Archive for the 'Mudanças Climáticas' Category

Bloom Boxes – Grandes Avanços em Células de Combustível

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Arnold Schwarzenegger, Colin Powel, altos executivos da Google e do Walmart estiveram entre as personalidades que compareceram há dois dias ao lançamento oficial de uma nova e promissora fonte de energia renovável desenvolvida por um ex-cientista da NASA e testada ao longo dos últimos 8 anos: um novo tipo de célula de combustível denominada Bloom Boxes.

Trata-se de uma célula de combustível – fuel cell, é o nome em inglês -, um tipo de “bateria” que converte hidrogênio e oxigênio em eletricidade através de reações eletroquímicas, com grande vantagem sobre as que já vem sendo desenvolvidas e testadas há bastante tempo em diversos países desenvolvidos, agora com a enorme vantagem de utilizar, em sua fabricação, um material abundante na natureza: areia.  Os modelos anteriores utilizam materiais raros como a platina, e altamente corrosivos.

Com a nova tecnologia, uma célula do tamanho de um tijolo é suficiente para gerar energia suficiente para assegurar o suprimento de energia de uma casa média, considerados os padrões de consumo dos países altamente industrializados.  Um equipamento desse tipo do tamanho de um congelador comum é suficiente para abastecer 100 casas, com o potencial de tornar obsoletas as linhas de transmissão e de distribuição de eletricidade.

Uma unidade desse tipo com a potência de 400 kW já se encontra instalada e em operação há 18 meses na sede da Google, tendo gerado energia durante 98% do tempo em que foi mantida em operação, com a geração medida de 3,8 milhões de kWh de eletricidade.  A Coca-Cola, o Walmart e o Federal Express incluem-se entre os clientes que já estão testando a nova fonte de energia.  O fabricante – Bloom Energy – já levantou US$ 400 milhões junto a investidores privados para continuar o desenvolvimento de sua tecnologia e iniciar a produção em escala comercial.

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As “Bloom Boxes” também emitem CO, mas como são duas vezes mais eficientes que as fontes convencionais de energia existentes nos EUA, pode-se afirmar que as emissões de CO cairão em 50% se a tecnologia de disseminar rapidamente.  No atual estágio de desenvolvimento, uma célula de combustível desse tipo ainda custa US$ 700.000, mas o fabricante prevê uma significativa queda nos preços à medida que a produção ganhar escala.   “Os usuários poderão recuperar o investimento inicial num prazo estimado entre 3 e 5 anos” – afirma o cientista que desenvolveu a tecnologia.

“Em poucos anos, esse tipo de célula de combustível será usada nas edificações como um provedor de energia, tão simples quanto um painel fotovoltaico, com a vantagem de gerar energia dia e noite.”

A tecnologia sempre foi a grande vantagem dos países ricos.   E o governo brasileiro se orgulha por estar se preparando para comprar trens de alta-velocidade da China ou da Coréia para ligar o Rio de Janeiro a São Paulo, de olho nas eleições, quando não resolveu sequer o problema fundamental de assegurar o amplo acesso à educação primária gratuita.

Se não houver uma solução tecnológica para a redução das emissões de gases causadores das, não haverá solução nenhuma.  Só num quadro de subestimação do papel do desenvolvimento tecnológico e de falta de políticas públicas para assegurar o aumento da eficiência energética é que preservação das florestas pode continuar sendo a única contribuição do Brasil para esse problema planetário.  Nesse passo, vamos terminar exportando areia para importar geração de energia com alta tecnologia.

Mais informações e imagens sobre as Bloom Boxes podem ser encontradas – em inglês – na página da empresa na internet – www.bloomenergy.com.

Arquitetura Ambiental e Casas Flutuantes – A Holanda Se Adapta às Mudanças Climáticas

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Ao longo de toda a sua história, os holandeses conviveram com esforços para se proteger do mar e ampliar o seu território, construindo comportas e fazendo aterros.  Utilizaram moinhos de vento para bombear a água continuamente para fora, e assim criaram espaços para novas cidades e até mesmo para pastagem de seu gado bem como para a agricultura.  Sem esses essas iniciativas de muito longo prazo e sistemas, metade do território da Holanda estaria submerso.

Ainda assim, em 1953 mais de 1.800 pessoas morreram em decorrência de grandes inundações no sul da Holanda, lá chamadas de dilúvio.  Essas inundações ficaram na memória do país como ‘”o desastre”.  O resultado foi a construção de uma mega-barragem que pode ser vista na foto abaixo

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Não se tem notícias de que durante essa mega-obra ativistas do Greenpeace – organização sediada na Holanda – tenham aparecido lá para protestar contra os impactos sobre a vida marinha ou a paisagem, e ainda menos que tenham invadido o parlamento para se algemar a cadeiras e mesas.   

Na década passada, duas novas inundações ocorreram, em 1993 e em 1995, causando prejuízos de bilhões de dólares.  Isso alertou ainda mais a consciência dos holandeses para os riscos das mudanças climáticas e, considerando-as inevitáveis, as autoridades passaram ao planejamento de longo prazo, com programas de décadas – a principal diferença entre os países sérios e os países periféricos.

