Archive for the 'A Cidade Abandonada' Category

Rio de Janeiro, Cidade Refém – Quando o Velho se Finge de Novo

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Na cidade do Rio de Janeiro, o muito velho tenta se mascarar de novo e a administração – se assim se pode chamar – pública é refém de empresas de ônibus e de empreiteiras que receberam uma vasta zona portuária de presente numa “parceria público privada caracterizada por transparência zero.

O enorme e incontido poder das empresas de ônibus não é novidade!  Nas palavras de um ex-prefeito, como trabalham com dinheiro miúdo não contabilizado de maneira adequada, elas têm infinitas possibilidades de corromper quem quiserem.

Agora, colocaram uma máscara de modernidade na empulhação: a criação de corredores de ônibus para os caminhões que trafegam pela cidade levando receberam nomes e siglas em inglês para dar aos otários uma impressão de modernidade – BRT, BRS, e por aí afora.  Tudo muito antigo em outros estados, para não falar de outros países.

Não existe um estudo mínimo de demanda de linhas e do número de veículos em cada linha por horário.  A autoridade, totalmente a serviço da arqui-retrógrada máfia dos ônibus, limita-se a aceitar e a ampliar o caos pré-existente no transporte público da cidade.

Planejamento?  Para que?  Num único momento do passado, a prefeitura tentou dar um mínimo de sensatez às permissões de novas linhas – aqui e ali transformadas em concessões com o apoio de uma câmara municipal onde tudo se negocia.  À época, a prefeitura fingiu contratar a COPPE/UFRJ, mas não levou os estudos adiante.  O que mais?  Estudos de impacto viário necessários às permissões são desovados sem qualquer plano direto do sistema de transporte.

Na cidade do poder público refém, 0s corredores exclusivos de ônibus não são uma opção pelo transporte de massas, mas pela vontade soberana das empresas de ônibus que assim se apropriam do espaço público sem se submeterem a qualquer ordenamento.

Muito além do caos das obras cujos trabalhadores enchem as ruas de cones coloridinhos como bem entendem, logo serão fechadas pistas de artérias principais para linhas exclusivas de ônibus articulados cujas concessões permanece um mistério.

Um dia, os moradores já acordarão com o engarrafamento adicional, sem que a promiscuidade entre a administração pública e os felizes concessionários das novas “linhas amarelas sobre pneus” tenham tido a oportunidade de considerar alternativas como veículos leves sobre trilhos e similares.  A inércia mental dos interesses que controlam o setor fez a sua opção e ponto final.

Afinal, a quem pertencem as empresas concessionárias dos corredores de ônibus em construção?

Por seu lado, a questionável entrega da zona portuária a um consórcio de empreiteiros faz o que bem entende sem prestar contas a ninguém: um dia, a população acorda e eles fecharam mais um conjunto de ruas para fazer sabe-se lá o que.  Planejamento?  Qual nada!  O pavimento das ruas é removido, refeito, e pouco depois tudo se inicia porque haviam esquecido a rede de águas pluviais ou de esgotos.  Todos viram e a imprensa se aquietou.

Agora, resolveram que vão interditar uma das principais vias do centro da cidade para preparar o acesso de uma longa pista subterrânea que permitirá a remoção do elevado da perimetral.  Alguém já viu o projeto?  As sondagens do subsolo foram feitas?  Qual o orçamento da obra e seu cronograma?

Pistas subterrâneas por uma grande extensão numa área já edificada é obra caríssima.  Ao vai da valsa, sem projeto, sem engenharia, sem um contrato com cuidadosa alocação de riscos, o mais provável é que o “projeto” – melhor dizendo, a proposta – se transforme numa teta, cash-cow, mega-mutreta que vai fazer a tal “cidade da música” de Cesar Maia parecer brincadeirinha de crianças do jardim da infância.

As perguntas ficam sem resposta ou não sem formuladas.  A população que se dane!  Paciência – é tudo o que lhe pede a autoridade refém de poucos grupos de interesse econômico. Sem mais.

***

A cidade anda coalhada de pessoas com o jaleco da prefeitura em cores variadas.  São centenas de “auxiliares de trânsito” perdidos como baratas tontas colocando cones de formatos variados para “sinalizar” o que eles decidem que deve ser sinalizado.  Exatamente como fazem os trabalhadores em obras públicas e concessionárias de serviços: o que lhes dá na telha, no horário que querem.  Talvez a proliferação de jalecos e de cones coloridinhos tenha sido pensada por algum marqueteiro para dar a impressão de que existe, na cidade, alguma coisa que possa lembrar a engenharia de trânsito?

