecnologias de verdade no mercado, e não pode ficar dependente de recursos esporádicos.   

*** 

Ao final de outubro deste ano, o governo dos EUA concedeu incentivos de 3,4 bilhões de dólares para a instalação de medidores de eletricidade inteligentes.  Esses medidores, que transmitem informações em tempo real tanto para as concessionárias quanto para os consumidores, já se encontram em uso em boa parte da Europa e permitem importantes avanços na área da eficiência energética.

Incentivos fiscais estão sendo considerados para a instalação de “bombas de calor”.  Trata-se de bombear água de poucos metros de profundidade cuja temperatura é estável ao longo do ano todo e de maneira a reduzir drasticamente o uso de eletricidade com a refrigeração e o aquecimento das edificações.  Esse é um sistema que se difunde rapidamente em países europeus e já atende a 600.000 edificações nos EUA, onde o crescimento anual de seu uso tem sido da ordem de 10%.

A lista de novas tecnologias é tão diversificada que o mote das florestas em pé perde importância num encontro mundial desse tipo e parece bem pouco para um país que se pretende uma potência econômica emergente. 

Se vier dinheiro para florestas, ele será cuidadosamente monitorado, até para que chegue às mãos dos proprietários de áreas privadas onde existem florestas.  E isso parece difícil num país que não consegue sequer a regularização fundiária de seus parques e outras unidades de conservação.

Há importantes desenvolvimentos tecnológicos em curso no país que merecem mais apoio.  A transferência de tecnologia poderia e deveria ter sido mais enfatizada pelo Brasil em Copenhague.

Amazônia, Subsídios à Geração de Eletricidade e Imbecilidade "Ecológica"

Email This Post Email This Post

Em reportagem de Ramona Ordonez publicada nesta data em O Globo comenta que uma tunga adicional de 1,5% do valor das contas de eletricidade dos consumidores brasileiros de energia elétrica está para ocorrer a qualquer momento – além do que acontecerá com o bolsa-eletriricidade recentemente concedida pelo residente Lula a nuestros hermanitos paraguayos com a decisão de rever a favor deles o contrato da Itaipu Binacional.

A mágica se dará com a vigência da Medida Provisória 499, editada em 29 de junho de 2009, que prevê alterações filantrópicas nos valores da Conta de Consumo de Combustível – CCC que subsidia os chamados sistemas isolados em particular na região amazônica.  A MP está em jurisdiquês e em economês.  Já a exposição de motivos, assinada por Nelson Machado e Edison Lobão, e as rocambólicas justificativas podem ser encontrada em www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Exm/EMI-33-MME-MF-09-Mpv-466.htm.  Se alguém tiver dificuldades em chegar lá porque o Windows identifica o site como não seguro, é só clicar em prosseguir.  Não há riscos de uma tentativa de tunga adicional online.

Absurdamente – e intencionalmente - não há referências a valores na Exposição de Motivos e nem na Medida Provisória,  sequer estimativos  O alerta veio do presidente da Associação Brasileira dos Grandes Consumidores Industriais de Energia e dos Consumidores Livres – ABRACE, que estimou o aumento das despesas com a CCC dos R$ 2,48 bilhões já aprovados para 2009 pela ANEEL para R$ 4,88 bilhões – quase o dobro do valor original – “se a MP entrasse em vigor nesta data”.  Eufemismo, já que ela entra em vigor na data de sua publicação, o que deverá ocorrer em poucos dias.

Os elevados subsídios para o transporte de combustível para os Sistemas isolados continuam a ser uma aberração do ambientalismo imbecil – afinal, os slogans do tipo eco estão mais na moda do que nunca -, já que tais sistemas poderiam ser abastecidos com B-100 (100% óleo vegetal) feito a partir do dendê e do babaçu, abundantes em toda a região.  A tecnologia para o uso do B-100 nos geradores diesel não envolve mais pesquisas, e a extração e filtragem do óleo pode ser feita em quantidades adequadas a cada sistema isolado.  A grana também seria melhor usada com a implantação de sistemas híbridos solar-biodiesel ou mesmo solar-eólico-biodiesel, gerando emprego e renda na própria região e utilizando tecnologia já desenvolvida pelo Instituto Militar de Engenharia – IME.

O que realmente não faz sentido é pagar a conta de caminhões que saem de São Paulo e viajam 2.000 quilômetros até a Amazônia, depois fazem o transbordo do óleo para um barco, que depois o coloca em outro caminhão, e ninguém audita nada.

