Coréia do Sul proíbe novas termelétricas a carvão e Brasil resume-se à questiúncula da “reserva” de cobre

O ministro do Comércio, Indústria e Energia da Coréia do Sul (no Brasil, seriam três ou quatro ministérios) anunciou que (a) não serão mais concedidas licenças para termelétricas a carvão, (b) as usinar térmicas a carvão em fase de implantação deverão ser convertidas para o uso do gás natural, (c) a operação das térmicas a carvão com maiores emissão por serem mais antiga será simplesmente suspensa de maneira a reduzir as emissões a menos da metade, (d) a redução ou supressão da implantação de usinas nucleares está sendo considerada, e (e) a meta de 20% de geração de energias renováveis até 2030 será mantida, inclusive com a extensão dessas fontes à agricultura.

É uma radical mudança na matriz energética da Coréia do Sul, que em 2016 era constituída de 39% de carvão e 31% de nuclear (uma fonte já considerada ultrapassada na maior parte do mundo).

O anúncio das decisões pode ser lido aqui.

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Colapso de Água e de Energia X Soluções Inovadoras

As autoridades públicas brasileiras, em todos os níveis de governo, parecem atordoadas ou perdidas na mesmice diante da crise e riscos de colapso no abastecimento de eletricidade e de água no país (neste caso, com maior ênfase em algumas regiões envolvendo os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais).

Não deixa de ser divertido ver os ministros da área econômica falando em controle da inflação e em retomada do crescimento como se essas duas crises sequer existissem, ainda que elas tendam a colocar em risco o conjunto da economia e mesmo a colocar em grave risco a ordem pública.  Essas autoridades parecem pensar apenas dentro das caixinhas dos fluxos financeiros, do equilíbrio das contas públicas via aumento nos impostos, do controle do consumo de energia e de água via penalidades tarifárias, e por aí afora.

Mais do mesmo não vai levar o país a lugar nenhum! – exceto, talvez, ao caos e ao colapso.

E se as autoridades setoriais e todos os níveis de poder se unissem, por exemplo, para acelerar a implantação de um programa consistente de micro geração distribuída de eletricidade, com foco na energia fotovoltaica, como fizeram e continuam fazendo vários países cuja ênfase na na segurança energética, não se limitando ao arroz com feijão da geração hidrelétrica ou térmica (incluindo a nuclear, uma excelente opção que países como o Japão não podem mais aceitar e que causa apreensão nos EUA em decorrência da localização em regiões costeiras)?

Não há uma responsabilidade apenas federal na crise de energia.  Estados e municípios podem fazer muito pela geração distribuída, como também na definição de padrões de eficiência energética nas edificações… desde que as autoridades econômicas – em todos os níveis  (mas em particular o ministro Joaquim Levy) –  não achem que os aumentos de tributos devem incidir da maneira indiferenciada sobre, por exemplo, painéis solares e cremes de beleza.

O mesmo raciocínio vale para a crise de água.  E se as mesmas autoridades se unissem para desencadear uma grande ofensiva voltada para o reuso da água em sua plenitude, além da mesmice das multas, elevações de tarifas ou mesmo proibição de alguns usos, como ocorreu em cidades da Califórnia, do Texas, e na Austrália.

Há muita coisa boa a fazer na gestão dos recursos hídricos além de campanhas publicitárias medíocres e de declarações não menos tolas, como a presidente da Copasa ao fazer de conta que uma redução de 30% no consumo na região metropolitana de Belo Horizonte era um passo importante… adiando o colapso no abastecimento de 3 para 4 meses.

No atual quadro de escassez de água, não faz absolutamente nenhum sentido o lançamento de esgotos coletados – tratados ou não – nos oceanos, através de emissários submarinos ou mesmo em rios que simplesmente  desaguam no mar.  Na Alemanha, há décadas, capta-se água dos rios para fazer a recarga dos lençóis freáticos, prática que já vem sendo adotada na Califórnia com a água de estações de tratamento de esgotos (com níveis de tratamento muito superiores aos brasileiros).

É altamente recomendável que todos se unam em torno de propostas e na implementação de soluções em lugar de ficarem tentando obter respostas através das concessionárias de água e esgoto… que não as têm.  Ou apontar o dedinho para o céu e dizer que “tudo depende de São Pedro” ou que “Deus é brasileiro” – cretinamente.