 

Favelas, Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), Blá-Blá-Blá Socio-Ambiental

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É provável – quase certo – que os militares se questionem sobre o seu papel na ocupação do “complexo” do Alemão, no Rio de Janeiro.  Decorridos quase 14 meses de sua presença, ainda não há prazos para que saiam.  O Haiti é aqui?

Numa boa entrevista recente concedida a repórteres de O Globo, o delegado da Polícia Federal José Mariano Beltrame, secretário de Segurança do Rio de Janeiro, desabafou: “nada sobrevive só com segurança; são necessários investimentos sociais”.

“Na Cidade de Deus, por exemplo, vi lixão a céu aberto, porco e criança vivendo no mesmo ambiente, que parece Bangladesh. Há muita sujeira, muita desordem na questão habitacional. Fizeram uns conjuntinhos de qualidade muito baixa e entregaram aquilo à população, que hoje começa a fazer puxadinhos. Parece que ali não há ninguém fiscalizando. Aí o que acontece? Nesses lugares, a PM, através do capitão (comandante da UPP), se torna a presença física do Estado, 24 horas por dia. As pessoas vão lá no capitão reclamar do puxadinho, da van clandestina, do piloto de moto que faz transporte e não tem capacete. Isso desgasta o capitão, porque eles vão lá cobrar coisas que não são da competência da polícia.”

A imprensa não repercutiu a entrevista de Beltrame, certamente a melhor figura da cúpula do governo do estado do Rio de Janeiro.  Essa imprensa prefere as notícias das invasões e tiroteios; não pergunta e muito menos pede às autoridades que mostrem planos e projetos concretos para a infraestrutura das muitas favelas ocupadas.  Basta que alguma autoridade diga que fará isso ou aquilo, e as manchetes estão prontas.  Afinal, como dizia mestre Millôr Fernandes, “a opinião pública é aquela que se publica” – sendo assim bastante fácil moldar essas “verdades”.

Todos – inclusive os traficantes e milicianos – sabiam, com grande antecedência, da ocupação de cada uma dessas favelas.  Uma simples planta digital quadriculada com uma topografia aproximada mostrando alguma proposta de abertura de ruas, no entanto, seria pedir demais –, ainda que modernamente isso possa ser feito com imagens de satélite.  Sem a abertura de ruas, falar em coleta de lixo e esgotos é balela.  Para a abertura de ruas, são necessárias desapropriações e a reurbanização de certos trechos das favelas! Mas quem está interessado em “urbanismo”, essa palavra tão fora de moda?

Mas, é claro, todos saem falando que agora serão implantadas redes de esgoto, ainda que não tenham sequer um esboço de projeto.  Assim, pegam carona no trabalho do gaúcho José Mariano Beltrame e suas equipes.

Urbanismo com dimensionamento e localização adequada de creches, escolas, delegacias de polícia e similares é coisa que já não se faz nem mesmo nos bairros ditos “nobres”, onde postos de polícia militar e unidades do corpo de bombeiro/defesa civil são colocados sobre calçadas e canteiros centrais.

É sempre mais fácil falar abstratamente em cidadania e meio ambiente do que iniciar a elaboração de projetos com base em dados do mundo real.  Até porque, depois dos projetos há que se propor e aprovar os orçamentos, fazer as licitações (usualmente de cartas marcadas) e por aí afora, tudo coisa que tem muito menos glamour do que as ocupações.

Sem ligações com políticos, o delegado José Mariano Beltrame mostrou, nessa entrevista, que talvez seja um excelente candidato à sucessão do prefeito Eduardo Paes.  Essa clareza de que governar não pode ser apenas “tocar um samba de uma nota só” faria bem para a cidade do Rio de Janeiro.  Alguns dirão que é arriscado colocar um policial – ainda que de alto nível – num cargo político, que ele não tem “formação” para isso.  Esse argumento não resistiria à mais simples comparação com a biografia de esmagadora maioria dos “políticos” hoje no poder.

Rio de Janeiro – Choque de Desordem – Rio’s Schock of Disorder

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O “choque de ordem” no Rio de Janeiro é um choque contra a pobreza visível.  Em áreas mais ricas da cidade, o CHOQUE DE DESORDEM também é visível.  A apropriação privada de áreas públicas não é de forma nenhuma questionada.  Fecham-se ruas e o acesso dos cidadãos à orla da lagoa – que continua imunda, diga-se de passagem.  Aliás, em sua maior parte a orla da lagoa foi totalmente apropriada por condomínios de alta renda.  E as tais autoridades fingem que não vêem, o Ministério Público nada questiona.

