As vantagens do fim do ciclo das grandes empreiteiras brasileiras

As mentes mais obscurantistas tentam alegar que o fim do ciclo das grandes empreiteiras brasileiras representa uma perda econômica ou de poder das empresas nacionais.  Qual nada!  Representa, sim, uma significativa oportunidade de avanço e de redução da corrupção institucionalizada.

Basta uma única observação para para comprovar essa fato: as grandes empreiteiras só foram contratadas pelo poder público, nunca para grandes obras da iniciativa privada.

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A energia solar pode abastecer o mundo e o Brasil precisa acelerar o passo

Mehran Moalem, professor de Berkeley, PhD, especialista em materiais nucleares e no ciclo dos combustíveis nucleares, afirmou recentemente que “a despeito de de sua especial dedicação por essas áreas, é difícil defendê-las; e aqui está a matemática simplificada por trás dessa percepção”:

“O uso total de energia em 2015 – originada do carvão, petróleo, hidroelétricas, nuclear e renováveis – foi de 13 bilhões de toneladas equivalentes de petróleo, ou 17,3 TW de fluxo contínuo de energia durante o ano (1 TW = 1 milhão de MW).

“Se cobrirmos uma área do planeta com 335 X 335 Km com painéis solares, até mesmo de eficiência moderada, facilmente alcançáveis atualmente, é possível alcançar a produção de 17,4 TW.  Isso significa que 1,2% da área total do deserto do Saara é suficiente para atender à demanda global de energia por mais de 12 horas por dia (algo como 1 milhão de km²).”

Essa é uma área pouco inferior à área total do polígono das secas (segundo relatório do ministério da Integração Nacional, página 36).

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Pensando o futuro – A quarta revolução industrial – Alertas da Bloomberg

São várias as fontes de análise da economia e das finanças que a cada dia enfatizam cenários futuros de grandes mudanças – algumas das quais algo assustadoras por seu potencial de maior desequilíbrio social.  Tais fontes falam abertamente numa “quarta revolução industrial“que transformará rapidamente os cenários da produção e do trabalho, com a supressão de 30 a 40% dos empregos hoje convencionais até 2040.

Isso tudo já vem sendo dito há alguns anos num círculo mais restrito de cientistas, além das elites corporativas e mesmo políticas dos países sérios. (Optamos por denominar “países sérios” – em lugar de “desenvolvidos” – aquele grupo de nações capazes de ‘ver” e planejar para um futuro de 20-30 anos ou mais, em lugar do usual “exercício fiscal” ou “mandato” dos países que vivem apenas em seu dia a dia.)

Na forma mais acessível a um grande público até certo ponto leigo do que vem acontecendo no campo da ciência e da tecnologia, uma dessas fontes de alerta para as grandes mudanças que se avizinham tem sido a Bloomberg, que tem publicado diversos artigos sobre o assunto numa tentativa de alertar os seus clientes corporativos para o assunto.  No último dos artigos da série cujo título é – em tradução livre –  Pensando o Futuro -, lê-se:

“O mundo encontra-se no limiar de uma quarta revolução industrial.  Rápidos avanços num conjunto de tecnologias, incluindo a inteligência artificial, impressão em 3-D, robótica, big data (funções analíticas de massivas quantidades de dados), genética, imagens para diagnósticos médicos, e visão computadorizada vão alterar praticamente todas as profissões e atividades industriais de maneiras potencialmente radicais.”

Evidentemente, o Brasil não chegou a preparar-se para uma inclusão nesse tabuleiro da “IV Revolução Industrial”.  Não se trata de ter alguns cientistas aqui e ali – no meio acadêmico – que “compreendam” essas tecnologias, mas sim de ter toda a cadeia produtiva que vai do conhecimento científico até a introdução dos produtos no mercado e a consolidação desses mercados, preferencialmente por mais de uma empresa.

Então, aplica-se o ditado inexistente mas com plena validade: “em terra de cego quem tem um olho emigra”, como fez recentemente a neurocientista Suzana Herculano-Houzel.

Fora isso, caberia às elites políticas e econômicas – se existissem ou tivessem visão para isso – estarem atentas para o fato de que essas análises indicam uma radical transformação nas profissões, nas relações de trabalho e próprio mercado de trabalho.   Nessas áreas, as relações de trabalho convencionais, estáveis, seriam substituídas por serviços sob demanda, sem “carteiras assinadas”, sem estabilidades, com cada especialista cuidando de suas próprias atividades e… de suas próprias vidas (em muitos casos podendo trabalhar de onde quiser, no horário de sua maior conveniência).