As iniciativas locais também se multiplicaram e lá começaram a surgir casas flutuantes ou casas-embarcações, uma forma de aprender a conviver com as mudanças climáticas.  Não é algo de se espantar, pois que a maioria dos barcos ancorados nos canais de Amsterdam já são mesmo residências.  A grande diferença está na arquitetura e nos níveis de conforto.  Tais casas são construídas em terra firme e estão sendo desenhadas para flutuar quando o nível das águas subir, ainda que por um ciclo.

Sem fundações, as casas ficam atadas por cordas a pontos de fixação e têm os seus sistemas de eletricidade, abastecimento de água e esgotamento sanitário feitos através de tubulações mais longas e flexíveis.

Na verdade, vilarejos inteiros estão sendo assim projetados, tendo Maasbommel sido o primeiro – é fácil copiar e colar o nome no software de busca do computador e ver imagens como a de abaixo.

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Vilarejos flutuantes existem na Ásia há muito tempo como uma forma de adaptação às enchentes periódicas, e também é possível encontrar um grande número de casas flutuantes em toda a Amazônia.  Mas essa abordagem feita por um país altamente desenvolvido não deixa de ser muito interessante.

Agora, vá alguém sugerir algo semelhante nas áreas mais sujeitas aos impactos das mudanças climáticas no litoral do Brasil ou mesmo nos grandes afluentes do rio Amazonas, onde casas flutuantes e sobre palafitas já existem, ainda que mais frequentemente como favelas flutuantes.  Como seria vista uma proposta semelhante pelo “exército da salvação” ambientalista que tenta transformar as amarrações do Código Florestal  em sinal do fim dos tempos.  Começariam dizendo que as casas estão nas faixas marginais de proteção dos canais com todo o blá-blá-blá vazio subsequente, sem qualquer consideração sobre as especificidades locais – como o potencial de erosão dos solos – ou da engenharia adotada, para não falar nos aspectos culturais.

Quanto aos aspectos culturais vale elogiar as posições recentes da Comissão Pastoral da Terra em defesa das populações ribeirinhas!

Bicicletas Elétricas e Eficiência Energética no Transporte Urbano – A China Dá o Seu Recado – III

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Em meados de 2009, cerca de 100 milhões de bicicletas elétricas já se encontravam em circulação na China, com vendas anuais equivalentes a 90% de todo o planeta.  Na China, o preço médio dessas bicicletas gira em torno de US$ 300, ou menos de R$ 600.  Os chineses esperam que essa “febre” logo se alastre por toda a Ásia.  E podemos estar certos que bicicletas elétricas chinesas logo chegarão ao Brasil, importadas ou montadas aqui com componentes importados, mas por um preço muito mais elevado.  Hoje, uma bicicleta elétrica custa, no Brasil, algo como R$ 2.800.  Coisa de eco-chic.

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Caminhando por uma rua de pequenas lojas nas proximidades do campus da Universidade de Tsinghua, um dos grandes centros de tecnologias limpas da China, encontram-se dezenas de modelos de e-bikes, como ficaram conhecidas as bicicletas elétricas que agora se tornaram uma febre entre os jovens chineses.

Há os mais diversos modelos – desde aquelas feitas em plástico para reduzir o peso até as mais sofisticadas -, tanto no que se refere aos materiais e ao design quanto às baterias.

“Eu optei por uma denominada Turtle King – uma simples cópia de uma Vespa italiana – com um motor de 500 W e uma bateria comum, idêntica às utilizadas nos automóveis.  Ela tinha autonomia de 40 a 50 km e velocidade máxima de 40 km/hora, mas não custava mais do que US$ 500.  (…)  Pouco tempo depois, troquei-a por outra, com baterias litium-ion, que pesam menos e estocam mais energia, além de terem uma vida útil mais longa.

“Quando eu me encontrava na loja, conversei com dois jovens clientes, estudantes da Faculdade de Aeronáutica e Astronáutica da Universidade de Pequim. 

“Vocês devem ter toneladas dessas bicicletas nos EUA – disse um, que usava uma camiseta com a figura de Che Guevara – já que vocês estão sempre falando em consciência ecológica.  Expliquei que não, que os norte-americanos usam bicicletas para se exercitarem, não como meio de transporte.  Nas proximidades de seu campus, em Pequim, as bicicletas elétricas são tão rotineiras quanto as motocicletas nas montanhas da Itália.”

Em seu lindo e meticuloso relato intitulado Carta da China – o Gigante Verde, já citado nos dois artigos anteriores deste blog, Evan Osnos descreve duas etapas das mudanças no transporte urbano do país que hoje é o maior produtor mundial de automóveis.  Na primeira, abandonaram-se as ciclovias para dar lugar aos carros; mas agora as ciclovias estão de volta.  As bicicletas elétricas tornaram-se símbolos de status, dinamismo, excelente forma de evitar a lentidão do tráfego nas horas de rush.

A Agência Ambiental da China subsidia as bicicletas elétricas e, mais recentemente, os subsídios estenderam-se a um modelo que é mais semelhante a uma scooter, sem a alternativa de serem pedaladas.

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Lá, também cresce rapidamente a produção de carros elétricos. 

E a turma aqui brincando de “Dia da Árvore” e de “inspeção veicular” do Oiapoque ao Chuí.