A imagem abaixo mostra apenas um exemplo dessa apropriação ilegal de espaços e vias públicas na Barra da Tijuca – talvez mais grave, porque a rua Prefeito Dulcídio Cardoso deveria interligar-se à Avenida Ayrton Senna, aliviando bastante tráfego local – já que grande parte dos veículos não necessitaria de acessar ir de um ponto ao outro através da Avenida das Américas, em particular num de seus trechos mais escandalosamente engarrafados, que é o “Cebolão”.

Num país sério, a lagoa estaria limpa e com estruturas para recreação de todos os tipos – caminhadas, ciclovia, esportes de vela, remo, e até a chamada recreação de contato primário (natação).  Mas que nada!  Se é possível cafetinar por mais tempo o assunto, por que resolvê-lo?  Ali não há casas de pobres a serem derrubadas – nem isso!  Seria apenas o caso de abrir a rua pública… ao distinto público.

Omissão, conluio, conivência ou apenas incompetência mesmo?

 

Apropriação privada de espaço públicos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Parque Nacional da Floresta da Tijuca – Imagens, Notícias, Avanços e Recuos

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Conta a lenda – ou as más línguas – que certa vez uma “autoridade” de área ambiental do Rio de Janeiro teria levado o ministro alemão do meio ambiente para passear no Parque Nacional da Floresta da Tijuca.  Durante o passeio, teria comentado que esta era a maior floresta urbana do mundo, e ficou pasmo quando numa fração de segundo o alemão retrucou: “depois da Floresta Negra, é claro”.

Apenas para fins de introdução ao tema, vale dizer que a Floresta da Tijuca tem pouco menos de 40 km2, enquanto a Floresta Negra tem cerca de 12.000 km2.

Fica a dúvida sobre o conceito de “floresta urbana”, já que no interior – como na periferia – da Floresta Negra há cidades, vilarejos, estradas, hotéis, pousadas, restaurantes, ciclovias, trilhas e muito mais.  O total da trilhas – para caminhadas e passeios de bicicletas – chega a 23.000 km.  A manutenção dessa rede de caminhos é assegurada por cerca de 90.000 voluntários com níveis variados de envolvimento nas ações necessárias.  Ninguém tem que andar com um “guarda-parque” a tiracolo (aliás, nem mesmo nos parques dos países sérios há necessidade de que os visitantes passeiem com um guarda-parque ou guia dependurado à tiracolo, usualmente  atrapalhando a privacidade, prejudicando a contemplação e falando pelos cotovelos).

Resta, ainda, outra dúvida: que fração da Floresta Negra é “original” ou plantada, já que a ao longo do tempo dela extraiu-se muita madeira, fortes tempestades derrubaram grande quantidade de árvores.  E plantios também ocorreram, ainda que não se tenha notícia de plantios feitos da forma metódica que o aqui foi liderado pelo Major Archer.

Tudo isso como introdução para o estado de conservação em que se encontra o Parque Nacional da Floresta da Tijuca.

As imagens abaixo são da grade de apoio que separa os visitantes da belíssima Cascatinha Taunay, um dos mais importantes pontos turísticos de todo o Parque.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E isso num Parque Nacional que é – ou deveria ser – uma das principais atrações turísticas do Rio de Janeiro, bem como atrativo para o lazer dos moradores da cidade, com administração compartilhada por vários níveis de governo e “apoios” de várias empresas.

Há marcos históricos no Parque Nacional da Floresta da Tijuca.  Entre eles, bem em frente à Cascatinha, na área de estacionamento, o que ali foi colocado em homenagem a Nicolas-Antoine Taunay que, junto com Jean-Baptiste Debret e Grandjean de Montigny, entre outros, chega ao Brasil em 1816 como integrante da Missão Artística Francesa – responsável pela fundação da Academia Imperial de Belas Artes.  Ao final desse período, Taunay adquire uma pequena chácara junto à Cascatinha e para lá se muda, com a sua família, pintando ao todo cerca de 20 telas.

Abaixo, o estado de abandono em que se encontra o marco ali colocado pelo governo brasileiro em 1928 em homenagem a Taunay.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ah, ha!  É a turma que faz esse tipo de gestão que quer impor regras para os proprietários privados, para as cidades, para o Brasil enfim?  É com essa medíocre “gestão de parques” – mesmo mesmo quando contam com os vultosos recursos das muitas “compensações ambientais” que devem, por lei, serem destinadas a unidades de conservação – que se acham capacitados a ditar normas para toda a nação?