Essa não é uma conspiração do capital contra o trabalho!  É simplesmente o alvorecer de uma nova realidade, de um novo mundo, mais uma vez moldado pelos avanços no conhecimento que se expressa sob a forma de ciência e tecnologia aplicadas às atividades humanas porque as tornam mais precisas, eficazes, produtivas, ou seja, com melhores resultados.

Reclamar não adianta.  Fazer análises com os obsoletos conceitos das caixinhas “esquerda X direita”, “capital X trabalho”, tampouco.  Agir seria imprescindível.  Mas quem levanta a bandeira de um conjunto de setores estratégicos nos quais o Brasil deveria avançar na direção do domínio de pelo menos algumas dessas áreas?

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Infelizmente, a Bloomberg não se preocupou em apresentar os artigos e os correspondentes “programas de televisão” que produziu sob a denominação geral de “Forward Thinking” em outro idioma que não o inglês… e nossas “lideranças políticas” são quase totalmente monoglotas (para não falar na direção da quase totalidade das empresas públicas).

Mas, para os interessados, aqui vão os títulos da série, até agora, podendo os mesmos serem acessados aqui:

(a) A Marcha das Máquinas – Uma Máquina Em Breve Estará Fazendo o Seu Trabalho e a Ascensão do Robô Significará o Declínio da Humanidade?

(b) Como as Megacidades Estão Mudando o Mundo

(c) Um Desafio de US$ 28 trilhões para Espatifar o Teto de Vidro – Como Consertar um Problema que Afeta Metade da Humanidade?

(d) Desativando a Bomba Relógio Demográfica – Como Pode uma Nação Lidar com Pressões Demográficas Voláteis?

(e) Para os Mais Ricos, Para os Mais Pobres – Qual o Custo e os Riscos da Desigualdade?

(f) Quais Serão os Contornos de um Mundo Sustentável? – Que Tecnologias Tornam Obsoletos os Nossos Hábitos Energéticos e de Transporte?

Seria MUITO bom se a Bloombert legendasse as imagens e disponibilizasse esses artigos em diversos idiomas, incluindo o “brasileiro” – pelo menos como uma contribuição – ainda que improvável – ao despertar de uma elite pensante no país.

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Por uma falha de configuração do WordPress, o campo para comentários ao último artigo só se abre clicando no título dele.

 

Sobre sonhos, ciência & tecnologia, desenvolvimento econômico

O conhecimento aplicado ou mesmo a mera compreensão dos fatos sempre estiveram entre os principais fatores de unidade social e avanço econômico.  Isso valeu até mesmo para a invenção da roda, o domínio sobre o fogo, a utilização da pólvora para fins bélicos e por aí afora.

Ao final da II Guerra Mundial, as tropas vitoriosas, tanto norte-americanas quanto soviéticas, procuravam por Wernher von Braun e sua equipe.  O inventor das “bombas voadoras” – que trabalhara para Hitler – terminou transferido para os EUA.  Em 1950, já liderava as equipes que desenvolviam foguetes militares e, em 1960, tornou-se o diretor do principal centro espacial da NASA, criada dois anos antes.  Há muito von Braun tinha o sonho de sair da órbita da Terra.

Desde então, a NASA é uma referência mundial em tecnologia espacial.  Mas, além da colocação de satélites de comunicação, de espionagem e de monitoramento de fenômenos de interesse humano – como tempestades e furacões – ou puramente científicos, de que serve a NASA?

Serve para manter vivo o sonho unificador de ser a primeira nação a viajar até a Lua e, mais recentemente, planetas distantes.  O que usualmente não se diz é que a NASA é talvez o mais importante instrumento norte-americano de organização da ciência e da tecnologia do país, com impactos fortíssimos sobre a economia dos EUA, conferindo-lhe razoáveis vantagens competitivas.

Apenas como exemplo, periodicamente a NASA anuncia que está disponibilizando patentes com potencial interesse comercial.  No último anúncio, foram nadas menos do que 56 patentes disponibilizadas para usos comerciais.  Na verdade, a NASA joga limpo e há muito tempo disponibiliza patentes que não são mais de seu interesse através de uma página na internet que tem como apelo a expressão “trazendo a tecnologia da NASA de volta à Terra”.