***

A China encontra-se mergulhada em todos os tipos de novas tecnologias que possam reduzir o consumo de combustíveis fósseis.  De um lado, o governo não quer ficar dependente de um petróleo que pode estar em outro país ou num navio-tanque no meio do mar, e sabe que a exploração do petróleo encontrado em profundidades muito grandes (no Brasil confundido, intencionalmente, como pré-sal) pode ter custos demasiadamente elevados.  Do outro, as autoridades vêem na nova onda de energias renováveis e de eficiência energética uma fonte de profundas mudanças tecnológicas e um imenso potencial de novos negócios – incluindo geração de emprego e de renda.

Energias Limpas e Liderança Tecnológica – A China Dá o Seu Recado – II

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Em 2010, a China tornou-se o terceiro país do mundo em capacidade instalada de geração de energia eólica, com 20 GW.  Segundo o Conselho Mundial de Energia Eólica, com o atual ritmo de crescimento nessa área, já ao final de 2011 a China assumirá a liderança mundial nessa fonte de energia.  Os EUA temem, hoje, que turbinas eólicas chinesas invadam o seu mercado e os republicanos chegam a pedir o fim dos subsídios a essa fonte de energia.

A China, hoje o país que mais emite gases causadores de mudanças climáticas tem como meta atingir 15% de seu consumo de energia provenientes de fontes renováveis até 2020 (a meta européia é alcançar 20% naquele ano).  Mas a redução proposta pela China em suas emissões pode ser muito superior.  De fato, a China vê o assunto como uma oportunidade de avanços tecnológicos, de exportação de produtos e tecnologias, e de geração de emprego.

Hoje,  70% da eletricidade do país são provenientes da queima de carvão.  Assim, excetuada a alternativa da substituição dessas fonte de energia pela nuclear, resta a alternativa da rápida modernização das usinas térmicas e da incorporação de tecnologia de gaseificação do carvão, uma área em que o desenvolvimento tecnológico chinês já supera o norte-americano.  A eficiência média da conversão do carvão em energia nas unidades de geração térmicas mais antiquadas é de 25% ou menos, enquanto unidades mais modernas, que incorporam tecnologias avançadas, alcançam eficiência de até 55% na conversão do carvão, com uma redução proporcional das emissões de CO por unidade de eletricidade gerada, segundo a Agência Internacional de Energia.

Sistemas de gaseificação de carvão já existem há décadas, mas o seu preço era tão alto que a sua aplicação em larga escala os tornava inviáveis.  Os sistemas de gaseificação chineses já custam 1/3 dos seus equivalentes fabricados pela GE e pela Shell, e são mais eficientes.  E a China já está licenciando tais sistemas para empresas de geração térmica norte-americanas.  A gaseificação – um processo de queima com temperatura e pressão muito mais elevadas - aumenta em muito a eficiência energética e reduz significativamente a emissão de dióxido de carbono.

Esse e outros assuntos relacionados à liderança mundial no campo das energias renováveis foram motivo da visita de Obama a Pequim em novembro deste ano, depois de cinco visitas sucessivas à China feitas pelo subsecretário norte-americano de energia para políticas e assuntos internacionais – em apenas cinco meses.

Ao final desse encontro do G-2, Hu-Jintao, o presidente chinês, deixou claro que o seu país não pretende arcar com os altos custos da acelerada implantação de usinas térmicas mais modernas, equipadas com sistemas de gaseificação do carvão e ciclo-combinado, sem o auxílio financeiro dos países mais ricos enquanto a renda per capita chinesa for de apenas cerca de 1/7 da renda per capita nos EUA.  Ponto final.

Os grandes avanços tecnológicos da China têm uma origem algo prosaica.

“Em 3 de março de 1986, quatro dos mais importantes cientistas chineses – todos veteranos nas áreas de mísseis e do programa espacial – escreveram uma carta a Deng Xiaoping, então presidente da China.  A carta continha um alerta: décadas de concentração de esforços na área militar haviam debilitado o desenvolvimento científico civil do país.  A China deveria se unir ao xin jishu geming, a nova revolução tecnológica em andamento no mundo.  (…)  Deng Xiaoping concordou e rabiscou num canto da carta: ação deve ser iniciada nesse campo imediatamente.”

A partir daí, desencadeou-se uma política de envio massivo de chineses para fazer doutorado nas mais avançadas universidades do mundo.  A política de educação básica já estava consolidade e não havia tempo para esperar pelo avanço tecnológico interno convencional.  Aquele foi o ponto de partida, também, para uma política de massivos investimentos públicos em pesquisa e desenvolvimento.  Os investimentos públicos nessa área cresceram mais do que em qualquer outro país do mundo, a uma taxa média anual de 20%, atingindo 70 bilhões de dólares em 2008.

Feliz do país em que o presidente e a administração pública lêem.  E lêem cartas de cientistas com base nas quais tomam decisões com tal nível de repercussão sobre o futuro da nação.

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Este artigo foi escrito com base em notícia do Le Monde de hoje e numa publicação bem mais ampla do The New Yorker intitulada Carta da China – O Gigante Verde – O Acelerado Programa de Pequim para Energias Limpas.  O artigo foi enviado pelo leitor Jaime Francisconi e pode ser encontrado em  www.newyorker.com/online/blogs/evanosnos.

