Lula e o Bagre – Responsabilidades Compartilhadas

Lula não sabe o que diz quando afirma que o IBAMA paralisa um projeto importante para o Brasil “por causa de um bagre”. “De orelhada” não vale. Marina Silva, nomeada por ele, deveria saber, mas tampouco parece ter ou conseguir reter alguma informação mais consistente sobre o assunto fornecida por técnicos do IBAMA. Furnas e Odebrecht que certamente deveriam saber, que gastaram muito tempo e recursos na preparação do projeto, inclusive do estudo de impacto ambiental. Mas, sabendo, não é improvável que não gostem nada da idéia de implantar sistemas de passagem para o “bagre” desprezado por Lula apesar de sua importância para a alimentação dos “povos da floresta” e, também, para o meio ambiente.

A passagem de peixes rio acima e abaixo de hidrelétricas não é um problema “ambiental” novo. Evidentemente, os países sérios já se defrontaram com ele desde a origem das hidrelétricas, em especial nas regiões onde ocorre a migração para reprodução de peixes muito apreciados e presentes na alimentação regional, como o salmão e o herring. Relatórios de avaliação do grau de sucesso dessas alternativas técnicas são abundantes na literatura técnica. Um deles pode ser encontrado em http://www.ferc.gov/industries/hydropower/gen-info/wkshps/fish-pass.asp, onde são revistos em profundidade 324 projetos licenciados ou que tiveram as licenças renovadas entre entre 1987 e 2001 apenas nos EUA, dos quais 213 continham algum tipo de exigência relacionada à passagem de peixes.

Neste ponto, vale dizer que nos países sérios as hidrelétricas têm licenças que devem ser renovadas periodicamente à luz de novos conhecimentos e, nos EUA, o relatório acima citado, relativo ao grau de eficiência de sistemas que assegurem a migração dos peixes foi encomendado pela própria Comissão Federal Regulatória de Energia (conhecida pela sigla FERC)! Lá, os demais atores de qualquer tipo de projeto – do governo aos investidores, para não falar nos operadores – não se resumem a entregar problemas desse tipo para que os órgãos ambientais os resolvam, lavando as mãos, silenciando e buscando um bode expiatório para as suas próprias omissões.

Aqui, Marina Silva e sua turma, bem como seus antecessores – além do CONAMA – nunca se atreveram a fazer um conjunto de regras mais ou menos simplificadas para licenciar hidrelétricas antigas de maneira a adaptá-las progressivamente à s realidades, conceitos e demandas sociais contemporâneas. Isso, sim, seria uma agenda positiva de políticas ambientais. Bem melhor do que ficar esperando que os problemas desabem sobre cabeças que depois serão cortadas, com prejuízos para todos, desde os “povos da floresta” até as instituições do governo.

O relatório de avaliação das passagens de peixes disponibilizado no link acima encontra-se apenas em inglês, e por essa razão vale citar alguns números. Do universo de hidrelétricas avaliadas, o percentual de licenças contendo uma ou mais exigências relacionadas à passagem de peixes subiu de 25% em 1988 para 83% em 1994. Hoje, seria praticamente impossível pensar na renovação de uma licença para uma hidrelétrica num país sério sem um embate em torno do tipo de alternativa adotada para a passagem de peixes – rio acima e rio abaixo. As alternativas são variadas já que em países sérios de dimensões territoriais – como os EUA e o Canadá – ninguém estabeleceu uma regra única para algo que não depende apenas da tecnologia, enquanto no Brasil, como dizia um comediante da década de 50 ou 60, “tudo é federal, até mesmo o trem da Central”.

Existem três tipos básicos de passagens para peixes: “ladeiras”, sistemas de elevação mecânica, e sistemas de comportas. O primeiro tipo pode ser visualizado nas fotos abaixo.

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Ou seja, nenhuma novidade que não pudesse ter sido prevista pela área ambiental de Furnas, da Odebrecht, ou pela empresa de consultoria contratada por ambas para elaborar o Estudo de Impacto Ambiental. Evidentemente, não cabe ao IBAMA sugerir esta ou aquela opção de acesso do “bagre” rio abaixo ou rio acima -, mas nada impediria de anotar, nas correspondências trocadas, que tais alternativas existem e que uma delas deve ser considerada, justificada a opção e assegurado o monitoramento posterior.