Errou longe a “autoridade ambiental” do Rio de Janeiro que no passado tentou levar o ministro alemão na conversa (alguns acham que o cargo lhes confere dignidade, em lugar do oposto): a Floresta da Tijuca é a terceira maior área verde urbana do Brasil.  No mesmo município do Rio de Janeiro há o Parque da Pedra Branca – quase totalmente abandonado e com múltiplas invasões, cuja área é três vezes superior – e o Parque da Cantareira, em São Paulo, cuja área é pelo menos quinze vezes superior.

Como é escassa – se existir alguma – a documentação sobre o Parque Nacional da Floresta da Tijuca disponível para os visitantes e turistas, vale dizer que além de tratar-se de um floresta plantada sob a supervisão de um oficial da Polícia Militar – o Major Archer -, outra brasileiro deu continuidade ao seu trabalho: o Barão d’Escragnolle, que o sucedeu, fez um belíssimo trabalho de paisagismo, criando amplas áreas para o lazer, com fontes e lagos, algo que causa arrepios e alergia à maioria dos “gestores de parques” do já obsoleto Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (de nome pomposo e estranha sigla – ICMBio), órgão do Ministério do Meio Ambiente.  O sonho deles talvez seja remover todos os sinais da intervenção humana na botânica até mesmo de pequenos trechos do Parque.

Depois, veio o notável trabalho de Raymunto Ottoni de Castro Maya (1894-1968), convidado em 1943 pelo prefeito da cidade do Rio de Janeiro para ser administrador da Floresta da Tijuca.  Castro Maia inicia, então, um fenomenal trabalho de recuperação de jardinagem e paisagismo que haviam sido recobertos pela floresta.  Os trabalhos de recuperação se estendem a trilhas, casas, lagos, caminhos, pontes, e até a Capela Mayrink, construída em 1860, para a qual moradores do Alto da Tijuca doam pinturas de Cândido Portinari.

Empresário bem sucedido, Castro Maya trabalha por um salário simbólico e ao final orgulha-se da visitação chegar a 5.000 pessoas por fim de semana.  Esse, sim, foi um belíssimo trabalho de “educação ambiental”.  Já não se fazem administradores de florestas – ou parques e unidades de conservação – como “antigamente”.

***

* – As fotos são de Beth Tavares.

 

Rio de Janeiro e Choque de Ordem

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Durou relativamente pouco tempo o tal do “choque de ordem” no Rio de Janeiro.  Não que ele tenha sido mal intencionado, mas não  houve persistência, perseverança, continuidade.  Passada a fase midiática, a Prefeitura mudou de assunto.  Ou não houve uma correta avaliação do tamanho do problema, da mesma forma que nas ocupações das favelas.

A população de rua no Centro do Rio de Janeiro é visível para qualquer um que resolva dar uma volta por lá a partir das 20 horas.  Mas essa população anda acordando tarde.  E a Centro, ficando sujo ate mais tarde. 

As fotos abaixo não foram feitas em nenhum subúrbio, mas em plena rua Pedro Lessa, quase esquina com a movimentada avenida Rio Branco, em torno das 9 da manhã de uma sexta-feira (recente).  Ali fica o imponente prédio da Justiça Federal, com o seu centro cultural.  E, a menos de uma quadra, o Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional, a Câmara dos Vereadores – um dos mais lindos conjuntos arquitetônicos do Rio de Janeiro.

 

Esse tipo de coisa não se resolve só – ou nem principalmente – com “bolsa-família”.  Esse programa, concebido originalmente pelo Banco Mundial e adotado em muitos países da América Latina com diferentes nomes, tinha na sua origem o objetivo de assegurar o aumento da frequência escolar, dando às famílias o sentimento de que era bom “investir” na educação.  Sem os correspondentes investimentos massivos na educação pública de qualidade, o programa encerra-se no discurso populista e transforma-se num mega-curral eleitoral.  E as pessoas que se virem.

 ***

Falar do Rio de Janeiro lindíssimo é fácil.  De fato, o Rio é escandalosamente bonito.  Ressaltar essas mazelas que a todos doem, é chato, mas é imprecindível para que elas sejam sanadas.

 

Rio de Janeiro – Cuidados com as Lagoas

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Nada como acordar com o dia amanhecendo, porque não há trânsito e é possível observar melhor a cidade – todas as coisas, tanto as lindíssimas quanto os absurdos.