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Os rumos do G-2 são decisivos para o futuro climático e econômico da humanidade, já que o terceiro pilar, a União Européia, há muito optou por definir metas próprias.

No Brasil, a turma continua brincando de “Dia da Árvore” em escala nacional.

Trens de Alta Velocidade e Mudanças Climáticas – A China Dá o Seu Recado

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Depois de ter sido acusada de contribuir de maneira decisiva para o naufrágio anunciado do encontro sobre mudanças climáticas de Copenhagen, a China esfregou hoje – dia 26 de dezembro – na cara do mundo a inauguração de mais um trem de alta velocidade unindo duas grandes cidades situadas a 835 quilômetros uma da outra: Wuhan e Guangzhou.  A viagem que antes demandava cerca de 10 ½ horas pôde ser feita em menos de 3 horas, a uma velocidade media de 350 km/hora e uma velocidade máxima de 390 km/h.

A China concluirá a implantação de 42 novas ferrovias de trens de alta velocidade nos  próximos três anos, com o total de 12.000 quilômetros adicionais, disponibilizando assim esse meio de transporte para cerca de 90% da população.  O tempo de viagem ferroviária entre Hong-Kong e Pequim cairá de 23 para 8 horas.

O programa chinês de investimentos em trens de alta velocidade é ambicioso e quando concluído, em 2020, a China terá o maior, mais rápido e mais avançado tecnologicamente sistema de trens do mundo.  Em 2009, o país investiu 50 bilhões de dólares nesse tipo de transporte e o investimento total previsto até 2020 é de 300 bilhões de dólares.  A geração de emprego é imensa e só a ferrovia Xangai-Pequim gerou 110.000 postos de trabalho.

As autoridades chinesas já prevêem uma significativa redução da demanda de transporte rodoviário e, sobretudo, aéreo a partir desses avanços.

Foram necessários 23 anos para elevar a velocidade média dos trens na China de 43 km/hora – em 1978 – para 100 km/hora – em 2001, e apenas 9 anos para mais do que triplicar essa velocidade para os atuais 350 km/h.  A velocidade media dos trens na Alemanha é de 232 km/h, no Japão é de 243 km/hora no Japão e na França de 272 km/hora.

As diferenças de consumo de energia entre os diferentes meios de transporte foram estimadas pelo Departamento de Transportes nos EUA em 1995 e os números encontrados ainda podem servir como referência.

Transportar uma tonelada de carga por uma distância de um quilômetro consome 221 quilojoules de energia por via férrea, 225 quilojoules por via aquática, 2.000 quilojoules se utilizados caminhões e 13.000 quilojoules por via aérea.

Ou seja, o transporte ferroviário nos EUA (que não são um país avançado em matéria de trens de alta velocidade mas têm padrões estritos para a eficiência de motores auto-veiculares) consome pouco mais de 10% da energia utilizada pelo transporte rodoviário.

Se alguém quisesse aplicar o critério da redução das emissões de dióxido de carbono num programa de implantação de ferrovias desse tipo – que é um programa de eficiência econômica e energética -, os países altamente desenvolvidos teriam que pagar um bocado de dinheiro à China pela redução das emissões de carbono.  Evidentemente, ninguém quer desembolsar dinheiro para que a China acelere ainda mais o seu avanço científico, tecnológico, econômico, social e, como se não bastasse, na área da redução das emissões de gases causadores de mudanças climáticas. 

O impacto das emissões do setor de transportes nas mudanças climáticas e na economia é imenso, o que levou o Parlamento Europeu a decidir por elevados investimentos no setor ferroviário.

No caso do Brasil, isso só ocorrerá se for superada a fase do samba de uma nota só do desmatamento e a monopolização do assunto pela área ambiental, que termina eximindo outras áreas do governo de suas responsabilidades no campo das mudanças climáticas.

Até lá, o governo continuará a se render ao lobby das empreiteiras e da indústria (estrangeira) de caminhões, dando prioridade ao transporte rodoviário mesmo nos investimentos a serem feitos na Amazônia, que afirma querer proteger.

Vale ressaltar: a China está implantando seu sistema de trens de alta velocidade com tecnologia própria!

E o Brasil patinando no lero-lero midiático sobre um trem de alta velocidade com tecnologia estrangeira ligando o Rio de Janeiro a São Paulo.  Uns, reduzem as emissões com grandes avanços tecnológicos; outros, propondo o congelamento da realidade, ainda quando os cientistas prevejam a transformação de 30 a 40% da Amazônia em savanas até 2050 em conseqüência do aquecimento global, com ou sem a canoa furada da reserva legal.

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O mais divertido é que o Brasil exporta minério de ferro para a China e importa o produto sob a forma de trilhos.  Como se não bastasse, há alguns meses o governo do Rio de Janeiro anunciou, em junho de 2010,  com grande orgulho, que importaria da China 30 trens elétricos por US$ 165 milhões.  Logo depois, anunciou-se a aquisição de 114 novos vagões do mesmo fabricante chinês para o metrô do Rio.  O minério sai daqui, a geração de emprego e de valor é feita lá.  E a turma ainda celebra.