Finalmente, vale dizer que no ano passado foram testadas turbinas submersas para o aproveitamento da energia do rio Hudson no trecho de seu estuário em Nova York. Os testes foram bem sucedidos inclusive no que se refere à proteção dos peixes. Então, não há desculpas para a “crise” entre o Planalto, o Ministério do Meio Ambiente e os empreendedores. Todos são igualmente responsáveis.

Ah – antes que o usual palavreado populista de Lula faça com que se entenda o “bagre” como um peixe sem importância, vale dizer que a “família dos bagres” inclui o dourado e o surubim, que nada ficam a dever ao salmão ou ao herring em termos de sabor ou de valor econômico. Esses “bagres” são uma importante fonte de proteínas para toda a região amazônica.

Biocombustíveis e a Mentalidade da Colônia

“Não existe parceria onde o Brasil entra com tudo e os Estados Unidos com nada. Não precisamos deles.”

“O que os Estados Unidos estão fazendo aqui é uma invasão semelhante à do Iraque. Lá, com bombas, e aqui, com dólares.”

“(Eu) disse ao Lula que o Brasil está despreparado para assumir a liderança que tem hoje no setor e, por isso, está perdendo espaço para países como a Alemanha.”

As frases acima são de Bautista Vidal, que teria concebido o Proálcool em 1974, ou pelo menos levado a proposta a Ernesto Geisel, que a aprovou. Não se tratava, então, de promover os biocombustíveis no quadro das mudanças climáticas, mas de conter os impactos do primeiro choque do petróleo sobre a balança comercial brasileira.

Na entrevista concedida a O Globo, tradicional defensor de quaquer um que esteja no poder (exceto quando apoiou o golpe de 64), o físico Bautista Vidal afirma que está articulando a campanha “A Biomassa é Nossa“. Liana Melo, autora da reportagem com tons de entrevista, num texto lúcido, compara esse lema ao grande movimento “O Petróleo é Nosso” que mobilizou o Brasil nas décadas de 40 e 50.

Com essa visita, o Brasil dá as costas aos seus parceiros latino-americanos ou europeus, e se aproxima do que há de mais retrógrado em matéria de energias renováveis.

Outro físico de renome, Rogério Cerqueira Leite, um pouco mais suave, afirma que “a lentidão do governo é compreensível mas indesejável” E, sem causar surpresas, Luiz Pinguelli Rosa, petista de carteirinha, ex-presidente da Eletrobrás, de onde foi defenestrado por Lula sem maiores explicações, e que se encontra, hoje, à frente de uma estatal especialmente criado para abrigar alguns companheiros – a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) -, responsabiliza o setor elétrico pelas inconsistências da matriz energética brasileira, dando um cutucão em dona Dilma Roussef.

Isso tudo na mesma edição na qual se noticia que Lula voltou feliz com mais um bate-papo com George Bush – que tardiamente tenta demonstrar algum interesse pelas energias renováveis mas não abre mão das sobretaxas sobre o etanol brasileiro. Que se dane a Organização Mundial do Comércio – OMC.

Para adoçar a boca dos otários de plantão, fala-se de um estudo do anêmico Núcleo de Assuntos Estratégicos – NAE da presidência da República no qual estariam “mapeados” 79,4 milhões de hectares adicionais para a produção de cana-de-açúcar, boa parte dos quais em Goiás (leia-se, no pouco que resta do Cerrado), em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, no Tocantins, na divisa do Maranhão com o Pará, e até mesmo no sertão da Bahia. Essa área total não é muito diferente da que o Departamento da Agricultura norte-americano (o ministério da Agricultura de lá) há muito já sugere que sejam compradas pelos grandes produtores agrícolas altamente subsidiados dos EUA para plantar cana-de-açúcar e oleaginosas.

Como os brasileiros sempre gostaram dos grandes números, fala-se em 615 novas usinas de álcool até 2025 e, ainda que não esteja dito, há necessidade de infra-estrutura para o escoamento da produção. A ser financiada pelo governo brasileiro, é claro. Com recursos da Nação, é igualmente claro, ainda que serviços básicos de saúde e educação estejam caindo aos pedaços. E que as estradas vicinais que poderiam assegurar o escoamento da produção dos pequenos produtores, os que realmente alimentam o Brasil, estejam como sempre totalmente abandonadas, em particular nas regiões mais pobres.

