Geração de Resíduos e a Febre de Presentes-Embalagens

Em sua mensagem natalina, o papa Bento XVI deu um recado meia-boca para os católicos e criticou “o uso abusivo dos recursos naturais, sua exploração egoísta e sem precaução alguma”.  Parou por aí.  Nenhuma referência a responsabilidades por esse uso abusivo.

No mesmo dia 24, representantes governamentais da Inglaterra divulgaram estimativas de geração de 3 milhões de toneladas adicionais de lixo no país em decorrência do fato de 3/4 dos brinquedos infantis serem nada mais do que embalagens de plástico e papelão.  No pior caso avaliado, o peso da embalagem foi cinco vezes maior do que o do brinquedo.    A iniciativa foi dos conselhos de várias cidades (correspondentes às nossas câmaras municipais) que pediram providências às autoridades encarregadas de estabelecer padrões para o comércio de produtos.  Um representante da agência de padrões comerciais do Condado de Lancashire declarou-se chocado com o resultado da avaliação.  Representantes dessas agências regulatórias estão notificando os fabricantes de brinquedos de que os excessos de embalagem sobrecarregam os aterros sanitários e contribuem para as mudanças climáticas.  A avaliação de um Peter Pan da Disney mostrou a presença de 270 gramos de embalagem para 109 gramos de brinquedo.  Onde é mesmo que está a tal da responsabilidade social e ambiental da Disney?

As autoridades inglesas estimam que as festas natalinas geram, também, como resíduos, 750 milhões de garrafas e 500 milhões de latas adicionais.

A seis horas de vôo de Londres pode-se pousar em Serra Leoa, o país que ocupa a pior posição mundial entre 177 países no que se refere ao Índice de Desenvolvimento Humano – IDH .  Aí, a taxa de mortalidade materna é de 1 para 6 nascimentos, contra 1 para 3.800 na Inglaterra.  A lista de misérias seria demasiadamente longa, da mesma forma que a lista de soluções simples, como vacinação.  No Brasil, 60% das crianças que escreveram para Papai Noel e colocaram as cartas nos Correios de Pernambuco ainda pediram comida.

O recado de Bento XVI poderia ter sido mais claro.  Não deve ser genérica a crítica a exploração sem precauções e egoísta de recursos ambientais.  Mas há que se reconhecer que é bem difícil mandar uma mensagem natalina diante desse contraste, da mesma forma que se torna questionável até mesmo o uso da palavra humanidade.  Parabéns às autoridades dos condados inglêses que não hesitaram em fazer e em divulgar a pesquisa sobre os abusos da indústria de embalagens sob a alegação de que desejavam perturbar o espírito natalino!

Uma política pública para embalagens já é mais do que devida.  As embalagens para “enfeitar o pavão” têm um custo para os consumidores, um custo social – representado pelos gastos com a coleta, o transporte e a disposição final de lixo – e um custo ambiental.  Onde a tal responsabilidade social e ambiental das empresas que vendem esses produtos?

A simples obrigatoriedade de que o peso da embalagem conste da mesma ao lado do peso do produto pode ser um primeiro passo.  Ao mesmo tempo, uma avaliação dos custos da embalagem e do produto embalado seria no mínimo divertida, já que a febre de consumo no Natal é frequentemente vista como um sinal positivo de abundância e riqueza.  Esse seria um belo presente de Natal das autoridades ambientais para o modelo de produção que deveria ser orientado pelo tão badalado desenvolvimento sustentável.