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Imagens dos novos trens chineses e do terminal recém inaugurado dão uma idéia dos avanços tecnológicos do país, em contraste com o  que ocorre nessa área no Brasil.

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A China não precisa de bolsa-família porque mesmo com uma população que já supera 1,3 bilhão de habitantes já resolveu os seus problemas de educação em todos os níveis, bem como de habitação e saúde pública.

Copenhague – O Discurso de Obama e o Jornalismo de Cabresto com Grife

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Ao contrário da tendenciosa cobertura de O Globo, que superestimou o papel – até mesmo potencial – do Brasil na reunião de Copenhague e subestimou o discurso de Obama, este  último merece alguns comentários.

Antes de mais nada, Obama não é maluco falar em assinar acordos internacionais depois de aprovar um projeto de lei sobre emissões de carbono na Câmara e estar fazendo enormes esforços para driblar os lobbies do petróleo que ainda impedem a aprovação do projeto pelo Senado.

O discurso de Obama em Copenhague foi muito mais avançado do que os jornalistas mais tendenciosos – de grife – ou superficiais transmitiram para o público brasileiro.

Em primeiro lugar, há um imenso avanço na posição dos EUA com o reconhecimento de que as mudanças climáticas existem, são causadas pelo uso de combustíveis fósseis e colocam o mundo em risco.

O segundo ponto mais importante foi o reconhecimento da significativa parcela de responsabilidade dos EUA e o anúncio de que com ou sem acordos internacionais os EUA avançarão de maneira decisiva na área de energias renováveis e de eficiência energética.    Trata-se de uma questão de segurança energética do país e de assegurar a sua presença entre as lideranças tecnológicas internacionais, com a resultante criação de emprego e renda.

Em terceiro lugar, enfatizou metas de redução de emissões norte-americanas em 17% até 2020 e em mais de 80% até 2050, de acordo com a legislação que espera que o Congresso aprove em breve.  (O tendencioso jornalismo tupiniquim só ressaltou a meta inicial).

Prosseguindo, deixou claro que os EUA estão dispostos a dar acesso às informações sobre as suas emissões, e que essa deverá ser uma obrigação de todos que aderirem a um acordo sem que isso seja considerada uma intromissão nos negócios internos dos países. 

Aí é que se dá a divergência com as posições da China, da Índia e do Brasil, que até falam em metas mas se recusam a aceitar metas obrigatórias e mecanismos de monitoramento, como definiu o Protocolo de Quioto para os paises em desenvolvimento.  Obama demoliu, assim, com a farsa das economias emergentes que só aceitam “metas” não obrigatórias.

“Eu não sei como se pode ter um acordo internacional sem que se tenha um mecanismo confiável de monitoramento que assegure que todas as partes envolvidas estão cumprindo com os compromissos assumidos.

“Nós nos comprometemos a nos engajar num esforço global de mobilização de recursos financeiros que cresçam até US$ 100 bilhões por ano em 2020 SE, E APENAS se isso for parte de um acordo maior que envolva os mecanismos de monitoramento antes mencionados.

“Redução das emissões, transparência e financiamento constituem-se numa fórmula clara que envolve os princípios de responsabilidades comuns ainda que diferenciadas em função da capacidade de cada um.

“Há países em desenvolvimento que querem ajuda financeira sem compromissos com a transparência em relação às responsabilidades assumidas. E há países desenvolvidos que acham que os países em desenvolvimento não têm condições de absorver o apoio financeiro.

“Todos nós sabemos as falhas da linha de acordos internacionais em vigor e que só levaram a uma aceleração das mudanças climáticas.

“Nós podemos aceitar esses fundamentos de um acordo global, refinar e construir esse acordo ou voltar à mesma situação que fez com que não ocorressem avanços efetivos até o presente. 

“Os EUA fizeram a sua escolha, definiram a sua direção, assumiram os seus compromissos, nós faremos o que dizemos. Estamos prontos para fazer isso HOJE. Desde que as partes envolvidas  assumam as suas responsabilidades com os seus povos e com o futuro do planeta.”

O discurso completo de Obama – com o seu estilo tranquilo – pode ser visto em www.youtube.com/watch?v=yZ-SMqh7q3o

Ele tem razão.  O Protocolo de Kyoto foi um fracasso e repeti-lo seria muito ruim.  Agora, as coisas estão claras.  Os países que avançarem tecnologicamente e que formularem as melhores políticas públicas de adaptação as mudanças climáticas estarão muito melhor posicionados para enfrentá-las do que os demais.

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Só alguém totalmente desinformado chegou à Copenhague acreditando numa vaga possibilidade de acordo.  Venderam a Lula a bandeira errada, a imprensa fez drama para vender notícia, mas o fato é que não havia chances de acordo.