Esses assuntos já foram tratados em artigos anteriores neste blog e podem ser lidos na área de biocombustíveis. Agora, a confirmação do que foi anteriormente dito faz lembrar a música de Noel Rosa, composta em 1930, com o título “Quem Dá Mais” ou “Leilão do Brasil”, que termina com os seguintes versos:

“Quem dá mais? Quem dá mais de um conto de réis? Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três! Quanto é que vai ganhar o leiloeiro? Que é também brasileiro, E em três lotes Vendeu o Brasil inteiro? Quem dá mais?…..

(A letra completa pode ser lida em http://vagalume.uol.com.br/noel-rosa/quem-da-mais.html).

Mas, justiça seja feita. Não é novo esse leilão do Brasil, como mostra Noel Rosa, bem antigo. FHC aprofundou-o muito durante a época em que foi mandarim da colônia, quando novamente colocou no investimento estrangeiro qualquer esperança de “modernização” do país. Um apagão das esperanças de criar valor verde-amarelo, desenvolvimento endógeno. Lula agora só consuma esse trajeto, numa administração que mais parece a quarta de FHC.

Como bem relembra Bautista Vidal, na década de 70, o então secretário de Estado norte-americano, Henry Kisinger, cinicamente, afirmou que “não admitiremos um outro Japão ao Sul do Equador”. E continuam não admitindo!

A biomassa é nossa? Isso é válido mesmo sabendo que os estrangeiros estão comprando as terras, que o maior benefício social do Proálcool foram os bóias-frias, e que a exportação não gera impostos para pagar nem pelos serviços sociais básicos? Ou será que estamos à beira da situação descrita por Eça de Queiroz em 1871 quando escreveu sobre Portugal?

“Estamos perdidos há muito tempo… O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida, ninguém se respeita, não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O Estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza dessa rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte que o país está perdido. Algum opositor ao atual governo? NÃO!”

Bautista tem razão. O Brasil já perdeu, já anos, a liderança em biocombustíveis para a Alemanha. Mas perdeu, também, qualquer tipo de “vantagem comparativa” que pudesse ter em matéria de energias renováveis, já que não dominou a tecnologia solar, eólica, de turbinas submersas e outras. Como tampouco está sabendo incentivar a tecnologia nacional no campo dos veículos híbridos, que consomem até 50% menos combustíveis. E não tem uma política consistente para compatibilizar a segurança energética com a segurança alimentar.

Então, quem dá mais?

Bush, Lula e as Energias Renováveis – Um Encontro Sem Agenda

Bush, o símbolo máximo do descaso com as energias renováveis e com os interesses maiores da humanidade, chega ao Brasil em meio à total indiferença da população e a algumas poucas especulações da imprensa. No momento em que alcança os mais baixos índices de popularidade da história de um presidente norte-americano, ninguém sabe ao certo a agenda de seus encontros com Lula. Tirar uma “casquinha” na popularidade do Brasil como produtor de etanol é uma possibilidade. Ou, talvez, depois da derrota no Iraque, apenas conseguir algum apoio contra Hugo Chávez ou falar das imensas ameaças terroristas na tal “tríplice fronteira” brasileira. Quem sabe, ele e Lula pensem que podem dar a impressão de que ainda lhes resta alguma liderança na América Latina.

O que, exatamente, Bush pode oferecer ao Brasil? Nada! Nenhum dos dois consegue explicar a agenda da visita. Abrir o mercado norte-americano para o etanol? Mas a produção brasileira de etanol está, hoje, nas mãos de 5 ou 6 grupos que se preferem continuar a “cafetinar” o Brasil mesmo, aumentando o teor de álcool na gasolina quando lhes é conveniente e exportando o açúcar sempre que isso resulta em melhores lucros. O Japão já tentou conseguir garantias da Petrobras para o fornecimento de álcool, por não confiar nos grandes fornecedores brasileiros. Nesse caso, a estaral funcionaria apenas como um agente intermediário, regulador de estoques, arcando com os prejuízos quando ocorrerem, e nunca com os lucros. Fora isso, os grandes grupos europeus estão fazendo investimentos diretos na produção de etanol e de “biodiesel”, sem necessidade desse tipo de intermediação e contando apenas com os juros subsidiados do BNDES.