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Se as autoridades – inclusive as econômicas -, a iniciativa privada (diretamente ou através de suas representações setoriais como  Fiesp, Firjan e Fiemg), as associações de engenheiros e outras quiserem fazer algo de inovador na área de gestão de recursos hídricos sem ter que começar do zero – talvez possam encontrar maneiras de aproveitar a experiência alheia enviando delegações à Conferência de Reuso Comercial e Industrial de Água que ocorrerá nas próximas semanas, no Texas.  E/ou ao XXX Simpósio Anual de Reuso de Água (isso mesmo, 30°, 30 anos consecutivos) que se realizará em Seattle, em setembro.

Vale, também, buscar a cooperação técnica com as associações de reuso de água dos EUA, ou da Alemanha ou da Austrália, ou todas.  Com esse tipo de cooperação, será possível obter importantes subsídios técnicos e normativos.

O que não dá é para continuar pensando apenas em grandes obras, que é o que as concessionárias de serviços de água e governantes sempre gostaram.

Porque são muito grandes as chances de que tenhamos que nos adaptar a uma nova realidade climática, como já estão fazendo esses países que não se recolhem à negação do óbvio – aquilo que todos os grandes centros de meteorologia do mundo estão dizendo há anos, e cada vez mais.

 

 

Flash floodings – Enchentes Rápidas – Fenômenos que se Acentuam

Flash floodings – ou inundações instantâneas, súbitas – é a expressão utilizada em inglês para fenômenos que no passado aconteciam de maneira mais espaçada do que agora.  Países sérios já estão tomando providências – ouvindo os especialistas, elaborando os projetos e fazendo os investimentos – para evitar os imensos prejuízos que decorrerem e decorrerão da maior frequência dessas inundações.  Esses investimentos se estendem a quebra-mares para conter o aumento da força das ondas nas áreas costeiras como decorrência das mudanças climáticas, elevação já constatada até mesmo por especialistas brasileiros, mas que aqui não se transformam em políticas públicas.

A Agência de Meio Ambiente da Inglaterra – que faz um trabalho sério nesse campo – acaba de publicar novos mapas sobre as áreas vulneráveis a essas inundações.  Esses mapas permitiram estimar que 3 milhões de propriedades estão sujeitas aos riscos de inundações instantâneas na Inglaterra, incluindo a tradicional residência do primeiro-ministro do país, conhecida por seu endereço – 10, Downing Street.  Se consideradas as propriedades sob risco de inundações causadas pelo transbordamento de rios, o número sobe para 5 milhões de propriedades.  Uma em cada 6 residências da Inglaterra.

Mas lá, como o governo não é um loteamento de cargos entre partidos, há sinergia entre os diversos órgãos e o trabalho foi feito com base nas informações do Serviço de Previsão do Tempo – um dos melhores do mundo -, conhecido como Met Office (Met de Meteorologia), e assim a Agência Ambiental não fez promessas de compra de radares de previsão de chuvas que não saberá instalar ou operar.

Os mapas de áreas sujeitas a inundações da Agência de Meio Ambiente da Inglaterra estão disponíveis online permitindo às pessoas verem se as suas residências estão em locais vulneráveis a flash floodings.  Mas não se limitam a isso!  As autoridades inglesas de proteção ambiental fazem a diferenciação entre riscos de enchentes em rios, reservatórios e nas zonas costeiras.  Podem ser encontradas, também, instruções gerais de como preparar as residências para tais enchentes, informações sobre a potencial ocorrências locais com base no código postal, e até a alternativa dos cidadãos para receberem informações por email sobre o risco em tempo real por correio eletrônico.

A professora Julia Slingo, Cientista-Chefe do Met Office (Serviço de Meteorologia), declarou: “A tendência para chuvas extremas é uma das que estamos observando em diversas partes do mundo (…).  É essencial que possamos ver como isso vai impactar a nossa pluviometria na próxima década e após, de maneira que possamos aconselhar sobre a frequência de eventos climáticos extremos no futuro e o potencial para mais enchentes (…).  Isso ajudará àqueles que tomam decisões sobre a necessidade de futura resiliência (capacidade de adaptação) tanto na Inglaterra quanto globalmente.  Mudanças nas temperaturas superficiais das águas oceânicas devidas a ciclos naturais e à redução das calotas de gelo no mar do Ártico podem estar influenciando o aumento das chuvas, ainda que sejam necessárias mais pesquisas para avaliar esses impactos.  O aquecimento global pode ser outro fator.  Uma atmosfera mais quente pode reter mais umidade, e nós constatamos um aumento de 0,7 graus centígrados nas temperaturas glogais desde a época pré-industrial.  Com a Física básica, é possível estimar um aumento de 4% na umidade do ar, o que signfica um maior potencial de chuvas fortes.”