Desde que minutas das propostas de acordo vazaram para a imprensa inglesa semanas antes, estava claro que os burocratas da ONU, do Banco Mundial e todos os demais que foram aos encontros preparatórios estavam MUITO longe de algum consenso.  Sugere-se a leitura dos seguintes artigos aqui publicados sobre esse naufrágio antecipado.

www.luizprado.com.br/2009/09/29/mudancas-climaticas-minuta-de-novo-acordo-e-confusa-e-vaga-i

www.luizprado.com.br/2009/10/04/mudancas-climaticas-minuta-de-novo-acordo-e-confusa-e-vaga-ii

www.luizprado.com.br/2009/11/06/mudancas-climaticas-e-o-naufragio-antecipado-de-copenhaguem/

Copenhague – Razões do Fraco Desempenho do Brasil

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O Brasil teve um fraco desempenho em Copenhague como decorrência do excesso de ênfase dada à redução do desmatamento e à necessidade de recursos externos para atingir metas nessa área.

Essa miopia – ou mania – segundo a qual os pobres só são pobres porque os ricos são ricos não corresponde à realidade, servindo apenas para incentivar as tensões sociais e encobrir a inépcia do poder público para dar aos cidadãos aquilo que levou os países altamente industrializados e realmente “emergentes” à posição em que se encontram: serviços e políticas públicas de qualidade para as áreas de educação, habitação, saúde e saneamento.  E, na área de educação, também o amplo apoio à pesquisa e ao desenvolvimento científico.

De fato, a superação do problema das mudanças climáticas é vista pelos países desenvolvidos como um problema de aceleração do desenvolvimento científico e tecnológico.  A manutenção das florestas existentes é, para eles, importante como uma ponte para chegar ao estágio necessário para consolidar o desenvolvimento de fontes alternativas de energia que não entrem em competição com a produção de alimentos num mundo em que a população continua a crescer.  Eles estão apostando, também, na  aceleração da disseminação de medidas de eficiência energética.

Um bom exemplo disso pode ser encontrado nas apresentações feitas em Copenhague pela Agência Internacional de Energia – IEA, na sigla em inglês.  Para se ter uma idéia do que está sendo feito nos países mais avançados – e são muitas as iniciativas nas mais diversas áreas – vale citar a utilização de sistemas de captação de energias oceânicas. Para tanto, sugere-se ver um curto vídeo em www.iea-oceans.org (em inglês) e até fazer o download da versão completa do vídeo no link logo abaixo da tela do mesmo (há necessidade de “registro” que não leva mais do que um minuto, já que apenas o nome, o país, a organização e um endereço eletrônico são solicitados).

No vídeo maior, há exemplos das mais diversas formas de captação de energias oceânicas: marés, correntes, ondas, diferenciais de gradientes de salinidade e de temperatura.  Entre elas, uma que pode produzir, além de energia, água doce. Entre os desenvolvimentos mais fascinantes encontra-se a planta piloto recém inaugurada nas proximidades de Oslo, Noruega.  Para sair da mesmice dos serviços ambientais das florestas em pé – que não resolvem o problema da geração de energia – vale visitar a página da empresa que desenvolveu a tecnologia e está testando o protótipo em www.statkraft.com/energy-sources/osmotic-power.  

Outro exemplo notável é o da Coréia do Sul, que está finalizando a implantação de uma unidade de energia oceânica que a permitirá economizar um milhão de barris de petróleo por ano.  Não é muito? E daí?  Quem ganha mais?  Com isso, a Coréia ficará não apenas com os créditos de carbono, mas com a energia limpa e, sobretudo, com a tecnologia.

O curto documentário preparado pela Agência Internacional de Energia lista, ao final, 25 países que estão trabalhando no desenvolvimento de energias oceânicas.  Entre eles, o Brasil!  O documentário enfatiza, ao final, que a indústria precisa de vultosas quantias para colocar essas tecnologias de verdade no mercado, e não pode ficar dependente de recursos esporádicos.   

*** 

Ao final de outubro deste ano, o governo dos EUA concedeu incentivos de 3,4 bilhões de dólares para a instalação de medidores de eletricidade inteligentes.  Esses medidores, que transmitem informações em tempo real tanto para as concessionárias quanto para os consumidores, já se encontram em uso em boa parte da Europa e permitem importantes avanços na área da eficiência energética.

Incentivos fiscais estão sendo considerados para a instalação de “bombas de calor”.  Trata-se de bombear água de poucos metros de profundidade cuja temperatura é estável ao longo do ano todo e de maneira a reduzir drasticamente o uso de eletricidade com a refrigeração e o aquecimento das edificações.  Esse é um sistema que se difunde rapidamente em países europeus e já atende a 600.000 edificações nos EUA, onde o crescimento anual de seu uso tem sido da ordem de 10%.

A lista de novas tecnologias é tão diversificada que o mote das florestas em pé perde importância num encontro mundial desse tipo e parece bem pouco para um país que se pretende uma potência econômica emergente. 

Se vier dinheiro para florestas, ele será cuidadosamente monitorado, até para que chegue às mãos dos proprietários de áreas privadas onde existem florestas.  E isso parece difícil num país que não consegue sequer a regularização fundiária de seus parques e outras unidades de conservação.

Há importantes desenvolvimentos tecnológicos em curso no país que merecem mais apoio.  A transferência de tecnologia poderia e deveria ter sido mais enfatizada pelo Brasil em Copenhague.