Também os norte-americanos estão comprando terras agrícolas. Os próprios relatórios do ministério da Agricultura dos EUA já mencionam, há algum tempo, as imensas oportunidades nessa área, com referências até mesmo à s regiões mais favoráveis para a expansão da agricultura mecanizada: “35 milhões de hectares de áreas de Cerrado ainda virgens, 10 milhões de hectares na Amazonia, e 70-90 milhões de hectares de pastos que podem ser convertidos para a produção de grãos”. Em breve, teremos novos latifúndios voltados para a produção de biodiesel e etanol com baixíssima geração de emprego, nenhuma política de segurança alimentar e novas ondas de êxodo rural do campo para a perifeira das grandes cidades.

As manchetes sobre a agenda do encontro mudam a cada dia! Mais provavelmente, não há qualquer agenda além de alguma tentativa de dar a impressão de que a pauta inclui um ou outro assunto de grande importância. Ninguém supõe que Lula vá entregar a Bush um relatório sobre a situação dos direitos humanos em Guantánamo, um desses bem ao estilo das avaliações periódicas sobre a vida alheia que produz o Departamento de Estado dos EUA.

Inicialmente, quando a visita foi anunciada, a imprensa brasileira especulou sobre a possibilidade de significativos aumentos da produtividade brasileira de biocombustíveis com base na tecnologia agrícola norte-americana. Bactérias geneticamente mofidicadas, enzimas, e outros produtos das pesquisas que o governo norte-americano subsidia desabusadamente e que depois se transformam em moeda de troca sem os riscos da interferência da Organização Mundial do Comércio – OMS. Subsidiar pesquisa básica e aplicada pode, transferir para a iniciativa privada tecnologia desenvolvida pela NASA também pode, mas subsidiar produtos não. A globalização que interessa aos ricos.

Aumento da produtividade agrícola com base nos avanços da engenharia genética? Algo similar já aconteceu com a modificação genética da soja e a pergunta não respondida foi simplícissima: por que razão uma soja mais resistente a pragas não foi desenvolvida pela EMBRAPA? Por simples incompetência ou por haver interesse em beneficiar uma multinacional tornando os produtores brasileiros reféns de sua tecnologia e sementes? O Brasil não precisa de pagar royalties por algo que pode fazer sem dificuldades. A indústria brasileira já está próxima de desenvolver a tecnologia necessária para a produção de biocombustíveis a partir da celulose, e o governo deve mesmo é apoiar esse tipo de desenvolvimento, se possível garantindo que as patentes sejam de propriedade da EMBRAPA e acessíveis aos produtores nacionais.

Os EUA poderia, sim, e muito, contribuir para a rápida expansão das energias renováveis e da eficiência energética no Brasil e no mundo. Isso não será feito pela turma que no momento ocupa a Casa Branca, mas pela negociação direta com instituições e entidades como, por exemplo, Associação dos Governadores do Oeste (www.westgov.org), que tem tomado iniciativas concretas nessas áreas. Essa associação tem como meta a produção de 30.000 MW de geração de eletricidade limpa até 2015, ou seja, mais de 30% da produção brasileira de energia elétrica! Não são poucos os estados norte-americanos que aprovaram leis que, na prática, significam cumprir com o Protocolo de Quioto, retirando, assim, a autoridade da Casa Branca nessas questões.

Governadores brasileiros: ao trabalho! O encontro de Lula e Bush é insignificante para o Brasil e para a América Latina. O contato direto entre governadores certamente será mais proveitoso.

A simples iniciativa de Fernando Collor ao propor que Al Gore seja convidado a falar no Congresso Nacional sobre as mudanças climáticas tem, certamente, muito mais importância do que esse encontro vazio de idéias e de propostas.

Cidades, Segurança Energética e Mudanças Climáticas

As cidades podem e devem tomar iniciativas para promover as energias renováveis e reduzir as emissões de gases causadores de mudanças climáticas. E, de fato, isso já acontece nos países sérios, o que pode ser constatado, por exemplo, como uma simples visita à página de uma organização denominada Governos Locais para a Sustentabilidade (www.iclei.org). Nela, entre muitos exemplos, a referência a uma cidade sueca que reduziu em 24% as emissões de dióxido de carbono entre 1993 e 2005 em decorrência de um notável “pacote” de iniciativas envolvendo todos os tipos de uso de energia.