Já o ministro do meio ambiente da Inglaterra, Dan Rogerson, declarou: “Nós entendemos os danos e o stress que as inundações podem causar.  Por essa razão, os investimentos na proteção de comunidades contra enchentes e da erosão costeira”.

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No Brasil, os Sumários Executivos dos relatórios do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas já estão disponíveis para download (com apresentação bonitinha e péssima para quem quer lê-los numa versão impressa), mas continuam falando nos riscos “até 2100” (linguagem diplomática utilizado pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, da ONU) e em “biomas”.  A  linguagem da moda, em lugar de fatos e de propostas concretas.   As generalidades parecem ser uma caracterítica atraente para a diplomacia e para as autoridades brasileiras.

“(…) as áreas costeiras baixas são vulneráveis ao aumento do nível do mar (…).  A carência de informações relacionadas aos efeitos das mudanças climática s sobre os ecossistemas costeiros (ufa!) no Brasil impedem quantificar os impactos futuros.  É necessário conhecer e mapear as vulnerabilidades em toda a extensão da costa brasileira.  Foram identificados alguns estudos locais que tratam basicamente dos efeitos de uma possível (?) elevação do nível médio do mar em tais sistemas (o grifo é nosso; nada de seres humanos, só “sistemas” e “ecossistemas”)”.  E, mais adiante, “outros impactos identificados nos estudos: (a) erosão e degradação costeias; (b) danos a obras de proteção costeira; (c) prejuízos estruturais a portos e terminais; (d) danos a obras de urbanização das ciddes litorâneas; (e) danos estruturais ou prejuízos operacionais a obras de saneamento; (f) exposição de dutos enterrados ou danos estruturais a dutos expostos; (g) intrusão salina em estuários; (h) intrusão salina em aquíferos; (i) evolução dos manguezais (?); (j) danos a recifes de coral .”  Tudo isso num só pacote de generalidades!

Enquanto os países sérios investem em obras de engenharia que adotam o estado da arte na proteção costeira, em novos conceitos de drenagem, em tecnologias para a proteção das residências, o Brasil se masturba com “áreas de preservação permanente” do mundo da fantasia ambientalóide, perdes-se na cacofonia das “áreas de risco” sem análises da viabilidade de obras de contenção com boa geotecnia, e não consegue sequer dar boa redação – e, ainda menos – aplicar leis municipais que obrigam empreendimentos com grandes áreas impermeabilizadas a fazerem sistemas de contenção com capacidade para reter uma parcela das chuvas.  Nada de verdade, tudo de papel.

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Uma curiosidade: nem com os modernos recursos de imagens de satélite o Brasil tem uma planta topográfica de suas áreas costeiras que permita definir com clareza quais as mais vulneráveis?  Segundo relatos pessoais, Carlos Nobre, oriundo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE e presidente do Conselho Diretor do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, não gostou muito quando em recente debate foi questionado sobre a necessidade de rever o programa nuclear brasileiro à luz da elevação do nível do mar já constatada em algumas regiões.  Esse programa prevê a construção de novas usinas no litoral.  Uma confirmação de que a turma prefere não tratar de assuntos práticos, de interesse da população, e não apenas de “biomas” e “ecossistemas”?

Uma questão final: o Centro de Hidrografia da Marinha foi consultado?  Ele é ótimo na medição das temperaturas dos mares, além dos serviços de meteorologia.  E a e elevação da temperatura das águas superficiais dos mares é excelente indicador das possibilidades de chuvas intensas.   Ou suas informações não são usadas pelo INPE simplesmente por se tratar de um órgão ligado às Forças Armadas?

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Images de flash-floodings na Inglaterra podem ser vistas no YouTube.

Energias Renováveis, Eficiência Energética e Alavancagem Tecnológica – As Boas Notícias da China

A China anunciou, ontem, as linhas gerais de seus planos para realizar uma revolução no campo das energias renováveis: US$ 30 bilhões para projetos de baixa emissão de carbono, 20% de energias renováveis até 2020, com um amplo crescimento da geração eólica e solar.

A nova meta de geração de energia solar é de no mínimo 9 GW, três vezes superior à meta anterior.  A capacidade instalada de produção de energia solar na China é hoje de 120 MW e a expansão proposta multiplica esse número por 75 em uma década.