Poluição Atmosférica – A Inglaterra para Inglês Não Ver

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A União Européia recusou o pedido de Londres para adiar o prazo para cumprir metas de qualidade ambiental e agora são altas as chances de que a região metropolitana de Londres venha a ser multada.  Esses ingleses são uma piada!  Não conseguem resolver problemas de qualidade do ar que expõem a saúde pública dos cidadãos de sua própria capital a sérios riscos, mas toleraram aquele patético príncipe Charles falando em dar um trocado para proteger as florestas amazônicas.

Aos fatos!

As primeiras diretrizes da União Européia para a qualidade do ar nas cidades dos países membros datam de 1980.  Em 1996, foram estabelecidos princípios básicos para o monitoramento e gestão dos principais poluentes atmosféricos.  A primeira diretriz com padrões e prazos entrou em vigor em 1999 e estabeleceu metas para dióxido de enxofre, dióxido de nitrogênio, chumbo e material particulado (conhecido como PM 10 no jargão técnico para o particulado pequeno o suficiente para atingir os pulmões humanos).  A segunda diretriz foi adotada no ano seguinte e incluiu monóxido de carbono e benzeno.  A terceira, que entrou em efeito em 2001, estabeleceu padrões para ozônio ao nível do chão.  Evidentemente, os países mais avançados da União Européia já tinham padrões para esses poluentes havia muito tempo. 

As diretrizes estabeleceram prazos que poderiam ocasionalmente ser prorrogados por tempo limitado e dentro de uma margem de tolerância se os países ou cidades que não atingissem os padrões demonstrassem que haviam feito um esforço sério e consistente para fazê-lo.

Aqui, vale dizer que o Brasil sequer tem padrões de qualidade do ar para alguns desses poluentes e muito menos prazos para que eles sejam atingidos.

O prazo inicial para PM 10 (material particulado) era 2005.   Agora, a Comissão Européia recusou o pedido de Londres para uma extensão de prazo por entender que a cidade não atendeu aos requisitos mínimos para tanto.  Alguns comentaristas estimam que o valor da multa pode atingir 450 milhões de dólares.

Como com a sua delinqüência ambiental, Londres se colocou ao nível de países mais pobres da União Européia, como a Bulgária.  Mas, afinal, a Inglaterra nunca soube muito bem se queria ser um país membro da União Européia ou mera província dos EUA, de modo que a notícia foi logo abafada pela imprensa local.

Não há informações de que o Greenpeace tenha se pronunciado sobre o assunto.  E ambos – Inglaterra e Greepeace – ainda tentam falar grosso em Copenhaguem.  Só rindo.

Mudanças Climáticas – Os Produtores Rurais na Liderança da Fixação de Carbono

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O teatrinho no qual os “ambientalistas bons” combatem os “ruralistas maus” é coisa para enganar eleitores otários.  Na vida real, as coisas não são tão simples quanto num vídeo game, e há um grande número de produtores rurais de todos os portes, de agrônomos e de cientistas das mais diversas especialidades, bem como de dirigentes de órgãos estaduais e municipais de meio ambiente que afirmam a necessidade de mudanças profundas no Código Florestal sem que com isso se oponham a políticas sérias, rigorosas e consistentes (isto é, aplicáveis) de proteção dos recursos ambientais.

O curioso é que em meio a todo esse tiroteio, nem os agrônomos e engenheiros florestais mais renomados e tampouco os dirigentes de órgãos ambientais são sequer consultados.  E todos ou a esmagadora maioria dentre eles sabem que há necessidade de mudanças profundas no Código Florestal.

Evidentemente, eles – como os físicos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE – que no Brasil lideram as pesquisas sobre mudanças climáticas são considerados “ambientalistas”.

Recentemente, três dos mais renomados cientistas brasileiros da área de conservação dos solos e, por tabela, dos recursos hídricos, afirmaram, em conjunto, que a tecnologia de produção rural conhecida no Brasil como Sistema de Plantio Direto na Palha pode compensar a totalidade das emissões de gases causadores de efeito estufa do setor rural brasileiro.  O Ministério do Meio Ambiente, que pretende ter a palavra final nas questões de redução das emissões desses gases, prestou atenção?

A seguir, a transcrição da Carta de Foz do Iguaçu.

A agricultura tem sido a principal fonte de alimentos e a geradora de uma enorme cadeia de negócios que movimenta quase ⅓ do PIB brasileiro.  Nas últimas três décadas a evolução da produção agrícola teve como um dos pilares a adoção e a manutenção do Sistema Plantio Direto na Palha (SPDP). Esse sistema de manejo do solo ocupa cerca de 26 milhões de hectares do território brasileiro e representa 52% das áreas cultivadas.

O SPDP promove inúmeros benefícios, entre eles destacam-se o controle da erosão, a redução dos custos para o produtor, o aumento da produção e da sua estabilidade em anos secos. Do ponto de vista ambiental o SPDP integra o desenvolvimento de novas tecnologias com a minimização do impacto ambiental devido à redução das emissões de gases do efeito estufa e da maior fixação do carbono no solo.

Na primeira Comunicação Nacional sobre emissão de gases do efeito estufa referente ao período de 1975-1995, as emissões de CO2 pelas atividades agrícolas foram responsáveis pelas taxas anuais líquidas de 46,4 Mt CO2 o que equivale a 12,65 Mt C. Os resultados de pesquisa comprovam que a adoção do plantio direto associado à rotação de culturas para manter o solo coberto com resíduos culturais podem compensar todas as emissões geradas pelo setor agrícola no Brasil.