Às margens do complexo lagunar ao longo da Avenida Ayrton Senna, na Barra da Tijuca, a movimentação de terra feita pela prefeitura ou pela empreiteira – dá na mesma, já que a primeira deveria estabelecer normas e fiscalizar a segunda – fazem com que a quase-montanha de terra seja depositada de maneira a ser lavada para o leito do canal na primeira chuva.  Que importa?  Depois, as caríssimas dragagens pagas por metro cúbico mas nunca medidas. cidades sustentáveis

 

Chamem os zambientalóides que vivem de mostrar o lixo nas lagoas.   Afinal, a “culpa” é do lixo jogado pela população, ainda que a maior parte do esgoto continue sendo lançado sem qualquer tratamento no sistema lagunar (afinal, o projeto de coleta de esgotos da região só começou há 25 anos e continua sem data para terminar).  Isso para não falar na tal “faixa marginal de proteção”, tão ao gosto da equipe infanto-juvenil do Ministério Público ”ambiental”.

Rio de Janeiro – Bagunça Administrativa e a Arte da Feiura

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Do Rio, já se disse que é um espetáculo da natureza cercado de caos urbano por todos os lados.

O Rio passa, hoje, por um tipo de caos especial: explosões de bueiros.  Para quem mora na cidade-caótica e é obrigado a caminhar olhando para o chão por causa das calçadas esburacadas, desniveladas, cheias de obstáculos para pessoas, carrinhos de bebê e cadeiras de rodas – vale bricar de contar o número de tampas de ferro num único quarteirão.  Cada um tem a sua – é uma farra do boi.

Conta a lenda que à época em que fez um programa de esburacar as calçadas para facilitar a colocação de cabeamento de fibra ótica por uma grande rede de televisão – era o iníico da tv a cabo -, empresas de telefonia e de internet pediram que a oportunidade lhes fosse estendida e não foram atendidas.  Depois daí, cada provedor de internet ou outro que quisesse fazer cabeamento teve que fazer os seus próprios buracos.  E a cidade é uma permanente buraqueira!  Nenhuma coordenação entre os programas de obras dos vários prestadores de serviços públicos, abre aqui, quebra ali, a denominação precisa seria “uma zona”.. mas “zonas” são mais organizadas.

E, o que é pior – ainda que isso não se restrinja à cidade do Rio de Janeiro – , não há um sistema centralizado de informações sobre o que se encontra instalado no subsolo – desde manilhas de drenagem improvisadas até redes de água e esgotos, de distribuição de gás (mal instaladas por firmas teceirizadas), e por aí afora.  No passado, qualquer um que fosse fazer uma instalação subterrânea tinha que enviar cópias de plantas para as outras concessionárias e para a prefeitura, mas esse hábito se perdeu no tempo.  Nas cidades dos países sérios, essa infraetrutura pode ser visualizada num terminal de computador, com precisão.

Assim, quando explodem bueiros improvisa-se uma empresa ninguém-sabe-de-que para fazer inspeções para a prefeitura e a concessionária de gás (Petrobras) anuncia que vai trocar dezenas de quilômetros da rede que ninguém sabia que tinham que ser substituídas.  Afinal, que instalações de concessionárias de serviços públicos já ultrapassaram a vida útil e precisam ser substituídas?

Enquanto não há nem indícios de um planejamento de médio prazo para resolver essas bagunça, valem duas imagens de como as assim chamadas autoridades permitem que se enfeie a cidade.  Poucos metros antes da praia da Barra, na altura do quebra-mar, as imagens abaixo, que encantam os olhos… depois que se ultrapassam essas “pequenas” contribuições da prefeitura à arte da feiura.

Imagens do Rio de Janerio

 

E, diante da mesma obra de arte urbana, ao olhar para o chão para evitar o tombo…

a arte na calçada

Como se vê, o meio fio, que nas cidades do primeiro mundo tem altura padrão em relação ao asfalto, está à altura do restante da manutenção da Cidade Maravilhosa.  Como as calçadas em geral, a pavimentação das ruas, e por afora.

 

Rio de Janeiro – Algumas Feiuras, Descasos, Arrogâncias….

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A atual da administração municipal do Rio de Janeiro criou uma Secretaria de Ordem Pública – SEOP que até foi útil para retirar mendigos das ruas – para onde eles foram, ninguém sabe -, bem como afastar os camelôs de certas áreas.  Boa iniciativa.