Aqui, nos tristes trópicos, caminha-se lentamente. Mas há indícios de criatividade! No dia 14 de fevereiro de 2007, a cidade de Betim, em Minas Gerais, inaugura o seu Centro de Referência em Energias Renováveis – CRER. De fato, é preciso “crer” muito, já que no Brasil apenas poucas cidades participam da Rede Internacional de Comunidades-Modelo em Energias Renováveis Locais: São Paulo, Volta Redonda, Salvador e Porto Alegre, além de Betim. Rio de Janeiro, Curitiba e outras que se dizem exemplos na área de meio ambiente não participam e demonstram pouco interesse pelo assunto… e pelas questões ambientais em geral.

O que uma cidade pode fazer, em particular num país no qual a federação se impõe de baixo para cima, arrogante e burocrática?

Nossas cidades podem, sim, fazer muito! Desde simples concursos para premiar os projetos arquitetônicos mais inovadores no que se refere à eficiência energética – e isso é comum nos países sérios – até incentivos diretos para que os usuários de energias utilizem, por exemplo, sistemas de aquecimento solar de água (no jargão do setor, energia solar térmica).

Isso só não acontece por que além da inércia mental há, também, aquilo que Hélio Pellegrino denominou “a burrice do demônio”: o tal do liberalismo econômico, não importando o “neo” adicionado pelo tucanato com o peito inflado. Na perspectiva liberal, a cidade perde receita se as pessoas consomem menos energia, já que o ICMS sobre serviços públicos essenciais é altíssimo. Não se considera, é claro, a criação de um novo mercado de fornecimento de equipamentos e de prestação de serviços.

A tecnologia brasileira na área do aproveitamento solar-térmico não alcança a mesma eficiência da chinesa, que já adota sistemas de troca de calor utilizados em naves espaciais e satélites. Tudo bem, o Brasil tende a ficar satisfeito com a exportação de produtos agrícolas e minério. Ainda assim, a indústria brasileira que atua nesse campo merece maior apoio e as cidades podem considerar uma dedução parcial de IPTU para as edificações que instalarem sistemas desse tipo.

Vale a comparação com a China onde o mercado de equipamentos solar-térmicos já ultrapassa R$ 2,5 bilhões por ano, reduzindo a demanda de energia para o aquecimento e gerando valores altíssimos em créditos de carbono (a China chegou a ser responsável pela venda de mais de 70% dos créditos de carbono negociados no mundo em 2004, tendo essa participação sido reduzida para 60% em 2005 devido ao rápido crescimento da India nesse campo; o Brasil continua “na rabeira”).

No Brasil, os chuveiros elétricos são responsáveis por algo entre 18 e 25% da demanda de pico do sistema de geração! A demanda de pico é que determina a necessidade de novos investimentos em geração de eletricidade! Ou seja, é preciso projetar a oferta para os momentos de demanda máxima. Tais investimentos poderiam ser pelo menos adiados com a rápida difusão do uso de sistemas solar-térmicos, inclusive para processos industriais que necessitem de calor de baixa e média temperatura (até 250 graus). O mero adiamento de parte dos investimentos em geração de energia exerceria grande impacto positivo nas contas públicas, já que os custos financeiros de projetos de longa maturação são elevados. Nas últimas décadas, a redução da demanda de pico constou das políticas energéticas de qualquer país sério, onde economistas sérios opinam na formulação das políticas públicas setoriais. Mas, aqui, dona Dilma e os empreiteiros só têm os olhos voltados para novas hidrelétricas.

Apenas como exemplo, vale dizer que a Áustria, o Japão e a Alemanha, países que recebem uma radiação solar muito inferior ao Brasil, têm respectivamente 15, 8 e 5 vêzes mais metros quadrados de painéis solares por habitantes do que o Brasil!

Yes, nós somos bananas! Mas torcemos para que a iniciativa de Betim seja muito bem sucedida e sirva de exemplo para outras cidades brasileiras. Seria simples começar pelo incentivo à energia solar-térmica e pela adoção do B-100 (óleo vegetal puro) nas frotas de caminhões de coleta de lixo e no transporte público municipal. No mínimo, já que a lista de oportunidades a serem examinadas seria muito extensa!