Mas Lobão – afilhado político de Sarney – e Lula preferiram aumentar os subsídios para fazer mais da mesma coisa sob o argumento de que… blá-blá-blá… os mesmos de sempre.   Afinal, o que são meros R$ 4,88 bilhões ou valor aproximado para beneficiar um transporte de caminhão e outros valores nunca auditados?  De toda forma, eles serão extraídos furtivamente do bolso de quem paga a conta de luz sem os subsídios sociais que são uma espécie de bolsa-eletricidade.

***

O falecido Gilberto Mestrinho lutou para que o gás de Urucu fosse liquefeito ou transportado por chatas em alta pressão, já que o principal meio de transporte da região é fluvial.  Assim, seria possível subsituir o combustível de TODOS os sistemas isolados por gás natural, e ainda utilizar esse combustível, mais limpo, no abastecimento de barcos e carros.  Mas, com essa alternativa, as empreiteiras “amigas dos amigos” não teriam a chance de fazer 600 quilômetros de dutos terrestres e 140 de dutos subaquáticos.   

Mudanças Climáticas, Energias Limpas, Eficiência Energética e Dinamismo Econômico

Email This Post Email This Post

O Legislativo francês acaba de aprovar um projeto de lei ambiental estabelecendo diretrizes para as seguintes áreas principais: (a) redução do consumo de energia nas edificações e urbanismo em geral, (b) transporte, priorizando o transporte de carga marítimo, fluvial e ferroviário, (c) energias renováveis, com prioridade para a pesquisa de biocombustíveis de segunda e terceira gerações. (d) pesquisa e desenvolvimento no campo do desenvolvimento sustentável, (d) meio ambiente e saúde (em particular saúde ocupacional, para agradar aos sindicatos), incluindo a estruturação de uma rede autônoma de medição de ondas eletromagnéticas, (e) redução da geração de resíduos, aumento das taxas de reciclagem e apoio à incineração para a geração de energia, e (f) estabelecimento de diretrizes para um “Estado exemplar”, no qual o Estado dá o bom exemplo (bem ao contrário do Brasil).

Bem ao estilo francês, a lei – com cerca de 30 páginas -  é bastante dissertativa, narrativa, não contempla muitas metas, delegando ao Executivo a obrigação de elaborar os principais projetos com a obrigação de reportar os resultados periodicamente.  O texto integral da lei, na versão original, pode ser encontrado em www.assemblee-nationale.fr/13/pdf/ta/ta0325.pdf, e merece ser traduzido pelos círculos acadêmicos de direito ambiental para conhecimento e debate.

Enquanto isso, nos EUA, já aprovado na Câmara e encaminhado ao Senado, avança um projeto de cujo título é Lei de Energias Limpas e Segurança.  Bem ao estilo norte-americano, o projeto tem nada menos que 600 páginas e inclui detalhamento de metas e procedimentos relacionados a (a) energias limpas, incluindo subtítulos relativos a padrões, captura de carbono, transporte limpo, redes inteligentes de transmissão e distribuição, e planejamento da transmissão, (b) eficiência energética, incluindo aperfeiçoamento dos códigos de construção, modernização de edificações, programas de eficiência no uso de energia para iluminação e equipamentos de todos os tipos, (c) eficiência energética na indústria e nas concessionárias, (d) padrões de emissões para fontes móveis (transporte), (e) redução de gases causadores do aquecimento global, e (f) programas de transição para a transição para uma economia de energias limpas, com ênfase na competitividade e na exportação das tecnologias norte-americanas.

O texto integral desse projeto de lei, na versão original, encontra-se em http://energycommerce.house.gov/Press_111/20090331/acesa_discussiondraft.pdf, e a simples leitura do índice dos temas tratados já permite uma boa visão de sua amplitude, assim como a escolha dos capítulos ou ítens de maior interesse.

Recomenda-se, com muito mais ênfase, a sua tradução e, neste caso, não apenas para debate nos meios acadêmicos, mas também e principalmente para que nossas autoridades tenham pelo menos uma vaga idéia do que é um projeto de lei e a elaboração de políticas sérias para as mudanças climáticas.  Quem sabe o Ministério de Minas e Energia, a ANEEL, a Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados, ou mesmo a Eletrobras, Itaipu, a Comissão de Energia  se interessam por algumas luzes sobre o tema em vez de fingir que isso é assunto só do ministério do Meio Ambiente.  Quem sabe até mesmo o ministro Edson Lobão dá as caras e começa a assumir responsabilidades pela formulação de uma política na área das mudanças climáticas, com novas fontes de energia e muito tecnologia orientada para a eficiência energética?

Afinal, com o atraso do pensamento político brasileiro sobre gestão ambiental, limitado ao desmatamento na Amazônia, o país é sério candidato a continuar como importador de novas tecnologias, com o inevitável aumento das remessas de lucros para o exterior decorrentes dos tão celebrados investimentos externos.