Alguns grupos dentro da tal SEOP são, no entanto, bastante abusados.  E agem estranhamente.  Assim, por exemplo, aos domingos, fazem uma blitz mais ou menos rápída para rebocar veículos estacionados irregularmente na Praça do Ó, na Barra da Tijuca, onde há uma linda feira.  Um dos pontos estranhos desse tipo de operação é que mesmo os proprietários chegando quando os veículos ainda estão sendo preparados para o reboque, eles não liberam os veículos mediante o pagamento da multa – ou mesmo do reboque.  Dizem alguns que isso é ilegal, já que não tem sentido rebocar um veículo cujo proprietário está presente e pode removê-lo do local onde encontra-se irregularmente estacionado.

Independente da legalidade e do bom senso, o mais divertido é que também os reboques estacionam de forma irregular enquanto se preparam para a tal operação, como se pode ver na fotografia abaixo (feita hoje, 1/5/2011, em torno das 11 da manhã).

Reboque da Secretaria da Ordem Pública estacionado sobre a calçada

Também é muito divertido nas operações feitas nesse local o fato de a poucos metros dali existir uma churrascaria onde, nesse mesmo horário, os funcionários já colocaram cones sobre as calçadas para reservá-las para o estacionamento de seus clientes.   Pouco depois, as calçadas em frente e na lateral da churrascaria estão lotadas de carros desses clientes, e os fregueses que assim desejarem podem simplesmente parar em frente e entregar a chave do veículo para o manobrista do estabelecimento.  Os guardas muncipais que realizam a operação com os reboques NUNCA SE INCOMODARAM com os carros dos clientes da churrascaria estacionados irregularmente do outro lado da rua.

A autoridade exacerbada, metódica e arrogante sabe com quem está falando.

Coisas para a SEOP estar atenta.

Outro evento ”divertido” são as raves ou bailes funk que acontcem com frequência nas sextas e sábados num parque de diversões mal ajambrado chamado Terra Encantada, também na Barra da Tijuca.  Evidentemente, os organizadores da festa arranjaram um “laudo” de que o nivel de ruído não ultrapassava as normas municipais.  Diminuiram o volume do som durante o laudo e nunca mais se preocuparem com isso.  Muito próximo dali há um hospital público – o Lourençao Jorge.  Durante a lastimável “administração” Cesar Maia, comissões de médicos do hospital foram diversas vezes ao gabinete do prefeito e de seus assessores para pedir que as tais festas cessassem pelo enorme stress que causavam nos pacientes internados, inclusive na UTI.  Os esforços foram inúteis.  Depois, as festas cessaram durante alguns meses, mas voltaram, e ninguém mais tem ânimo para protestar.  Quem sabe a SEOP providencia um laudo independente, sem avisar antes os promotores das festas!  Ou coloca um registro contínuo de volume no hospital!

Talvez o Secretário da Ordem Pública possa fazer uma “visitinha” ao Hospital Lourença Jorge e conversar com os pacientes ali hospitalizados.  E, quem sabe, observar uma operação de reboque na Praça do Ó de dentro de um carro não oficial.  Atitudes simples…

Finalmente, entre as muitas belezas do Rio, o autor deste blog registrou recentemente uma outra: o lixo em frente ao prédio administrativo do governo do estado, na Nilo Peçanha, em plena luz do dia, e num dia de trabalho.  Nesse caso, não dá para dizer como faz de vez em quando o prefeito Eduardo Paes, que a população é mal educada.

É caso de ficar na dúvida: quem será que o “varreu”?  Os camelôs ou a prefeitura?  Porque o fato é que durante horas ninguém passou para fazer a coleta.

Tim-tim.  Na coleção de Geilberto Chateaubriand no Museu de Arte Moderna há uma tela  de autor contemporâneo – não anotei o nome – na qual pode-se ler: a recusa do conflito é um traço marcante da personalidade brasileira na busca de uma harmonia que acaba não ocorrendo.

Habitar nos Tristes Trópicos

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Por Álvaro Pessôa

Com a ajuda mínima de um mestre de obras o homem do povo consegue fazer sua habitação. Compra cimento, tijolos e telhas, depois janelas e portas. Não consegue é comprar terreno adequado, adutoras ou tratamento de esgotos. O estrangulamento está na falta de solo urbano acessível (espaço mais infraestrutura urbana).

Em 20 anos de vida, o Sistema Financeiro da Habitação construiu 5.400.000 residências, e quase metade de baixa renda. Foram 220 mil casas por mês. Hoje, quando se fazem 50 mil por ano, sai na primeira página dos jornais. Na baixa renda, juro zero; na alta, 12% ao ano, para distribuir renda.