O Programa de Aceleração do Crescimento – PAC e a Sustentabilidade da Mesmice

O terceiro dos cinco blocos que constituem o Plano de Aceleração do Crescimento – PAC agora anunciado refere-se exclusivamente ao licenciamento ambiental, escolhido como bode expiatório para justificar o péssimo desempenho da economia brasileira nos últimos muitos anos. Na apresentação do PAC, a já usual usurpação da expressão “desenvolvimento sustentável” para falar em fazer mais do mesmo. A velha confusão entre crescimento econômico convencional e desenvolvimento. No conjunto, como todos os outros pacotaços do gênero, o PAC é apenas um blá-blá-blá misturando chiclete com banana. Mas o projeto de lei sobre licenciamento ambiental é preocupante e vai dar confusão.

Este é um excelente momento para a “oposição” – se é que existe – dizer ao que veio. Como ilustração, vale examinar o que acontece na área de energia aqui e nos EUA.

Lá, quando os governadores democratas discordaram das asneiras militaristas de Bush (um fantoche da indústria petroleira), tomaram diversas iniciativas relacionadas aos investimentos em segurança energética para os seus estados, baseados na idéia de descentralização, de autonomia regional e mesmo de significativa auto-suficiência das cidades. Muitos dos resultados dessa ofensiva inovadora encontram-se na página da Associação, em www.westgov.org. Entre outras coisas, a implantação de 30.000 MW adicionais (novos!) de energias renováveis – isso mesmo, quase 10 PROINFAs, muito mais do que Itaipu! – e um aumento de 20% nos já altos níveis de eficiência energética dos EUA. Essas são iniciativas de uma única associação de governadores, mas espalham-se por outras regiões do país!

Outro exemplo dos bons resultados desse tipo de mudança de concepção: depois de anos de pesquisa e desenvolvimento, no início de 2007 uma empresa privada testou, na cidade de Nova York, as suas primeiras turbinas submersas (www.verdantpower.com). Entre outras coisas, a empresa tinha que provar que essas turbinas não causariam danos aos peixes! Nenhum sargento Roussef espumou de ódio da “burocracia na área ambiental”. Os testes foram bem sucedidos, as turbinas estarão em breve abastecendo algumas grandes lojas (lá a agência reguladora não serve aos cartéis, mas aos cidadãos e ao dinamismo econômico), e ao que tudo indica em breve estaremos importando esse tipo de tecnologia para substituir a obsolescência mental da turma do PAC e das construtoras amigas.

Enquanto lá se avança com essa velocidade nas áreas de energias renováveis e eficiência energética, aqui continuamos a subsidiar em R$ 3,5 bilhões por ano (valores de 2006) o transporte de combustíveis para o parque de geradores isolados (não conectados à rede nacional) da Amazonia, uma região com alto potencial de produção de óleo vegetal de babaçu em unidades descentralizadas!

Sim, esse é o momento apropriado para os governadores recém-empossados designarem equipes para preparar os planos estaduais de produção e uso local de biodiesel, em contraposição às generalidades da proposta federal, manipulada pelos grandes produtores de soja. E, também, de não permitirem que os estados recuem no exercício de suas competências constitucionais no que se refere ao licenciamento ambiental, que tanta irritação provoca em dona Dilma.

Subjacentes a iniciativas como as da Associação dos Governadores do Oeste e da cidade de Nova York estão os novos conceitos e paradigmas que efetivamente garantem uma abordagem inovadora para o desenvolvimento energético. Esta, sim, sustentável.

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Dona Dilma “acredita” que o dinheiro dos trabalhadores será bem empregado se investido de acordo com o PAC:
“Vai ser uma alternativa muito atrativa para o trabalhador poder investir a longo prazo em projetos que terão, eu acredito, as melhores taxas de retorno”, disse Rousseff, ante as críticas de sindicalistas, que temem perdas das aplicações.”

Não foi o que aconteceu com o PROINFA, hoje atrasadíssimo. Não é o que acontece quando os fundos de investimento cobram taxas de administração e de sucesso absurdamente altas. Para não falar na definição de “longo prazo”. Se o governo pagasse pela poupança dos trabalhadores o que paga por suas dívidas com os bancos privados, as coisas não estariam no campo do “achismo” e das “crenças pessoais”. Os trabalhadores estariam igualmente protegidos se o governo lhes desse as mesmas garantias soberanas que dá aos empréstimos do Banco Mundial e do BID, que não precisam se coçar para saber se os projetos são bons ou ruins. Noves fora o alto risco, seria interessante deixar que os trabalhadores optassem entre esse único tipo de investimento de sua poupança e, por exempli, ações da Petrobras?