Biodiesel – Já é hora do Brasil ter uma política séria

Email This Post Email This Post

O Brasil bem que podia ter uma política séria de produção de biodiesel, agora que já foram esquecidas todas as tolices  (e mentiras!) sobre pequenos produtores plantando mamona.  Uma política séria incluiria a seleção das espécies em função das características de cada região.

A produtividade média por tipo de cultura – em kg de óleo por hectare é a seguinte:
Cultivar                      Kg de oleo/hectare

Castanha de caju              148
Café                                   386
Soja                                    493
Sésamo                              585
Girassol                             800
Cacau                                863
Canola                            1.000
Óleo de babaçu              1.541
Jatropha                         1.590
Côco                                2.260
Óleo de dendê                5.000

Os números dispensam comentários, já que, atualmente, a quase totalidade do biodiesel produzido no  Brasil é proveniente da soja, que no Brasil tem alta produtividade mas apenas 18% de óleo.

Fonte:  www.earthtoys.com/emagazine.php?issue_number=09.02.01&article=jatropha

Etanol de Segunda Geração – Boas Notícias na Área de Energias Renováveis

Email This Post Email This Post

O sonho brasileiro de exportar etanol começa a ir para o ralo: inicia-se em breve, na Dinamarca, a produção de etanol de segunda geração, fabricado a partir dos resíduos agrícolas.  Assim, evita-se a competição entre o uso do solo para a produção de alimentos e de biocombustíveis. É uma boa lição para o Brasil e uma oportunidade de desmascarar a história da globalização, do livre mercado, da Organização Mundial do Comércio – OMC com as suas proibições de subsídios aos produtos.  De fato, nos países sérios os subsídios governamentais são massivamente direcionados para o desenvolvimento científico e tecnológico, depois repassados à iniciativa privada.  Além disso, CRIAM-SE mercados a partir de contratos como o que agora foi anunciado entre a Statoil – a empresa petrolífera da Dinamarca – e a Inbicon, uma empresa privada que atua no ramo dos biocombustiveis (www.inbicon.com).  A Statoil comprou, por antecipação, a produção quase total da fábrica da Inbicon ainda em construção – 5 milhões de litros.  Ou seja, os mercados não são figuras etéreas, produtos apenas da teoria econômica, mas mecanismos da dinâmica econômica que podem e devem ser influenciados por iniciativas das sociedades.  A Dinamarca sai, assim, do estágio da pesquisa aplicada para uma fábrica-piloto da Inbicon que pretende demonstrar a viabilidade econômica da produção do etanol de segunda geração em escala industrial.  Essas são boas notícias para os que se interessam por políticas públicas efetivas e inovadoras na área da gestão ambiental.  Mas, evidentemente, destinam-se a resolver os problemas relacionados à segurança energética dos países altamente desenvolvidos.

Muito provavelmente, no futuro próximo países como o Brasil estarão pagando royalties para usar essas novas tecnologias.

No entanto, a produção de etanol a partir dos resíduos agrícolas é apenas uma solução parcial, já que o eixo da conservação dos solos e dos recursos hídricos – em particular da recarga dos aqüíferos subterrâneos – é o plantio direto que deixa esses resíduos recobrindo os solos depois das colheitas.  Essa é uma prática bastante difundida no Brasil pelos próprios produtores rurais de médio e grande porte, os tais “ruralistas” que estão servindo de bode expiatório para a incompetência dos “ambientalistas” (mas esse é outro assunto).  Quando os resíduos agrícolas são removidos, o solo fica exposto às chuvas e sujeito à erosão; a água não é retida para infiltração lenta. 

Fora o que, o plantio direto retém mais carbono nos solos agrícolas, oportunidade que as autoridades ambientais brasileiras têm ignorado ou subestimado ou desconsiderado, já que os “ruralistas” – e não o governo – colocaram o Brasil entre as lideranças mundiais desse prática que além de conservar os solos e aumentar a produtividade, reduz de maneira significativa o aporte de adubos químicos e de pesticidas.

A ver quais os próximos passos do novo conflito entre conservação dos solos e produção de etanol de segunda geração.  Nada pode ocultar que o planeta ficou pequeno demais para a sua atual população, que continua crescendo, e não á qualquer alternativa para um desenvolvimento sustentável global, exceto nos países altamente desenvolvidos que estão cada vez mais fechando as suas fronteiras.

De toda forma, os países altamente desenvolvidos já se posicionaram contra o uso de etanol de primeira geração por entenderem que ele concorre com a produção de alimentos, e não o importarão, em especial quando a FAO estima que em 2009 o número de desnutridos do planeta será superior a 1 bilhão de pessoas.