O chefe do Programa de Tecnologia da NASA, Daniel Lockney, afirma sem hesitações:

“Disponibilizando essas tecnologias para o domínio público, estamos ajudando a impulsionar uma nova era de empreendedorismo que vai novamente colocar a América na liderança da manufatura de produtos de alta tecnologia e de competitividade econômica.”

Isso talvez valha para abrir a mente de Henrique Meirelles, que acha que a economia é só uma questão de volume de trocas e de equilíbrio entre a coluna da direita e a coluna da esquerda.  Parafraseando a equipe da primeira campanha presidencial de Clinton que adotou o lema “é a economia, seu idiota”, há que lembrar ás autoridades econômicas brasileiras: é o conhecimento científico e tecnológico, seus otários.

O Brasil não vai sair de seu atual atoleiro político só produzindo commodities de baixo valor agregado.  E mais: de nada adianta termos reservas de Lítio e Nióbio se exportamos esses minerais raros em estado bruto, como ainda fazemos com o Silício, exportado em “grau siderúrgico” (pouco beneficiamento) e importado já incorporado a produtos finais por um preço cerca de 50 vezes mais elevado (sem falar na geração de empregos nos países que detém a tecnologia para o beneficiamento e para a sua incorporação – por exemplo – em células fotovoltaicas.

Basta lembrar que há cerca de 30 anos os produtos chineses e coreanos eram considerados de qualidade muito inferior e hoje já estão no topo da cadeia tecnológica… e tentar repetir em algumas dimensões a experiência desses países.

Além de acordos políticos, o Brasil precisa voltar a ter algum sonho de unificação nacional, algo voltado para o futuro e não limitado à cordialidade, ao “jeitinho brasileiro” e às riquezas que permitiam alguma unidade enquanto “deitado eternamente em berço esplêndido”.

 

O Brasil perdeu a oportunidade de tornar-se uma “sociedade de conhecimento”

“Foi o conhecimento que nos tirou das cavernas, e só o conhecimento nos tirará da atual confusão em que nos encontramos” – se não foram exatamente essas, foram próximas as palavras do presidente da Agência Espacial Européia ao final do bem sucedido pouso num asteroide, em 2014.

Evidentemente, nem todo conhecimento ocorre no quadro da ciência e da tecnologia no senso estrito dessas palavras.  Instituições de Direito, a evolução e a disseminação das noções de Ética, da Estética, o senso de comunidade.

A geração de riqueza material, no entanto, depende bastante umbilicalmente do conhecimento científico e tecnológico, e da capacidade de um grupo, etnia ou, mais modernamente, de uma nação, de organizar, de sistematizar e de utilizar esse tipo de conhecimento.

Construções como a Grande Muralha da China, Machu Pichu, toda a civilização hidráulica cujo centro se encontra em Angkor e por aí afora são exemplos de desenvolvimento científico e tecnológico, bem como de sua organização, disseminação e utilização.

Contemporaneamente, outras nações – e até com tradições muito mais conservadoras – compreenderam a importância da geração de conhecimento e de sua transformação em produtos de interesse do mercado para assegurar a geração de valor econômico e financeiro.  Entre elas, por exemplo, a Coréia do Sul, que há algumas décadas não tinha a mais vaga chance de ser vista como “o país do futuro”, como se dizia do Brasil.

Um dos exemplos mais surpreendentes encontra-se no pequeno país árabe o Qatar – que durante tanto tempo viveu apenas da receita do petróleo e há algum tempo resolveu investir em educação, pesquisa, ciência e tecnologia.  E assim foi criada a Cidade da Educação, em parcerias com dezenas de universidades estrangeiras, algumas dentre mais avançadas do mundo. de forma a criar exatamente uma “sociedade de conhecimento”.

As universidades norte-americanas convidadas para participar da iniciativa não apenas receberam grandes doações como, também, comprometeram-se a disponibilizar de professores – com melhores remunerações – até as estruturas organizacionais e administrativas necessárias para uma educação à altura daquela que essas instituições oferecem nos EUA.

Como se não bastasse, já há algum tempo que os os Emirados Árabes fecharam um acordo com o MIT para implantar o Instituto Masdar de Ciência e Tecnologia, focado em energias renováveis/novas energias e em eficiência energética.

Assim se constrói um futuro e se adiciona valor – numa época em que o petróleo perde valor.  Com uma boa noção de futuro, de estratégias, das parcerias necessárias, e investimento pesado em educação de excelente qualidade, com tudo o que ela requer no que se refere à gestão dos conhecimentos.