Mesmo conhecendo o benefício que o SPDP promove ao meio ambiente, ainda não é reconhecido como atividade para requerer créditos de carbono no âmbito do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo estabelecido no Protocolo de Quioto. Dessa forma, é preciso ações políticas imediatas para fazer com que essa redução na emissão de gases, e o seqüestro de carbono pelo solo devido ao sistema plantio direto, sejam reconhecidos como atividades elegíveis para o período pós-Quioto, que será amplamente discutido em dezembro de 2009 durante a 15º Conferência das Partes a ser realizada na Cidade de Copenhagen, Dinamarca. 
 
Foz do Iguaçu, 11 de Setembro de 2009

Prof. Dr. Carlos Eduardo P. Cerri – Universidade de São Paulo, SP
Prof. Dr. João Carlos de Moraes Sá – Universidade Estadual de Ponta Grossa, PR
Prof. Dr. Telmo Jorge Carneiro Amado – Universidade Federal de Santa Maria, RS

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Para não se estender em demasia, os autores não mencionaram que (a) os créditos de carbono decorrentes da utilização dessa técnica de manejo dos solos já são transacionados na Bolsa de Chicago, no mercado voluntário, e (b) cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas já têm recomendado a inclusão do plantio direto no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, com a correspondente qualificação das áreas rurais sob plantio direto para o recebimento de créditos de carbono.

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Para quem se interessa por redução das emissões de carbono que não seja através do mero reflorestamento e no samba de uma nota só da redução do desmatamento na Amazônia, vale passar os olhos na nova publicação da Agência Internacional de Energia sobre transferência de tecnologia no campo da geração eólica – em inglês – no link a seguir:

http://www.iea.org/Papers/2009/Wind_Roadmap.pdf

Mudanças Climáticas – Diferenças de Percepção Sobre Responsabilidades e "Metas"

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A China anunciou metas de redução das emissões de dióxido de carbono superiores àquelas alardeadas pelo governo brasileiro.  O Brasil não tem uma avaliação concreta das possibilidades e do que deverá feito, e nem de como fazer ou dos custos envolvidos para atingir as suas metas.  Nada muito diferente dos muitos países que subscreveram ao Protocolo de Kyoto, tinha metas e não as cumpriram (com honrosas exceções, como a Alemanha).

A China, no entanto, adota critérios próprios para falar em redução das emissões de gases causadores de mudanças climáticas: deixa de lado as metas absolutas e refere-se a um percentual de redução por unidade de produto interno bruto – PIB.

De fato, não tem absolutamente nenhum sentido afirmar que o Brasil é o quinto maior responsável pelas emissões mundiais desses gases – o Brasil gosta de ser grande em tudo, até nisso -, se não se toma em consideração a emissão per capita ou por unidade de riqueza.  Um país pode ser considerado um grande emissor ou um pequeno emissor dependendo do critério adotado.

O critério aqui utilizado não levará em conta o desmatamento em qualquer lugar do mundo – Canadá, Rússia ou Brasil -, mas apenas as emissões decorrentes da geração da energia para a produção de bens e transporte.  Não desmatar tem o sentido oposto – deixar de produzir para não emitir (o que pressupõe a adoção de outros valores, inclusive morais, com os quais a maioria dos países não está nem um pouco preocupada).

Aos fatos (ainda que eles possam variar ligeiramente em função das fontes)!

Conforme publicação da Agência de Informações Sobre Energia dos EUA em junho de 2009 com base na Energy Review – 2008, os dez maiores emissores anuais de dióxido de carbono – em milhões de toneladas métricas, são:

China – 6.017
EUA    – 5.902
Rússia – 1.704
Índia – 1.293
Japão – 1.246
Alemanha -   857
Canadá – 614
Inglaterra – 585
Coréia do Sul – 514
Iran – 471

Somados, esses países são responsáveis pela emissão de 19.203 milhões ou 66% das emissões mundiais.

Já se considerada a emissão per capita, a coisa muda completamente de figura e o ranking passa a ser o seguinte (em toneladas métricas por habitante):

EUA – 19,05
Austrália – 18,78
Canadá – 16,47
Rússia – 11,14
Alemanha – 10
Coréia – 9,87
Japão – 9,41
Nova Zelândia – 8,99
Inglaterra – 8,84
Grécia – 8,44

China, Índia e Brasil vêm MUITO atrás, com menos de 5 toneladas métricas de dióxido de carbono per capita.   Entende-se, assim, por que a China está falando em redução das emissões por unidade do produto interno bruto, da mesma forma que poderíamos – e deveríamos falar em redução das emissões per capita .  O que não se entende é por que o Brasil está falando em reduções absolutas, que parecem demasiadamente simplórias.

Mesmo a redução das emissões per capita seriam, para o Brasil, difíceis, já que o país se consolidou como exportador de matérias-primas de baixo valor agregado cuja produção requer o uso intensivo de energia, o que se contrapõe ao tipo de PIB dos países altamente industrializados, com altos índices de valor tecnológico agregado (aço ou alumínio X micro-processadores, por exemplo).