Para a geração de energias renováveis e programas de eficiência energética – inclusive nos sistemas de transmissão – será direcionado um percentual significativo de um pacote de US$ 590 bilhões em estímulos que  já resultaram num crescimento de 6% da economia do país no primeiro trimestre do ano, com a expectativa de um crescimento de 8% em 2009.

No ano em curso, a China substituirá 100 milhões de lâmpadas por outras de alta eficiência energética.  No campo do aquecimento solar, a China já é líder mundial, com 130 milhões de metros quadrados de painéis instalados, número que continua crescendo rapidamente, enquanto a meta norte-americana para 2020 é de 200 milhões de metros quadrados.

Assim, a China ameaça desbancar a Europa no que se refere à sua pretendida liderança na área de energias renováveis e os níveis de emissão de gases causadores das mudanças climáticas poderão ser reduzidas de maneira significativa, já que, juntos, a China e os EUA são responsáveis por 50% das emissões globais.

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Desnecessário comparar esses números com o desempenho brasileiro no campo das tecnologias de maior valor agregado tanto na área da geração quanto no que se refere à eficiência energética.  O Brasil sequer detem tecnologia própria de geração de energia solar e insiste no samba de uma nota só das florestas amazônicas,  que rende mais dividendos políticos por atingir mais facilmente o imaginário coletivo.

Privatização Lixo Nuclear X Corrupção Bem Educada

Os assim chamados ambientalistas de ONGs estrangeiras costumam protestar contra as usinas nucleares nos países em desenvolvimento e silenciar diante dos arsenais nucleares com fins militares de seus países de origem.  Questões de conveniência.  A ética humanista vale para os outros.

Historicamente, as imensas quantidades de resíduos gerados na produção e na disposição final – sempre temporária – dos armamentos nucleares militares contaminaram solos e águas.   Os especialistas falam em “centenas de milhares de toneladas” desses resíduos só nos EUA.

E toda essa esbórnia sob gestão privada.  A privatização do monopólio do uso da força – ou, melhor dizendo, da violência -, já amplamente utilizada pelos EUA na ocupação do Iraque com a presença dos soldados da Blackwater e similares, é um contundente indicador do colapso do estado como mediador de conflitos e de interesses.

Aos fatos.  Em 1993, o governo da Inglaterra contratou um consórcio de empresas para geria o seu arsenal militar nuclear: Esse consórcio era formado pela Hunting Engineering, Brown and Root, e AEA Technology.  Em 1998, o consórcio perdeu o contrato para um outro, formado pela Lockheed Martin, BNFL e Serco.  Este último formou uma empresa chamada AWE Management.

A Lockheed também gerencia arsenais nucleares do governo dos EUA onde muitas vezes se defrontou com revelações de falsificação de informações sobre a segurança e o manuseio de combustíveis nucleares.

Agora, jornais britânicos revelaram que, na calada da noite, os ministros ingleses concordaram a venda da AWE para a Jacobs Engineering, empresa norte-americana baseada na Califórnia.  Isso foi feito no dia anterior ao início do recesso parlamentar da Inglaterra, bem ao estilo das repúblicas de bananas.

À corrupção pura e simples usual nesse tipo de negociações soma-se a corrupção moral que sempre foi uma marca registrada da Inglaterra.

Em recente artigo publicado no The Guardian, George Monbiot chama a atenção para o fato de que mais de 25% dos paraísos fiscais existentes no mundo são colônias inglesas.  Mais da metade dessas colônias são paraísos fiscais.  E se da lista de colônias forem retirados os territórios ingleses na Antártida, as bases militares, os rochedos no meio dos mares com população escassa, e as ilhas Falkland (que são mantidas pelo potencial de petróleo na região), todas as outras 10 colônias são paraísos fiscais, concebidos e mantidos para que os bancos, as corporações e os muito ricos em geral possam fazer evasão de impostos de maneira legal.

É essa a Inglaterra que, como os EUA, se pretende guardiã da moral e da democracia do Ocidente cristão.  God bless the Queen!  E que se dane o resto do mundo.

Ah – são eles que têm um príncipe que se diz muito preocupado com a proteção das “nações” indígenas, das florestas Amazônicas, e de suas reservas estratégicas de minérios.

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Registre-se os parabéns do autor deste blog ao jornalista Muntazer al Zaidi que atirou o sapato em Bush.