Isso só foi possível pela utilização do Plano Nacional de Água e Saneamento e pelo esforço do Departamento de Terras do Banco Nacional de Habitação (BNH), que tinha como missão exatamente prover estoque regulador de terras equipadas em todas as grandes cidades do Brasil. Como fazem países europeus com juízo. Surpreendente, mesmo, é eliminar um modelo bom, por razões inexplicáveis, sem criar nada semelhante para substituí-lo, já decorridos 25 anos.

A expansão das cidades e das moradias não tem respeito por barreiras, e se mantém sempre em processo de crescimento. É um organismo vivo. Ainda crianças, as cidades tomam vacina (Plano Diretor), mas, uma vez doentes, precisam de safenas, como elevados ou túneis. As cidades brasileiras estão agônicas. Quando pensadas pelos geógrafos, sanitaristas e urbanistas, tudo ia bem.

Atualmente o preço da terra é o eixo gravitacional do crescimento. Esse preço é que centrifuga os desamparados para as periferias, as encostas, as faixas de proteção das rodovias, ferrovias, rios e lagoas, e “terra pública” é sinônimo de terra sem dono.

Ainda no dia 3/4 o Estadão denunciava que os primeiros edifícios da classe média alta já estavam nos limites mais distantes da cidade. É curioso que isso se torne notícia de jornal, porque é a consequência de o poder público financiar o consumo. No tempo do BNH, financiava-se a produção.

Plantar e colher apartamentos num edifício é igualzinho à plantação e colheita de milho, soja ou cana. A operação capitalista é a mesma, com a pequena diferença de que os insumos (na terra urbana) são pagos pela comunidade. Aliás, o terreno em construção chama-se, muito apropriadamente, canteiro de obras. Desse canteiro sai a safra ou a colheita de apartamentos.

É fácil o governo central enfrentar poderes que emanam dos valores fundiários e do capital. Tem poderosas armas legais, além do Banco Central e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Ainda assim, mesmo sob intenso controle, capital e capitalistas são bichos matreiros e levados. A aplicação rigorosa dá-se porque o poder dos governantes federais faz deles adversários sérios.

Nos municípios, a luta é desigual. Prefeitos ganharam, com o Estatuto das Cidades, armas modernas e poderosas, mas faltam recursos humanos treinados para passar de um painel de avioneta para o Boeing. A máquina pública municipal “quebrou”. O governo Collor extinguiu, “em nome da economia”, as entidades federais que apoiavam municípios e treinavam seus servidores – tradição oriunda da Constituição de 1934. Quando uma empresa chega a um município pobre, faz o que quer. Quando uma gigantesca estatal implanta seus polos, também.

O Plano Diretor é logo tratorado. Poder é poder! Capitalismo e poder caminham de mãos dadas e dizem para onde vai a cidade. Petroquímicas, portos e fábricas de automóveis são bons exemplos de como passar por cima da lei. O povo também usa suas técnicas para fazer a mesma coisa. Apropria o espaço que sobra. Entre 1964 e 1985, já havíamos aprendido a lutar contra a ocupação irregular. Matamos o modelo. Quem está na moda, agora, é o MST.

A natureza é impiedosa e Trópico é Trópico, como nos ensinou Lysia Bernardes, sábia geógrafa e saudosa urbanista.

MEMBRO DO INSTITUTO DOS ADVOGADOS BRASILEIROS, FOI PROCURADOR DO BNH

(publicado no caderno de Economia do Estado de São Paulo em 16/04/2011

 

Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA) – O Crime Compensa?

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No Brasil de hoje, o marketing é peça essencial não apenas da política, mas das mais simples iniciativas como fazer uma raspagenzinha no asfalto e um recapeamento mixuruca: colocam-se imensas placas nos pontos mais visíveis e dá-se o nome à bobagem de rotina de “Operação Asfalto Liso”.  O marketing passou a ter mais importância do que o que é feito!

Agora, é a vez da CSA com o slogan “Grafite Zero”.  Grafite é a mãe!  Dever ser o único pó de grafite no mundo com o qual as cricanas brincam de ajudar as mães e fazerem a limpeza usando imãs… para atrair o tal do grafite!

De toda forma, o nome genérico daquela imensa porcaria é particulado.  “Tóxico” ou não – o argumento cretino da CSA, e a mentira na qual ela tenta acreditar – o particulado causa problemas de saúde, em particular bronco-pulmonares com as inevitáveis conseqüências cardiológicas.

Aliás, alguém já fez uma campanha de análise química dessa montanha de poeira negra que cobre a casa e a vida dos moradores?  Se bobear, ali está toda a escala periódica de elementos químicos!

E, além dos danos à saúde pública e da imensa porcaria, particulados entram pelos computadores, televisões e outros aparelhos eletrônicos, diminuindo a vida útil e causando defeitos.

Já é tempo da população local tomar vergonha na cara se organizar em lugar de deixar ao poder público e à empresa a decisão sobre o que fazer.

A unica “compensação ambiental” aceitável numa situação dessas é parar de poluir e mudar radicalmente de ATITUDE diante da autoridade ambiental e da comunidade atingida.  As demais “compensações” são periféricas.

A  persistência da empresa naquilo que em inglês denomina-se “denial” (denegação, na tradução psicanalítica brasileira, ou recusa de ver algo que é evidente) é uma patologia social e  uma fonte da continuidade das infrações.  E nada importam as baboseiras sobre as médias e asa máximas de particulados no ar, já que as normas brasileiras de qualidade ambiental e de controle de poluição são mais do que antiquadas, são largamente obsoletas.

De toda forma, uma empresa alemã tem que cumprir, aqui, as normas de lá, e isso inclui não causar os imensos incômodos que a CSA está causando, há meses, à população da região.

Um excelente exemplo desse tipo persistente de descaso desavergonhado é o porto de Tubarão.  Na década de 90, começaram a ser examinadas alternativas para conter as nuvens de pó de carvão e de minério que se espalha continuamente sobre a cidade, proveniente do arraste eólico sobre as imensas pilhas desses materiais nos pátios do complexo portuário.  Os imóveis vivam imundos, o dano era visível o tempo todo, e os médicos falavam com freqüência nos altos índices de doenças respiratórias.

Uma das soluções consideradas foi a colocação de telas quebra-ventos (wind fences), já então  bastante usadas em outro lugares do mundo com as mais diversas finalidades, desde evitar que trens de alta velocidade descarrilassem na saída de tuneis em regiões de fortes ventos até o controle do arraste eólico de pó em áreas portuárias.

Já estava mais do que comprovado de que se bem dimensionadas as cercas quebra-ventos reduzem o arraste de poeira em 90%.  Mas os “investidores” queriam lucros e não havia interesse dos gerentes locais em tentar convencê-los.  Além do que, o argumento era o mesmo de sempre: não há normas brasileiras sobre esse tipo de controle.  Ora, bolas, o que importa se existem normas ou não quando uma cidade inteira está sendo visivelmente prejudicada e a saúde da população está sendo prejudicada?

A primeira reação da canalha local foi a disseminação boca a boca de que aquela solução não existia e de que a única explicação era o então secretário de estado de então – o autor deste blog – representava os interesses de algum fabricante.  A Companhia Siderúrgica de Tubarão, a Vale (então do Rio Doce) e a administração do Complexo Portuário de Tubarão recusaram-se a sequer considerar o assunto.

Mas brasileiro odeia inovação – ainda que goste de novidade – e por essa razão é que Tom Jobim dizia que para fazer sucesso aqui era necessário primeiro fazer sucesso “lá fora”.

Enfim, a proposta foi abandonada, mas, tampos depois, alguém deve ter arranjado uma forma de ganhar dinheiro com ela, colocando cercas quebra-ventos – ainda que de altura questionável para o tipo de ventos e para a altura das pilhas – e hoje anunciam, com orgulho, que estão fazendo o que deveriam ter feito há 30 anos atrás.

Esse é o Brasil do futuro na área do controle da poluição, entre outros.

A notícia foi divulgada como um grande avanço em 2008 e pode ser lida em

http://www.folhavitoria.com.br/geral/noticia/2008/08/cercas-de-20-metros-de-altura-em-volta-de-pilhas-de-minerio-reduzirao-poeira.html

No ano seguinte, a Vale anunciou o seu grande atraso tecnológico no controle da poluição como grande inovação, como se pode ver em

http://www.vale.com.br/saladeimprensa/pt/releases/release.asp?id=19150

Não há informações sobre o dimensionamento apropriado das cercas quebra-ventos ou dos resultados do monitoramento, como seria de se esperar, mas já é um reconhecimento de que a engenharia existe para resolver problemas, e não para cumprir normas antiquadas.

Da mesma forma, a proposta de colocar câmeras – incluisve infra-vermelhas para assegurar a visibilidade noturna – nas áreas problemáticas da CSA merece ser levada adiante – afinal, qualquer condomínio ou shopping as tem – e não apenas para controle do INEA, mas para o acesso de toda a população e da imprensa.  Ou a CSA tem algo mais a esconder?